Um mundo onde nada se resolve
O
resultado do 1º turno das eleições presidenciais causou-me atordoamento,
perturbação, debilidade intelectual. A burrice é tenaz, arrogante. Sobre ela o
conhecimento não exerce qualquer efeito. Como observa Casanova (2020, p. 116),
“a burrice não se deixa instruir, não sabe se atenuar, não aceita se calar e a
tudo se atira com sete pedras nas mãos. Ela persiste apesar de tudo, apesar de
todos, apesar de si. (...)”. Resta-nos combatê-la sempre, incessantemente. Mas
como combatê-la? A burrice parece imune a argumentos racionais, é cega para o
contraditório; o burro vê o seu interlocutor como um inimigo a ser
derrotado, a ser aniquilado num campo de
batalha, que não é o do diálogo, mas o da ofensa, do ódio, do ressentimento.
Quanto
mais convivo com o animal humano, mais convicto fico de que ele é um animal
doente, louco, estúpido. A racionalidade não é seu apanágio, mas uma habilidade,
uma competência que ele perde com facilidade, que precisa conquistar e
reconquistar penosamente, incessantemente. Se nem a educação, nem o conhecimento pode modificar
o homem, pode demovê-lo de sua tendência à irracionalidade, à demência, então
resta-nos esperar que o homem acelere o processo de sua extinção inevitável.
Em
uma de suas entrevistas, Cioran declarou:
“Os
desapontados pela filosofia voltam para a sabedoria (...). Embora seja verdade
que se deve começar pela filosofia, é preciso ser capaz de desaprender dela.
Talvez seja inclusive o dever supremo”. (p. 275).
Segundo
Cioran, à sua época - o que, para mim, vale para todos os períodos históricos -
o que está no centro da produção intelectual não é mais a questão de como é
possível o conhecimento, o que podemos conhecer. O que ocupa o primeiro lugar
na agenda dos pensadores é “a maneira de encarar a vida, a questão de saber
como se pode tolerá-la”. Cioran diz que só conhece dois grandes problemas: como
tolerar a vida e como tolerar a si mesmo. Esses dois grandes
problemas são atemporais. Podem até ser mais ou menos acentuados num ou noutro
período histórico; mas jamais são problemas característicos de um período
histórico específico. Esses dois problemas existencialmente fundamentais
impõem-nos o suportar duas grandes tarefas. Segundo Cioran, cada indivíduo, em
sua solidão ineliminável, deve resolver, ao menos em parte, cada um desses
problemas sem apelar para auxílio exterior.
“Há na
vida sofrimento maior do que o dever de tolerar a si mesmo, de se levantar a
cada manhã e dizer: “começa mais um dia, outra vez, preciso fazer isso,
aguentar também este dia?”. É portanto apenas questão de agir, de criar... Essa
é também a razão pela qual sou contra o trabalho”. (p. 275).
Eis uma das teses de Cioran que repito, quase
diariamente e silenciosamente em pensamento, como se fosse um mantra: nós
estamos no mundo para não fazer nada. Malgrado minha condição
contingencial de não ser herdeiro obrigar-me ao exercício do trabalho,
realizo-o esmerando-me na arte do descompromisso, do desleixo atencioso. Cuido,
assim, poupar-me de demasiado aborrecimento, de crises paralisantes de
ansiedade. Minha constituição fisiológica, orgânica, afetiva me predispôs a ser
um homem teórico, e não de ação. Ainda que grite exasperadamente de meu âmago
um revolucionário reprimido, basta recordar-me da finitude de minha existência
para aplacar qualquer furor que se assemelhe àquele que animou o terrorismo
anarquista.
Ora, se a vida humana não tem qualquer fim
último, nenhum sentido superior, se cada animal humano está no mundo para não
fazer nada, então o ato de escrever é já uma violação de nossa condição enquanto
ser no mundo. Por isso, Cioran mantém que:
“Não se deve sequer escrever. A única coisa
importante é manter diante dos olhos esses problemas insolúveis e viver como
Epiteto ou Marco Aurélio”. (p. 276).
Cioran compara o homem a um escritor que não tem
mais nada a dizer, a um pintor que não tem o que pintar, que não tem interesse
por coisa alguma. Se seu espírito ainda não atingiu o esgotamento, está muito
próximo de atingi-lo.
“Para mim, o homem só
existe verdadeiramente quando não faz coisa alguma. Assim que age, assim que se
prepara para fazer algo, torna-se uma criatura patética”. (p. 271).
Se, relutantes em admitir que o aparecimento do
animal humano no mundo não o investiu do poder, do talento para a realização de
alguma grandiosa tarefa histórica ou cósmica, teimamos em prolongar a história
como catástrofe, como aventura demoníaca, que segrega desastres, resta àqueles
que não se deixam arrastar pela turba dos agitadores que chegarão tarde demais
à compreensão da verdade indigesta de que a vida não significa nada, resta avivar,
diariamente, no íntimo de seu espírito a verdade que o Universo, em sua
indiferença abissal, proclama em cada átimo do “Devir: uma agonia sem
desenlace” (Silogismos da Amargura, p. 45): “Tudo que fazemos é vazio
de realidade”. Em outras palavras, tudo que fazemos é vão, cada ato tem
como pano de fundo a vanidade de tudo que existe, sussurada pelo túmulo a que
estamos, desde o nascimento, destinados. Abaixo, Cioran expõe-nos uma lição
que, para mim, tem o caráter de um artigo de fé: não consigo recusá-la,
oferecer-lhe contra-argumentos:
“Lemos livros, claro, eu
em todo caso leio muito, talvez demais. Mas nada disso tem nenhum
sentido. Se a vida faz algum sentido para mim, é antes quando estou na cama
e deixo meus pensamentos passearem sem propósito. Tenho então a impressão de
trabalhar realmente, Mas quando de fato me coloco para trabalhar, sou de
imediato chacoalhado pela certeza de que a única coisa que faço é perseguir
uma ilusão”. (p. 271).
Eu poderia, se o tivesse conhecido, ouvi-lo
falar por longas horas, em êxtase; pois que lendo e relendo suas obras, sinto
que Cioran escreveu seus livros para mim, para leitores fisiológica e
afetivamente conexos com seu sentimento trágico da vida. Estou convencido de
que não é qualquer leitor que consegue compreender a escrita cioraniana. A
escrita de Cioran repele leitores cujo corpo é fisiológico e afetivamente
atrofiados para suportar as interrogações existencialmente profundas,
perturbadoras. A escrita cioraniana é um acontecimento de uma afecção do corpo.
Mas essa íntima relação entre o corpo e a produção escrita em Cioran não é o tema
deste texto. Deixo para dele me ocupar em outra ocasião.
Tal como Cioran, leio muito, até demais. E
também tenho a mesma experiência de vanidade dessa prática diária. Sobretudo,
nesse tempo histórico de recrudescimento da ofensiva fascista, da antipolítica bélica da
extrema-direita no Brasil, a leitura nunca antes me pareceu tão inócua, tão
ineficaz contra a perturbação do jogo político provocada pela guerra cultural
deflagrada pela extrema-direita. Nossos adversários, na arena da esfera pública
e da política institucional, odeiam o conhecimento; se pudessem, incendiariam
os livros; não reconhecem qualquer ética de diálogo; não dialogam, vociferam,
rugem, rosnam salivantes de ódio. Neles, a racionalidade regrediu a uma fase
que a ameaça com a completa ruptura na bestialidade de hordas para as quais o
outro é um inimigo a ser aniquilado.
Se retorno a Cioran, não é para buscar em seus
escritos, em seus ensinamentos filosóficos, uma dose de potência para resistir.
De Cioran não se pode esperar qualquer conselho para enfrentar os períodos
tormentosos, que mergulham a existência humana na insanidade coletiva, nas
tolices das turbas de fanáticos e idólatras. Se busco, nas páginas de Cioran,
recordar seus trágicos e lúcidos ensinamentos, é para desanuviar-me das
aflições, das preocupações, das tensões cerebrais desencadeadas por minha
obcecação por compreender como mais de 56 milhões de eleitores desejam o
retorno de um Bolsonaro à Presidência da República, a despeito do pandemônio
que foi o governo de Jair Bolsonaro.
Cioran aplaca o furor revolucionário de quem
quer que se candidate a ser um mátir. Aliás, deve-se, contra todo entusiasmo
ativista, lembrar a lição de Durkheim, segundo a qual os sistemas sociais
preexistem e sobrevivem aos indivíduos que os produzem em suas atividades.
Demais, os sistemas sociais se expandem no espaço e no tempo para além de
qualquer agente singular. Também devemos ter em conta que a estrutura social
está fora e dentro de nós. Ela é moldada pela agência humana, ao mesmo tempo
que molda, determina a conduta individual, as atividades dos agentes. E antes
de pôr fim a este texto, arrolando várias passagens de Cioran em que ele
externa sua concepção de história, refiro abaixo um trecho de minha tese de
doutorado em Filosofia, cuja leitura ensina-nos a mensurar nosso grau de poder
de transformar o curso dos acontecimentos sócio-históricos:
Todo indivíduo,
seja um recém-nascido, seja uma criança, seja um ancião, tem um lugar
designado, fixado pela estrutura específica da sociedade em que vive. O homem
é, certamente, uma espécie de animal aberta para o mundo; é o verdadeiro
criador do mundo social em que vive. Exteriorizando-se, o homem cria esse mundo
e projeta na realidade seus próprios significados. Mas esse processo de
exteriorização do homem e de fabricação do mundo sócio-histórico como seu mundo
não se realiza em condições de absoluta liberdade. Esse processo envolve uma
contínua e longa autorregulação de cada ser humano nas interações com outros
seres humanos. Como ensina Elias, “o que falta ao homem em termos de
predeterminação hereditária, em seu trato com os outros seres, tem que ser
substituído por uma determinação social, uma moldagem sociogênica das funções psíquicas”[1]. Tornar-se membro de
uma sociedade é, para o indivíduo, submeter-se necessariamente a uma moldagem
social. Ainda segundo o autor, “toda a maneira como o indivíduo se vê e se
conduz em suas relações com os outros depende da estrutura da associação ou associações
a respeito das quais ele aprende a dizer ‘nós’”
LIÇÕES DE CIORAN SOBRE A HISTÓRIA
HISTÓRIA
UNIVERSAL
“História
Universal: história do mal. Suprimir
os desastres do devir humano é o mesmo que conceber a natureza sem estações. Se
você não contribuiu para uma catástrofe, desparecerá sem deixar vestígio.
Interessamos aos outros pela desgraça que semeamos à nossa volta. “Nunca fiz
ninguém sofrer!” – exclamação para sempre estranha a uma criatura de carne e
osso”. (p. 137).
“É
evidente que estamos no mundo para não fazer nada; mas, em vez de arrastar
preguiçosamente nossa podridão, exalamos suor e nos esfalfamos no ar fétido. A História
inteira está em estado de putrefação; seu fedor desloca-se para o futuro:
corremos para lá, mesmo que seja apenas pela febre inerente a toda
decomposição”. (p. 65).
Em
vez de deixarmos que o tempo nos triturasse lentamente, preferimos reforça-lo,
acrescentar aos seus os nossos instantes. Este tempo recente, enxertado no
antigo, este tempo elaborado e projectado, revelaria em breve a sua virulência:
objetivando-se, tornar-se-ia história, monstro por nós lançado contra nós,
fatalidade a que é impossível escapar, ainda que recorrendo às formas da
passividade, às receitas da sabedoria”. (p. 8).
“Se cada um de nós tivesse “compreendido”, a história
teria há muito terminado”. (p. 128).
“Não existe situação mais falsa do que a de termos
compreendido tudo e continuarmos vivos”. (p. 176).
“A história é indefensável. É preciso reagir em
relação a ela com a inflexível abulia do cínico; ou então, pensar como todo
mundo, caminhar com a turba do rebeldes, dos assassinos e dos crentes”. (p.
98).
BREVIÁRIO
DE DECOMPOSIÇÃO
A
História como sede mortal de ficções
“A História: manufatura
de ideais..., mitologia lunática, frenesi de horas e de solitários..., recusa
de aceitar a realidade tal qual é, sede mortal de ficções”.
A
História como sede mortal de ficções
“[...] a história é uma
perpétua crise, uma quebra da ingenuidade. Os estados negativos – que são
precisamente os que exasperam a consciência – distribuem-se diversamente,
contudo, estão presentes em todos os períodos históricos [...]”. (p. 181-182).
Para Cioran, os períodos históricos que
alcançaram algum “equilíbrio” e promoveram alguma porção de “felicidade”
conheceram, em contrapartida, o tédio, “término natural da felicidade”; e
quando tumultuosos sofrem tanto de desespero quanto de crises religiosas, que
dele se seguem.
“A ideia de Paraíso
terrestre foi composta com todos os elementos incompatíveis com a História, com
o espaço onde florescem os estados negativos”. (p. 182).
“A história é a ironia em marcha, a gargalhada do Espírito
através dos homens e dos acontecimentos. Hoje triunfa tal crença; amanhã,
vencida, será amaldiçoada e substituída: os que creram nela a seguirão em sua
derrota”. (p. 183).
A
insignificância radical da História
“Que a História não
tenha nenhum sentido, é algo que deveria alegrar-nos. Nós nos
atormentaríamos por uma solução feliz do devir, por uma festa final na qual
nossos suores e desastres arcassem com todos os gastos? [...]. A visão de um
desenlace paradisíaco supera, por seu absurdo, as piores divagações da
esperança”. (p. 184).
Do Tempo colhemos
momentos mais generosos que outros, mas nele também se acham “acidentes sem
importância em uma intolerável monotonia de perplexidades”. (p. 185).
Segundo Cioran, o
homem que crê ser o protagonista da história é o fanático por excelência. Essa
crença o levará a apoiar alguma ideologia que ofereça uma fórmula para a
salvação da humanidade. Assim, segundo o filósofo, sempre que uma ideia ou
narrativa a ela associada é exaltada e idolatrada como superior à própria vida,
têm início todos os tipos de massacres que desfilaram no tempo histórico. Não
obstante termos nos habituado a pensar os processos históricos se desdobrando
linearmente, na história, os homens não fazem senão andar em círculo. Para
Cioran, a ânsia de poder é que leva a História a renovar-se e a permanecer,
contudo, sempre igual. Por conseguinte, “as guerras religiosas e as revoluções
que assolaram a história possuem apenas o mérito de revelarem que andamos em
círculo” (Petean, 2015, p. 60). Para Cioran, o curso sem finalidade e sentido
dos acontecimentos históricos patenteia que “os homens combatem apenas por
palavras e preceitos ideológicos, nossos eternos grilhões”. (Petean, idem.).
Reconhecendo que o homem é um animal delirante por excelência, um cativo
daquilo que ele mesmo cria, sempre movido pela avidez de aderir a uma
“verdade”, Cioran destila seu ceticismo implacável corroendo as teorias
políticas e as ideologias que, constituindo e justificando as tramas dos
acontecimentos e as ordens históricas,
oferecem à humanidade sonhos que se acompanham sempre dos piores crimes e
atrocidades. Na história, “andamos entre enredos que comportam promessas de
felicidades e crimes inevitáveis”. (Petean, ibidem., p. 62).
“A história, espaço onde realizamos o contrário de
nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar, não é, evidentemente, de
essência angelical”. (p. 52)
“Ninguém quer aceitar que a história se desenvolve sem
nenhum motivo, independentemente de uma direção determinada, de um objetivo”.
(p. 100).
A
HISTÓRIA COMO FARDO
Cioran concebe a
história como fardo e suplício. Os homens se deixam arrastar pelo devir
histórico, se imiscuindo em seu fluxo, por medo da monotonia e do tédio, “desse
medo que sempre nos fará amar o sabor e a novidade do desastre e preferir
qualquer desgraça à estagnação” (História e Utopia, p. 118).
Cioran não acredita
na liberdade do homem. Arrastados pelos turbilhões da História, os homens
ignoram que uma força obscura, que pulsões inconscientes os impelem para a
aderir a uma nova verdade. Todas as ficções inventadas para dotar de
sentido o mundo histórico patenteiam a
teimosia que têm os homens em recusar o reino do caos e em resistir ao avanço
do magma das incertezas. Não encontrando diferença entre sistemas políticos que
se pretendem racionais e sistemas religiosos que reivindicam o monopólio da
verdade, Cioran afirma que todas as promessas históricas carreiam condenações,
punições e massacres. Por isso, para ele, a história nada mais é do que uma
usina de massacres. Sistemas políticas, ideologias ou normas morais que
prometem o paraíso na terra ou a reforma da humanidade são, tanto para Cioran
quanto para Nietzsche, ilusões originadas de nossa tendência a negar o caos.
Republicado em 1960,
no livro História e Utopia, Cioran
se vale de conhecimentos históricos, políticos e sociais, faz incursões nos
estudos da religião e dos mitos, com vistas a elaborar uma visão da história
profundamente pessimista, de acordo com a qual a história é movida por forças
irracionais. Sua visão de história faz lembrar à de Hobbes e a de Schopenhauer.
Sua lucidez habitual
combina-se com um cinismo irônico e pessimista para denunciar a agressividade
inerente à natureza humana como móbil da história. Em Cioran, como lembra Brum,
em prefácio recente de História e Utopia,
“a história, cenário de exaltação do agir humano, também é uma prisão para o
homem, uma submissão ao tempo” (p. 7). Assim, ao debruçar-se sobre a História e
suas utopias, Cioran enfatiza que “o drama metafísico do homem repete-se na
escala coletiva” (p. Jaudeau, 2001, 47). As ideologias não fazem senão reproduzir
as inquietações, as perturbações e as taras dos indivíduos submetidos à
necessidade vital que têm os sapiens
de produzir ficções.
É esta a condição
profundamente trágica do homem decaído no Tempo e na História:
“Nascer. Decair no Tempo e na
História. Inquietar-se por nadas grandiosos, esquartejar-se pela própria
incapacidade de adequar-se ao Devir, ao fluxo insensato, brutal, violento das
ações humanas. Condenar-se à incapacidade de escolher entre ilusões – sejam
quais forem os pretextos: políticos, ideológicos, filosóficos, éticos – e ao
mesmo tempo, em um duplo movimento um duplo plano, atormentar-se e
amaldiçoar-se por não conseguir, jamais, acalmar-se na resignação, na fé, na
indiferença” (Pecoraro, 2004, p. 179).
A lúcida fúria
cioraniana, de que se impregna o exame dos frêmitos vãos e das lutuosas
rivalidades cosmologicamente insignificantes do homem atarefado, na história,
corrói como um ácido os sistemas e as teorias que reproduzem o mesmo estribilho
de massas crentes no sentido da história. O Essencial, nesse sentido, se revela
como falta de uma essência ao processo histórico. As supostas verdades por que
lutam os homens são, na realidade, um balaio de erros. Ao longo da história, os
homens erraram ao pretender conferir um sentido, um escopo, uma substância, uma
“realidade” a um domínio da existência humana submetido ao acaso, ao absurdo,
ao Mal. Para Cioran, o homem se ilude ao acreditar que faz a história, que é
capaz de dominá-la. Sucede, na realidade, que é a história que o abala, que o agita, que o despedaça,
que se desenvolve no encontro, na tensão entre o insolúvel e o intolerável.
O pessimismo gnóstico sustentado por
Cioran está na base da sua visão terrificante da história, segundo a qual ela é
uma prisão para o homem. Para Cioran, dado que não podemos não nascer e que a
unidade primordial foi rompida por causa do pecado, fomos expulsos do paraíso e
jogados no mundo onde vivemos condenados à perdição. Abandonados ao devir, à
corrupção e à morte inexorável, aspiramos à serenidade imaginária de uma idade
de ouro que remonta a um passado imemorial antes da queda. È porque fomos contaminados
por uma nostalgia das origens, que buscamos reencontrar o paraíso perdido aqui
neste mundo. Mas a nostalgia donde procede o paraíso carece precisamente da
saudade e se torna, por isso, “nostalgia invertida, falseada e viciada,
dirigida para o futuro, obnubilada pelo “progresso”, réplica temporal,
metamorfose disparatada do paraíso [...]”. (História e Utopia, p. 100).
História
“A história, espaço
onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem
cessar, não é, evidentemente, de essência angelical”. (p. 52)
“Ninguém quer aceitar
que a história se desenvolve sem nenhum motivo, independentemente de uma
direção determinada, de um objetivo”. (p. 100).
Sobre a sociedade
“Um grande passo à
frente foi dado no dia em que os homens compreenderam que, para melhor poder
atormentar-se uns aos outros, era preciso reunir-se, organizar-se em
sociedade”. (p. 101).
História
“A história, esse
dinamismo de vítimas”. (p. 94).

