Considerações sobre viver sem propósito
O exercício da docência é vivenciado por mim como a
expressão máxima e fidedigna de meu modo de ser no mundo, transformado pelo
fracasso e pela consciência do fracasso: viver sem propósito,
descompromissadamente. Se, algum dia, confessei ter horror à mediocridade -
há alguns dias, ou meses, não sei precisar, - tenho me esforçado por
conformar-me à rotina dos medianos, dos medíocres, por não lamentar demais o
destino insano e sem propósito do homem-massa. No entanto, conservo ainda
alguma dignidade intelectual, afiançada por diplomas e nutrida pelo hábito
diário da leitura. (embora eu saiba que essa “dignidade intelectual” é também
sustentada pela fantasia!).
Como um relâmpago, um pensamento se fez presente ao meu
espírito; fugidio, tento reconstruí-lo na memória operacional. Ei-lo: preciso
recuperar aquele convívio poético com as palavras, aquela intimidade ingênua
com o conhecimento, que me fazia aceitar o princípio de que o conhecimento tem
valor em si mesmo. Ensimesmar-se novamente, servindo-me da escrita como uma
prática pela qual esculpo um modo de vida que me seja próprio. Preciso reanimar,
em minha interioridade, o encanto pelas palavras, pelos jogos de significado,
pelas articulações metafóricas. Preciso fruir, novamente, o prazer do uso
artístico (poético) da língua. Entanto, essa necessidade que declaro se me
afigura, falando honestamente, um estratagema que não faz senão adiar uma
confissão mais íntima, mais dura, porque tragicamente verdadeira, que agora
enuncia-se sob a forma de uma certeza inquebrantável: ter sempre presente,
diariamente e de modo vivaz, pulsante, na consciência, a certeza de que todos
os meus atos, todas as minhas atividades, mesmo as que mais valorizo, como as
de ler e escrever, se realizam à sombra da morte, torna sem sentido a vida em
sua totalidade, a minha vida, a labuta diária em escolas onde não se ensina
nada àqueles que não querem aprender. Sinto-me intelectualmente asfixiado
nesses ambientes em que Educação se tornou, basicamente, um ofício de
tecnocratas e burocratas que, mesmo na rede pública de ensino, exigem que nós,
professores, cumpramos tarefas alinhadas com a lógica neoliberal da eficiência
e das metas, sem que seu cumprimento tenha efeito vinculativo à aprendizagem
dos educandos.
A dissimulação, a mentira, a hipocrisia são a argamassa
de grande parte das relações sociais. A sociedade, a civilização ruiriam se
fosse proibido aos homens mentir, fingir, propagar e legitimar as ilusões que
dão sustentação à existência deles. Não culpo professores por mentirem para si
mesmos, por participarem da grande farsa da educação, de compactuarem com a
mentira contada e recontada pelas autoridades políticas quando discursam sobre
a função do educador e a “importância” da educação. Afinal, precisamos
sobreviver, pagar nossas contas! Não tenho nenhuma pretensão a ser um
revolucionário. Fui intoxicado até as entranhas pela filosofia cioraniana! A
consciência de minha finitude e a certeza de meu destino tumular me desobrigam
de comprometer-me com o que quer que se tome por uma “grande causa”, um projeto
de qualquer tipo, cujo fim seja modificar um ser humano, transformar a ordem
social vigente (não creio na perenidade das grandes transformações; a história
não é linear, não tem um desdobramento finalisticamente orientado!). Isso
declarado por um eleitor de Lula, por um homem de esquerda pode soar como uma
traição, uma inconsistência entre o que penso e o que me recuso a fazer.
Compreendam-me, se ainda for possível alguma compreensão de um leitor ausente.
Pesa-me intensamente um cansaço existencial que contraí como uma doença venérea
incurável. Cumulei tanto conhecimento, e venho ainda me dedicando, diariamente,
aos livros, descobrindo aqui e ali tantos estratos, dimensões de uma realidade
tão complexa e perturbadora, que, em alguns momentos fugidios em que sou tomado
de uma exultante clareza, imiscuem-se tropéis, tumultos de pensamentos e
sentimentos por entre os quais só passam alguns fachos de uma sabedoria
elementar: a vida está destinada a lutar e a extinguir-se num mundo onde
nada se resolve, “(...) mundo [que] não merece que alguém se sacrifique por
uma ideia ou por uma fé”. (Cioran).
Tenho empregado meu tempo ocioso ao
estudo da história da Educação, das concepções filosóficas de educação, dos
fins que a ela foram atribuídos por pensadores, ao longo da história. Mas
apenas para confirmar minha percepção de que o que se disse e se pensou sobre
Educação e o que se faz, como se a pratica, nas instituições de ensino,
constituem esferas estranhas uma a outra. As teorias da educação (as
pedagogias) constroem uma imagem da educação, um ideal de educação que as
práticas realizadas nas salas de aula da vida real desmascaram, para que se
mostrem como uma fantasia infantil.
Não posso suportar qualquer grande
propósito que homens e mulheres costumam atribuir à existência. Não sou
fisiologicamente bem disposto ou pré-disposto para comungar do autoengano
generalizado.
“A vida nos é disparada à queima-roupa”,
escreveu Gasset. E ainda: “essa vida que nos é dada é dada vazia, e o homem tem
de ir preenchendo-a, ocupando-a”. As linhas de Gasset deflagram em mim
agitações fisiológicas. Sou inundado por um sentimento límpido: ninguém
sente o peso da reflexão filosófica como eu! Que fazer, então, com esse
estado de perplexidade, de entusiasmo debilitante? Só eu sinto e pressinto os
perigos, os riscos, os abismos que se descortinam numa reflexão filosófica
profunda, obstinada, afiada como um punhal!
Quando Freud cunhou seu conceito de pulsão
de morte, o fez com o intento de reparar sua teoria da libido. Valendo-se
desse conceito, ele pôde explicar a agressividade humana como resultado da
fusão da pulsão de morte com a pulsão de vida. O organismo pode salvar-se desse
seu impulso para a morte, desse seu desejo de morrer, de retornar ao estado
inorgânico, dirigindo-o para fora. Assim, segundo Freud, o desejo de morrer de
um indivíduo é substituído pelo desejo de matar. O animal humano amortece,
pois, o desejo de morte matando outras pessoas. Como observa Becker (2012, p.
129):
“Matar é uma solução simbólica de uma limitação
biológica; ela resulta da fusão do nível biológico (angústia animal) com o
simbólico (medo da morte) no animal humano”.
Rank, por seu turno, entendia que o
temor da morte que o ego sente é atenuado pela matança, pelo sacrifício do
outro. Conta Becker que Freud estava consciente da morte como um problema muito
pessoal e íntimo. Ele foi obsedado pela ansiedade da morte a vida toda. Admitia
que não conseguia viver um dia sem pensar nela. Becker nota que isso é fora do
comum para a maioria das pessoas. Freud sofria de ataques periódicos de
angústia. Durante sua crise, experimentava um pavor intenso de morrer. Segundo
Becker (ibid., p. 135), “nos seus ataques de pavor, ele tinha visões de si
mesmo morrendo e de cenas de despedidas”. Uma pessoa pode enfrentar
estoicamente uma doença conhecida, porque a doença de que ela padece lhe dá um
objeto, ou seja, ela tem consciência do que está enfrentando, “mas desvanecer,
deixar uma lacuna no mundo, desaparecer no esquecimento - isto é inteiramente
diferente”. (ibid., p. 136).
Há algumas semanas ou meses, tomei
conhecimento de um estudo que depõe contra meus instintos, ao sugerir que pessoas
otimistas têm uma expectativa de vida de 11% a 15% maior e possuem até 70%
mais chances de ultrapassar os 85 anos! O estudo conclui que o otimismo
contribui para o aumento da expectativa de vida da pessoa otimista, porque
altera o funcionamento biológico e o comportamento. Para quem aspira a viver,
pelo menos, até os 90 anos, esse estudo diminui drasticamente minhas chances de
sobreviver esses anos todos! Não me é possível deixar de ser fisiologicamente
um pessimista! Estou fisiológica e psiquicamente condenado a ser filosoficamente
um pessimista. O leitor incauto talvez esteja pensando que é sempre
possível mudar nosso olhar sobre o mundo. Mas o pessimismo de que falo não é o
pessimismo a que se refere o senso comum. Ser pessimista, no sentido filosófico
do termo, não é achar que vou me sair mal numa prova para a qual me preparei
bastante. Não vou deitar a fazer longas ponderações sobre o que entendo por
pessimismo filosófico e no que ele se diferencia do pessimismo vulgar. Esse
tema, para ser bem desenvolvido, demanda a confecção de um outro texto.
Limito-me apenas a dizer que o pessimismo filosófico não pode ser reduzido a
uma fixidez do olhar que tende a realçar o pior, ou a uma fixação neurótica no mal, no sofrimento,
na dor que entretecem a experiência humana. Mas entendo que nem todos são
capazes de atingir uma compreensão afetiva e assumir fisiologicamente a visão
de mundo das filosofias pessimistas. Nossos agenciamentos com autores,
literaturas e temas filosóficos são condicionados por nossas experiências da
primeira infância, pelas nossas disposições fisiológico-afetivas, pelo modo
como lidamos e atravessamos os traumas da vida.
Fato é que Nietzsche tinha uma tarefa,
Cioran o considerava ingênuo demais! Para o filósofo romeno, “o homem não pode
ser superado, pode-se no máximo, renegá-lo. É preciso renegá-lo”. Mas aos
nietzschianos que, eventualmente, se sintam incomodados com as apreciações
cioranianas sobre Nietzsche e sobre sua filosofia, advirto que Cioran leu
Nietzsche, foi, em certo período de sua obra, influenciado por ele; aprecia
nele sua força de espírito, a grandeza de seu empreendimento crítico. A
despeito disso, declarou, em entrevista:
“No fundo,
é toda a sua visão das coisas, assim como a sua vida, que me parece eufórica
demais. Nietzsche é interessante e sedutor, mas suas conclusões não me parecem
pertinentes ou verdadeiras”.
Platão, por sua vez, era obcecado pela
política. Ele tinha uma tarefa: produzir um saber político que permitisse ao
povo grego viver bem. E só se pode alcançar a vida boa numa cidade justa. A
justiça não deveria circunscrever-se a cada um ou a cada deus. Ela deveria ser
a justiça da pólis. Contra Homero, Platão estava obstinado a “implantar uma
reforma cultural e educacional na sociedade”. (Ghiraldelli, 2010, p. 13). A
época em que Platão e Aristóteles viveram incutiu-lhes o ânimo necessário para
que assumissem o papel de porta-vozes da delimitação dos estudos, não só da
distinção entre a sofística e a filosofia, mas também da distinção entre a
educação homérica e a educação filosófica.
Platão e Aristóteles tinham uma tarefa!
