Uma dose da sabedoria trágica de
Cioran
E
assim terminava uma noite fria de setembro, depois de algumas horas debruçado
sobre os livros. Em Silogismos da Amargura, se me deparou o seguinte
trecho de Cioran, que expressa uma experiência que me é muito familiar e
corriqueira.
“Bem
no meio de importantes estudos, descobri que ia morrer um dia..., minha
modéstia desapareceu imediatamente. Convencido de que não me restava mais nada
a aprender, abandonei meus estudos para informar o mundo de tão
extraordinária descoberta”. (Cioran, 2011, p. 61).
Tal
como Cioran, antes de encontrar esse excerto, eu estava entretido, por longas
horas, na leitura e na reescrita do que vinha lendo. Também eu estava imbuído
da importância dessa tarefa. Enquanto dela me ocupava, mantinha-me desatento a
essa verdade estarrecedora. Ao pousar meus olhos sobre esse trecho, uma única
coisa restou-me fazer, antes de ir dormir: anotá-lo. E assim fui para a cama
com a viva recordação de que todo empreendimento a que damos grande valor é
esvaziado de todo sentido e importância em face de nosso destino tumular.
Cioran
sabia que a maioria da humanidade é covarde; a maioria precisa das
superstições, da religião, das fabulações metafísicas para suportar a vida.
“É
preciso ter coragem de reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação
séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir um sentido ao que
visivelmente não comporta um”. (ibid.).
Paradoxalmente,
segundo Cioran, pode-se ter gosto por esse naufrágio no nada de tudo o que
vive. Cioran considera que o homem está condenado desde o princípio, que está
destinado a desaparecer; mas ele resistirá à extinção por vício:
“O
homem tem todas as chances de desaparecer e desaparecerá mais cedo do que
pensa, mas, por outro lado, tem razão em prolongar essa tragicomédia, nem que
seja por distração ou por vício”.
Em
minha tese de doutorado sobre o niilismo no pensamento de Schopenhauer,
Nietzsche e Cioran, patenteei a significação complexa da experiência da Lucidez
na obra de Cioran. Cioran fala da Lucidez ora como “a visão do pior”, ora como
“a visão do Mal”, ora como um não saber mais elevado, “uma mística sem
absoluto”. Cioran definiu a Lucidez de várias maneiras; uma delas, no entanto,
é consistente com o trecho que citarei abaixo. Em minha tese, observei que
“Cioran compreende a Lucidez como a doença do homem desperto do sono
profundo de suas ilusões sobre a vida”. Viver desperto do encantamento
provocado pelas ilusões sobre a vida é um estado a que o homem comum,
terminantemente, não pode aceder. Cioran, no entanto, acredita que a Lucidez é
preferível ao viver do homem comum que chafurda em ilusões. Novamente
encontramos aqui a necessidade de viver com a inquebrantável coragem de assumir
uma verdade cruel:
“Deve-se
ter lucidez como individuo, sabendo que o excesso de lucidez torna a
vida insuportável. A vida é tolerável apenas se não for levada às
últimas consequências”. (Cioran,
2014, p. 330, grifos meus).
Em
prefácio à obra Cioran: a filosofia em chamas (2004), de Rossano
Pecoraro, Volpi observa que “há pensadores que incendeiam palavras” (ibid, p.
9), e Cioran era um incendiário soberano. Ainda nas palavras de Volpi,
“A
sua inteligência é um fogo que queima tudo aquilo que encontra e que por fim se
alimenta da sua própria chama”. (ibid.).
Volpi
adverte que o leitor estará perdido, ficará existencialmente desamparado, se
ler seriamente Cioran, se acreditar nele, porque “sua é uma obra que
infecciona, envenena, mata”. (ibid.).
“(...)
Página após página, ministra ao leitor um concentrado de pessimismo que intoxica
mortalmente cada coisa: conceitos, ideias, esperanças, ímpetos metafísicos
da filosofia. Sufoca no começo toda tentativa de ancorar a existência em um
sentido que a tranquilize ante o abismo da absurdidade que a ameaça”.
(ibid.).
Todos
os expedientes imaginário-simbólicos (filosóficos, artísticos, míticos, religiosos, etc.) utilizados pelos humanos com vistas a
suavizar sua condição de um ser animal que se sabe condenado à morte inexorável é
obscurecida pela sombra do Nada.
Se,
contudo, a Lucidez torna a vida insuportável, por que obstinar-se em destruir
as ilusões de que necessitam os seres humanos para viver?
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