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domingo, 13 de setembro de 2026

Como todas as grandes ideias, a da Queda explica tudo e não explica nada, sendo tão difícil fazer uso dela quanto viver sem ela. " (Cioran)

 

                             





                            O agente do Mal

 

Sofro, hoje mais agudamente, de uma infecção incurável, que contraí em algum momento pretérito impreciso: a infecção da insignificância cosmologicamente radical da condição humana. Esse processo infeccioso de que padeço se manifesta como um esgotamento existencial, um cansaço extremo que atinge a potência de ser. Essa infecção pestilenta aguçou minha consciência da nulidade de todas as coisas, corroeu todas as ilusões indispensáveis à tolerância da vida diária. Tudo que faço é impregnado de uma insignificância mórbida. Até mesmo a prática da escrita, que, durante muito tempo, me acalentou com suas miragens paradisíacas e imagens estimulantes de um futuro intelectualmente fecundo e próspero, hoje exala uma desimportância fétida. Como tenho padecido de uma obsessão pelos eventos políticos, pela matéria política, pelo modo como o fazer político se teatraliza, se encena como um festival de embustes, e sofrido com a percepção desesperante da imbecilidade das massas que, em uníssono, repetem os lugares-comuns e a lengalenga que infestam o discurso falaz dos palanques ocupados pelos represenantes da extrema-direita, meu intento inicial era escrever sobre temas que se inscrevem no âmbito das investigações da realidade sociopolítica e econômica. Mas toda pretensão de esclarecer o homem-massa, que não é leitor, é desimportante e vã. Protelo para outra ocasião a escrita sobre tais temas. Para Cioran, “escrever é uma libertação interior” (2024, p. 297). Assim também era, para mim, a experiência da escrita: ela era uma arte de expurgar minhas inquietações, meus tormentos costumeiros.

Para Cioran, a história é apenas um calvário absurdo. As circunstâncias sócio-históricas em que nascemos e vivemos moldam nossa visão de mundo. Para ele, é porque nasceu na Romênia, um país “onde não se faz a história, mas a sofre”, que não pode evitar a percepção de que o homem é, fundamentalmente, objeto da história, raramente seu sujeito. Cioran concede, contudo, que “há momentos na história em que o homem se alça à dignidade de sujeito em que é criador verdadeiro”. (2024, p. 264). Mas, vindo do leste europeu, diz ser muito propenso a ver na história um processo devastador que o homem não controla. O homem é que foi engendrado pela história, embora ele se tenha convencido de que é seu autor.

“Mas, caso se observe a história mundial em si mesma, não se pode deixar de sentir que o homem é sua vítima e nada mais”. (ibid.).

 

Ao se voltar para o tema da liberdade, ele afirma que não somos verdadeiramente livres e que o problema da liberdade simplesmente não tem solução.

 

“Quando agimos, estamos convencidos de que somos livres. Mas assim que examinamos nossa ação, constatamos que sucumbimos afinal a uma ilusão ou semi-ilusão. Se tivéssemos plena consciência de que nossas ações e atos são determinados, é irrevogável que não poderíamos agir”. (ibid., p. 265).

 

Segundo Cioran, no momento em que decidimos fazer algo, cremos que tomamos uma decisão. Contudo, se nos ocupássemos em analisar detalhadamente essa decisão, reconheceríamos, sem dificuldade, que nós fomos nossos próprios escravos. Dessarte, “cada um é sua própria vítima”. A liberdade, para o filósofo romeno, continua a ser o grande problema filosófico, para o qual não há solução. Mas ele não se ressente dessa impossibilidade de solucionar o problema; na verdade, entende que é melhor assim, já que, se solução houvesse, “a filosofia perderia seu propósito”. Talvez, também seja ilusória a crença de que o homem seja tão somente um joguete do devir histórico. Mas Cioran parece convencido de que um olhar atento sobre a história mundial nos levaria a destituir o homem da responsabilidade pelo curso histórico,  não menos determinado pelo seu destino.

No que toca à condição humana, Cioran mantém que o homem está condenado desde o princípio. A imagem cioraniana do homem não é nada lisonjeira, para falar eufemisticamente. Sua opinião sobre o ser humano se inscreve num horizonte teórico teológico-metafísico. Sem a ideia de “Pecado Original, “o homem não passaria de um enigma”. Em minha tese de doutorado, esclareci, em detalhes, a visão cioraniana do homem. Basta aqui assinalar que o uso que o filósofo faz do conceito de “pecado original” não o compromete com a fé cristã. Ele mesmo diz “não acredito em Deus”, mas isso não significa que não se interesse pelas questões fundamentais de que se ocupou a religião - nomeadamente, o judaísmo-cristianismo. Cioran não está preocupado em discutir a interpretação teológica do conceito de “pecado original”, “mas sem essa ideia - diz ele - o processo histórico como um todo me pareceria absolutamente fechado”. (ibid., p. 266). É no âmbito de suas reflexões sobre o pecado original, que Cioran afirma que há algo fraturado no ser do homem: “a natureza humana abrigava desde o princípio um vício latente” . (ibid.). Portando, originariamente, esse vício como uma chaga, o homem só pôde alcançar a ilusão da liberdade e não a própria liberdade: “mas mesmo a ilusão da liberdade já é alguma coisa”. (ibid., p. 266). Cioran confessa que, no íntimo, despreza o homem.

 

“Não sou amigo do homem e realmente não tenho orgulho de ser homem. A confiança depositada no homem chega a ser um perigo ameaçador, a crença no homem é uma grande bobagem, uma loucura”. (p. 266).

 

Quando já não se consegue mais acreditar no ser humano, torna-se impossível acreditar em qualquer projeto que ele pretenda realizar. Já não se consegue acreditar nos fins propostos para a história como um todo. Tudo que o homem empreende no mundo está viciado, manchado pelo pecado original. Quando tem em conta o homem, em geral, Cioran sentencia: “talvez tivesse sido melhor que ele nunca tivesse existido... o homem é bastante dispensável”.

À guisa de conclusão, refiro um excerto colhido de minha tese de doutorado no qual esclareço o uso feito por Cioran do conceito de Pecado Original, à luz do qual se pode entender o que significa dizer que o homem está condenado desde o princípio. Escusa dizer que a minha visão do homem encontra-se em plena harmonia com a opinião que Cioran tem dele:

Cabe sublinhar que, ao esposar a ideia de “Pecado Original”, Cioran a ressignifica no registro antropológico. O Pecado Original é uma metáfora de nossa inadequação ontológica, de nossa inclinação ao Mal, de nossa dolorosa e angustiante contingência. A ideia de pecado original prescinde da ideia de revelação divina. O filósofo-teólogo romeno está convencido de que a ideia de pecado original é compatível com a racionalidade, pois que, afinal, são inúmeros os motivos que os seres humanos nos dão para que os pensemos como seres essencialmente marcados pela corrupção, pela miséria moral e ontológica. O pecado significa, portanto, para Cioran, uma quebra, uma cisão, uma ruptura pela qual se expressa um mal difuso que constitui essencialmente o homem. O filósofo romeno faz abstração dos aspectos sobrenaturais ou metafísicos implicados nas narrativas do Gênesis e se atém à sua dimensão antropológica, da qual fazem parte a transgressão, a curiosidade, a tentação, a culpa decorrente do erro, a consciência do erro cometido. Reunidos, esses aspectos do Pecado Original fazem dele o símbolo de um modo de ser específico do homem, por força do qual ele abandona sua condição natural de animal para ousar como ser que busca incessantemente a superação de si mesmo e de seus limites. Ao contrário de Nietzsche, Cioran vê nessa busca do homem de autossuperação seu destino nefasto. A busca do homem por autossuperação é fonte de sua hýbris. Para Cioran, o homem é um animal desnaturado, extravagante, extraviado. O homem é um animal vertical que vê os demais animais abaixo de si e a natureza como um âmbito à parte, uma coisa estranha, de que pode dispor a seu bel-prazer. O homem não pode evitar sua perdição. Tudo que o homem acrescenta à vida volta-se contra ela. Assim, observa o filósofo que “escravo de suas criações é – enquanto criador – um agente do Mal”[1].

 

(...)

Não se pode explicar o surgimento desse gorila desencaminhado, “forjador de deuses”, fabricante de ideias, de ilusões, a não ser recorrendo à noção de traição da ordem natural das coisas, ou seja, à Queda. Ontologicamente, a Queda é uma traição à natureza. Por isso, para Cioran, o homem é uma heresia da natureza; é, essencialmente, um ser infestado pelo Mal. Deixando de viver em comunhão com Deus, ele rompeu a harmonia simbiótica a que sua vida estava ajustada. Uma vez decaído, o homem rompe com suas raízes, “e essa ruptura equivale a um cisma, contra a “ortodoxia da natureza”, cujas leis, para a sua própria preservação, precisam ser respeitadas” [2].




[1] Breviário de decomposição, p. 155. (grifo nosso).

 

[2] MENEZES, 2007, p. 66.

sábado, 11 de janeiro de 2025

"A história é um processo fatal que o homem imaginou que poderia dominar” (Cioran)

 







Se, dantes, perante um morto, eu me perguntava::
"De que é que lhe serviu ter nascido?", coloco agora
a mesma pergunta perante qualquer vivo.
                                                          Cioran


   O pessimismo cioraniano, além de lançar sobre o ser humano um olhar profundamente negativo que desvela sua essência má e enferma, orienta-se pela demonstração da concepção da história como obra do diabo. A visão pessimista da história está intimamente relacionada à visão pessimista do homem: tanto o processo histórico quanto a condição humana exibem a nervura do trágico. Acresça-se que a concepção cioraniana de história foi influenciada sobremaneira por Oswald Spengler, teórico do declínio do Ocidente. Cioran confessa tê-lo lido com entusiasmo febril na adolescência, embora posteriormente seu interesse por ele tivesse findado. Acerca de sua concepção de história como um processo maculado pelo Mal até as raízes, Cioran nos diz o seguinte:


[...] Descobri a história como disciplina teórica bastante tarde. Na minha juventude eu estava muito orgulhoso para ler os historiadores. [...] E, em meus quarenta anos, descobri a história que não conhecia. [...] Pegue a história, estude-a um pouco em profundidade, e as conclusões que você tira são necessariamente terríveis. [...] Eu sempre tive uma visão, digamos assim, desagradável das coisas. Mas a partir do momento em que descobri a história, perdi todas as ilusões. É realmente a obra do diabo . (tradução nossa).


        Abundam passagens, na obra de Cioran, em que se nota seu repúdio ao homem e à história. Para Cioran, um historiador otimista é uma contradição em termos. Para ele, “a história é um processo fatal que o homem imaginou que poderia dominar” (tradução nossa). Ilude-se quem acredita encontrar na história qualquer sentido ou meta. Ela não é mais do que “um dinamismo de vítimas” . Sua crítica da história, no entanto, não pode ser compreendida limitadamente ao humor amargo de quem afirma ser a vida “uma ocupação de inseto” , de quem afirma “que a vida não significa nada, todo mundo sabe ou pressente: que se salve ao menos por um truque verbal”; se o pessimismo que a anima se destila pelas páginas deste gnóstico ateu como um “concentrado [...] que envenena de morte todos os ideais, esperanças e impulsos metafísicos da filosofia” , é porque, enquanto gnóstico ateu, Cioran “vê na total ausência de esperança o primeiro passo para alcançar a lucidez necessária para uma gnose” . Consoante afirma Volpi (1999), Cioran é um negador contumaz do valor objetivo da existência, um incendiário, um destruidor de ídolos, de fantasmas, imagens e deuses que povoam a imaginário social. Como pessimista gnóstico, ele é cônscio de sua queda no tempo e na finitude e vê o universo como uma cela onde vive aprisionado.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

"Se é verdade que sempre há mais de uma forma de interpretar um texto, não é verdade que todas as interpretações são iguais." (Paul Ricoeur)

 





NÃO HÁ FATOS, APENAS INTERPRETAÇÕES : Castoriadis e Ricouer - uma polêmica

 

 

Num diálogo ocorrido em 9 de março de 1985, Paul Ricouer e Cornelius Castoriadis contrapunham as perspectivas que adotavam acerca do imaginário social e da possibilidade de emergência da novidade na História. Ricouer preferia falar em produção histórica, entendendo por “produção” o fazer surgirem novas sínteses, novas configurações, novas significações a partir de um pré-construído, de um horizonte pré-regrado. Para Ricouer, não é possível a criação ex nihil na história. Segundo Ricouer, “só podemos produzir segundo regras; nós não produzimos tudo naquilo que produzimos, mais que não seja porque já temos um discurso antes de falar. Outros já falaram e estabeleceram as regras do jogo”. Castoriadis, por seu turno, preferindo falar em instituição imaginária da sociedade, e não de produção, defende a possibilidade da criação histórica, do fazer vir à luz o novo. Castoriadis consente com Ricouer, contudo, na tese de que o “novo” criado não é o novo absoluto. Para Castoriadis, há um domínio pré-existente organizado por regras previamente estabelecidas, mas nós podemos estabelecer novas regras, podemos sempre transformar as estruturas pré-construídas. Nesse sentido, podemos fazer nascer algo novo nunca experimentado ou previsto.

Desnecessário dizer que os dois pensadores concordam em vários pontos de suas reflexões, mas se distanciam neste aspecto fundamental: para Ricouer, não cabe falar em criação histórica, mas apenas em produção, ao passo que, para Castoriadis, devemos admitir a criação histórica e não a simples produção histórica.

Essa contraposição de interpretações encenada no diálogo entre Paul Ricouer e Cornelius Castoriadis é extremamente relevante para minha abordagem do niilismo. Apesar de acompanhar Castoriadis em muitos pontos de suas análises, não deixo de ver afinidade entre minha proposta de análise e a interpretação de Ricouer. Assim como não há um discurso que rompe o silêncio originário da enunciação, assim como não há um sujeito adâmico que, num momento mítico, teria tomado pela primeira vez a palavra, assim também o novo, na história, não emerge a partir do nada. Aqui me vejo mais próximo de Ricouer do que de Castoriadis. Mas ambos concordam num ponto que, para mim, é fundamental em minha tese sobre o niilismo: a afirmação do caráter fundamentalmente simbólico-imaginário da realidade social e das relações sociais. Para Castoriadis, toda realidade social é mediatizada simbolicamente, no que Ricouer concorda. Ambos afirmam que o agir histórico se realiza numa dimensão simbólica e imaginária que lhe é constitutiva. Fora do domínio simbólico-imaginário, não há sociedade, nem instituições, nem história. O homem, para ambos os pensadores, é HOMO LOQUAX, é homem de linguagem; é homem que não só usa a palavra, mas também inventa e imagina signos, sentido, símbolos, textos e narrativas, com os quais interage com seus semelhantes, construindo “ o mundo” nas práticas sociogntivo-interacionais possibilitadas pela linguagem. É no discurso e nas práticas de interação social pela linguagem que o mundo e os sujeitos se constituem. 

 


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