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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

"O sistema econômico é, com efeito, uma mera função da organização social". (Karl Polanyi)

 

                                        


             


                 Polanyi: a ilusão de mercados autorregulados

 

Reitere-se, desde já, a lição de Dowbor (2022), já referida em outro texto neste blog, acerca do que ele chama de “bobagem do Estado Mínimo”. Se queremos resgatar a função social da economia, devemos rechaçar discursos, ideologicamente orientados, que apelam à ideia fantasiosa de “Estado Mínimo” e que repisam a necessidade de “conter os gastos públicos”. Conforme escreve Dowbor, em seu Resgatar a função social da economia (2022, p. 121), “(...) temos de resgatar a dimensão pública e de acesso universal a serviços que, afinal, são absolutamente essenciais, como saúde, educação, segurança e, evidentemente, sustentabilidade ambiental”. É justamente a continuação de um projeto de governo que cuide de ampliar e melhorar a dimensão pública de serviços essenciais à vida das famílias brasileiras que está sob forte ameaça com uma possível eleição do candidato Flávio Bolsonaro.

Quem quiser dispor de bons argumentos e um consistente conjunto de evidências históricas que desmontam argumentos liberais a favor de mercados autorregulados e de um Estado que não intervenha na economia deve ler o clássico livro A Grande Transformação: as origens políticas e econômicas de nossa era, cuja primeira edição data de 1944. A Grande Transformação, de Karl Polanyi oferece a mais vigorosa crítica já produzida ao liberalismo de mercado, ou seja, à crença de que as sociedades nacionais e a economia global podem e devem ser organizadas por meio de mercados autorregulados.

Meu intento é apresentar, em linhas gerais, as teses e argumentos basilares do autor contra a crença de que economias funcionam melhor quando deixadas ao controle exclusivo de mecanismos de mercados autorregulados.

Polanyi ensina que o liberalismo (econômico) baseia-se na convicção de que a sociedade humana deve subordinar-se a mercados autorregulados. O autor argumenta que o liberalismo de mercado ensejou, no entanto, a mobilização de esforços destinados à proteção da sociedade exposta às forças do mercado. Isso parece provar que o liberalismo de mercado não pode funcionar como se esperara. No centro de sua argumentação contra a ideia de que seja possível a existência de mercados autorregulados, está o seu conceito de enraizamento. Na época em que viveu e escreveu Polanyi, a tradição do pensamento econômico insistia em sustentar que a economia é um sistema interligado de mercados capazes de ajustar automaticamente a oferta e a demanda por meio do mecanismo de preços. Essa concepção de economia resiste, todavia, à evidência de que o mercado, não raro, precisa da ajuda do governo para superar suas falhas. Essa evidência, apesar de histórica, não demove economistas que acreditam piamente na eficiência de mercados integrados na restituição do equilíbrio da economia.

Polanyi pretende mostrar como essa crença em mercados autorregulados está descolada da realidade das sociedades ao longo de toda a história humana registrada. Antes do século XIX, ele diz, a economia sempre se enraizou na sociedade. O conceito de enraizamento descreve, pois, o fato de que a economia não é autônoma, como supõe a teoria econômica liberal, mas subordinada à política, à religião e às relações sociais. Falar em enraizamento significa admitir que a economia  deve estar a serviço da sociedade, deve fomentar o desenvolvimento da vida das famílias. Essa compreensão da função eminentemente social da economia encontra eco no pensamento de Ladislau Dowbor.

Ao cunhar o conceito de enraizamento, Polanyi estava preocupado, especialmente, em denunciar a ruptura radical feita pelos economistas clássicos, mormente Malthus e Ricardo, relativamente à herança dos pensadores anteriores. Rompera-se com o entendimento padrão, historicamente consagrado, segundo o qual a economia deve subordinar-se à sociedade e, no seu lugar, formou-se o consenso segundo o qual o novo sistema econômico (o capitalismo) exigia que a sociedade se submetesse à lógica do mercado. O neoliberalismo hoje consolidou de vez essa convicção! O leitor não precisa ser muito versado em teoria econômica para entender o seguinte: se um dado candidato à Presidência ou um Governo de ocasião faz acenos para agradar o mercado, é a classe trabalhadora que sairá perdendo!

Polanyi cuida que o controle do sistema econômico pelo mercado interessa às classes dominantes, aos rentistas e acionistas, porque “significa nada menos que governar a sociedade como um anexo do mercado” (Polanyi, 2021, p. 28). Assim, “em vez de a economia enraizar-se nas relações sociais, as relações sociais é que se enraízam no sistema econômico”. (ibid.). Segundo o autor, embora os economistas clássicos buscassem criar uma sociedade em que a economia fosse deveras desenraizada  e incentivassem os políticos a realizar esse objetivo, esse objetivo nunca foi atingido e nem poderia sê-lo. Para Polanyi, uma economia de mercado desenraizada e plenamente autorregulada é pura utopia!

 

“A ideia de um mercado capaz de se ajustar a si mesmo implicava uma flagrante utopia. Tal instituição não teria como existir de maneira duradoura sem aniquilar a substância humana e natural da sociedade; destruiria fisicamente o homem e transformaria seu meio ambiente num deserto”. (ibid.).

 

 

O desenraizamento da economia jamais pode lograr sucesso, porque:

 

1º) exige que os seres humanos e o ambiente natural sejam transformados em meras mercadorias, e isso significa a destruição da sociedade e da natureza;

 

2º) os teóricos do mercado autorregulados e seus aliados empurram as sociedades, constantemente, para a beira do abismo;

 

3º) sempre que as consequências nefastas geradas por mercados incontidos e pretensamente autorregulados se escancaram, as pessoas, em geral, resistem, se recusam a seguir na marcha como cordeirinhos resignados à morte. Elas tendem a recusar os dogmas liberais da autorregulação do mercado.

 

Polanyi argumenta que os esforços dispendidos no sentido de aumentar a autonomia do mercado elevam o nível de tensão. Se extremamente elevada a tensão, ocorre a desintegração social ou a economia retorna a uma situação de maior enraizamento. Antes de desenvolver um pouco mais a visão de Polanyi sobre a impossibilidade da não intervenção do Estado na economia, segundo reza a tradição liberal, convém dar a saber uma distinção básica que o autor estabelece entre mercadorias reais e mercadorias fictícias. Essa distinção contribui para lançar luzes sobre o que ele chama de “mentira” sobre a qual repousa a teoria econômica clássica.

 

1.     Mercadorias reais e mercadorias fictícias

 

Para Polanyi, a mercadoria é algo que foi produzido para ser vendido num mercado. Nesse sentido, chapéus são mercadorias quando postos à venda. No entanto, a terra, o trabalho e o dinheiro são, para ele, mercadorias fictícias, porque, originalmente, não foram feitas para serem vendidas como as outras são. Nas palavras de Block, que escreveu a introdução da obra de Polanyi para a edição de que me valho,

 

“O trabalho é, simplesmente, atividade dos seres humanos. A terra é a natureza subdividida e a oferta de dinheiro e crédito nas sociedades modernas depende, necessariamente, de políticas governamentais. A economia moderna finge que essas mercadorias fictícias se comportarão da mesma forma que as mercadorias reais, mas Polanyi insiste em que esse truquei ilusionista tem consequências fatais. Significa que a teoria econômica baseia-se numa mentira que põe a sociedade humana em risco”. (ibid., p. 29, grifos meus)

 

Para Polanyi, é imoral tratar a natureza e os seres humanos como objetos cujo preço será determinado inteiramente pelo mercado. Isso viola os princípios, que, em sua opinião, têm regido as sociedades há séculos: a natureza e a vida humana foram quase como dotadas de valor sagrado. Com a subordinação do trabalho e da natureza ao mercado, qualquer apelo à sacralidade da vida humana é como um eco longínquo de uma religiosidade pueril. É claro que Polanyi não se limita a apresentar um argumento moral contra a subordinação da sociedade ao mercado. Sua análise acurada, que busca evidências históricas que sustentam sua argumentação, tem como escopo expor o logro do credo liberal em mercados autorregulados. Mas, se a economia não pode funcionar bem e cumprir sua função social adequadamente sem a intervenção do Estado, qual é então o papel do Estado na gerência da economia? As pessoas, muito por força do modo pasteurizado com que o discurso dos economistas pró-mercado é apresentado na grande imprensa, são levadas a crer que qualquer intervenção do Estado na economia interromperá seu crescimento, acarretará “crises”. Mas isso não tem uma sombra de verdade! Joseph Stiglitz é um dos economistas que, juntamente com Polanyi, entende que mercados não funcionam bem por conta própria. Apresentarei, en passant, o que tem a nos ensinar, nesse tocante, Stiglitz. Por ora, atenho-me às razões apresentadas por Polanyi para a impossibilidade de mercados autorregulados.

 

2.     Por que mercados autorregulados são impossíveis?

 

Vejamos, em primeiro lugar, que papel deve desempenhar o Estado na economia, segundo Polanyi. Para ele, o Estado deve ajustar a oferta de dinheiro e de crédito, a fim de evitar tanto a inflação quanto a deflação. Ademais, cabe ao Estado administrar as variações na demanda por empregados, oferecendo auxílio nos períodos de desemprego, educando e formando os futuros trabalhadores e influenciando os novos fluxos migratórios. Ao Estado compete também o dever de proteger os agricultores da oscilação das colheitas e da volatidade dos preços. Nas áreas urbanas, os governos devem-se incumbir de administrar as terras, os espaços públicos, mediante normas ambientais e a regulamentação de seu uso. Ora, uma vez que o Estado é que deve encarregar-se da gestão das três mercadorias fictícias - o trabalho, a terra e o dinheiro -, segue-se que é uma ilusão a suposição de que o Estado pode ficar fora da economia.

Ainda que destinadas ao fracasso, as tentativas para desenraizar a economia da sociedade formaram o núcleo do utópico liberalismo de mercado e a elas devemos a contumaz adesão de muitos economistas ainda hoje a esse modelo econômico. Se a experimentação da autorregulação dos mercados leva a consequências indesejáveis, os detentores da riqueza estão sempre prontos para alegar que os fracassos não resultam da concepção do projeto, mas “da falta de vontade política para implementá-lo”. (ibid., p. 30). Assim, os defensores do credo da autorregulação dos mercados têm sempre uma desculpa para explicar os fracassos de tal projeto, a despeito das experiências históricas evidenciarem a impossibilidade de sua realização. Segundo Polanyi, as sociedades de mercado se organizam por dois movimentos opostos, e isso explica por que a autorregulação do mercado é uma ilusão. Por um lado, há o movimento do laissez-faire, orientado para a expansão da lógica do mercado; por outro lado, o contramovimento contendor, que resiste ao desenraizamento da economia. Conquanto esse contramovimento encontre, nas classes trabalhadoras, seu protagonista, Polanyi afirma que todos os grupos sociais participam desse movimento de resistência.

 

“Nas ocasiões em que crises econômicas periódicas ameaçaram destruir o sistema bancário, por exemplo, grupos empresariais insistiram em que os bancos centrais fossem fortalecidos, a fim de blindar a oferta doméstica de crédito contra as pressões do mercado global”. (ibid.).

 

Os próprios capitalistas resistem, periodicamente, à incerteza e às oscilações do mercado e pedem socorro ao Estado para aumentar a estabilidade e a previsibilidade por meio de mecanismos de intervenção. Lição desconcertante de Polanyi: “o laissez-faire foi planejado; o planejamento não”. (ibid.). Uma economia desenraizada, concluirá o autor, leva a desastres. A economia do laissez-faire necessita daquele contramovimento, a fim de que se crie estabilidade.

 

3.     Os mercados precisam ser regulamentados

 

Antes de pôr fim a esta exposição, trago à baila o que tem a nos ensinar Joseph Stiglitz, em seu  O mundo em queda livre (2010), acerca da necessidade de regulação do mercado. Começo referindo uma passagem em que a posição do autor não dá margem à dúvida:

 

“Creio que os mercados estão na essência de todas as economias bem-sucedidas, mas também creio que não funcionam bem por sua conta própria. Nesse sentido, sigo a tradição do célebre economista britânico John Maynard Keynes, cuja influência se faz sentir em todos os estudos sobre economia moderna”. (Stiglitz, 2010, p. 10, grifo meu).

 

Embora eu tenha destacado em negrito o excerto em que Stiglitz nega que mercados possam funcionar bem sem qualquer mecanismo regulatório, é importante atentar para a oração que encabeça o excerto, pois que nela o autor reconhece a importância dos mercados nas economias bem-sucedidas. Portanto, não se trata de ser contra a existência dos mercados. Para Stiglitz, os governos têm um papel fundamental na economia, que não se limita a salvá-la quando o mercado fracassa, impondo-lhe regulações para prevenir tipos de fracassos semelhantes no futuro. As economias, segundo o autor, necessitam de um equilíbrio entre o papel dos mercados e o dos governos. O autor denuncia o fato de que, nos últimos 25 anos (a contar da data de publicação do livro, 2010), os Estados Unidos perderam aquele equilíbrio, mas exportaram o desiquilíbrio da relação entre governos e mercados para o mundo todo.

Os mercados não são capazes de se autorregular. Quando políticas bancárias de empréstimos através de resgate travam o crescimento econômico mundial, o governo é convocado para salvá-los dos erros que eles mesmos cometeram. Mercados precisam ser regulamentados, porque “mercados sem freios gerarão mais poder monopolista, mais abusos do setor financeiro, mais desequilíbrio nas relações comerciais”. (ibid., p. 18).

Para Stiglitz, os problemas desencadeados pela atual crise do capitalismo financeiro só podem ser solucionados politicamente; o mercado não os resolverá por si mesmo. É preciso fortalecer a democracia, segundo o autor, de modo a aumentar a responsabilidade do governo perante todo o povo. Stiglitz concorda com os que defendem que um bom desempenho econômico é dependente de um bom desempenho do sistema financeiro, mas adverte:

 

“(...) o setor financeiro não se mantém assim por suas próprias pernas; ele requer regulamentos rígidos e implementados de modo eficaz, para evitar que prejudique o restante da sociedade, além de garantir que desempenhe, de fato, suas funções primárias, aquelas a que deveria se ater”. (ibid., p. 10).

 

Mas qual é a função fundamental do sistema financeiro? O que ele deveria fazer e o que ele realmente faz? Basicamente, o sistema financeiro, na qualidade de atividade-meio, deveria cumprir uma função econômica elementar: tornar produtivas as iniciativas dos agentes econômicos, através de investimentos. Os serviços de intermediação financeira são importantes para financiar as atividades econômicas. No entanto, o sistema financeiro realiza, com regularidade, o dreno do dinheiro público, enriquecendo agentes bancários e acionistas. A financeirização da economia mundial produziu um sistema de ganhos astronômicos de dinheiro com simples emissões e negociações de papéis. Gerou-se, assim, uma elite de rentistas, de pessoas que veem sua conta bancária engordar diariamente sem precisar produzir. Stiglitz mostra, em O Grande Abismo (2016), como o sistema financeiro contribui para o crescimento da desigualdade no mundo. Mas esse tema será objeto de discussão noutro texto.

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