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sábado, 31 de outubro de 2026

"Para mim, o homem só existe verdadeiramente quando não faz coisa alguma. Assim que age, assim que se prepara para fazer algo torna-se uma criatura patética". (Cioran).

 



Considerações sobre viver sem propósito

 

O exercício da docência é vivenciado por mim como a expressão máxima e fidedigna de meu modo de ser no mundo, transformado pelo fracasso e pela consciência do fracasso: viver sem propósito, descompromissadamente. Se, algum dia, confessei ter horror à mediocridade - há alguns dias, ou meses, não sei precisar, - tenho me esforçado por conformar-me à rotina dos medianos, dos medíocres, por não lamentar demais o destino insano e sem propósito do homem-massa. No entanto, conservo ainda alguma dignidade intelectual, afiançada por diplomas e nutrida pelo hábito diário da leitura. (embora eu saiba que essa “dignidade intelectual” é também sustentada pela fantasia!).

Como um relâmpago, um pensamento se fez presente ao meu espírito; fugidio, tento reconstruí-lo na memória operacional. Ei-lo: preciso recuperar aquele convívio poético com as palavras, aquela intimidade ingênua com o conhecimento, que me fazia aceitar o princípio de que o conhecimento tem valor em si mesmo. Ensimesmar-se novamente, servindo-me da escrita como uma prática pela qual esculpo um modo de vida que me seja próprio. Preciso reanimar, em minha interioridade, o encanto pelas palavras, pelos jogos de significado, pelas articulações metafóricas. Preciso fruir, novamente, o prazer do uso artístico (poético) da língua. Entanto, essa necessidade que declaro se me afigura, falando honestamente, um estratagema que não faz senão adiar uma confissão mais íntima, mais dura, porque tragicamente verdadeira, que agora enuncia-se sob a forma de uma certeza inquebrantável: ter sempre presente, diariamente e de modo vivaz, pulsante, na consciência, a certeza de que todos os meus atos, todas as minhas atividades, mesmo as que mais valorizo, como as de ler e escrever, se realizam à sombra da morte, torna sem sentido a vida em sua totalidade, a minha vida, a labuta diária em escolas onde não se ensina nada àqueles que não querem aprender. Sinto-me intelectualmente asfixiado nesses ambientes em que Educação se tornou, basicamente, um ofício de tecnocratas e burocratas que, mesmo na rede pública de ensino, exigem que nós, professores, cumpramos tarefas alinhadas com a lógica neoliberal da eficiência e das metas, sem que seu cumprimento tenha efeito vinculativo à aprendizagem dos educandos.

A dissimulação, a mentira, a hipocrisia são a argamassa de grande parte das relações sociais. A sociedade, a civilização ruiriam se fosse proibido aos homens mentir, fingir, propagar e legitimar as ilusões que dão sustentação à existência deles. Não culpo professores por mentirem para si mesmos, por participarem da grande farsa da educação, de compactuarem com a mentira contada e recontada pelas autoridades políticas quando discursam sobre a função do educador e a “importância” da educação. Afinal, precisamos sobreviver, pagar nossas contas! Não tenho nenhuma pretensão a ser um revolucionário. Fui intoxicado até as entranhas pela filosofia cioraniana! A consciência de minha finitude e a certeza de meu destino tumular me desobrigam de comprometer-me com o que quer que se tome por uma “grande causa”, um projeto de qualquer tipo, cujo fim seja modificar um ser humano, transformar a ordem social vigente (não creio na perenidade das grandes transformações; a história não é linear, não tem um desdobramento finalisticamente orientado!). Isso declarado por um eleitor de Lula, por um homem de esquerda pode soar como uma traição, uma inconsistência entre o que penso e o que me recuso a fazer. Compreendam-me, se ainda for possível alguma compreensão de um leitor ausente. Pesa-me intensamente um cansaço existencial que contraí como uma doença venérea incurável. Cumulei tanto conhecimento, e venho ainda me dedicando, diariamente, aos livros, descobrindo aqui e ali tantos estratos, dimensões de uma realidade tão complexa e perturbadora, que, em alguns momentos fugidios em que sou tomado de uma exultante clareza, imiscuem-se tropéis, tumultos de pensamentos e sentimentos por entre os quais só passam alguns fachos de uma sabedoria elementar: a vida está destinada a lutar e a extinguir-se num mundo onde nada se resolve, “(...) mundo [que] não merece que alguém se sacrifique por uma ideia ou por uma fé”. (Cioran).

Tenho empregado meu tempo ocioso ao estudo da história da Educação, das concepções filosóficas de educação, dos fins que a ela foram atribuídos por pensadores, ao longo da história. Mas apenas para confirmar minha percepção de que o que se disse e se pensou sobre Educação e o que se faz, como se a pratica, nas instituições de ensino, constituem esferas estranhas uma a outra. As teorias da educação (as pedagogias) constroem uma imagem da educação, um ideal de educação que as práticas realizadas nas salas de aula da vida real desmascaram, para que se mostrem como uma fantasia infantil.

Não posso suportar qualquer grande propósito que homens e mulheres costumam atribuir à existência. Não sou fisiologicamente bem disposto ou pré-disposto para comungar do autoengano generalizado.

“A vida nos é disparada à queima-roupa”, escreveu Gasset. E ainda: “essa vida que nos é dada é dada vazia, e o homem tem de ir preenchendo-a, ocupando-a”. As linhas de Gasset deflagram em mim agitações fisiológicas. Sou inundado por um sentimento límpido: ninguém sente o peso da reflexão filosófica como eu! Que fazer, então, com esse estado de perplexidade, de entusiasmo debilitante? Só eu sinto e pressinto os perigos, os riscos, os abismos que se descortinam numa reflexão filosófica profunda, obstinada, afiada como um punhal!

Quando Freud cunhou seu conceito de pulsão de morte, o fez com o intento de reparar sua teoria da libido. Valendo-se desse conceito, ele pôde explicar a agressividade humana como resultado da fusão da pulsão de morte com a pulsão de vida. O organismo pode salvar-se desse seu impulso para a morte, desse seu desejo de morrer, de retornar ao estado inorgânico, dirigindo-o para fora. Assim, segundo Freud, o desejo de morrer de um indivíduo é substituído pelo desejo de matar. O animal humano amortece, pois, o desejo de morte matando outras pessoas. Como observa Becker (2012, p. 129):

 

“Matar é uma solução simbólica de uma limitação biológica; ela resulta da fusão do nível biológico (angústia animal) com o simbólico (medo da morte) no animal humano”.

 

Rank, por seu turno, entendia que o temor da morte que o ego sente é atenuado pela matança, pelo sacrifício do outro. Conta Becker que Freud estava consciente da morte como um problema muito pessoal e íntimo. Ele foi obsedado pela ansiedade da morte a vida toda. Admitia que não conseguia viver um dia sem pensar nela. Becker nota que isso é fora do comum para a maioria das pessoas. Freud sofria de ataques periódicos de angústia. Durante sua crise, experimentava um pavor intenso de morrer. Segundo Becker (ibid., p. 135), “nos seus ataques de pavor, ele tinha visões de si mesmo morrendo e de cenas de despedidas”. Uma pessoa pode enfrentar estoicamente uma doença conhecida, porque a doença de que ela padece lhe dá um objeto, ou seja, ela tem consciência do que está enfrentando, “mas desvanecer, deixar uma lacuna no mundo, desaparecer no esquecimento - isto é inteiramente diferente”. (ibid., p. 136).

Há algumas semanas ou meses, tomei conhecimento de um estudo que depõe contra meus instintos, ao sugerir que pessoas otimistas têm uma expectativa de vida de 11% a 15% maior e possuem até 70% mais chances de ultrapassar os 85 anos! O estudo conclui que o otimismo contribui para o aumento da expectativa de vida da pessoa otimista, porque altera o funcionamento biológico e o comportamento. Para quem aspira a viver, pelo menos, até os 90 anos, esse estudo diminui drasticamente minhas chances de sobreviver esses anos todos! Não me é possível deixar de ser fisiologicamente um pessimista! Estou fisiológica e psiquicamente condenado a ser filosoficamente um pessimista. O leitor incauto talvez esteja pensando que é sempre possível mudar nosso olhar sobre o mundo. Mas o pessimismo de que falo não é o pessimismo a que se refere o senso comum. Ser pessimista, no sentido filosófico do termo, não é achar que vou me sair mal numa prova para a qual me preparei bastante. Não vou deitar a fazer longas ponderações sobre o que entendo por pessimismo filosófico e no que ele se diferencia do pessimismo vulgar. Esse tema, para ser bem desenvolvido, demanda a confecção de um outro texto. Limito-me apenas a dizer que o pessimismo filosófico não pode ser reduzido a uma fixidez do olhar que tende a realçar o pior, ou a  uma fixação neurótica no mal, no sofrimento, na dor que entretecem a experiência humana. Mas entendo que nem todos são capazes de atingir uma compreensão afetiva e assumir fisiologicamente a visão de mundo das filosofias pessimistas. Nossos agenciamentos com autores, literaturas e temas filosóficos são condicionados por nossas experiências da primeira infância, pelas nossas disposições fisiológico-afetivas, pelo modo como lidamos e atravessamos os traumas da vida.

Fato é que Nietzsche tinha uma tarefa, Cioran o considerava ingênuo demais! Para o filósofo romeno, “o homem não pode ser superado, pode-se no máximo, renegá-lo. É preciso renegá-lo”. Mas aos nietzschianos que, eventualmente, se sintam incomodados com as apreciações cioranianas sobre Nietzsche e sobre sua filosofia, advirto que Cioran leu Nietzsche, foi, em certo período de sua obra, influenciado por ele; aprecia nele sua força de espírito, a grandeza de seu empreendimento crítico. A despeito disso, declarou, em entrevista:

 

 “No fundo, é toda a sua visão das coisas, assim como a sua vida, que me parece eufórica demais. Nietzsche é interessante e sedutor, mas suas conclusões não me parecem pertinentes ou verdadeiras”.

 

Platão, por sua vez, era obcecado pela política. Ele tinha uma tarefa: produzir um saber político que permitisse ao povo grego viver bem. E só se pode alcançar a vida boa numa cidade justa. A justiça não deveria circunscrever-se a cada um ou a cada deus. Ela deveria ser a justiça da pólis. Contra Homero, Platão estava obstinado a “implantar uma reforma cultural e educacional na sociedade”. (Ghiraldelli, 2010, p. 13). A época em que Platão e Aristóteles viveram incutiu-lhes o ânimo necessário para que assumissem o papel de porta-vozes da delimitação dos estudos, não só da distinção entre a sofística e a filosofia, mas também da distinção entre a educação homérica e a educação filosófica.

Platão e Aristóteles tinham uma tarefa!


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