
Soledad
Sobre lembranças
intempestivas
“A
verdade deste texto só pode ser apreendida naquilo de que ele é um sintoma”
(BAR)
Acordou com um desgosto familiar que lhe
embarcara em pensamentos ingenuamente criativos e sintomáticos da noite anterior, plena de imaginações. Sonhou o sonho que realizou seus mais recentes
desejos. Mas acordou com a insatisfação conclusiva, edificada
nos escombros da vigília. Quando já não se pode mais
experienciar as alegrias juvenis, porque já se contam no
corpo e se cumulam no espírito os vincos de
uma idade que irremediavelmente avança, não restam senão lembranças sempre infiéis, pois que nada mais são que distorções, reconfigurações, reconstituições, reinterpretações de alegrias já então transformadas nas memórias que delas se formam. As alegrias de hoje – pensa ele
conclusivamente – não têm o viço e a
gratuidade que tinham na aurora de sua juventude. Hoje, as alegrias se
compreendem como efeitos da liberação de serotonina e
endorfina. Quando se avança nos trinta, as alegrias advindas trazem na superfície (porque carecem de profundidade) o carimbo de sua
validade. Elas já se experienciam,
portanto, formalmente modificadas. O saber assassina a fertilidade que se vivera
nos tempos idos. A vida se vai enfraquecendo à medida que se engorda o saber.
As preocupações com o amanhã oprimem com uma força desconhecida pelos tempos em
que elas podiam dar lugar a alegrias enérgicas e libidinosamente desocupadas da
impermanência de suas manifestações. Nisso reside
uma recompensa que a idade adulta nos proíbe.
Ele
está convencido de que, naqueles tempos, os encontros com
os amigos, os flertes inconsequentes, a anarquia das sensações prazenteiras que reivindicavam o gozo irrestrito e
incontrolável e que já se esperavam para aquelas ocasiões em que o divertimento não era pensado e problematizado como fuga à angústia de nossa precária condição humana, garantiam alegrias que carreavam promessas
dançantes que, como as vagas de um mar revoltoso, agitavam, nos espíritos ávidos de embalos,
festas cujas lembranças ficavam a pulsar estonteantemente no dia seguinte.
Toda
a sua rememoração é ofensiva ao
passado que se lhe afigura em estilhaços de vivências que, no instante mesmo em
que as reconstrói na memória, já estão modificadas ou infectadas por seus sentimentos. Por
isso, ele está convencido de que está enganado a respeito da espessura vivaz e
sempiternamente prazenteira dessas vivências. As alegrias que ele admira hoje,
por sua consistência, nas relações da juventude
que da vida deseja costumeiramente reter o melhor, não passam de reflexos do jogo de suas próprias interpretações e sentimentos
que não fazem senão lhe fornecer daquelas
alegrias uma imagem translúcida que lhe
estorva a visão de que, afinal, mesmo os jardins
floridos estão repletos de espinhos. Que o
sonho reparador desta noite vindoura possa remoçar-lhe a face de seu
desencanto!
(BAR)