O
caminho para a politização
Se, desde as manifestações de
Junho de 2013, a população brasileira parece estar mais “interessada” em
política, não se segue daí que ela esteja mais politizada, no sentido de exibir
um repertório de conhecimentos especializados sobre as diversas dimensões da
atividade política (especialmente, saber quais são seus direitos e deveres na
sociedade, saber como funciona o poder, que busca inteirar-se sobre leis,
economia e práticas governamentais a fim de participar de forma crítica da vida
política). Não é só a famigerada “polarização política” (diariamente martelada
pela mídia) que marca, em nosso tempo, a experiência política dos brasileiros,
também é marcante a defesa emocional de certas personalidades políticas. Além
disso, se essa polarização constitui uma novidade recente na história do
Brasil, a apatia política da população continua sendo um traço, historicamente,
persistente. Embora as redes sociais oportunizem o confronto de posicionamentos
político-ideológicos, todos os usuários estão expostos a discussões rasas e
fragmentadas, em que diferenças de opiniões políticas são encaradas como
ataques pessoais e rejeitadas sem a contraposição de argumentos. Falar mais de
“matérias políticas” não significa estar instrumentalizado com saberes,
teoricamente consistentes, sobre o complexo universo da política. Não apenas a
maioria dos brasileiros, quase certamente, não sabe responder a questões como
“O que é política”, “o que é Estado”, “o que é democracia”, “o que é mercado”,
“o que é sociedade civil”, entre tantas outras que perpassam a investigação da
Filosofia Política, da Sociologia e da Ciência Política, a maioria, como atesta
Nunes, em Brasil no espelho (2025), também ignora o que
acontece no Brasil e é justamente esta maioria que superestima seu
conhecimento. Mas isso é outro problema de que não vou me ocupar aqui.
Interessa-me insistir que ser
politizado não equivale a declarar-se partidário de um ou outro espectro
político e empenhar-se na defesa de sua posição ideológica - por exemplo, ser
de direita ou de esquerda. Se, hoje, no Brasil, se fala muito de “política”,
isso não torna nossa esfera pública mais democrática e tolerante. Ao contrário,
a pesquisa Brasil no espelho mostra que as pessoas desconfiam
mais de quem não segue sua mesma linha ideológica; chegam a não tolerar aqueles
que divergem de suas opiniões políticas, por mais grosseiras e tolas que sejam.
Quando o confronto de opiniões políticas se converte em ataques de ódio ao
outro, o que construímos é um ambiente hostil ao debate e, em última instância,
obstruímos o exercício pleno da democracia, que, no Brasil, não se tornou uma
experiência cultural. Não temos uma cultura democrática! Mas este é um tema
para outro texto. Basta-me acrescentar ao curso de minha exposição que é a
própria vida social e política que, no Brasil, se tornou perigosamente
conflituosa e temerária; sobretudo quando a maioria dos brasileiros, que não
tem noção precisa da realidade, mas acha que sabe muito, encontra confirmação
de suas crenças falsas, irreais, absurdas em outras pessoas que também não têm
noção alguma da realidade.
Dois pontos são essenciais a
essa discussão: 1) Se, no Brasil, mantém-se um ambiente hostil ao debate, o
próprio caráter dialógico fundante da política fica inviável; 2) Como interagir
com pessoas que acham que sabem muito, mas sabem pouco ou não sabem nada? Você,
leitor, poderia apressar-se em responder que basta fornecer às pessoas mais
informações para que elas se tornem capazes de admitir o que é verdade. Mas a
ignorância não se supera tão facilmente assim. Não é apenas fornecendo mais
informações a uma pessoa, que ela se tornará mais esclarecida. A informação,
muitas vezes, leva ao erro, e não à verdade. Não é coletando e processando
quantidades maiores de informações que nos encontraremos no caminho rumo à
verdade, ao conhecimento sólido. Informações parciais ou análise falha de dados
disponíveis podem levar até mesmo os especialistas ao erro. Nunes, a propósito,
lembra-nos do seguinte:
O problema
do mundo na terceira década do século XXI não é a escassez de informação, mas
sim, seu excesso. O desafio é encontrar formas de discernir informação de
desinformação, de qualificar a informação e de filtrar a quantidade dela.
(Nunes, 2025, p. 203).
Não quero que o leitor pense que
nutro expectativas irreais sobre o modo como a população brasileira deveria
envolver-se no debate político. Não espero que os brasileiros se tornem
especialistas em matéria política, mas um entendimento razoável do funcionamento
das instituições políticas e das questões que ocupam a agenda de todos aqueles
que aspiram à construção de uma sociedade mais justa e igualitária é uma
condição necessária à maior e melhor participação política de todos os que
estão, deveras, preocupados em mudar as condições que nos distanciam de uma
vida próspera e feliz como coletividade. (vida feliz e política? - isso é coisa
dos gregos antigos!).
A pesquisa empreendida para a
produção do livro O Brasil no espelho patenteia um dado
alarmante: “os brasileiros não estão bem informados, portanto a maioria
parece não saber o que acontece no país”. (ibid., p. 201). Se vivessem
na Grécia Antiga do século IV a.C., os brasileiros seriam ignorados na ágora,
onde os cidadãos atenienses se reuniam para discutir assuntos de interesse
público.
Reportemos há cerca de 2.400
anos, quando Aristóteles ensinava na Grécia. A vida cotidiana dos gregos era
muito diferente da vida dos brasileiros hoje, sob muitos aspectos, que não
valem menção aqui. Mas há uma coisa que não mudou desde aquele tempo: os pensadores
da Grécia Antiga acreditavam, como acreditam os nossos intelectuais de hoje e
as pessoas de bom senso, que a vida social e política não se realiza
plenamente, se as pessoas não souberem o que acontece no dia a dia de sua
sociedade. Elas precisam saber o que acontece em sua cidade, em seu país,
entender a realidade sociopolítica, histórica para que exista o que Jürgen
Habermas chamou de “esfera pública”, área em que os cidadãos têm liberdade para
debater os problemas da vida em comunidade. Ora, se não se tem conhecimento da
realidade, não é possível discuti-la. Não estou certo de que devemos considerar
as redes sociais a nova esfera pública ou uma nova modalidade dessa esfera,
porque entendo que não há, nas plataformas digitais como Facebook e Instagram, debate
político. O que desfila, nesses ambientes digitais, são opiniões, muitas
vezes, irreais, grosseiras e eivadas de ofensas aos que divergem delas. Além
disso, essas opiniões circulam sem qualquer conexão com o tópico discursivo,
isto é, o assunto principal de uma notícia política, por exemplo, que assanha o
hábito dos brasileiros de opinar sobre tudo. Quem, de fora, acompanha o
desenrolar das manifestações verbais perde de vista, a certa altura, o tema
central que as motivou, já que elas se degeneram em ofensas pessoais.
Se você, que me acompanhou até
aqui, está entre os milhares de milhões que “navegam” nesse oceano cheio de
escolhos de tolices que impedem ou esterilizam a reflexão equilibrada,
teoricamente fundamentada, da realidade social e política, que são as redes sociais,
convido-lhe a deixar, momentaneamente, esse lodaçal do senso comum, que tende a
operar simplificações da realidade, para arriscar-se numa compreensão mais
filosófica, sociológica e antropologicamente consistente da questão política.
A política é
uma dimensão da condição humana no mundo bastante complexa; aliás como o é a
realidade mesma! Por isso, vou-me cingir a dar a conhecer 3 definições de
política que são correntes na literatura especializada, ou mais precisamente,
nos manuais de Filosofia Política. O que, sinceramente, desejo é que você,
terminada a leitura deste texto, se convença de que a política, enquanto uma
dimensão da condição humana, não está limitada ao aparato
burocrático-governamental dos Estados-nação; e se convença, sobretudo, de que
você não se tornou mais politizado ou politizada simplesmente porque se
envolve, quase diariamente, em arengas tolas, nas redes sociais, animadas quer
pelas paixões irracionais da idolatria, quer por supostos saberes sobre
conceitos como ‘comunismo’, ‘capitalismo’, ‘Estado’, ‘liberalismo’, ‘mercado’,
cuja compreensão exige anos de estudos formais na academia, os quais, por sua
vez, implicam o convívio íntimo com os livros dedicados ao estudo dos fenômenos
que eles descrevem.
No senso comum, a palavra política,
quando não empregada com conotações negativas que bloqueiam qualquer
compreensão da política como um tipo de atividade humana e transformadora do
real, refere-se, quase sempre, à política institucional, no
horizonte da qual se fala sobre as ações e omissões de um deputado,
de um órgão da administração pública, ou sobre as práticas dos
partidos políticos, sobre as medidas adotadas pelo governo de ocasião, etc. A
política institucional recobre, portanto, os partidos políticos, o governo, o
parlamento, as eleições gerais ou municipais, as campanhas destinadas a angariar
votos dos eleitores, etc. Um comício, por exemplo, é uma reunião política.
A palavra política origina-se
do adjetivo grego pólis (politikós), que diz respeito à
cidade e, consequentemente, ao que é público, urbano, civil. Pólis recobre
também o que é social e sociável. O termo política tornou-se
significativamente mais amplo em virtude da obra Política de
Aristóteles, considerada “o primeiro tratado sobre a natureza, funções e
divisão do Estado, e sobre as várias formas de Governo”. (Bobbio, 1995, p.
954). Segundo Bobbio, a ciência do Governo estuda as coisas da cidade.
O termo política sofreu
uma transposição de significado, desde sua origem. Originalmente, ele recobria
o conjunto de coisas qualificadas de “políticas”, mas, com o tempo, passou a
significar o tipo de saber, mais ou menos organizado, sobre esse mesmo conjunto
de coisas. Durante muitos séculos, usou-se o termo política para designar os
livros dedicados ao estudo da esfera de atividades humanas que inclui, de algum
modo, assuntos referentes ao Estado.
Na modernidade, a palavra política foi
perdendo, pouco a pouco, seu significado original e adquirindo o sentido
de ciência do Estado, doutrina do Estado ou Filosofia
Política. Todas essas expressões recortam a noção de que a política se
ocupa do conjunto de atividades que, de alguma maneira, tem na pólis seu
objeto de preocupação. Mas a pólis agora é um termo empregado
como equivalente ao termo Estado. A pólis é, assim, o sujeito,
quando a esfera política recobre os atos de ordenar ou proibir alguma coisa com
efeitos vinculadores para todos os membros do grupo social, ou o exercício de
um domínio exclusivo sobre um determinado território (função básica do Estado),
o legislar por meio de normas válidas erga omnes (para todos e
não apenas para os envolvidos num processo), o tirar e transferir recursos de
um setor da sociedade para outros (também uma função estatal). Outras vezes,
a pólis se torna objeto, quando são recobertas pela esfera
política ações como a conquista, a manutenção, a defesa, a ampliação, o
robustecimento, a derrubada, a destruição do poder estatal.
Minha preocupação básica na
produção deste texto é contribuir para que você, leitor ou leitora, se aperceba
de que o fenômeno político é muito mais complexo do que sugerem os noticiários
televisivos sobre os acontecimentos políticos do país e que pode ser mais
interessante do que os recortes que dele nos oferecem a imprensa. Minha
preocupação, contudo, vai além: quero que você, leitor ou leitora, entenda que
política se discute sim, mas não sob a forma rasa, simplista e contaminada por
paixões que nos cegam, que nos bloqueiam o senso crítico, tão corrente nas
redes sociais. Toda a lenga-lenga, a cantilena em torno do nome de
personalidades políticas (Lula x Bolsonaro), de espectros ideológicos (Direita
x Esquerda) não constitui um sinal de que os brasileiros estão mais
politizados, mas que são apenas “idiotas confiantes”.
Em seu Antropologia,
Mércio Pereira Gomes afirma que “a política diz respeito ao poder e
sua distribuição desigual entre os homens”. (Gomes, 2011, p. 115). Uma das
formas de compreender o fenômeno político é pelo estudo do que é o poder, como
ele é adquirido, quem o detém, onde ele se encontra e para que ele serve. Se,
como sugere Gomes, o poder é o elemento central da atividade política, então
não se compreende adequadamente o que é a política sem
compreender o fenômeno do poder. Convém, pois, dissertar sobre a relação entre
a política e o poder. Esta relação está no cerne da primeira definição de
política possível (há outras possíveis definições, como veremos).
1. Política
como práxis humana ligada ao poder
Quando definida como práxis
humana, a política é considerada como atividade intimamente ligada ao
poder. Ora, mas se queremos entender o que é política, precisamos saber o que é
o poder. Como defini-lo? Não faltam definições de poder na literatura
especializada. No entanto, tradicionalmente, pode-se definir o poder como o que
é “consistente com os meios adequados à obtenção de qualquer vantagem” (Hobbes)
ou ainda “o conjunto dos meios que permitem alcançar os efeitos desejados”
(Rousseau). Um desses meios é, além do domínio sobre a natureza, o domínio
sobre outros seres humanos. Por vezes, o poder é definido
como uma relação entre dois sujeitos sociais, na qual um deles impõe
sua própria vontade ao outro, determinando-lhe o comportamento. Veja-se
que até aqui o conceito de poder compreende a ideia de propriedade que alguém
possui e que lhe permite fazer coisas segundo sua vontade ou dominar outros,
determinando-lhe o comportamento. Mas o domínio sobre os outros é, quase
sempre, apenas um meio para a obtenção de outros fins vantajosos. Por isso,
o poder é a posse dos meios (no conjunto dos quais se inclui o
domínio sobre a natureza e sobre outros seres humanos) indispensáveis à
obtenção dos efeitos ou vantagens desejados. Se assumimos que o poder é o
elemento central da atividade política, então podemos conceber a política
como a arte de conquista, distribuição e manutenção do poder. É
claro, leitor, que essa concepção de política não esgota a complexidade do
fenômeno político. Complexidade, aliás, é a palavra-chave quando estamos
interessados em conhecer a realidade.
Segundo Bobbio, podemos
distinguir entre três tipos de poder: o poder econômico, o poder
ideológico e o poder político. Lanço alguma luz sobre
essas três formas de poder, dando um enfoque especial ao poder político.
O que queremos dizer quando
dizemos que alguém, uma corporação ou uma nação tem poder econômico? Queremos
dizer que essa pessoa, corporação ou nação (pensemos nos Estados Unidos, nos
grandes empresários que influenciam as decisões do Governo) se vale da posse de
certos bens, necessários ou considerados como tais, numa situação de escassez,
para forçar aqueles que não os possuem a manter um certo comportamento,
consistente, sobretudo, com a realização de um tipo de trabalho. O poder
econômico se exerce quer na esfera das relações institucionais dentro
de um país, quer na esfera das relações internacionais. Em nossas sociedades
capitalistas, ele se manifesta de forma opressiva na esfera da produção. Cito
Bobbio:
Na posse
dos meios de produção reside uma enorme fonte de poder para aqueles que não os
tem: o poder do chefe de uma empresa deveria da possibilidade que a
posse ou a disponibilidade dos meios de produção lhe oferece de poder vender a
força de trabalho em troca de um salário. Em geral, todo aquele que possui
abundância de bens é capaz de determinar o comportamento de quem se encontra em
condições de penúria, mediante a promessa e a concessão de vantagens. (Bobbio,
ibid., p. 955).
Ora, se você, leitor ou leitora
incautos, não compreende como se constitui o poder econômico no modo de
produção capitalista, continuará repisando a crença falsa e enganosa segundo a
qual os empresários é que dão oportunidades de trabalho. Eles não oferecem trabalho, mas forçam
a maioria da população despossuída a trabalhar nas condições fixadas por eles
em troca de um salário, sem o qual ela sofreria com a fome e a miséria.
No tangente ao poder
ideológico, pode-se defini-lo como a influência que as ideias, formuladas,
de um certo modo, e expressas, em certas circunstâncias, por uma pessoa ou
grupo investidos de autoridade, exercem sobre a conduta de outros indivíduos. O
poder ideológico encarna-se naqueles que sabem, como os sacerdotes das
sociedades arcaicas, ou como os intelectuais e cientistas das sociedades
modernas, porque é através deles que os valores dominantes e os conhecimentos
especializados se comunicam, e é através deles que se consuma o
processo de socialização necessário à coesão e integração do grupo. Não cabe
aqui esmiuçar o funcionamento do poder ideológico; minha preocupação é
esclarecer o poder político.
O que comumente chamamos
de poder político é o poder que tem um individuo sobre
outro indivíduo. Esta relação de poder se expressa de várias maneiras na
vida em sociedade: como relação entre governantes e governados, entre soberano
e súditos, entre Estado e cidadãos, entre pais e filhos, etc. Há, portanto,
várias maneiras pelas quais um indivíduo pode exercer poder sobre outro
indivíduo, e o poder político é apenas uma delas. Na tradição
clássica da filosofia política que remonta Aristóteles, discriminavam-se três
formas principais de poder: o poder paterno, o poder
despótico e o poder político. Note-se que, na esteira de
Aristóteles, o déspota não é político; o despotismo, modernamente definido como
uma forma de governo no qual o governante dispõe de poder irrestrito sobre os
governados, é uma ruptura com a esfera política.
Vários critérios de distinção
entre essas três formas de poder foram propostos no curso do tempo. Em
Aristóteles, o critério de distinção baseia-se no interesse daquele em
benefício de quem se exerce o poder. O poder paterno é exercido em benefício
dos filhos. O poder despótico é exercido em benefício do senhor. O poder
político é exercido em benefício tanto de quem governa quanto dos governados.
Mas o poder político só se realiza, segundo o Estagirita, nas formas corretas
de Governo. Nas formas de Governo em que predominam os vícios, o poder é
exercido em benefício exclusivo dos governantes. Você deve ter percebido,
leitor, que o poder político é partilhado entre aqueles que ocupam o Governo e
aqueles que integram o que chamamos modernamente de sociedade civil, ou seja,
entre governantes e cidadãos. O exercício do poder político não pode ser
exercido de modo ilimitado, sob pena de degringolar em tiranias.
O critério, contudo, que
terminou por consagrar-se nos tratados de jusnaturalismo foi o do fundamento ou princípio
de legitimação. Ou seja, não se obtém o poder político por usurpação.
Encontramos esse critério formulado por Locke, em seu Segundo Tratado
sobre o governo (1689). Nessa obra, Locke argumenta que o fundamento
do poder civil (político) é o consenso. Sucede que nem o critério
estabelecido por Aristóteles nem o proposto por Locke dão conta de assinalar o
caráter específico do poder político. Quer se diferencie por
voltar-se para o interesse dos governantes e dos governados, quer por basear-se
no consenso, o poder político não nos permite ver o caráter
distintivo de qualquer Governo, mas apenas do bom Governo. Em qualquer dos
casos, o poder político supõe, como condição de sua realização, um Governo
ideal, um Governo tal como deveria ser. De passagem, faço ver ao leitor que
passei a me referir a ‘Governo’, sem esclarecer não só seu significado, mas
também sua relação com o poder político (embora a relação tenha sido
tacitamente enunciada quando me referi à obra Política de
Aristóteles) . Não obstante, tecerei os esclarecimentos necessários ao alcance
de um entendimento adequado pelo leitor, após a apresentação das três
definições de política. Prossigo, por ora, tratando do poder político.
O poder político,
por fim, consiste na posse dos instrumentos mediante os quais se exerce a força
física (as armas de todos os tipos e potência). O poder político, o poder
econômico e o poder ideológico fundamentam, conservam e reproduzem uma
estrutura social dividida em classes, isto é, em ricos e pobres (poder
econômico), em sábios e ignorantes (poder ideológico) e em fortes e fracos
(poder político). Assim, segundo Bobbio,
Como o
poder cujo meio específico é a força, de longe o meio mais eficaz
para condicionar os comportamentos, o poder político é, em toda a sociedade de
desiguais, o poder supremo, ou seja, o poder ao qual todos os demais estão de
algum modo subordinados (...)”. (Bobbio, ibid., p. 955-956).
Antes de me deter na discussão
das três definições de política, gostaria de precisar melhor o conceito
de poder. A vida intelectual reconhece o caráter complexo da
realidade; por isso, se queremos compreender verdadeiramente a realidade,
necessitamos desenvolver a capacidade do pensamento complexo. Para que você
entenda, leitor, a concepção de uma realidade complexa, refiro abaixo as
palavras de Morin:
[...]
a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido
junto) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associadas: ela coloca o
paradoxo do uno e do múltiplo. Num segundo momento, a complexidade é
efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações,
determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico. Mas então a
complexidade se apresenta com os traços inquietantes do emaranhado, do
inextricável, da desordem, da ambiguidade e da incerteza... Por isso, o
conhecimento necessita ordenar os fenômenos rechaçando a desordem, afastar o
incerto, isto é, selecionar os elementos da ordem e da certeza,
precisar, clarificar, distinguir, hierarquizar... Mas tais operações,
necessárias à inteligibilidade, correm o risco de provocar a cegueira, se elas
eliminam os outros aspectos do complexus.[1]
Vemos, pois, que a complexidade
da realidade envolve imperfeição e incerteza. A complexidade exige o
reconhecimento do irredutível, a saber, do que não pode ser reduzido ao
simples, do que não se presta a simplificações. Por conseguinte, na vida
intelectual, o objeto do conhecimento não tem nada de simples, de unívoco. No
senso comum, usamos a palavra “poder”, por exemplo, em diversos contextos, como
se ela significasse a mesma coisa em qualquer contexto. Mas o fenômeno do
poder, como uma dimensão dessa realidade intrinsecamente complexa, é também
complexo, multifacetado, de modo que sua análise exige múltiplas perspectivas.
Não estou sugerindo que devemos conhecer todas as maneiras pelas quais o poder
foi concebido, analisado; mas precisamos estar ciente de que os conceitos com
quais operamos para descrever, analisar e compreender a realidade são sempre,
necessariamente, conceitos polissêmicos, complexos.
Portanto, a abordagem
predominante do poder, influenciada pelas ideias de Max Weber, está
centrada no exercício dos poderes que permitem a tomada de decisões em
organizações sociais, tais como o Estado, as empresas comerciais, as
universidades, as igrejas, etc. Nessas instituições, as relações de poder são
assimétricas e se estruturam em torno dos interesses e objetivos conflitantes
dos participantes. Há uma segunda abordagem de poder bastante influente, que se
origina de um conjunto de preocupações atinentes ao modo como as estruturas
institucionais moldam o exercício do poder. Essa abordagem foi desenvolvida
por Antonio Gramsci, Talcott Parsons e Michel Foucault. Em linhas gerais, essa
abordagem do poder tem como escopo as estratégias e técnicas de poder e sua
preocupação básica é mostrar como ele é difundido pela sociedade. O poder não é
visto apenas como uma propriedade restrita às organizações soberanas, como o
Estado; mas como uma propriedade coletiva dos sistemas sociais, cujos atores
são vistos como cooperadores. O poder facilita, portanto, tanto o
fortalecimento quanto a disciplina coletiva. Uma das grandes lições de
Foucault, nesta seara, foi mostrar que as formas de poder mais eficazes são
aquelas exercidas por pessoas que aprenderam a disciplinar o seu próprio
comportamento. Elas foram, enquanto sujeitos, constituídas discursivamente em
subalternos que se conformam, sem que seja necessária qualquer ação direta da
parte de um superior.
2. Três
definições de política
A primeira
definição de política é a de política como um tipo de
atividade humana. Claro é que ainda não se esclareceu a especificidade
desse tipo de atividade humana. Há muitas formas de atividade que os seres
humanos realizam. A política é um tipo dentre elas. A política é uma atividade
que realizamos em conjunto. Mackenzie, em Política: conceitos-chave (2011),
ensina que não há atividade política sem o encontro com os outros:
Estando o
indivíduo sozinho, na ilha deserta que tantas vezes imaginamos, dele não se
diria que pudesse estar envolvido em atividade política, porque, simplesmente,
não teria com que interagir. (Mackenzie, ibid., p. 12).
Ora,
vê-se que a política é uma atividade que exige a interação
entre, pelo menos, duas pessoas. No entanto, não se segue daí que toda
interação humana seja de natureza política. A interação entre, pelo menos, duas
pessoas é condição necessária, porém, não é condição suficiente para que haja
atividade política.
Essa
primeira definição de política pode ser chamada de definição lato sensu (em
sentido amplo). À luz dessa concepção ampliada de política, ela constitui uma
dimensão universal da condição humana e se realiza sempre que dois ou mais
seres humanos se encontrem engajados em alguma atividade coletiva, quer formal,
quer informal, pública ou privada. A política é um meio para
resolver disputas, mas não o único, é claro. Imaginemos dois ilhéus empenhados
na resolução de um conflito de interesses. Eles poderiam estar divergindo
quanto à melhor maneira de distribuir os recursos da ilha, ou sobre o modo de
reparti-la, para que cada um tivesse sua porção de terra. Se eles recorressem à
violência ou ao jogo de cara ou coroa, não estariam realizando uma atividade
política. Como assinala Mackenzie, “(...) a solução dos problemas envolvidos
será, muito provavelmente, o resultado de uma atividade que estamos
caracterizando como política, por exemplo, [se] algum debate ou discussão sobre
como deveriam resolver o seu choque de interesses [acontecesse]”. (ibid., p.
13). Aqui preciso ser enfático: a palavra, o diálogo, a discussão
racional (argumentada) constitui o cerne da atividade política. Se
duas pessoas se agridem fisicamente ou verbalmente em virtude de um conflito de
interesses, elas deixam o campo político, que consiste em coexistir mediando
conflitos, divergências através do lógos.
A
segunda definição de política é a que a concebe como um
modo específico de obter consenso em condições em que há
divergência entre pessoas. Os participantes da atividade política precisam
estar engajados num processo cuja finalidade é o estabelecimento de normas e padrões que
os ajudem a resolver disputas futuras. Não se espera que eles estejam apenas
preocupados em satisfazer seus interesses imediatos. Como forma de atividade
que visa à produção de consenso entre pessoas ou grupos, a política é, pois,
definida como a arte de resolver conflitos de forma
apropriada, sem o recurso à violência ou à tirania.
A
terceira definição de política é aquela que a vê como um
meio para a realização do bem comum. O conflito não está excluído
do domínio político, já que é quase inevitável que o encontro prolongado entre
duas pessoas gere, em algum momento, divergência de interesses e opiniões. Mas
agora podemos pensar a política como uma atividade por meio da qual interesses
divergentes podem ser reconciliados, no âmbito de uma unidade de governo. Nesse
caso, para que seja resolvida a divergência de interesses politicamente, é
necessária a atribuição de participação dos envolvidos no poder, em
medida proporcional à sua importância para o bem-estar e sobrevivência
de toda a comunidade. Nessa terceira definição de política, a política não
é, essencialmente, uma atividade destinada à resolução de conflitos. Ela é um
empreendimento muito mais cooperativo. Por meio dela, busca-se promover o
bem-estar e sobrevivência da coletividade, da sociedade, de modo que a
contradição entre interesses egoístas, as disputas de interesses entre duas ou
mais pessoas devem ser resolvidas em nome do bem-estar da sociedade. Como
ensina Mackenzie, “ao invés de pressupor divergência e conflito, pode ser que a
melhor maneira de pensar a política seja a busca do bem comum”.
(ibid., p. 14). O que é esse bem-comum é outro problema que a filosofia deve
encarregar-se de definir. De qualquer modo, essa terceira maneira de conceber a
atividade política leva-nos à conclusão de que sua finalidade não é
propriamente a resolução de alguma divergência relacionada à posse e
distribuição de recursos. A política pressupõe a cooperação e a busca do que os
gregos chamavam vida boa. Evidentemente, o que era concebido
como vida boa na Grécia do século IV a.C é bastante diverso do
que nós, indivíduos de sociedades capitalistas do século XXI d.C., entendemos
por “vida boa”. Seja como for, o que valia para os antigos gregos continua
valendo para nós hoje: a política deve servir à realização da felicidade das
coletividades humanas, não apenas à realização da felicidade individual.
Decerto, é mais difícil alcançar esse objetivo em sociedades marcadas pelo
individualismo como as sociedades ocidentais ou as sociedades influenciadas
pelos valores capitalistas.
O
que importa, neste texto, é, no entanto, mostrar ao leitor ou leitora que é
possível pensar a atividade política de modo diverso de como as pessoas comuns
a pensam, nas suas vivências diárias, sempre que a sua atenção se volta para as
práticas institucionais da política em nossa sociedade. Segundo pesquisa
realizada pela Quaest, em Abril de 2026, 50% dos brasileiros
declaram estar pessimistas quando o assunto é o sistema político do país (https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/04/21/quaest-otimismo-brasil.ghtml).
Pensar diversamente o modo de realizar a atividade política, sobretudo no seu
âmbito institucional, é indispensável à luta pela sua transformação. O
fatalismo, também em matéria política, só leva à imobilização, à apatia e ao
enrijecimento do status quo.
A
terceira acepção de política que venho apresentando aqui deita raízes no
pensamento de diversos filósofos desde a Antiguidade: de Aristóteles, passando
por Rousseau, no século XVIII, a Hannah Arendt, no século XX. Mais
recentemente, nessa tradição da filosofia política, deve-se situar Michael
Sandel. Para este autor, a política não pressupõe a divergência, o conflito,
mas a cooperação e a busca da vida boa, na qual
podem engajar-se todos os cidadãos.
Para
concluir
Eu
disse que retomaria a relação entre política e governo. Não há dúvida de que,
no imaginário social, sempre que pensamos em política, associamo-la,
frementemente, a Governos. Governar pode ser entendido em
várias acepções. No âmbito dos estudos sobre política, pode-se definir governar como um
modo de controle ou de influência sobre uma pessoa ou povo nos domínios de um
território com vistas a orientar, fixar a conduta dessa pessoa ou povo. O
termo governo, por sua vez, pode designar:
a) O
ato de governar;
b) O
conjunto daqueles que nos governam;
c) O
aparato ou a maquinaria da organização investida da autoridade para governar.
Assim, a política tem a ver
também com a maneira como somos governados.
(...)
independentemente de se priorizar ora o conflito, ora a conciliação, ou ainda a
decisão coletiva, podemos perceber que a política tem algo a ver com a maneira
como somos governados por normas. (Mackenzie, ibid., p. 17).
Mas, advirto o leitor sobre um
fato importante: somos governados por novas formas de governança que só
crescem e que não dependem estritamente da atividade do Governo, ainda que
estejam intimamente ligados a ele. O filósofo que melhor nos esclarece
sobre como somos constituídos, moldados, fabricados por essas formas de
governança em nossas práticas da vida diária é Michel Foucault, mas esse é um
tema para outro texto.
[1] MORIN, Edgar. Introdução ao
pensamento complexo. Tradução de Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina,
2015b, p. 13-14. (grifos nossos).