-->
Mostrando postagens com marcador Polarização política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Polarização política. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de agosto de 2026

"A inteligência de um governante pode ser estimada observando os homens que ele tem ao seu redor" (Nicolau Maquiavel)

 

                               



                                    O caminho para a politização

 

Se, desde as manifestações de Junho de 2013, a população brasileira parece estar mais “interessada” em política, não se segue daí que ela esteja mais politizada, no sentido de exibir um repertório de conhecimentos especializados sobre as diversas dimensões da atividade política (especialmente, saber quais são seus direitos e deveres na sociedade, saber como funciona o poder, que busca inteirar-se sobre leis, economia e práticas governamentais a fim de participar de forma crítica da vida política). Não é só a famigerada “polarização política” (diariamente martelada pela mídia) que marca, em nosso tempo, a experiência política dos brasileiros, também é marcante a defesa emocional de certas personalidades políticas. Além disso, se essa polarização constitui uma novidade recente na história do Brasil, a apatia política da população continua sendo um traço, historicamente, persistente. Embora as redes sociais oportunizem o confronto de posicionamentos político-ideológicos, todos os usuários estão expostos a discussões rasas e fragmentadas, em que diferenças de opiniões políticas são encaradas como ataques pessoais e rejeitadas sem a contraposição de argumentos. Falar mais de “matérias políticas” não significa estar instrumentalizado com saberes, teoricamente consistentes, sobre o complexo universo da política. Não apenas a maioria dos brasileiros, quase certamente, não sabe responder a questões como “O que é política”, “o que é Estado”, “o que é democracia”, “o que é mercado”, “o que é sociedade civil”, entre tantas outras que perpassam a investigação da Filosofia Política, da Sociologia e da Ciência Política, a maioria, como atesta Nunes, em Brasil no espelho (2025), também ignora o que acontece no Brasil e é justamente esta maioria que superestima seu conhecimento. Mas isso é outro problema de que não vou me ocupar aqui. 

Interessa-me insistir que ser politizado não equivale a declarar-se partidário de um ou outro espectro político e empenhar-se na defesa de sua posição ideológica - por exemplo, ser de direita ou de esquerda. Se, hoje, no Brasil, se fala muito de “política”, isso não torna nossa esfera pública mais democrática e tolerante. Ao contrário, a pesquisa Brasil no espelho mostra que as pessoas desconfiam mais de quem não segue sua mesma linha ideológica; chegam a não tolerar aqueles que divergem de suas opiniões políticas, por mais grosseiras e tolas que sejam. Quando o confronto de opiniões políticas se converte em ataques de ódio ao outro, o que construímos é um ambiente hostil ao debate e, em última instância, obstruímos o exercício pleno da democracia, que, no Brasil, não se tornou uma experiência cultural. Não temos uma cultura democrática! Mas este é um tema para outro texto. Basta-me acrescentar ao curso de minha exposição que é a própria vida social e política que, no Brasil, se tornou perigosamente conflituosa e temerária; sobretudo quando a maioria dos brasileiros, que não tem noção precisa da realidade, mas acha que sabe muito, encontra confirmação de suas crenças falsas, irreais, absurdas em outras pessoas que também não têm noção alguma da realidade.

Dois pontos são essenciais a essa discussão: 1) Se, no Brasil, mantém-se um ambiente hostil ao debate, o próprio caráter dialógico fundante da política fica inviável; 2) Como interagir com pessoas que acham que sabem muito, mas sabem pouco ou não sabem nada? Você, leitor, poderia apressar-se em responder que basta fornecer às pessoas mais informações para que elas se tornem capazes de admitir o que é verdade. Mas a ignorância não se supera tão facilmente assim. Não é apenas fornecendo mais informações a uma pessoa, que ela se tornará mais esclarecida. A informação, muitas vezes, leva ao erro, e não à verdade. Não é coletando e processando quantidades maiores de informações que nos encontraremos no caminho rumo à verdade, ao conhecimento sólido. Informações parciais ou análise falha de dados disponíveis podem levar até mesmo os especialistas ao erro. Nunes, a propósito, lembra-nos do seguinte:

 

O problema do mundo na terceira década do século XXI não é a escassez de informação, mas sim, seu excesso. O desafio é encontrar formas de discernir informação de desinformação, de qualificar a informação e de filtrar a quantidade dela. (Nunes, 2025, p. 203).

 

 

Não quero que o leitor pense que nutro expectativas irreais sobre o modo como a população brasileira deveria envolver-se no debate político. Não espero que os brasileiros se tornem especialistas em matéria política, mas um entendimento razoável do funcionamento das instituições políticas e das questões que ocupam a agenda de todos aqueles que aspiram à construção de uma sociedade mais justa e igualitária é uma condição necessária à maior e melhor participação política de todos os que estão, deveras, preocupados em mudar as condições que nos distanciam de uma vida próspera e feliz como coletividade. (vida feliz e política? - isso é coisa dos gregos antigos!).

A pesquisa empreendida para a produção do livro O Brasil no espelho patenteia um dado alarmante: “os brasileiros não estão bem informados, portanto a maioria parece não saber o que acontece no país”. (ibid., p. 201). Se vivessem na Grécia Antiga do século IV a.C., os brasileiros seriam ignorados na ágora, onde os cidadãos atenienses se reuniam para discutir assuntos de interesse público.

Reportemos há cerca de 2.400 anos, quando Aristóteles ensinava na Grécia. A vida cotidiana dos gregos era muito diferente da vida dos brasileiros hoje, sob muitos aspectos, que não valem menção aqui. Mas há uma coisa que não mudou desde aquele tempo: os pensadores da Grécia Antiga acreditavam, como acreditam os nossos intelectuais de hoje e as pessoas de bom senso, que a vida social e política não se realiza plenamente, se as pessoas não souberem o que acontece no dia a dia de sua sociedade. Elas precisam saber o que acontece em sua cidade, em seu país, entender a realidade sociopolítica, histórica para que exista o que Jürgen Habermas chamou de “esfera pública”, área em que os cidadãos têm liberdade para debater os problemas da vida em comunidade. Ora, se não se tem conhecimento da realidade, não é possível discuti-la. Não estou certo de que devemos considerar as redes sociais a nova esfera pública ou uma nova modalidade dessa esfera, porque entendo que não há, nas plataformas digitais como Facebook e Instagram, debate político. O que desfila, nesses ambientes digitais, são opiniões, muitas vezes, irreais, grosseiras e eivadas de ofensas aos que divergem delas. Além disso, essas opiniões circulam sem qualquer conexão com o tópico discursivo, isto é, o assunto principal de uma notícia política, por exemplo, que assanha o hábito dos brasileiros de opinar sobre tudo. Quem, de fora, acompanha o desenrolar das manifestações verbais perde de vista, a certa altura, o tema central que as motivou, já que elas se degeneram em ofensas pessoais.

Se você, que me acompanhou até aqui, está entre os milhares de milhões que “navegam” nesse oceano cheio de escolhos de tolices que impedem ou esterilizam a reflexão equilibrada, teoricamente fundamentada, da realidade social e política, que são as redes sociais, convido-lhe a deixar, momentaneamente, esse lodaçal do senso comum, que tende a operar simplificações da realidade, para arriscar-se numa compreensão mais filosófica, sociológica e antropologicamente consistente da questão política.

A política é uma dimensão da condição humana no mundo bastante complexa; aliás como o é a realidade mesma! Por isso, vou-me cingir a dar a conhecer 3 definições de política que são correntes na literatura especializada, ou mais precisamente, nos manuais de Filosofia Política. O que, sinceramente, desejo é que você, terminada a leitura deste texto, se convença de que a política, enquanto uma dimensão da condição humana, não está limitada ao aparato burocrático-governamental dos Estados-nação; e se convença, sobretudo, de que você não se tornou mais politizado ou politizada simplesmente porque se envolve, quase diariamente, em arengas tolas, nas redes sociais, animadas quer pelas paixões irracionais da idolatria, quer por supostos saberes sobre conceitos como ‘comunismo’, ‘capitalismo’, ‘Estado’, ‘liberalismo’, ‘mercado’, cuja compreensão exige anos de estudos formais na academia, os quais, por sua vez, implicam o convívio íntimo com os livros dedicados ao estudo dos fenômenos que eles descrevem. 

No senso comum, a palavra política, quando não empregada com conotações negativas que bloqueiam qualquer compreensão da política como um tipo de atividade humana e transformadora do real, refere-se, quase sempre, à política institucional, no horizonte da qual se fala  sobre as ações e omissões de um deputado, de um órgão da administração pública,  ou sobre as práticas dos partidos políticos, sobre as medidas adotadas pelo governo de ocasião, etc. A política institucional recobre, portanto, os partidos políticos, o governo, o parlamento, as eleições gerais ou municipais, as campanhas destinadas a angariar votos dos eleitores, etc. Um comício, por exemplo, é uma reunião política.

A palavra política origina-se do adjetivo grego pólis (politikós), que diz respeito à cidade e, consequentemente, ao que é público, urbano, civil. Pólis recobre também o que é social e sociável. O termo política tornou-se significativamente mais amplo em virtude da obra Política de Aristóteles, considerada “o primeiro tratado sobre a natureza, funções e divisão do Estado, e sobre as várias formas de Governo”. (Bobbio, 1995, p. 954). Segundo Bobbio, a ciência do Governo estuda as coisas da cidade.

O termo política sofreu uma transposição de significado, desde sua origem. Originalmente, ele recobria o conjunto de coisas qualificadas de “políticas”, mas, com o tempo, passou a significar o tipo de saber, mais ou menos organizado, sobre esse mesmo conjunto de coisas. Durante muitos séculos, usou-se o termo política para designar os livros dedicados ao estudo da esfera de atividades humanas que inclui, de algum modo, assuntos referentes ao Estado.

Na modernidade, a palavra política foi perdendo, pouco a pouco, seu significado original e adquirindo o sentido de ciência do Estado, doutrina do Estado ou Filosofia Política. Todas essas expressões recortam a noção de que a política se ocupa do conjunto de atividades que, de alguma maneira, tem na pólis seu objeto de preocupação. Mas a pólis agora é um termo empregado como equivalente ao termo Estado. A pólis é, assim, o sujeito, quando a esfera política recobre os atos de ordenar ou proibir alguma coisa com efeitos vinculadores para todos os membros do grupo social, ou o exercício de um domínio exclusivo sobre um determinado território (função básica do Estado), o legislar por meio de normas válidas erga omnes (para todos e não apenas para os envolvidos num processo), o tirar e transferir recursos de um setor da sociedade para outros (também uma função estatal). Outras vezes, a pólis se torna objeto, quando são recobertas pela esfera política ações como a conquista, a manutenção, a defesa, a ampliação, o robustecimento, a derrubada, a destruição do poder estatal.

Minha preocupação básica na produção deste texto é contribuir para que você, leitor ou leitora, se aperceba de que o fenômeno político é muito mais complexo do que sugerem os noticiários televisivos sobre os acontecimentos políticos do país e que pode ser mais interessante do que os recortes que dele nos oferecem a imprensa. Minha preocupação, contudo, vai além: quero que você, leitor ou leitora, entenda que política se discute sim, mas não sob a forma rasa, simplista e contaminada por paixões que nos cegam, que nos bloqueiam o senso crítico, tão corrente nas redes sociais. Toda a lenga-lenga, a cantilena em torno do nome de personalidades políticas (Lula x Bolsonaro), de espectros ideológicos (Direita x Esquerda) não constitui um sinal de que os brasileiros estão mais politizados, mas que são apenas “idiotas confiantes”.

Em seu Antropologia, Mércio Pereira Gomes afirma que “a política diz respeito ao poder e sua distribuição desigual entre os homens”. (Gomes, 2011, p. 115). Uma das formas de compreender o fenômeno político é pelo estudo do que é o poder, como ele é adquirido, quem o detém, onde ele se encontra e para que ele serve. Se, como sugere Gomes, o poder é o elemento central da atividade política, então não se compreende adequadamente o que é a política sem compreender o fenômeno do poder. Convém, pois, dissertar sobre a relação entre a política e o poder. Esta relação está no cerne da primeira definição de política possível (há outras possíveis definições, como veremos).

 

1.    Política como práxis humana ligada ao poder

 

Quando definida como práxis humana, a política é considerada como atividade intimamente ligada ao poder. Ora, mas se queremos entender o que é política, precisamos saber o que é o poder. Como defini-lo? Não faltam definições de poder na literatura especializada. No entanto, tradicionalmente, pode-se definir o poder como o que é “consistente com os meios adequados à obtenção de qualquer vantagem” (Hobbes) ou ainda “o conjunto dos meios que permitem alcançar os efeitos desejados” (Rousseau). Um desses meios é, além do domínio sobre a natureza, o domínio sobre outros seres humanos. Por vezes, o poder é definido como uma relação entre dois sujeitos sociais, na qual um deles impõe sua própria vontade ao outro, determinando-lhe o comportamento. Veja-se que até aqui o conceito de poder compreende a ideia de propriedade que alguém possui e que lhe permite fazer coisas segundo sua vontade ou dominar outros, determinando-lhe o comportamento. Mas o domínio sobre os outros é, quase sempre, apenas um meio para a obtenção de outros fins vantajosos. Por isso, o poder é a posse dos meios (no conjunto dos quais se inclui o domínio sobre a natureza e sobre outros seres humanos) indispensáveis à obtenção dos efeitos ou vantagens desejados. Se assumimos que o poder é o elemento central da atividade política, então podemos conceber a política como a arte de conquista, distribuição e manutenção do poder. É claro, leitor, que essa concepção de política não esgota a complexidade do fenômeno político. Complexidade, aliás, é a palavra-chave quando estamos interessados em conhecer a realidade.

Segundo Bobbio, podemos distinguir entre três tipos de poder: o poder econômico, o poder ideológico e o poder político. Lanço alguma luz sobre essas três formas de poder, dando um enfoque especial ao poder político.

O que queremos dizer quando dizemos que alguém, uma corporação ou uma nação tem poder econômico? Queremos dizer que essa pessoa, corporação ou nação (pensemos nos Estados Unidos, nos grandes empresários que influenciam as decisões do Governo) se vale da posse de certos bens, necessários ou considerados como tais, numa situação de escassez, para forçar aqueles que não os possuem a manter um certo comportamento, consistente, sobretudo, com a realização de um tipo de trabalho. O poder econômico se exerce quer na esfera das relações institucionais dentro de um país, quer na esfera das relações internacionais. Em nossas sociedades capitalistas, ele se manifesta de forma opressiva na esfera da produção. Cito Bobbio:

 

Na posse dos meios de produção reside uma enorme fonte de poder para aqueles que não os tem:  o poder do chefe de uma empresa deveria da possibilidade que a posse ou a disponibilidade dos meios de produção lhe oferece de poder vender a força de trabalho em troca de um salário. Em geral, todo aquele que possui abundância de bens é capaz de determinar o comportamento de quem se encontra em condições de penúria, mediante a promessa e a concessão de vantagens. (Bobbio, ibid., p. 955).

 

Ora, se você, leitor ou leitora incautos, não compreende como se constitui o poder econômico no modo de produção capitalista, continuará repisando a crença falsa e enganosa segundo a qual os empresários é que dão oportunidades de trabalho. Eles não oferecem trabalho, mas forçam a maioria da população despossuída a trabalhar nas condições fixadas por eles em troca de um salário, sem o qual ela sofreria com a fome e a miséria.

No tangente ao poder ideológico, pode-se defini-lo como a influência que as ideias, formuladas, de um certo modo, e expressas, em certas circunstâncias, por uma pessoa ou grupo investidos de autoridade, exercem sobre a conduta de outros indivíduos. O poder ideológico encarna-se naqueles que sabem, como os sacerdotes das sociedades arcaicas, ou como os intelectuais e cientistas das sociedades modernas, porque é através deles que os valores dominantes e os conhecimentos especializados se comunicam,  e é através deles que se consuma o processo de socialização necessário à coesão e integração do grupo. Não cabe aqui esmiuçar o funcionamento do poder ideológico; minha preocupação é esclarecer o poder político.

O que comumente chamamos de poder político é o poder que tem um individuo sobre outro indivíduo. Esta relação de poder se expressa de várias maneiras na vida em sociedade: como relação entre governantes e governados, entre soberano e súditos, entre Estado e cidadãos, entre pais e filhos, etc. Há, portanto, várias maneiras pelas quais um indivíduo pode exercer poder sobre outro indivíduo, e o poder político é apenas uma delas. Na tradição clássica da filosofia política que remonta Aristóteles, discriminavam-se três formas principais de poder: o poder paterno, o poder despótico e o poder político. Note-se que, na esteira de Aristóteles, o déspota não é político; o despotismo, modernamente definido como uma forma de governo no qual o governante dispõe de poder irrestrito sobre os governados, é uma ruptura com a esfera política.

Vários critérios de distinção entre essas três formas de poder foram propostos no curso do tempo. Em Aristóteles, o critério de distinção baseia-se no interesse daquele em benefício de quem se exerce o poder. O poder paterno é exercido em benefício dos filhos. O poder despótico é exercido em benefício do senhor. O poder político é exercido em benefício tanto de quem governa quanto dos governados. Mas o poder político só se realiza, segundo o Estagirita, nas formas corretas de Governo. Nas formas de Governo em que predominam os vícios, o poder é exercido em benefício exclusivo dos governantes. Você deve ter percebido, leitor, que o poder político é partilhado entre aqueles que ocupam o Governo e aqueles que integram o que chamamos modernamente de sociedade civil, ou seja, entre governantes e cidadãos. O exercício do poder político não pode ser exercido de modo ilimitado, sob pena de degringolar em tiranias.

O critério, contudo, que terminou por consagrar-se nos tratados de jusnaturalismo foi o do fundamento ou princípio de legitimação. Ou seja, não se obtém o poder político por usurpação. Encontramos esse critério formulado por Locke, em seu Segundo Tratado sobre o governo (1689). Nessa obra, Locke argumenta que o fundamento do poder civil (político) é o consenso. Sucede que nem o critério estabelecido por Aristóteles nem o proposto por Locke dão conta de assinalar o caráter específico do poder político. Quer se diferencie por voltar-se para o interesse dos governantes e dos governados, quer por basear-se no consenso, o poder político não nos permite ver o caráter distintivo de qualquer Governo, mas apenas do bom Governo. Em qualquer dos casos, o poder político supõe, como condição de sua realização, um Governo ideal, um Governo tal como deveria ser. De passagem, faço ver ao leitor que passei a me referir a ‘Governo’, sem esclarecer não só seu significado, mas também sua relação com o poder político (embora a relação tenha sido tacitamente enunciada quando me referi à obra Política de Aristóteles) . Não obstante, tecerei os esclarecimentos necessários ao alcance de um entendimento adequado pelo leitor, após a apresentação das três definições de política. Prossigo, por ora, tratando do poder político.

O poder político, por fim, consiste na posse dos instrumentos mediante os quais se exerce a força física (as armas de todos os tipos e potência). O poder político, o poder econômico e o poder ideológico fundamentam, conservam e reproduzem uma estrutura social dividida em classes, isto é, em ricos e pobres (poder econômico), em sábios e ignorantes (poder ideológico) e em fortes e fracos (poder político). Assim, segundo Bobbio,

 

Como o poder cujo meio específico é a força, de longe o meio mais eficaz para condicionar os comportamentos, o poder político é, em toda a sociedade de desiguais, o poder supremo, ou seja, o poder ao qual todos os demais estão de algum modo subordinados (...)”. (Bobbio, ibid., p. 955-956).

 

Antes de me deter na discussão das três definições de política, gostaria de precisar melhor o conceito de poder. A vida intelectual reconhece o caráter complexo da realidade; por isso, se queremos compreender verdadeiramente a realidade, necessitamos desenvolver a capacidade do pensamento complexo. Para que você entenda, leitor, a concepção de uma realidade complexa, refiro abaixo as palavras de Morin:

 

[...] a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associadas: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Num segundo momento, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico. Mas então a complexidade se apresenta com os traços inquietantes do emaranhado, do inextricável, da desordem, da ambiguidade e da incerteza... Por isso, o conhecimento necessita ordenar os fenômenos rechaçando a desordem, afastar o incerto, isto é, selecionar os elementos da ordem e da certeza, precisar, clarificar, distinguir, hierarquizar... Mas tais operações, necessárias à inteligibilidade, correm o risco de provocar a cegueira, se elas eliminam os outros aspectos do complexus.[1]

 

Vemos, pois, que a complexidade da realidade envolve imperfeição e incerteza. A complexidade exige o reconhecimento do irredutível, a saber, do que não pode ser reduzido ao simples, do que não se presta a simplificações. Por conseguinte, na vida intelectual, o objeto do conhecimento não tem nada de simples, de unívoco. No senso comum, usamos a palavra “poder”, por exemplo, em diversos contextos, como se ela significasse a mesma coisa em qualquer contexto. Mas o fenômeno do poder, como uma dimensão dessa realidade intrinsecamente complexa, é também complexo, multifacetado, de modo que sua análise exige múltiplas perspectivas. Não estou sugerindo que devemos conhecer todas as maneiras pelas quais o poder foi concebido, analisado; mas precisamos estar ciente de que os conceitos com quais operamos para descrever, analisar e compreender a realidade são sempre, necessariamente, conceitos polissêmicos, complexos.

Portanto, a abordagem predominante do poder, influenciada pelas ideias de Max Weber, está centrada no exercício dos poderes que permitem a tomada de decisões em organizações sociais, tais como o Estado, as empresas comerciais, as universidades, as igrejas, etc. Nessas instituições, as relações de poder são assimétricas e se estruturam em torno dos interesses e objetivos conflitantes dos participantes. Há uma segunda abordagem de poder bastante influente, que se origina de um conjunto de preocupações atinentes ao modo como as estruturas institucionais moldam o exercício do poder. Essa abordagem foi desenvolvida por Antonio Gramsci, Talcott Parsons e Michel Foucault. Em linhas gerais, essa abordagem do poder tem como escopo as estratégias e técnicas de poder e sua preocupação básica é mostrar como ele é difundido pela sociedade. O poder não é visto apenas como uma propriedade restrita às organizações soberanas, como o Estado; mas como uma propriedade coletiva dos sistemas sociais, cujos atores são vistos como cooperadores. O poder facilita, portanto, tanto o fortalecimento quanto a disciplina coletiva. Uma das grandes lições de Foucault, nesta seara, foi mostrar que as formas de poder mais eficazes são aquelas exercidas por pessoas que aprenderam a disciplinar o seu próprio comportamento. Elas foram, enquanto sujeitos, constituídas discursivamente em subalternos que se conformam, sem que seja necessária qualquer ação direta da parte de um superior.

 

2.    Três definições de política

 

A primeira definição de política é a de política como um tipo de atividade humana. Claro é que ainda não se esclareceu a especificidade desse tipo de atividade humana. Há muitas formas de atividade que os seres humanos realizam. A política é um tipo dentre elas. A política é uma atividade que realizamos em conjunto. Mackenzie, em Política: conceitos-chave (2011), ensina que não há atividade política sem o encontro com os outros:

 

Estando o indivíduo sozinho, na ilha deserta que tantas vezes imaginamos, dele não se diria que pudesse estar envolvido em atividade política, porque, simplesmente, não teria com que interagir. (Mackenzie, ibid., p. 12).

 

 

Ora, vê-se que a política é uma atividade que exige a interação entre, pelo menos, duas pessoas. No entanto, não se segue daí que toda interação humana seja de natureza política. A interação entre, pelo menos, duas pessoas é condição necessária, porém, não é condição suficiente para que haja atividade política.

Essa primeira definição de política pode ser chamada de definição lato sensu (em sentido amplo). À luz dessa concepção ampliada de política, ela constitui uma dimensão universal da condição humana e se realiza sempre que dois ou mais seres humanos se encontrem engajados em alguma atividade coletiva, quer formal, quer informal, pública ou privada. A política é um meio para resolver disputas, mas não o único, é claro. Imaginemos dois ilhéus empenhados na resolução de um conflito de interesses. Eles poderiam estar divergindo quanto à melhor maneira de distribuir os recursos da ilha, ou sobre o modo de reparti-la, para que cada um tivesse sua porção de terra. Se eles recorressem à violência ou ao jogo de cara ou coroa, não estariam realizando uma atividade política. Como assinala Mackenzie, “(...) a solução dos problemas envolvidos será, muito provavelmente, o resultado de uma atividade que estamos caracterizando como política, por exemplo, [se] algum debate ou discussão sobre como deveriam resolver o seu choque de interesses [acontecesse]”. (ibid., p. 13). Aqui preciso ser enfático: a palavra, o diálogo, a discussão racional (argumentada) constitui o cerne da atividade política. Se duas pessoas se agridem fisicamente ou verbalmente em virtude de um conflito de interesses, elas deixam o campo político, que consiste em coexistir mediando conflitos, divergências através do lógos.

A segunda definição de política é a que a concebe como um modo específico de obter consenso em condições em que há divergência entre pessoas. Os participantes da atividade política precisam estar engajados num processo cuja finalidade é o estabelecimento de normas e padrões que os ajudem a resolver disputas futuras. Não se espera que eles estejam apenas preocupados em satisfazer seus interesses imediatos. Como forma de atividade que visa à produção de consenso entre pessoas ou grupos, a política é, pois, definida como a arte de resolver conflitos de forma apropriada, sem o recurso à violência ou à tirania.

A terceira definição de política é aquela que a vê como um meio para a realização do bem comum. O conflito não está excluído do domínio político, já que é quase inevitável que o encontro prolongado entre duas pessoas gere, em algum momento, divergência de interesses e opiniões. Mas agora podemos pensar a política como uma atividade por meio da qual interesses divergentes podem ser reconciliados, no âmbito de uma unidade de governo. Nesse caso, para que seja resolvida a divergência de interesses politicamente, é necessária a atribuição de participação dos envolvidos no poder, em medida proporcional à sua importância para o bem-estar e sobrevivência de toda a comunidade. Nessa terceira definição de política, a política não é, essencialmente, uma atividade destinada à resolução de conflitos. Ela é um empreendimento muito mais cooperativo. Por meio dela, busca-se promover o bem-estar e sobrevivência da coletividade, da sociedade, de modo que a contradição entre interesses egoístas, as disputas de interesses entre duas ou mais pessoas devem ser resolvidas em nome do bem-estar da sociedade. Como ensina Mackenzie, “ao invés de pressupor divergência e conflito, pode ser que a melhor maneira de pensar a política seja a busca do bem comum”. (ibid., p. 14). O que é esse bem-comum é outro problema que a filosofia deve encarregar-se de definir. De qualquer modo, essa terceira maneira de conceber a atividade política leva-nos à conclusão de que sua finalidade não é propriamente a resolução de alguma divergência relacionada à posse e distribuição de recursos. A política pressupõe a cooperação e a busca do que os gregos chamavam vida boa. Evidentemente, o que era concebido como vida boa na Grécia do século IV a.C é bastante diverso do que nós, indivíduos de sociedades capitalistas do século XXI d.C., entendemos por “vida boa”. Seja como for, o que valia para os antigos gregos continua valendo para nós hoje: a política deve servir à realização da felicidade das coletividades humanas, não apenas à realização da felicidade individual. Decerto, é mais difícil alcançar esse objetivo em sociedades marcadas pelo individualismo como as sociedades ocidentais ou as sociedades influenciadas pelos valores capitalistas.

O que importa, neste texto, é, no entanto, mostrar ao leitor ou leitora que é possível pensar a atividade política de modo diverso de como as pessoas comuns a pensam, nas suas vivências diárias, sempre que a sua atenção se volta para as práticas institucionais da política em nossa sociedade. Segundo pesquisa realizada pela Quaest, em Abril de 2026, 50% dos brasileiros declaram estar pessimistas quando o assunto é o sistema político do país (https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/04/21/quaest-otimismo-brasil.ghtml). Pensar diversamente o modo de realizar a atividade política, sobretudo no seu âmbito institucional, é indispensável à luta pela sua transformação. O fatalismo, também em matéria política, só leva à imobilização, à apatia e ao enrijecimento do status quo.

A terceira acepção de política que venho apresentando aqui deita raízes no pensamento de diversos filósofos desde a Antiguidade: de Aristóteles, passando por Rousseau, no século XVIII, a Hannah Arendt, no século XX. Mais recentemente, nessa tradição da filosofia política, deve-se situar Michael Sandel. Para este autor, a política não pressupõe a divergência, o conflito, mas a cooperação e a busca da vida boa, na qual podem engajar-se todos os cidadãos.

 

Para concluir

 

Eu disse que retomaria a relação entre política e governo. Não há dúvida de que, no imaginário social, sempre que pensamos em política, associamo-la, frementemente, a Governos. Governar pode ser entendido em várias acepções. No âmbito dos estudos sobre política, pode-se definir governar como um modo de controle ou de influência sobre uma pessoa ou povo nos domínios de um território com vistas a orientar, fixar a conduta dessa pessoa ou povo. O termo governo, por sua vez, pode designar:

 

a)     O ato de governar;

b)     O conjunto daqueles que nos governam;

c)     O aparato ou a maquinaria da organização investida da autoridade para governar.

 

Assim, a política tem a ver também com a maneira como somos governados.

 

(...) independentemente de se priorizar ora o conflito, ora a conciliação, ou ainda a decisão coletiva, podemos perceber que a política tem algo a ver com a maneira como somos governados por normas. (Mackenzie, ibid., p. 17).

 

 

Mas, advirto o leitor sobre um fato importante: somos governados por novas formas de governança que só crescem e que não dependem estritamente da atividade do Governo, ainda que estejam intimamente ligados a ele. O filósofo que melhor nos esclarece sobre como somos constituídos, moldados, fabricados por essas formas de governança em nossas práticas da vida diária é Michel Foucault, mas esse é um tema para outro texto.

 




[1] MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Tradução de Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2015b, p. 13-14. (grifos nossos).