
A A
diversidade de ateísmos
Apontamentos sobre a derrota ateísta no
mundo romano antigo
Em História do Ateísmo (2014), Georges Minois leva a cabo a seção de Introdução com o seguinte passo:
“Este livro fala da história dos descrentes,
designando com esse vocábulo todos os que não reconhecem a existência de um
deus pessoal que intervenha em sua vida: ateus, panteístas, céticos,
agnósticos, mas também deístas, sendo infinitas as nuances entre tais
categorias. Todos eles, juntos, constituem sem dúvida a maioria da humanidade. Esta é, na verdade, a história dos homens
que creem apenas na existência dos homens” (p. 7, grifo meu).
A história do ateísmo,
que é tão antiga quanto a história da religião, é a história dos homens e
mulheres que creem apenas na existência do ser humano. Segundo Minois, no mundo
grego antigo, o ateísmo se manifestou de modo bastante diversificado. No
entanto, como eram complexas e múltiplas as nuances entre as correntes
filosóficas e religiosas, vagos eram também os limites entre a crença e a
descrença. O vocábulo atheos
era empregado para identificar os adversários dos deuses tradicionais; mas
também servia de modo apropriado para designar o fiel de outra religião ou para
qualificar de supersticiosa alguma pessoa.
“Por que a descrença –
pergunta Minois – não se impôs quando todas as condições culturais eram
excepcionalmente favoráveis?” (p. 65), questão cuja pertinência se explica pelo
reconhecido fato de que o cristianismo apareceu no mundo greco-romano aclimatado
a um generalizado ceticismo. Essa questão se faz acompanhar de outra: “Por que,
da variedade de crenças propostas, os homens seguem na direção da solução
aparentemente absurda, a de um deus todo-poderoso que se fez homem para morrer
numa cruz e ressuscitar?” (ibid.id.).
É sobre essas duas
questões que estenderei as considerações que passo, doravante, a articular, com
vistas a esclarecer as condições sócio-históricas que impossibilitaram a
vitória do ateísmo no mundo romano antigo.
Começo por chamar a
atenção para o modo como se deu a acolhida de São Paulo, quando chegou a Atenas,
por volta do ano 50 do século I d.C, para pregar a sua doutrina. Tomemos, para
tanto, um trecho do livro dos Atos dos Apóstolos.
Havia até filósofos epicuristas e estóicos que
conversavam com ele. Alguns diziam: “O que quer dizer essa tagarelice?”. Com
efeito, Paulo anunciava Jesus e a ressurreição. Eles o pegaram consigo e o
conduziram até o Areópago. “Podemos saber”, perguntaram eles, “que nova
doutrina é essa que expões? Tu nos enche os ouvidos com palavras estranhas, e
gostaríamos muito de saber o querem dizer”. É preciso que se diga que todos os
habitantes de Atenas e todos os estrangeiros residindo na cidade passavam a
maior parte do tempo contando e escutando as últimas novidades. De pé, no meio
do Areópago, Paulo tomou a palavra.
( At. 17, 18-21).
A curiosidade e a atenção
das pessoas que ouviam falar Paulo duraram até o momento em que ele enunciou o
que aos atenienses era algo racionalmente inaceitável: a ressurreição dos mortos. Com estas próximas linhas, Paulo deu a
saber o essencial de sua doutrina. Os atenienses se demoraram em ouvi-lo; mas
se dispersaram no momento em que ele trouxe à tona a ideia, inaceitável para o
pensamento da época, de que os mortos seriam ressuscitados.
E eis que Deus, sem levar em conta esses tempos de
ignorância, anuncia agora aos homens que todos, em todos os lugares, devem se
converter. Com efeito, ele fixou um dia em que deve julgar o mundo com justiça,
pelo homem que ele designou, como deu garantia a todos, ressuscitando-o dentre
os mortos.
Quando ouviram as palavras “ressurreição dos mortos”,
uns começaram a zombar, outros declararam: “Nós te ouviremos sobre isso em
outra ocasião”. Foi assim que Paulo os deixou.
(At. 17, 30-33)
Os filósofos não tinham
dificuldade para aceitar a ideia de um deus. O que lhes era intolerável era a
ideia de que um deus desceu ao nível dos homens. Para eles, isso era indigno do
absoluto divino. Ademais, contradizendo as leis da natureza, tal crença
torna-se inverossímil. Por isso, durante muito tempo, os cristãos foram
considerados ateus no mundo pagão, mormente nos círculos intelectuais da
sociedade.
Convém, agora, retomar a
questão inicialmente proposta por Minois, a saber, por que o ateísmo não
suplantou a confusão de crenças que permeou o mundo romano durante o século I
da nossa era. Podemos dar conta dessa questão com uma resposta que articula
alguns fatos fundamentais. Em primeiro lugar, havia uma confusão entre os
termos ‘ateu’ e ‘crente’. Esses termos passaram a ser empregados segundo os
interesses das partes em conflito. Lembremos que o cristianismo foi visto,
àquela altura, como uma variante de ateísmo, quer em sua forma moral (ateísmo
moral), em virtude da conduta estranha de seus fiéis, quer em sua forma teórica,
dada a alegação de que Deus se rebaixou ao nível dos homens (ou seja, Deus se
fez carne em Cristo). Isso era racionalmente inaceitável para os filósofos.
Acresce-se que a
existência de muitas formas de ateísmo na Antiguidade tornava impossível a
formação de uma comunidade que atuasse em acordo como ateus. Essa variedade de
formas de ateísmo foi alvo de ataques tanto dos contestadores da religião
quanto dos defensores do materialismo e de um ateísmo que se pretendia
legítimo.
Não devemos perder de
vista também o fato de que foi raro, naquela época, um ateísmo teórico puro.
Cada forma de ateísmo existente se prendia a certa forma de crença religiosa ou
irracional. Eram poucos os ateísmos que se consideravam como tais. Alguns ateus
não hesitavam em culpar de impiedade e de ateísmo outros que divergissem em
opinião a respeito dos deuses. Nenhum dos grupos ateístas reivindicava para si
o título de ateus; cada um se pensava como a forma mais autêntica de piedade.
Por isso, encontramos um Sexto Empírico defendendo, sem contradição, um
ceticismo contra a crença na providência, que constituía, para ele, uma
verdadeira impiedade, em função da existência do mal, ao mesmo tempo em que
assumiria a existência dos deuses em substância, livres de definições e de
dogmas. À luz de nosso quadro de referências, Sexto Empírico não foi,
rigorosamente, ateu. E ele mesmo não se pensava como tal, em que pese sua
crítica à crença na providência divina. Os que afirmavam a existência de um
deus providente eram considerados, na ótica de Sexto Empírico, ímpios ou ateus.
No tangente aos deuses,
Sexto Empírico sustentava que não é possível saber o que a palavra “deus”
significa, tampouco nos é possível, segundo ele, demonstrar a existência dos
deuses.
Do que foi exposto até
aqui, segue-se que o ateísmo antigo carecia de unidade de conteúdo. Diferente é
a situação do ateísmo moderno, que se serve de uma base científica que a
cultura daquela época não podia oferecer. O ateísmo antigo foi sensível às
concepções cosmológicas e filosóficas da Antiguidade. Por conseguinte, não era
possível a essa forma de ateísmo endossar uma visão razoável de um universo sem
deus. Esse ateísmo só conseguiu alterar a compreensão que se tinha dos deuses,
atribuindo a eles um papel totalmente passivo ou transformando-os em alma do
mundo, impessoal e imaterial.
Antes de pôr termo a este
texto, faz-se mister contemplar as diversas formas de ateísmos que existiram no
mundo greco-romano. Inicialmente, pode-se discriminar entre o ateísmo
supersticioso e político, à luz do qual os deuses eram vistos como forças do
mundo e da história, e um ateísmo associado a alguns filósofos que rejeitaram a
religião como indigna em proveito das forças da natureza ou das necessidades
políticas. Mas esses filósofos não eram, necessariamente, ateus, mas podiam ser
deístas, como o foram Platão e Aristóteles.
É possível também
distinguir entre seis formas de ateísmo antigo. A primeira forma recobre a
descrença prática das pessoas incultas; a segunda, a autoglorificação do
Estado, o qual exigia sacrifícios ao imperador. O homem tomava, assim, o lugar
que antes era reservado a Deus. A terceira forma compreende a substituição da fé
em Deus pela fé no Destino, que ora se caracterizava por traços heróico-fatalistas,
ora por traços astrológico-mágicos. A quarta forma recobre a supremacia da razão
sobre a fé em Deus, mas sustentada por uma reinterpretação dos velhos mitos e por
uma renúncia à negação radical de Deus. A quinta forma envolve a dúvida e o
desespero em face da necessidade de lucidez num mundo cujas condições de existência
são reconhecidamente adversas ou más. A sexta forma se define pela recusa
empedernida de toda e qualquer atitude independente no tocante aos problemas
mais elevados, atitude depreciada como ateísmo e impiedade.
Parece claro, portanto,
que o ateísmo antigo era carecido de um alvo claramente delimitado a partir do
qual se pudesse organizar como uma visão de mundo contestadora. Diferente é a
situação do ateísmo moderno que se desenvolveu como rejeição de uma forma específica
de teísmo. Esse ateísmo rejeita um Deus que era considerado uma substância que
tinha lugar e função no mundo natural. Ademais, o ateísmo moderno não constitui
um desafio externo ao teísmo; mas nasceu e se desenvolveu no seio de sua própria
teologia. O ateísmo moderno tem origens teológicas. Com efeito, foram os
desdobramentos teológicos, particularmente as especulações de Duns Escoto, que
acarretaram o desenvolvimento dessa forma de ateísmo. O ateísmo moderno tem um
alvo bem definido: o Deus da tradição monoteísta ocidental; em particular, o
Deus da tradição judaico-cristã.
Finalmente, constituiu um
fator determinante da derrota do ateísmo no mundo romano antigo o avanço do
poder político romano que culminou com a divinização do imperador. Criou-se,
assim, o culto de Roma e de Augusto, e a religião tradicional foi restaurada.
Ora, o Império tinha necessidade de religião e da submissão dos governados ao
poder. Ele encontraria no Cristianismo um forte aliado para garanti-la, já que
essa nova religião pregava a submissão política por meio da submissão a Deus,
fato que a tornava extremamente adequada às necessidades sócio-políticas do
Baixo Império.