
A Sophia linguística
Pela necessidade de ruptura
com o senso comum
1. Um breve recorte histórico
Embora sob o domínio das especulações
filosóficas por mais de dois mil anos, as questões linguísticas passaram a
fazer parte, pelo menos com a publicação da obra Curso de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussure, em 1916, da
alçada da Linguística, que então, na letra de seu próprio pai, deveria ser uma
ciência autônoma. É bem verdade que a Linguística, enquanto ciência, já existia
a partir dos últimos anos do século
XVIII e que o impacto da publicação do Curso
de Saussure só se deu no fim da década de 1920. Também é verdade que a
Linguística moderna, cujo pai é considerado Saussure, não seguiu, com fidelidade,
os passos determinados por seu fundador, para o qual o objeto de estudo desta
ciência deveria ser a Langue, ou
seja, a língua tomada em si e por si mesma (e isso tem mais que ver com seu
desenvolvimento revisionista-crítico do que com uma mera infidelidade às teses
saussurianas). Quero dizer que, ao longo das décadas, ficou claro aos
linguistas que a língua não se reduzia a um sistema de signos autônomo, que seu
estudo, caso pretendesse fornecer um modelo descritivo adequado da realidade
linguística, deveria contemplar fatores
de ordem social que influenciam o uso da língua.
A Linguística é, hoje,
reconhecidamente uma ciência, que dispõe de um objeto e métodos próprios. Nas
décadas seguintes – no Brasil, especialmente as de 1960 e 1970 – à publicação do
Curso, os modelos formalistas
(estruturalismo e gerativismo) se tornaram os modelos hegemônicos. Em comum, têm
eles o interesse pela forma da língua, a saber, por sua estrutura, sem qualquer
consideração de variáveis sociais que influenciam o uso que os falantes fazem
da língua. Na década de 1970, nos Estados Unidos e na Europa, linguistas houve
que reatualizaram princípios funcionalistas, que já encontravam repercussão em
trabalhos de linguistas anteriores a Saussure – trabalhos produzidos no final
do século XIX. As teorias funcionalistas
trouxeram em seu bojo o interesse fundamental não mais pela forma dos enunciados, mas pelas funções
a que serve o uso da língua. Embora diversas, as teorias funcionalistas estão
de acordo no tocante à primazia da função sobre a forma: o uso da língua influencia a forma assumida pelos enunciados – eis o
postulado central do funcionalismo. Os modelos funcionalistas inscreveram a
dimensão social da linguagem no horizonte de interesse dos estudos
linguísticos. O uso da língua, que é o verdadeiro escopo de investigação dos
modelos funcionalistas, é de natureza fundamentalmente social. Mas o uso da
língua não só exibe uma face social; exibe também aspectos cognitivos. Foi
então que década de 1980 conheceu a chamada virada cognitivista nos estudos
linguísticos. Toda ação, inclusive as ações linguísticas (estas objeto de
estudo da Pragmática), é acompanhada de processos cognitivos. Não tardou para
que se eliminasse a separação clássica entre processos de ordem cognitiva e
fenômenos sociais, ou seja, entre o que acontece no interior da mente dos
usuários da língua e o que acontece no exterior dela. Com base no postulado
segundo o qual a cognição é produto das nossas ações e de nossas atividades
sensório-motoras, surgiu a perspectiva
sociocognitivista-interacionista, então preocupada em compreender como os
processos cognitivos acontecem em sociedade, e não somente nos indivíduos. Essa
perspectiva incorpora aspectos sociais, culturais e interacionais à compreensão
daqueles processos.
Como se vê, a Linguística,
hoje, é uma ciência pluridisciplinar, estando em constante diálogo com
disciplinas tais, como a sociologia (sociolinguística), a psicologia
(psicolinguística), a História, a Psicanálise (as Análises do Discurso) e a
própria Filosofia. A interdisciplinaridade que atravessa o campo da Linguística
é, em última instância, uma consequência da natureza do próprio objeto de
estudo dessa ciência: a língua, que
se revelou aos estudiosos como uma realidade heterogênea e heteróclita. Língua
é, fundamentalmente, uma prática social,
uma atividade intersubjetiva, uma realidade sócio-histórica. A língua só
existe no uso, nas práticas linguajeiras de que participam sujeitos históricos.
2. O Deflacionismo e sua questão
linguística
Mesmo consciente de que
não se pode esperar que todos os filósofos profissionais ou estudantes de
filosofia manifestem adequado domínio teórico na exposição de suas intuições
linguísticas costumeiras, é lícito deles exigir o cuidado no emprego que fazem
de certas noções com vistas a expressar aquelas intuições. Esse cuidado se
expressa numa preocupação com a exatidão na definição do significado dos termos
empregados. Um caso ilustrativo disso é o uso da noção de “ênfase” para explicar a ocorrência de construções como “é verdade
que”, em enunciados como (a) É verdade
que dois mais dois são quatro. É sinal de prática teórica ingênua o
explicar o uso de “é verdade que” como uma marca de ênfase, como se, na falta
de uma compreensão melhor desse uso, se pudesse dizer acertadamente que essa
expressão é um recurso de que se vale o falante para marcar ênfase. Tal modo de
proceder metalinguisticamente acaba por converter a noção de “ênfase” numa
espécie de dispositivo ad hoc, além
de ignorar o fato de que se pode marcar a ênfase por meio de atividades
epilinguísticas (quando o produtor do texto opera conscientemente ajustes em
seu texto a fim de melhor expressar as possibilidades de sentido: p. ex., o uso
repetido de “tudo”, em “Coma tudo, tudo, tudo!”, marca ênfase, se comparado com
a forma do enunciado correlato “Coma tudo”.), ou por meio de recursos
supra-segmentais, como entonação, altura da voz ( p. ex.: na pronúncia do
“NÃO”, em “NÃO quero!”).
Concentremo-nos,
doravante, na questão linguística prevista na posição do deflacionismo, a fim
de esclarecê-la sem recorrer a explicações simplistas que apelam para a noção
de ênfase. Começo por esclarecer o que sustenta o deflacionismo.
Em epistemologia, o deflacionismo mantém que a verdade não é
uma propriedade substancial da proposição. O deflacionismo pretende
dessubstantivar a verdade. Em última instância, pode-se dizer que o
deflacionista dessencializa a verdade, destitui-a de qualquer carga metafísica.
O filósofo deflacionista sustenta que a verdade não é, absolutamente, um
predicado, não é uma propriedade “real”. A verdade é redundante, porque o que
se fala sobre a verdade é algo puramente formal.
Vejamos como o
deflacionista defende sua posição. Ele diz que, numa proposição como (b),
(b) É verdadeiro que dois mais dois são quatro.
a expressão em itálico “é
verdadeiro” não constitui um predicado substancial da proposição. Ela figura no
enunciado por razões pragmáticas, performáticas, subjacentes ao uso da
linguagem. Cabe esclarecer, portanto, o que significa dizer que a expressão “é verdade”
deve sua ocorrência a fatores pragmáticos.
À luz de uma abordagem
pragmática da língua, ou seja, uma abordagem que leve em conta o uso da língua
e, portanto, os usuários da língua, seus propósitos sociocomunicativos, e o
próprio contexto comunicativo, observa-se que o falante que produz “é
verdadeiro que”, ou “é verdade que” marca, em seu enunciado, uma atitude
epistêmica, que se expressa na forma de adesão ao conteúdo do enunciado. Essa
adesão a, ou comprometimento com, engajamento com o conteúdo do enunciado tem
um evidente efeito argumentativo. Portanto, do ponto de vista argumentativo, o
falante, ao usar “é verdadeiro/ verdade que p”,
está marcando seu comprometimento, seu engajamento com certa orientação
argumentativa na produção de seu próprio discurso. É claro que esse engajamento
só pode ser descrito quando consideramos o enunciado como parte de uma
totalidade discursiva e não isoladamente. Tome-se, portanto, o seguinte evento
interacional, no qual dialogam os interlocutores A e B:
A
– Pedro disse que a irmã dele não estava em casa ontem. Mas acho que ele não
disse a verdade.
B
– Não sei se você foi até à casa dele para verificar, mas é verdade que ela
ia sair ontem.
Note-se que o falante B,
ao usar o marcador “é verdade que”, compromete-se com o conteúdo do que
enuncia, dá, por assim dizer, “a cara a tapa”. Esse comprometimento se expressa
também em relação à orientação argumentativa assumida por seu discurso, pois
que B procura argumentar contrariamente à suspeita levantada pelo falante A. Este
lança dúvida sobre à confiabilidade do que disse Pedro (“talvez ele não tenha
dito a verdade”), mas B argumenta que A pode estar equivocado ao levantar
desconfiança contra Pedro, porque “é verdade que ela ia sair”. Em outros
termos, B assegura que está de posse do conhecimento de que Lúcia poderia não
estar em casa, pois ia sair. É claro que, na prática linguística, os usuários
da língua não atuam e nem sempre estão interessados em assegurar-se das fontes
de seus conhecimentos sobre as ocorrências do mundo. Para o analista da
linguagem, não está em questão determinar se B está justificado para dizer “é
verdade que ela ia sair”, mas sim reconhecer que quem diz “é verdade que...”
está se comprometendo com uma posição argumentativa, está manifestando sua completa
adesão ao conteúdo comunicado. Isso tem consequências sociointeracionais. A teoria das faces verá no uso de “é
verdade que” um recurso que expõe à ameaça a face positiva do próprio falante.
Ou seja, quem diz “é verdade que” põe em risco sua imagem sociocultural
positiva, pois que assume dispor de uma fonte de conhecimento que, se,
posteriormente, verificar-se não ser uma fonte de saber, pode atrair para si
alguma forma de depreciação social. Ele pode passar-se por mentiroso,
malicioso, enganador, etc. É claro que o falante pode se defender contra uma
suposta acusação de insinceridade. Suponhamos que A saiba que Lúcia não saiu,
mas estava em casa, na cama com muita febre. Se A acusasse B de mentiroso
porque disse, com alto grau de confiabilidade, que Lúcia ia sair, B pode
defender-se dizendo que ele se comprometeu com a possibilidade de Lúcia sair,
mas não com o fato de ela ter saído. Ora, B ouviu dizer (suponhamos da própria
Lúcia) que no dia em questão Lúcia pretendia sair. Assim, B marcou sua adesão ao
conteúdo do seu enunciado, que expressava um saber de que ele, B, dispunha.
Em suma, do ponto de
vista pragmático, expressões como “é verdade que” não marcam ênfase. São, na
verdade, modalizadores epistêmicos,
pois que marcam uma adesão do falante ao conteúdo do seu enunciado em termos de
um saber disponível. Assim, a diferença entre “eu sei que” e “eu acredito que”
é de grau de modalização. Quem diz “eu sei que p” afirma um grau de adesão maior ao conteúdo do enunciado, afirma
estar de posse de um saber do qual a proposição subsequente à conjunção “que” é
expressão. Quem, por outro lado, diz “eu creio que”, marca um grau de adesão
mais frouxo. Lembro que usamos “eu creio que” para marcar nossa expectativa ou
desejo de que se realize o estado-de-coisas descrito na oração completiva. Por
exemplo, quem diz “eu creio que o Brasil será campeão da Copa América”,
expressa uma expectativa, uma confiança em que o estado-de-coisas descrito será
realmente o caso.
Argumentativamente,
modalizar enunciados é uma prática extremamente desejável e eficaz para que
atinjamos os objetivos perseguidos. Sempre que não dispomos de evidências
suficientes para fundamentar um saber, convém lançar mão de expressões do tipo
“talvez”, “é provável que”, “parece que”, etc. Modalizar
enunciados é um bom expediente para que nos protejamos dos ataques de
nossos interlocutores; é um recurso de que dispomos para proteger nossas faces
e as faces de nosso interlocutor. Imagine-se que num debate filosófico A
sustente (c):
(c) A - É certo que
Nietzsche foi um metafísico.
Mas B, discordando,
afirme (d):
(d) B – Não é verdade
que Nietzsche foi um metafísico.
A questão de ter sido
Nietzsche um metafísico ou um antimetafísico é discutível na filosofia. E
argumentos favoráveis a uma e outra tese podem ser sustentados e encontrar
apoio entre os especialistas. O que interessa é notar o seguinte: por um lado,
o valor de verdade da proposição “Nietzsche foi um (anti)metafísico” é
dependente de disputas interpretativas autorizadas pela própria obra nietzschiana
( uma e outra interpretação pode ser autorizada pela obra do filósofo); por
outro lado, os defensores de cada uma das posições marcam uma forte adesão ao
conteúdo de seus enunciados, isto é, uma forte adesão à orientação
argumentativa conferida ao seu discurso.
Certamente (note-se o uso desta forma modalizadora!), o uso da
construção “é verdade que” (ou “é verdadeiro que”) tem um efeito de sentido que
não se pode ignorar. Certamente, essa construção cumpre uma função discursiva;
mas, para o deflacionista, não há uma diferença substancial epistemológica
entre dizer “é verdade que p” e, simplesmente, “p” (p. ex. dois mais dois são
quatro).
Para o deflacionista,
portanto, afirmar p é afirmar que p é verdadeiro, e que se crê que p; e
crer que p é crer que p é verdadeiro.
É também crer que temos razões para crer em p
(ou seja, estamos justificados para p).