domingo, 11 de outubro de 2026

“Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de ação” (Cioran)

 


                

               Um mundo onde nada se resolve

 

O resultado do 1º turno das eleições presidenciais causou-me atordoamento, perturbação, debilidade intelectual. A burrice é tenaz, arrogante. Sobre ela o conhecimento não exerce qualquer efeito. Como observa Casanova (2020, p. 116), “a burrice não se deixa instruir, não sabe se atenuar, não aceita se calar e a tudo se atira com sete pedras nas mãos. Ela persiste apesar de tudo, apesar de todos, apesar de si. (...)”. Resta-nos combatê-la sempre, incessantemente. Mas como combatê-la? A burrice parece imune a argumentos racionais, é cega para o contraditório; o burro vê o seu interlocutor como um inimigo a ser derrotado,  a ser aniquilado num campo de batalha, que não é o do diálogo, mas o da ofensa, do ódio, do ressentimento.

Quanto mais convivo com o animal humano, mais convicto fico de que ele é um animal doente, louco, estúpido. A racionalidade não é seu apanágio, mas uma habilidade, uma competência que ele perde com facilidade, que precisa conquistar e reconquistar penosamente, incessantemente. Se nem a educação, nem o conhecimento pode modificar o homem, pode demovê-lo de sua tendência à irracionalidade, à demência, então resta-nos esperar que o homem acelere o processo de sua extinção inevitável.

Em uma de suas entrevistas, Cioran declarou:

 

“Os desapontados pela filosofia voltam para a sabedoria (...). Embora seja verdade que se deve começar pela filosofia, é preciso ser capaz de desaprender dela. Talvez seja inclusive o dever supremo”. (p. 275).

 

Segundo Cioran, à sua época - o que, para mim, vale para todos os períodos históricos - o que está no centro da produção intelectual não é mais a questão de como é possível o conhecimento, o que podemos conhecer. O que ocupa o primeiro lugar na agenda dos pensadores é “a maneira de encarar a vida, a questão de saber como se pode tolerá-la”. Cioran diz que só conhece dois grandes problemas: como tolerar a vida e como tolerar a si mesmo. Esses dois grandes problemas são atemporais. Podem até ser mais ou menos acentuados num ou noutro período histórico; mas jamais são problemas característicos de um período histórico específico. Esses dois problemas existencialmente fundamentais impõem-nos o suportar duas grandes tarefas. Segundo Cioran, cada indivíduo, em sua solidão ineliminável, deve resolver, ao menos em parte, cada um desses problemas sem apelar para auxílio exterior.

 

“Há na vida sofrimento maior do que o dever de tolerar a si mesmo, de se levantar a cada manhã e dizer: “começa mais um dia, outra vez, preciso fazer isso, aguentar também este dia?”. É portanto apenas questão de agir, de criar... Essa é também a razão pela qual sou contra o trabalho”. (p. 275).

 

Eis uma das teses de Cioran que repito, quase diariamente e silenciosamente em pensamento, como se fosse um mantra: nós estamos no mundo para não fazer nada. Malgrado minha condição contingencial de não ser herdeiro obrigar-me ao exercício do trabalho, realizo-o esmerando-me na arte do descompromisso, do desleixo atencioso. Cuido, assim, poupar-me de demasiado aborrecimento, de crises paralisantes de ansiedade. Minha constituição fisiológica, orgânica, afetiva me predispôs a ser um homem teórico, e não de ação. Ainda que grite exasperadamente de meu âmago um revolucionário reprimido, basta recordar-me da finitude de minha existência para aplacar qualquer furor que se assemelhe àquele que animou o terrorismo anarquista.

Ora, se a vida humana não tem qualquer fim último, nenhum sentido superior, se cada animal humano está no mundo para não fazer nada, então o ato de escrever é já uma violação de nossa condição enquanto ser no mundo. Por isso, Cioran mantém que:

 

 “Não se deve sequer escrever. A única coisa importante é manter diante dos olhos esses problemas insolúveis e viver como Epiteto ou Marco Aurélio”. (p. 276).

 

 

 

Cioran compara o homem a um escritor que não tem mais nada a dizer, a um pintor que não tem o que pintar, que não tem interesse por coisa alguma. Se seu espírito ainda não atingiu o esgotamento, está muito próximo de atingi-lo.

 

“Para mim, o homem só existe verdadeiramente quando não faz coisa alguma. Assim que age, assim que se prepara para fazer algo, torna-se uma criatura patética”. (p. 271).

 

 

Se, relutantes em admitir que o aparecimento do animal humano no mundo não o investiu do poder, do talento para a realização de alguma grandiosa tarefa histórica ou cósmica, teimamos em prolongar a história como catástrofe, como aventura demoníaca, que segrega desastres, resta àqueles que não se deixam arrastar pela turba dos agitadores que chegarão tarde demais à compreensão da verdade indigesta de que a vida não significa nada, resta avivar, diariamente, no íntimo de seu espírito a verdade que o Universo, em sua indiferença abissal, proclama em cada átimo do “Devir: uma agonia sem desenlace” (Silogismos da Amargura, p. 45): “Tudo que fazemos é vazio de realidade”. Em outras palavras, tudo que fazemos é vão, cada ato tem como pano de fundo a vanidade de tudo que existe, sussurada pelo túmulo a que estamos, desde o nascimento, destinados. Abaixo, Cioran expõe-nos uma lição que, para mim, tem o caráter de um artigo de fé: não consigo recusá-la, oferecer-lhe contra-argumentos:

 

“Lemos livros, claro, eu em todo caso leio muito, talvez demais. Mas nada disso tem nenhum sentido. Se a vida faz algum sentido para mim, é antes quando estou na cama e deixo meus pensamentos passearem sem propósito. Tenho então a impressão de trabalhar realmente, Mas quando de fato me coloco para trabalhar, sou de imediato chacoalhado pela certeza de que a única coisa que faço é perseguir uma ilusão”. (p. 271).

 

 

Eu poderia, se o tivesse conhecido, ouvi-lo falar por longas horas, em êxtase; pois que lendo e relendo suas obras, sinto que Cioran escreveu seus livros para mim, para leitores fisiológica e afetivamente conexos com seu sentimento trágico da vida. Estou convencido de que não é qualquer leitor que consegue compreender a escrita cioraniana. A escrita de Cioran repele leitores cujo corpo é fisiológico e afetivamente atrofiados para suportar as interrogações existencialmente profundas, perturbadoras. A escrita cioraniana é um acontecimento de uma afecção do corpo. Mas essa íntima relação entre o corpo e a produção escrita em Cioran não é o tema deste texto. Deixo para dele me ocupar em outra ocasião.

Tal como Cioran, leio muito, até demais. E também tenho a mesma experiência de vanidade dessa prática diária. Sobretudo, nesse tempo histórico de recrudescimento da ofensiva fascista, da antipolítica bélica da extrema-direita no Brasil, a leitura nunca antes me pareceu tão inócua, tão ineficaz contra a perturbação do jogo político provocada pela guerra cultural deflagrada pela extrema-direita. Nossos adversários, na arena da esfera pública e da política institucional, odeiam o conhecimento; se pudessem, incendiariam os livros; não reconhecem qualquer ética de diálogo; não dialogam, vociferam, rugem, rosnam salivantes de ódio. Neles, a racionalidade regrediu a uma fase que a ameaça com a completa ruptura na bestialidade de hordas para as quais o outro é um inimigo a ser aniquilado.

Se retorno a Cioran, não é para buscar em seus escritos, em seus ensinamentos filosóficos, uma dose de potência para resistir. De Cioran não se pode esperar qualquer conselho para enfrentar os períodos tormentosos, que mergulham a existência humana na insanidade coletiva, nas tolices das turbas de fanáticos e idólatras. Se busco, nas páginas de Cioran, recordar seus trágicos e lúcidos ensinamentos, é para desanuviar-me das aflições, das preocupações, das tensões cerebrais desencadeadas por minha obcecação por compreender como mais de 56 milhões de eleitores desejam o retorno de um Bolsonaro à Presidência da República, a despeito do pandemônio que foi o governo de Jair Bolsonaro.

Cioran aplaca o furor revolucionário de quem quer que se candidate a ser um mátir. Aliás, deve-se, contra todo entusiasmo ativista, lembrar a lição de Durkheim, segundo a qual os sistemas sociais preexistem e sobrevivem aos indivíduos que os produzem em suas atividades. Demais, os sistemas sociais se expandem no espaço e no tempo para além de qualquer agente singular. Também devemos ter em conta que a estrutura social está fora e dentro de nós. Ela é moldada pela agência humana, ao mesmo tempo que molda, determina a conduta individual, as atividades dos agentes. E antes de pôr fim a este texto, arrolando várias passagens de Cioran em que ele externa sua concepção de história, refiro abaixo um trecho de minha tese de doutorado em Filosofia, cuja leitura ensina-nos a mensurar nosso grau de poder de transformar o curso dos acontecimentos sócio-históricos:

 

Todo indivíduo, seja um recém-nascido, seja uma criança, seja um ancião, tem um lugar designado, fixado pela estrutura específica da sociedade em que vive. O homem é, certamente, uma espécie de animal aberta para o mundo; é o verdadeiro criador do mundo social em que vive. Exteriorizando-se, o homem cria esse mundo e projeta na realidade seus próprios significados. Mas esse processo de exteriorização do homem e de fabricação do mundo sócio-histórico como seu mundo não se realiza em condições de absoluta liberdade. Esse processo envolve uma contínua e longa autorregulação de cada ser humano nas interações com outros seres humanos. Como ensina Elias, “o que falta ao homem em termos de predeterminação hereditária, em seu trato com os outros seres, tem que ser substituído por uma determinação social, uma moldagem sociogênica das funções psíquicas”[1]. Tornar-se membro de uma sociedade é, para o indivíduo, submeter-se necessariamente a uma moldagem social. Ainda segundo o autor, “toda a maneira como o indivíduo se vê e se conduz em suas relações com os outros depende da estrutura da associação ou associações a respeito das quais ele aprende a dizer ‘nós’”

 

LIÇÕES DE CIORAN SOBRE A HISTÓRIA

HISTÓRIA UNIVERSAL

 

“História Universal: história do mal. Suprimir os desastres do devir humano é o mesmo que conceber a natureza sem estações. Se você não contribuiu para uma catástrofe, desparecerá sem deixar vestígio. Interessamos aos outros pela desgraça que semeamos à nossa volta. “Nunca fiz ninguém sofrer!” – exclamação para sempre estranha a uma criatura de carne e osso”. (p. 137).

 

“É evidente que estamos no mundo para não fazer nada; mas, em vez de arrastar preguiçosamente nossa podridão, exalamos suor e nos esfalfamos no ar fétido. A História inteira está em estado de putrefação; seu fedor desloca-se para o futuro: corremos para lá, mesmo que seja apenas pela febre inerente a toda decomposição”. (p. 65).

 

Em vez de deixarmos que o tempo nos triturasse lentamente, preferimos reforça-lo, acrescentar aos seus os nossos instantes. Este tempo recente, enxertado no antigo, este tempo elaborado e projectado, revelaria em breve a sua virulência: objetivando-se, tornar-se-ia história, monstro por nós lançado contra nós, fatalidade a que é impossível escapar, ainda que recorrendo às formas da passividade, às receitas da sabedoria”. (p. 8).

 

“Se cada um de nós tivesse “compreendido”, a história teria há muito terminado”. (p. 128).

 

“Não existe situação mais falsa do que a de termos compreendido tudo e continuarmos vivos”. (p. 176).

“A história é indefensável. É preciso reagir em relação a ela com a inflexível abulia do cínico; ou então, pensar como todo mundo, caminhar com a turba do rebeldes, dos assassinos e dos crentes”. (p. 98).

 

BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO

 

A História como sede mortal de ficções

 

“A História: manufatura de ideais..., mitologia lunática, frenesi de horas e de solitários..., recusa de aceitar a realidade tal qual é, sede mortal de ficções”.

 

A História como sede mortal de ficções

 

“[...] a história é uma perpétua crise, uma quebra da ingenuidade. Os estados negativos – que são precisamente os que exasperam a consciência – distribuem-se diversamente, contudo, estão presentes em todos os períodos históricos [...]”. (p. 181-182).

 

Para Cioran, os períodos históricos que alcançaram algum “equilíbrio” e promoveram alguma porção de “felicidade” conheceram, em contrapartida, o tédio, “término natural da felicidade”; e quando tumultuosos sofrem tanto de desespero quanto de crises religiosas, que dele se seguem.

“A ideia de Paraíso terrestre foi composta com todos os elementos incompatíveis com a História, com o espaço onde florescem os estados negativos”. (p. 182).

 

“A história é a ironia em marcha, a gargalhada do Espírito através dos homens e dos acontecimentos. Hoje triunfa tal crença; amanhã, vencida, será amaldiçoada e substituída: os que creram nela a seguirão em sua derrota”. (p. 183).

 

A insignificância radical da História

 

“Que a História não tenha nenhum sentido, é algo que deveria alegrar-nos. Nós nos atormentaríamos por uma solução feliz do devir, por uma festa final na qual nossos suores e desastres arcassem com todos os gastos? [...]. A visão de um desenlace paradisíaco supera, por seu absurdo, as piores divagações da esperança”. (p. 184).

 

Do Tempo colhemos momentos mais generosos que outros, mas nele também se acham “acidentes sem importância em uma intolerável monotonia de perplexidades”. (p. 185).

 

Segundo Cioran, o homem que crê ser o protagonista da história é o fanático por excelência. Essa crença o levará a apoiar alguma ideologia que ofereça uma fórmula para a salvação da humanidade. Assim, segundo o filósofo, sempre que uma ideia ou narrativa a ela associada é exaltada e idolatrada como superior à própria vida, têm início todos os tipos de massacres que desfilaram no tempo histórico. Não obstante termos nos habituado a pensar os processos históricos se desdobrando linearmente, na história, os homens não fazem senão andar em círculo. Para Cioran, a ânsia de poder é que leva a História a renovar-se e a permanecer, contudo, sempre igual. Por conseguinte, “as guerras religiosas e as revoluções que assolaram a história possuem apenas o mérito de revelarem que andamos em círculo” (Petean, 2015, p. 60). Para Cioran, o curso sem finalidade e sentido dos acontecimentos históricos patenteia que “os homens combatem apenas por palavras e preceitos ideológicos, nossos eternos grilhões”. (Petean, idem.). Reconhecendo que o homem é um animal delirante por excelência, um cativo daquilo que ele mesmo cria, sempre movido pela avidez de aderir a uma “verdade”, Cioran destila seu ceticismo implacável corroendo as teorias políticas e as ideologias que, constituindo e justificando as tramas dos acontecimentos e  as ordens históricas, oferecem à humanidade sonhos que se acompanham sempre dos piores crimes e atrocidades. Na história, “andamos entre enredos que comportam promessas de felicidades e crimes inevitáveis”. (Petean, ibidem., p. 62).

“A história, espaço onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar, não é, evidentemente, de essência angelical”. (p. 52)

 

“Ninguém quer aceitar que a história se desenvolve sem nenhum motivo, independentemente de uma direção determinada, de um objetivo”. (p. 100).

 

 

A HISTÓRIA COMO FARDO

 

Cioran concebe a história como fardo e suplício. Os homens se deixam arrastar pelo devir histórico, se imiscuindo em seu fluxo, por medo da monotonia e do tédio, “desse medo que sempre nos fará amar o sabor e a novidade do desastre e preferir qualquer desgraça à estagnação” (História e Utopia, p. 118).

 

Cioran não acredita na liberdade do homem. Arrastados pelos turbilhões da História, os homens ignoram que uma força obscura, que pulsões inconscientes os impelem para a aderir a uma nova verdade. Todas as ficções inventadas para dotar de sentido  o mundo histórico patenteiam a teimosia que têm os homens em recusar o reino do caos e em resistir ao avanço do magma das incertezas. Não encontrando diferença entre sistemas políticos que se pretendem racionais e sistemas religiosos que reivindicam o monopólio da verdade, Cioran afirma que todas as promessas históricas carreiam condenações, punições e massacres. Por isso, para ele, a história nada mais é do que uma usina de massacres. Sistemas políticas, ideologias ou normas morais que prometem o paraíso na terra ou a reforma da humanidade são, tanto para Cioran quanto para Nietzsche, ilusões originadas de nossa tendência a negar o caos.

Republicado em 1960, no livro História e Utopia, Cioran se vale de conhecimentos históricos, políticos e sociais, faz incursões nos estudos da religião e dos mitos, com vistas a elaborar uma visão da história profundamente pessimista, de acordo com a qual a história é movida por forças irracionais. Sua visão de história faz lembrar à de Hobbes e a de Schopenhauer.

Sua lucidez habitual combina-se com um cinismo irônico e pessimista para denunciar a agressividade inerente à natureza humana como móbil da história. Em Cioran, como lembra Brum, em prefácio recente de História e Utopia, “a história, cenário de exaltação do agir humano, também é uma prisão para o homem, uma submissão ao tempo” (p. 7). Assim, ao debruçar-se sobre a História e suas utopias, Cioran enfatiza que “o drama metafísico do homem repete-se na escala coletiva” (p.  Jaudeau, 2001,  47). As ideologias não fazem senão reproduzir as inquietações, as perturbações e as taras dos indivíduos submetidos à necessidade vital que têm os sapiens de produzir ficções.

  

É esta a condição profundamente trágica do homem decaído no Tempo e na História:

 

“Nascer. Decair no Tempo e na História. Inquietar-se por nadas grandiosos, esquartejar-se pela própria incapacidade de adequar-se ao Devir, ao fluxo insensato, brutal, violento das ações humanas. Condenar-se à incapacidade de escolher entre ilusões – sejam quais forem os pretextos: políticos, ideológicos, filosóficos, éticos – e ao mesmo tempo, em um duplo movimento um duplo plano, atormentar-se e amaldiçoar-se por não conseguir, jamais, acalmar-se na resignação, na fé, na indiferença” (Pecoraro, 2004, p. 179).

 

A lúcida fúria cioraniana, de que se impregna o exame dos frêmitos vãos e das lutuosas rivalidades cosmologicamente insignificantes do homem atarefado, na história, corrói como um ácido os sistemas e as teorias que reproduzem o mesmo estribilho de massas crentes no sentido da história. O Essencial, nesse sentido, se revela como falta de uma essência ao processo histórico. As supostas verdades por que lutam os homens são, na realidade, um balaio de erros. Ao longo da história, os homens erraram ao pretender conferir um sentido, um escopo, uma substância, uma “realidade” a um domínio da existência humana submetido ao acaso, ao absurdo, ao Mal. Para Cioran, o homem se ilude ao acreditar que faz a história, que é capaz de dominá-la. Sucede, na realidade, que é a história  que o abala, que o agita, que o despedaça, que se desenvolve no encontro, na tensão entre o insolúvel e o intolerável.

O pessimismo gnóstico sustentado por Cioran está na base da sua visão terrificante da história, segundo a qual ela é uma prisão para o homem. Para Cioran, dado que não podemos não nascer e que a unidade primordial foi rompida por causa do pecado, fomos expulsos do paraíso e jogados no mundo onde vivemos condenados à perdição. Abandonados ao devir, à corrupção e à morte inexorável, aspiramos à serenidade imaginária de uma idade de ouro que remonta a um passado imemorial antes da queda. È porque fomos contaminados por uma nostalgia das origens, que buscamos reencontrar o paraíso perdido aqui neste mundo. Mas a nostalgia donde procede o paraíso carece precisamente da saudade e se torna, por isso, “nostalgia invertida, falseada e viciada, dirigida para o futuro, obnubilada pelo “progresso”, réplica temporal, metamorfose disparatada do paraíso [...]”. (História e Utopia, p. 100).

 

História

 

“A história, espaço onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar, não é, evidentemente, de essência angelical”. (p. 52)

 

“Ninguém quer aceitar que a história se desenvolve sem nenhum motivo, independentemente de uma direção determinada, de um objetivo”. (p. 100).

 

Sobre a sociedade

 

“Um grande passo à frente foi dado no dia em que os homens compreenderam que, para melhor poder atormentar-se uns aos outros, era preciso reunir-se, organizar-se em sociedade”. (p. 101).


História

 

“A história, esse dinamismo de vítimas”. (p. 94).

 



[1] ELIAS, ibidem, p. 38. (grifo nosso).

 

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