O agente do Mal
Sofro, hoje
mais agudamente, de uma infecção incurável, que contraí em algum momento pretérito
impreciso: a infecção
da insignificância cosmologicamente radical da condição humana. Esse
processo infeccioso de que padeço se manifesta como um esgotamento existencial,
um cansaço extremo que atinge a potência de ser. Essa infecção pestilenta
aguçou minha consciência da nulidade de todas as coisas, corroeu todas as
ilusões indispensáveis à tolerância da vida diária. Tudo que faço é impregnado
de uma insignificância mórbida. Até mesmo a prática da escrita, que, durante
muito tempo, me acalentou com suas miragens paradisíacas e imagens estimulantes
de um futuro intelectualmente fecundo e próspero, hoje exala uma desimportância
fétida. Como tenho padecido de uma obsessão pelos eventos políticos, pela
matéria política, pelo modo como o fazer político se teatraliza, se encena como
um festival de embustes, e sofrido com a percepção desesperante da imbecilidade
das massas que, em uníssono, repetem os lugares-comuns e a lengalenga que
infestam o discurso falaz dos palanques ocupados pelos represenantes da extrema-direita, meu intento inicial era escrever sobre
temas que se inscrevem no âmbito das investigações da realidade sociopolítica e
econômica. Mas toda pretensão de esclarecer o homem-massa, que não é leitor, é
desimportante e vã. Protelo para outra ocasião a escrita sobre tais temas. Para
Cioran, “escrever é uma libertação interior” (2024, p. 297). Assim também era,
para mim, a experiência da escrita: ela era uma arte de expurgar minhas
inquietações, meus tormentos costumeiros.
Para
Cioran, a história é apenas um calvário
absurdo.
As circunstâncias sócio-históricas em que nascemos e vivemos moldam nossa visão
de mundo. Para ele, é porque nasceu na Romênia, um país “onde não se faz a
história, mas a sofre”, que não pode evitar a percepção de que o homem é,
fundamentalmente, objeto da história, raramente seu sujeito. Cioran concede,
contudo, que “há momentos na história em que o homem se alça à dignidade de
sujeito em que é criador verdadeiro”. (2024, p. 264). Mas, vindo do leste
europeu, diz ser muito propenso a ver na história um processo devastador que o
homem não controla. O homem é que foi engendrado pela história, embora ele se
tenha convencido de que é seu autor.
“Mas, caso
se observe a história mundial em si mesma, não se pode deixar de sentir que o
homem é sua vítima e nada mais”. (ibid.).
Ao se
voltar para o tema da liberdade, ele afirma que não somos verdadeiramente
livres e que o problema da liberdade simplesmente não tem solução.
“Quando
agimos, estamos convencidos de que somos livres. Mas assim que examinamos nossa
ação, constatamos que sucumbimos afinal a uma ilusão ou semi-ilusão. Se
tivéssemos plena consciência de que nossas ações e atos são determinados, é
irrevogável que não poderíamos agir”. (ibid., p. 265).
Segundo Cioran, no momento em
que decidimos fazer algo, cremos que tomamos uma decisão. Contudo, se nos
ocupássemos em analisar detalhadamente essa decisão, reconheceríamos, sem
dificuldade, que nós fomos nossos próprios escravos. Dessarte, “cada um é
sua própria vítima”. A liberdade, para o filósofo romeno, continua a ser o
grande problema filosófico, para o qual não há solução. Mas ele não se ressente
dessa impossibilidade de solucionar o problema; na verdade, entende que é
melhor assim, já que, se solução houvesse, “a filosofia perderia seu
propósito”. Talvez, também seja ilusória a crença de que o homem seja tão
somente um joguete do devir histórico. Mas Cioran parece convencido de que um
olhar atento sobre a história mundial nos levaria a destituir o homem da responsabilidade
pelo curso histórico, não menos determinado pelo seu destino.
No que toca
à condição humana, Cioran mantém que o homem está condenado desde o princípio.
A imagem cioraniana do homem não é nada lisonjeira, para falar
eufemisticamente. Sua opinião sobre o ser humano se inscreve num horizonte
teórico teológico-metafísico. Sem a ideia de “Pecado Original, “o homem não
passaria de um enigma”. Em minha tese de doutorado, esclareci, em detalhes, a
visão cioraniana do homem. Basta aqui assinalar que o uso que o filósofo faz do
conceito de “pecado original” não o compromete com a fé cristã. Ele mesmo diz
“não acredito em Deus”, mas isso não significa que não se interesse pelas
questões fundamentais de que se ocupou a religião - nomeadamente, o
judaísmo-cristianismo. Cioran não está preocupado em discutir a interpretação
teológica do conceito de “pecado original”, “mas sem essa ideia - diz ele - o
processo histórico como um todo me pareceria absolutamente fechado”. (ibid., p.
266). É no âmbito de suas reflexões sobre o pecado original, que Cioran afirma
que há algo fraturado no ser do homem: “a natureza humana abrigava desde o
princípio um vício latente” . (ibid.). Portando, originariamente, esse vício
como uma chaga, o homem só pôde alcançar a ilusão da liberdade e não a própria
liberdade: “mas mesmo a ilusão da liberdade já é alguma coisa”. (ibid., p.
266). Cioran confessa que, no íntimo, despreza o homem.
“Não sou
amigo do homem e realmente não tenho orgulho de ser homem. A confiança
depositada no homem chega a ser um perigo ameaçador, a crença no homem é uma
grande bobagem, uma loucura”. (p. 266).
Quando já não se consegue mais
acreditar no ser humano, torna-se impossível acreditar em qualquer projeto que
ele pretenda realizar. Já não se consegue acreditar nos fins propostos para a
história como um todo. Tudo que o homem empreende no mundo está viciado,
manchado pelo pecado original. Quando tem em conta o homem, em geral, Cioran
sentencia: “talvez tivesse sido melhor que ele nunca tivesse existido... o
homem é bastante dispensável”.
À guisa de
conclusão, refiro um excerto colhido de minha tese de doutorado no qual
esclareço o uso feito por Cioran do conceito de Pecado Original, à luz do qual
se pode entender o que significa dizer que o homem está condenado desde o
princípio. Escusa dizer que a minha visão do homem encontra-se em plena
harmonia com a opinião que Cioran tem dele:
Cabe sublinhar que, ao esposar a
ideia de “Pecado Original”, Cioran a ressignifica no registro antropológico. O
Pecado Original é uma metáfora de nossa inadequação ontológica, de nossa
inclinação ao Mal, de nossa dolorosa e angustiante contingência. A ideia de
pecado original prescinde da ideia de revelação divina. O filósofo-teólogo
romeno está convencido de que a ideia de pecado original é compatível com a
racionalidade, pois que, afinal, são inúmeros os motivos que os seres humanos
nos dão para que os pensemos como seres essencialmente marcados pela corrupção,
pela miséria moral e ontológica. O pecado significa, portanto, para Cioran, uma
quebra, uma cisão, uma ruptura pela qual se expressa um mal difuso que
constitui essencialmente o homem. O filósofo romeno faz abstração dos aspectos
sobrenaturais ou metafísicos implicados nas narrativas do Gênesis e se atém à
sua dimensão antropológica, da qual fazem parte a transgressão, a curiosidade,
a tentação, a culpa decorrente do erro, a consciência do erro cometido.
Reunidos, esses aspectos do Pecado Original fazem dele o símbolo de um modo de
ser específico do homem, por força do qual ele abandona sua condição natural de
animal para ousar como ser que busca incessantemente a superação de si mesmo e
de seus limites. Ao contrário de Nietzsche, Cioran vê nessa busca do homem de
autossuperação seu destino nefasto. A busca do homem por autossuperação é fonte
de sua hýbris. Para Cioran, o homem é um animal desnaturado, extravagante,
extraviado. O homem é um animal vertical que vê os demais animais abaixo de si
e a natureza como um âmbito à parte, uma coisa estranha, de que pode dispor a
seu bel-prazer. O homem não pode evitar sua perdição. Tudo que o homem
acrescenta à vida volta-se contra ela. Assim, observa o filósofo que “escravo
de suas criações é – enquanto criador – um agente do Mal”[1].
(...)
Não se pode
explicar o surgimento desse gorila desencaminhado, “forjador de deuses”,
fabricante de ideias, de ilusões, a não ser recorrendo à noção de traição da
ordem natural das coisas, ou seja, à Queda. Ontologicamente, a Queda é uma
traição à natureza. Por isso, para Cioran, o homem é uma heresia da natureza;
é, essencialmente, um ser infestado pelo Mal. Deixando de viver em comunhão com
Deus, ele rompeu a harmonia simbiótica a que sua vida estava ajustada. Uma vez
decaído, o homem rompe com suas raízes, “e essa ruptura equivale a um cisma,
contra a “ortodoxia da natureza”, cujas leis, para a sua própria preservação,
precisam ser respeitadas” [2].
[1] Breviário de decomposição, p. 155.
(grifo nosso).
[2] MENEZES, 2007, p. 66.

