
O
mundo estoico
O
estoicismo
chama mundo de Natureza ou deus: a natureza é divinizada; e o divino,
naturalizado. O divino (theion) é, a
rigor, a ordem, a estrutura do universo, o cosmos. A física estoica afirma a
total imanência do divino à natureza (natura
sive deus). Cosmologia e teologia são, portanto, indissociáveis. É por isso
que a felicidade dos homens depende do ajuste de sua vida a esta ordem divina
em relação à qual a própria vida humana se ordena e ganha sentido. Os estoicos
nos convidam a contemplar ( théion orao
ou “eu contemplo o divino”) essa ordem divina do mundo, a conhecê-la como
condição necessária para a adesão a esta ordem. Quando bem ajustados estão os
homens ao cosmos divino, podem eles desempenhar a função que nele lhes é atribuída,
encontrando nele seu lugar próprio para cultivar os talentos que lhes são
próprios. Portanto, a vida boa, para um estoico, consiste em adequar-se à ordem
divina do mundo, em ficar em harmonia com a harmonia do universo.
É importante dizer
que o divino dos estoicos não é transcendente, não se situa num além, não é um
deus para quem destinamos preces, orações, mas se confunde com a própria ordem
do mundo, ou melhor, é essa ordem, harmoniosa e perfeita, radicalmente superior
e exterior aos homens, os quais a descobrem, pelo menos enquanto filósofos,
maravilhados. O cosmos se diz divino em virtude dessa sua superioridade radical
em relação aos seres que dele fazem parte, mas deus é imanente ao cosmos, ao
mundo, à natureza.
O mundo, no
estoicismo, se organiza segundo dois princípios indestrutíveis: um princípio
passivo (tó páskon), a matéria ou
substância sem qualidades; e um princípio ativo (tó poioun), a razão ou o logos,
que age sobre a matéria, que é a essência (ousia)
ou substância eterna, que só se manifesta na medida em que é informada pelo lógos. Mesmo o princípio jamais aparece
desvinculado da matéria, mas só por meio dela. O mundo é composto de indivíduos
totalmente diferentes; nele não encontramos jamais dois seres rigorosamente
semelhantes. Cada ser é um indivíduo. E todo indivíduo é um corpo, que possui
uma tensão interna (tónos), uma
maneira de ser. Essa maneira de ser se expressa como estrutura ou coesão (héxis) no mineral; como natureza (phýsis) no vegetal; como alma (psyché) no animal; como espírito (nôus) no homem. Todo ser é uma héxis, uma phýsis, um psyché e o
homem ainda se caracteriza por uma quarta maneira de ser que lhe é própria, o nôus.
Para o estoicismo,
portanto, no mundo, só há corpos: a alma e o espírito são corpos; o dia e a
noite são corpos; deus é um corpo, etc. Os corpos são indivíduos, que se
inter-relacionam, que se interprenetram, que se comunicam uns com os outros em
relações de simpatia ou antipatia. Mas há também os incorporais, que são quase-seres,
que não existem propriamente, mas subsistem como efeitos das relações entre os
corpos. Os incorporais têm um mínimo de existência. São incorporais o
exprimível, o vazio, o lugar e o tempo.
O logos é um princípio imanente e divino,
é inteligência e razão, que tudo ordena. Tudo é rigorosa e profundamente
racional. Consoante ensina Reale, “tudo é como a razão quer que seja e como não
pode não querer que seja, e o conjunto de todas as coisas é perfeito”[1]. Destarte,
os estoicos pensavam a ordem do mundo, em última instância, segundo um
finalismo universal. A Providência estoica, que nada tem que ver com a
providência de um deus pessoal, é ela mesma esse finalismo universal: trata-se
da convicção de que todas as coisas foram feitas pelo logos, segundo uma necessidade e em conformidade com o que é bom.
Essa Providência não é transcendente, mas imanente, coincidindo com a alma do
mundo, com o próprio mundo. Sob outro ponto de vista, essa Providência imanente
e física é pensada como destino (heimarméne),
“como necessidade inelutável”.[2]
Para os estoicos, o
Destino é a própria natureza, ou “(...) a série irresistível de causas, a ordem
natural e necessária de todas as coisas, o indissolúvel nó que liga todos os
seres, o lógos segundo o qual as coisas passadas aconteceram, as presentes
acontecem e as futuras acontecerão”[3].
Os estoicos concebem o Destino, portanto, como uma realidade natural, inscrita
na ordem do mundo ou da vida que anima a totalidade do universo. O destino não
é uma força transcendente que governa a vida humana à revelia dos indivíduos. O
destino é a ordem e a conexão naturais de todas as coisas, o nexo causal
necessário ou, segundo Deleuze, “a unidade das causas entre si (...) na
extensão do presente cósmico”[4].
Não há, para um estoico, acaso ou contingência no universo. Tudo é necessário,
porquanto o destino é também uma força cósmica e divina, o lógos vital, sopro divino, tensão que organiza e contém o todo. Por
isso, o começo da sabedoria humana supõe a tomada de consciência do destino ou
da necessidade universal e se desenvolve até realizar-se plenamente na
submissão humana ao destino, isto é, no assentimento voluntário à necessidade,
à vida que une todos os seres. Eis o que significa viver em conformidade com a
natureza.
Sem pretender descer
a pormenores sobre a aporia que resulta da admissão conjunta da rígida
determinação de todo acontecimento e da admissão da liberdade humana,
gostaríamos de dar a saber, em linhas gerais, como os estoicos explicaram a
liberdade do sábio. Segundo os estoicos, a liberdade dos sábios consiste em
conformar-se com o Destino, mas isso não significa resignação (Deleuze, aliás,
nos advertirá disso ao pensar o homem livre como aquele que quer o
acontecimento). O viver estoico em conformidade com o Destino ou com a Natureza
não é a resignação do homem sofredor que aceita lamentoso seu padecimento. O
sábio estoico quer juntamente com o Destino aquilo que o Destino quer.
Liberdade aqui é “racional aceitação do destino”[5].
Como o Destino é lógos, uma vez
queiramos aquilo que quer o Destino, queremos o que quer o lógos, de modo que
“liberdade (...) é levar a vida em total sintonia com o lógos” [6]
. Sêneca, em Da tranquilidade da alma,
diz-nos o que significa o desprendimento do sábio:
Aquele que temer a morte não
fará jamais obra de homem, mas aquele que disser a si mesmo que, desde o instante
em que foi concebido, sua sorte foi decidida, governará sua vida em
conformidade com esta decisão e por prêmio terá a vantagem, graças a este mesmo
rigor de alma, de jamais se deixar surpreender por qualquer acontecimento que
surja.[7]
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COLEÇÃO Os pensadores. Antologia de textos: Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca. Trad.
Agostinho da Silva et.al. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 2015.
REALE, Giovanni. Estoicismo, ceticismo e ecletismo. São Paulo: Edições Loyola, 2011.