terça-feira, 29 de setembro de 2026

"Dever da lucidez: alcançar um desespero correto, uma ferocidade apolínea". (Cioran).

 

                              




                         Uma dose da sabedoria trágica de Cioran

 

E assim terminava uma noite fria de setembro, depois de algumas horas debruçado sobre os livros. Em Silogismos da Amargura, se me deparou o seguinte trecho de Cioran, que expressa uma experiência que me é muito familiar e corriqueira.

 

“Bem no meio de importantes estudos, descobri que ia morrer um dia..., minha modéstia desapareceu imediatamente. Convencido de que não me restava mais nada a aprender, abandonei meus estudos para informar o mundo de tão extraordinária descoberta”. (Cioran, 2011, p. 61).

 

Tal como Cioran, antes de encontrar esse excerto, eu estava entretido, por longas horas, na leitura e na reescrita do que vinha lendo. Também eu estava imbuído da importância dessa tarefa. Enquanto dela me ocupava, mantinha-me desatento a essa verdade estarrecedora. Ao pousar meus olhos sobre esse trecho, uma única coisa restou-me fazer, antes de ir dormir: anotá-lo. E assim fui para a cama com a viva recordação de que todo empreendimento a que damos grande valor é esvaziado de todo sentido e importância em face de nosso destino tumular.

Cioran sabia que a maioria da humanidade é covarde; a maioria precisa das superstições, da religião, das fabulações metafísicas para suportar a vida.

 

“É preciso ter coragem de reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir um sentido ao que visivelmente não comporta um”. (ibid.).

 

Paradoxalmente, segundo Cioran, pode-se ter gosto por esse naufrágio no nada de tudo o que vive. Cioran considera que o homem está condenado desde o princípio, que está destinado a desaparecer; mas ele resistirá à extinção por vício:

“O homem tem todas as chances de desaparecer e desaparecerá mais cedo do que pensa, mas, por outro lado, tem razão em prolongar essa tragicomédia, nem que seja por distração ou por vício”.

 

Em minha tese de doutorado sobre o niilismo no pensamento de Schopenhauer, Nietzsche e Cioran, patenteei a significação complexa da experiência da Lucidez na obra de Cioran. Cioran fala da Lucidez ora como “a visão do pior”, ora como “a visão do Mal”, ora como um não saber mais elevado, “uma mística sem absoluto”. Cioran definiu a Lucidez de várias maneiras; uma delas, no entanto, é consistente com o trecho que citarei abaixo. Em minha tese, observei que “Cioran compreende a Lucidez como a doença do homem desperto do sono profundo de suas ilusões sobre a vida”. Viver desperto do encantamento provocado pelas ilusões sobre a vida é um estado a que o homem comum, terminantemente, não pode aceder. Cioran, no entanto, acredita que a Lucidez é preferível ao viver do homem comum que chafurda em ilusões. Novamente encontramos aqui a necessidade de viver com a inquebrantável coragem de assumir uma verdade cruel:

 

“Deve-se ter lucidez como individuo, sabendo que o excesso de lucidez torna a vida insuportável. A vida é tolerável apenas se não for levada às últimas consequências”.  (Cioran, 2014, p. 330, grifos meus).

 

Em prefácio à obra Cioran: a filosofia em chamas (2004), de Rossano Pecoraro, Volpi observa que “há pensadores que incendeiam palavras” (ibid, p. 9), e Cioran era um incendiário soberano. Ainda nas palavras de Volpi,

 

“A sua inteligência é um fogo que queima tudo aquilo que encontra e que por fim se alimenta da sua própria chama”. (ibid.).

 

Volpi adverte que o leitor estará perdido, ficará existencialmente desamparado, se ler seriamente Cioran, se acreditar nele, porque “sua é uma obra que infecciona, envenena, mata”. (ibid.).

 

“(...) Página após página, ministra ao leitor um concentrado de pessimismo que intoxica mortalmente cada coisa: conceitos, ideias, esperanças, ímpetos metafísicos da filosofia. Sufoca no começo toda tentativa de ancorar a existência em um sentido que a tranquilize ante o abismo da absurdidade que a ameaça”. (ibid.).


Todos os expedientes imaginário-simbólicos (filosóficos, artísticos, míticos, religiosos, etc.) utilizados pelos humanos com vistas a suavizar sua condição de um ser animal que se sabe condenado à morte inexorável é obscurecida pela sombra do Nada.

Se, contudo, a Lucidez torna a vida insuportável, por que obstinar-se em destruir as ilusões de que necessitam os seres humanos para viver?

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