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domingo, 12 de abril de 2026

"A lógica é a arte de conduzir bem a razão no conhecimento das coisas, tanto para instruir-se quanto para com ele instruir os outros". (Arnauld e Nicole)

 

                                         



                                      SAPERE AUDE

                               A razão e a lógica

 

Steven Pinker, em Racionalidade: o que é, por que parece estar em falta, por que é importante (2021, p. 52), define a racionalidade como “a capacidade de empregar o conhecimento para atingir objetivos”. Considerando-se a definição clássica de conhecimento como “crença verdadeira justificada”, diz-se que alguém é racional se age com base em crenças reconhecidamente verdadeiras. Ninguém seria considerado um ser racional se orientasse seu comportamento ou sua conduta com base em crenças sabidamente falsas.  Ademais, como observa Pinker, um agente racional “precisa ter um objetivo, seja o de confirmar a veracidade de uma ideia notável, chamado de razão teórica, seja o de produzir um resultado notável no mundo, chamado razão prática”. (ibid., p. 53, ênfase no original). Um agente racional, uma vez tendo fixado um objetivo, se valerá de todos os meios disponíveis e adequados para atingi-lo. Assim, para todo agente racional, o objetivo perseguido é fixo, e os meios para alcançá-lo variarão de acordo com as circunstâncias. Romeu deseja Julieta e fará de tudo para beijá-la; e se um muro se erguer entre ele e a amada, ele não ficará forçando o rosto contra o muro, mas buscará ultrapassá-lo, escalando-o ou empregando algum outro meio.

A defesa da razão, em toda e qualquer época em que ela parece ameaçada, orienta-se por uma exigência: ser racional ou agir racionalmente é assumir o dever de “alicerçar nossas crenças na verdade, a nos certificarmos de que nossa inferência a partir de uma crença rumo a outra é justificada e a fazer planos que tenham a probabilidade de produzir certo resultado”. (ibid., p. 53-54). Não se segue daí que ser racional significa seguir sempre a lógica dos manuais especializados. A lógica formal não é o mesmo que raciocínio, embora se relacione com ele. Constituem ferramentas intelectuais necessárias ao raciocínio sólido: a lógica, o pensamento crítico, a probabilidade, a correlação e a causalidade. São estes os melhores meios por meio dos quais adequamos nossas crenças e nos comprometemos com decisões a partir de evidências incertas. São também os parâmetros mais adequados para a tomada de decisões racionais, quer individual, quer coletivamente. O domínio dessas ferramentas do raciocínio é imprescindível para evitar a infestação da insensatez em nossa vida individual e nas práticas sociais de que participamos. Elas nos ajudam a mensurar escolhas arriscadas, permite-nos avaliar alegações duvidosas, entender paradoxos embaraçosos e obter o conhecimento necessário para enfrentar as vicissitudes e tragédias da existência. Muitos agem ou agiram, em vários períodos históricos, tomando como obsoleta a razão. Quando participamos de um evento sociocomunicativo cujo propósito basilar é persuadir ou convencer outros, assumimos, ainda que tacitamente, o compromisso de seguir a razão, isto é, de não aceitar argumentos que não sejam submetidos à avaliação crítica, que não tenham sido justificados. Quando argumentamos contra a razão, apresentamo-nos, de antemão, como perdedores no debate, porquanto estamos recorrendo à própria razão para desacreditá-la. A defesa da razão não redunda num apelo a que acreditemos nela, mas numa demonstração do porquê deveríamos segui-la. Embora não possamos provar que a  verdade pode ser conhecida, podemos chegar a verdades objetivas. Como lembra Pinker, a razão tem valor porque ela funciona. Quando a razão busca esclarecer a si mesma, descobre em si suas regras, que podem ser aperfeiçoadas, a fim de que se elaborem modelos normativos de lógica e probabilidade.

Convém advertir ao leitor que não ignoro os limites da razão, sobre os quais muita tinta se derramou no decurso da história da filosofia. Outrossim não negligencio o fato de que a racionalidade é, na vida diária, perturbada pelos chamados “vieses cognitivos” e pela dissonância cognitiva (Aroson, 2023). O estudo do funcionamento desses vieses e da dissonância cognitiva não é só fascinante, como também lança luzes sobre nossa suscetibilidade a erros, a formas de agir e pensar irracionais. Como argumenta Aroson, em seu premiado O animal social (2023), uma parte considerável do pensamento humano não é racional, mas racionalizador. A teoria da dissonância cognitiva prediz que as pessoas tendem a se lembrar de argumentos plausíveis que confirmam a própria opinião e dos implausíveis que invalidam a posição oposta. Somos capazes de agir racionalmente; todavia, “todos somos capazes de nos comportar irracionalmente quando precisamos reduzir a dissonância”. (ibid., p. 87).  Dado que a experiência da dissonância cognitiva é desagradável, buscamos reduzi-la.

 

Abrigar duas ideias que se contradizem mutuamente é flertar com o absurdo, e, como observou o filósofo existencialista Albert Camus, os humanos são criaturas que passam a vida tentando se convencer de que sua existência não é absurda. Como nos convencemos de que nossa vida não é absurda? Ou seja, como reduzimos a dissonância cognitiva? Fazemo-lo alterando uma ou ambas as cognições, de modo a torná-las mais compatíveis (mais consonantes) uma com a outra, ou adicionando mais cognições que ajudam a reduzir as diferenças entre as cognições iniciais. (ibid., p. 82).

 

Como minha preocupação, neste texto, não é investigar os fatores (psicológicos, neurobiológicos, sociais) que nos levam a comportamentos irracionais, atenho-me na discussão sobre o valor da razão.  Se, por um lado, seguir a razão não é seguir a lógica formal, já que “a lógica jamais governará o mundo”. (Pinker, ibid., p. 110), espera-se que agentes racionais não renunciem à lógica. A lógica formal ignora o conteúdo das proposições. O raciocínio baseado exclusivamente na lógica supõe que esqueçamos tudo que já sabemos. A lógica formal não se preocupa com o significado de seus símbolos, nem com nossos saberes prévios que influenciam nossas deliberações. Nesse sentido, a lógica não é razoável. Na vida prática e na maior parte das atividades em que estamos inseridos, não é razoável ignorar nossos conhecimentos prévios. Conquanto ignorar tais conhecimentos seja desejável em certos domínios do conhecimento especializado (na matemática, nas ciências), “no mundo natural, as pessoas se saem bastante bem quando combinam suas capacidades lógicas com seu conhecimento enciclopédico”. (ibid., p. 112). Deveras, a racionalidade que orienta nossa vida diária é uma racionalidade ecológica, ou seja, uma racionalidade que se baseia nos saberes prévios armazenados em nossa memória, que são partilhados por uma comunidade e que demandam o apoio da experiência.

Ainda que parte considerável de nosso comportamento seja irracional, no sentido de ser mal adaptativo para o aprendizado de coisas novas ou para encontrar soluções reais para nossos problemas (Aroson, 2023), e ainda que a racionalidade aplicada no dia a dia não seja regulada exclusiva e estritamente pela lógica formal, a razão não pode prescindir de certos princípios lógicos. Cuido oportuno trazer à baila algumas noções de lógica formal e comentar algumas falácias em que incorremos.

 

1.     Noções de Lógica: tipos, raciocínios e falácias

 

Principio por tecer algumas considerações sobre o que é a Lógica, sobre seu escopo e linhas de desenvolvimento. A Lógica pode ser definida como o setor ou área da Filosofia que se ocupa do aspecto racional do pensamento. Em sentido lato, a Lógica é o estudo da estrutura e dos princípios da argumentação válida, mormente, da inferência dedutiva e dos métodos de prova e demonstração. Na tradição dos estudos lógicos, pode-se discriminar entre três concepções de Lógica:

 

1)     Lógica como ciência da realidade

À luz dessa concepção, a Lógica refletiria a estrutura da realidade, já que as suas categorias, como a de sujeito e predicado, e os seus princípios, como a lei da identidade e do terceiro excluído refletiriam categorias e princípios ontológicos. Esta é, basicamente, a concepção aristotélica de lógica, predominante em grande parte do pensamento antigo e medieval e cujos rastos se pode ver em certas lógicas contemporâneas como a do platonismo de Frege (Japiassú & Marcondes, 2008).

2)     Lógica com ciência do pensamento

As categorias da Lógica e seus princípios refletiriam, nesse caso, a estrutura e o funcionamento do pensamento humano, especificamente do raciocínio dedutivo. Essa visão é característica do pensamento moderno, tendo na Logique de Port-Royal (1662), de que são expoentes Antoine Arnauld e Pierre Nicole, seu maior representante.

3)     Lógica como ciência da linguagem

É a mais contemporânea concepção de Lógica. A lógica é a ciência das linguagens formais e das categorias e princípios que empregamos para a construção de sistemas formais, para operar com esses sistemas e para fundamentar sua validade.

 

Chama-se Lógica clássica ou Lógica antiga à Lógica aristotélica-escolástica (quer na forma medieval, quer na neo-clássica). Por vezes, essa designação recobre os trabalhos, em Lógica, desenvolvidos entre Aristóteles e a Escolástica Medieval. De modo geral, a Lógica Tradicional recobre toda a lógica antiga e a medieval. Lógica Antiga é o nome dado à Lógica grega e helenística-romana, desde os pré-socráticos até, aproximadamente, Boécio. A Lógica Moderna, da Idade Média até Boole, tem sido considerada uma arte de pensar ou medicina do espírito.

A distinção entre Lógica Formal e Lógica Material repousa na distinção entre validade e verdade. O conceito central da Lógica é o de consequência lógica. Em outras palavras, a Lógica se ocupa do estudo dos argumentos válidos, os quais se caracterizam por serem aqueles em que a conclusão se segue logicamente das premissas. Assim, validade é a propriedade da forma do argumento. A validade nada diz sobre o conteúdo proposicional das sentenças que compõem o argumento. Um argumento é, portanto, válido se, sendo necessariamente verdadeiras as premissas, a conclusão é necessariamente verdadeira. Um exemplo de argumento válido é o silogismo abaixo:

 

(1)  Todo carioca é brasileiro

Zico é carioca

Zico é brasileiro

 

Por outro lado, a verdade se define como correspondência entre a proposição e a realidade. A Lógica Material, tendo como escopo o conteúdo das premissas, está interessada em determinar se elas são verdadeiras com referência à realidade. Em nosso exemplo (1), as premissas não são apenas válidas, mas também verdadeiras. Mas podemos ter um argumento válido, sem que suas premissas sejam verdadeiras. É da forma do argumento que se ocupa a Lógica Formal. Ela consiste em uma investigação das categorias e princípios por meio dos quais pensamos sobre as coisas, do ponto de vista apenas da forma ou estrutura do pensamento, abstração feita de seu conteúdo. A Lógica Formal é a lógica aristotélica. A Lógica Aristotélica divide-se em: 1) Lógica do conceito, que se ocupa dos termos ou das categorias que utilizamos para pensar; 2) Lógica das proposições, que se ocupa do modo como construímos nossos juízos, relacionando conceitos e expressando-os em proposições; 3) Lógica do silogismo, cujo fim é examinar como se relacionam inferencialmente as proposições para delas extrair conclusões.

O caráter formal da lógica aristotélica pode ser representado pelo uso de variáveis. Assim, da proposição “Todo A é B”, podemos inferir que “Algum B é A”, mas não que “Todo B é A”, quaisquer que sejam os referentes de AA e BB. Segue-se o exemplo abaixo:

 

(2)  Todo cachorro é mamífero

      A                     B

De (2), podemos deduzir que “Algum cachorro é mamífero”, mas não que “Todo mamífero é cachorro”.

 

1.2. O Silogismo

Vou-me deter  um pouco nas considerações sobre a Lógica do Silogismo, um dos legados mais importantes de Aristóteles para a história do pensamento. O silogismo é um raciocínio completo, explícito, desdobrado, que se constitui de três juízos, dois dos quais são premissas; e o terceiro, a conclusão. Veja-se o exemplo abaixo:

 

(3)  Todos os pernambucanos são brasileiros  - PREMISSA MAIOR

João é pernambucano  - PREMISSA MENOR

João é brasileiro  - CONCLUSÃO

 

Note-se que, sendo verdadeiras as premissas, segue-se que a conclusão é necessariamente verdadeira. Para que possamos determinar a validade do silogismo, precisamos compreender a sua estrutura. O silogismo, portanto, se compõe de três termos:

 

a)   TERMO MAIOR: o mais abrangente (brasileiros), que se acha na PREMISSA MAIOR e na CONCLUSÃO.

b)   TERMO MÉDIO: possui abrangência média (pernambucano).

c)   TERMO MENOR: é o mais específico, menos abrangente (João).

 

Observe-se que o termo médio aparece nas duas premissas, mas nunca na conclusão. A premissa maior contém o termo maior; e a premissa menor, o termo menor (além do médio). Há, segundo Aristóteles, três figuras do silogismo. Será bastante apresentar um exemplo da primeira figura. Na primeira figura, o termo médio é sujeito da premissa maior e predicado da premissa menor. Segue-se o exemplo abaixo:

 

(4)    Todo gato é um mamífero

Nina é um gato

Nina é um mamífero

 

O núcleo “gato” é sujeito na premissa maior (Todo gato é mamífero) e predicado da premissa menor (Nina é um gato). Uma forma inválida do argumento ilustra-se no caso (5):

 

(5)    Todo mamífero é um gato

Nina é um gato

Nina é um mamífero

 

Em (5), o termo médio “gato” é predicado da premissa maior e não aparece na conclusão, infringindo o que prevê a primeira figura do silogismo. Claro está que a premissa maior é falsa: nem todo mamífero é gato. Cachorros, baleias, morcegos são mamíferos também.

Cumpre acrescentar que a Lógica Formal constitui a base de todas as operações mentais, as quais se expressam nos seguintes princípios:

1)   Princípio da identidade (que depende do princípio da razão suficiente): Todo A é A. Tudo que existe tem uma razão para existir (princípio da razão suficiente).

 

2)   Princípio da não contradição: uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo e sob as mesmas condições. João não pode ser casado e solteiro ao mesmo tempo.

 

3)   Princípio do terceiro excluído: Ou está chovendo agora em São Pedro da Aldeia, ou não está chovendo.

 

1.3. A Lógica das proposições: o caso da implicação

 

Uma implicação de pensamentos só será falsa, se o antecedente for verdadeiro, e o consequente for falso. Veja-se o exemplo abaixo, ao qual se segue o esquema de condições que, satisfeitas, tornam verdadeira a implicação:

(6)  Se uma pessoa está com febre, então ela está doente.

a)   p (V) e q (V) = V

b)   p (V) e q (F) = F

c)    p (F) e q (V) = V

d)   p (F) e q (F) = V

 

As letras “p” e “q” representam, respectivamente, o antecedente (primeira oração) e o consequente (segunda oração). Veja-se que a única possibilidade de a implicação ser falsa é se “p” for verdadeiro, mas “q” for falso.

A Lógica das proposições é o estudo do modo como construímos nossos juízos. Convém, portanto, definir o que é um juízo. Juízos são sentenças que vinculam conceitos mediante o verbo “ser”. Um exemplo de juízo é a frase “Minha cadeira é confortável”. Tradicionalmente, distingue-se entre dois tipos de juízo: a) juízo analítico e b) juízo sintético. Kant reuniu a estes dois o juízo sintético a priori. Todavia, não me ocuparei da explicação deste último, já que ela excederia os objetivos desta exposição. Detenho-me na explicação dos juízos analítico e sintético. O juízo analítico é sempre a priori, o que significa dizer que sua verdade independe da experiência, ou seja, determinamos sua verdade apenas considerando a relação significativa entre seus termos. Por exemplo, no juízo, “Nenhum solteiro é casado”, exprime-se uma verdade porque o conceito de “solteiro” implica o conceito de ‘não casado’. Portanto, no juízo analítico, o predicado (casado) nada acrescenta ao sujeito (solteiro), já que na ideia expressa no sujeito está contida a ideia do predicado. Por outro lado, no juízo sintético, o predicado acrescenta uma qualidade ao sujeito. Atente-se para o exemplo abaixo:

 

(7)  João é honesto.

O predicado “honesto” acrescenta uma qualidade ao sujeito “João”.

Os juízos também podem ser classificados segundo os critérios de qualidade da cópula (“ser”), da qual resultam os juízos afirmativos, negativos e indefinidos (João é médico, João não é médico, João é não médico (mas pode exercer qualquer uma das inúmeras profissões existentes)); de quantidade do sujeito, do que resultam os juízos universais, particulares e singulares (Todos os pernambucanos são brasileiros, Alguns brasileiros são pernambucanos, João é médico). Coube a Miguel Psellos, teólogo-filósofo bizantino, cruzar os critérios de qualidade da cópula e quantidade do sujeito, estabelecidos por Aristóteles, representando os cruzamentos num quadro que se tornou consagrado, em virtude de sua praticidade e simplicidade. De seu empreendimento, segue-se o seguinte resultado: A = Universal afirmativo; I = Particular/Singular afirmativo; E = Universal negativo; O = Particular/Singular negativo. Abaixo, dispõem-se um exemplo de juízo para cada tipo:

 

A - Universal afirmativo = Todos os alunos são cariocas

I - Particular/Singular afirmativo = Alguns alunos são cariocas

E - Universal negativo = Nenhum aluno é carioca.

O - Particular/singular negativo = Alguns alunos não são cariocas

 

Se atentarmos para os tipos acima elencados, vemos que “I” está contido em “A” (se é verdade que TODOS OS ALUNOS SÃO CARIOCAS, é verdade também que ALGUNS ALUNOS SÃO CARIOCAS). Igualmente, vemos que A/O e E/I são irreconciliáveis, ou seja, não podem ser verdadeiros e falsos ao mesmo tempo. Se dissemos “é verdade que todos os alunos são cariocas”, não podemos assumir como verdadeiro que “alguns alunos não são cariocas”, sem incorrermos em contradição. Todavia, os pares A/E e I/O se opõem, mas não se contradizem, porque, embora não possam ser simultaneamente verdadeiros, podem ser simultaneamente falsos. Há, portanto, oposição, mas não contradição entre “Todos os alunos são cariocas” e “Todos os alunos não são cariocas”; correlativamente, há oposição, mas não contradição entre “Alguns alunos são cariocas” e “Alguns alunos não são cariocas”. Por outra lado, se dizemos “É verdade que todos os alunos são cariocas”, incorremos em contradição se admitirmos, simultaneamente, que “É verdade que alguns alunos não são cariocas”. Considere-se o exemplo a seguir, a fim de verificarmos quais inferências são possíveis e quais não o são:

 

(8)  É verdade que todas as garrafas são refrigerantes.

 

De (8), que ilustra um juízo universal afirmativo (A), podemos inferir “I”, “Algumas garrafas são refrigerantes”. Ora, está claro que da afirmação da totalidade podemos inferir a afirmação de partes, de um subconjunto dessa totalidade. Se é verdade que todos os “x” são “y”, segue-se verdadeiro que alguns “x” são “y”. No entanto, de “Todas as garrafas são refrigerantes”, não podemos inferir “Nenhuma garrafa é refrigerante”. A razão é evidente, por isso dispensa explicações.

Na próxima subseção, dou a conhecer e comento alguns casos comuns de falácias, entre as quais se encontram algumas que frequentam o discurso religioso/teológico.

 

1.4. Falácias: enganos e trapaças

 

A palavra “falácia” vem do latim fallacia, fallaciae e significa ‘engano’, trapaça’, ‘manha’. Embora aparentada a “sofisma”, que remonta ao grego sofisma, sophismatos e significa ‘habilidade’, ‘destreza’, ‘invenção engenhosa’, ‘expediente’, ‘artifício’ ou ‘intriga’, “falácia” se distingue desse termo grego, porque falácias não são intencionais, ao contrário dos sofismas, que são formulados propositalmente para confundir.

Vou referir e comentar alguns casos de falácias. Tomem-se os casos típicos do discurso religioso ou teológico.

 

a)     Conclusão que nega as premissas

 

Nesse tipo de falácia, começa-se sustentando que certas coisas têm de ser verdadeiras e termina-se com uma conclusão que contradiz as premissas iniciais. Quando a conclusão não é consistente com os argumentos que nos permitem chegar a ela, então há algum problema com o raciocínio. Veja-se o exemplo abaixo:

 

(9)    Não se pode ter certeza de nada neste mundo.

 

Diante de (9), um interlocutor poderia indagar “você tem certeza disso?”. Tendo respondido afirmativamente “tenho certeza”, o locutor de (9) comete uma falácia por inconsistência. Como pode ser verdadeiro que “de nada podemos ter certeza” e também verdadeiro que “estou certo de que o enunciado é verdadeiro”? Se a conclusão contradiz, pelo menos, uma das premissas, tem de estar errada. A conclusão, portanto, pode ser falsa em si mesma, ou pode derivar de falsas premissas. Os argumentos religiosos são exemplos prototípicos dessa falácia, em que a conclusão nega as premissas. Senão, vejamos.

 

(10) Tudo tem de ter uma causa. Cada coisa existente tem uma causa prévia. Não podemos retroceder indefinidamente na série de causas. Portanto, tem de haver uma causa incausada que deu início ao processo. Essa causa incausada é Deus.

 

Note-se, contudo, que a primeira premissa começa com “tudo”. Diz-se que “tudo tem de ter uma causa”. Se tudo deve ter uma causa, não pode haver, logicamente, uma causa não causada, ou seja, uma causa que não tenha outra causa prévia. Uma variante dessa falácia é o exemplo abaixo:

(11)  Nada é eterno. Tem de haver, portanto, um início para tudo. Logo, tem de haver um Deus que deu início a tudo.

Um Deus que seja eterno, é claro.

Quanto maior for a distância entre a conclusão que nega as premissas e seu enunciado, tanto maior será a probabilidade de o interlocutor não identificar a contradição. Se a conclusão encerra uma referência a coisas que são comumente assumidas como dotadas de propriedades excepcionais, a falácia não é reconhecida, na maioria das vezes.

b)     Petição de princípio

A petição de princípio é também comum no discurso religioso. Por meio dela, conclui-se com aquilo que se pretende provar.

(12)  A Bíblia é a Palavra de Deus?

Como você sabe?

Porque ela mesma o diz.

 

Veja-se a circularidade do raciocínio. Busca-se saber por que a Bíblia é a Palavra de Deus. Como podemos provar que ela é a Palavra de Deus? Deveríamos buscar fora da Bíblia a prova de que ela é a Palavra de Deus. Não podemos oferecer como prova ou evidência aquilo que pretendemos provar. A conclusão do raciocínio é assumida, de antemão, na premissa.

 

c) Falsa dicotomia

 

Nesse caso, reduz-se uma situação complexa a duas alternativas extremas e opostas, ignorando-se opções intermediárias. Veja-se o exemplo abaixo:

 

(13)  Ou você acredita em Deus ou sua vida não tem sentido nenhum.

 

A vida de um ateu pode ter sentido de outras maneiras. Como já mostrei em outro texto publicado neste blog, os sentidos são construídos em processos de produção social e historicamente determinados. Todas as significações que organizam a experiência humana, que dotam de coerência, importância a existência humana, individual ou coletivamente, são produtos do imaginário-simbólico socialmente instituído. A descrença em Deus não torna a vida sem sentido. Outras tantas crenças e atividades ou instituições humanas podem dar sentido a uma vida individual (família, amizade, o amor, o trabalho, a produção artística, etc).

 

d) Falácia do Deus das lacunas

Trata-se de uma falácia do tipo “tapa-buraco”. Na ausência de explicações científicas para um dado fenômeno, postula-se que a única explicação possível é de ordem sobrenatural.

(14)  Como a Ciência não consegue explicar a origem da consciência, então essa origem é Deus.

Uma resposta simples e que vale para tudo, como a que apela a Deus, não só não explica nada, não faz avançar o conhecimento científico, como também enfraquece a fé, quando uma explicação natural revela a causa do fenômeno.

 

e)     Apelo às consequências

Também chamado de agumentum ad consequentiam, nossa quinta falácia consiste em julgar verdadeira ou falsa uma afirmação, com base nos resultados que o seu estado-de-coisas acarretaria, e não com base nas evidências disponíveis.

(15) Se Deus não existir, a moral carece de fundamento; logo, Deus existe.

 

f)       Apelo à autoridade

Assume-se que uma afirmação é verdadeira porque alguma autoridade (um texto sagrado, um cientista, um sacerdote, um professor) o disse.

(16)  Cristo ressuscitou e isso é verdade, porque está na Bíblia.

 

g)     Falsa causa (post hoc)

 

(17)  Rezei e depois consegui o emprego; a oração casou o emprego.

 

Post hoc ergo propter hoc -  Depois disso, logo, por causa disso.

Se um evento acontece após o outro, o segundo é assumido como consequência do primeiro. A falácia consiste em concluir que A casou B, porque A ocorreu antes de B (e não há evidências para provar a verdade de tal afirmação). Nem sempre é verdade que o primeiro evento produziu o segundo.

O pensamento supersticioso é farto de falsas causas. Se passei debaixo da escada e, em seguida, bati com o dedão do pé numa pedra que estava mais adiante, não foi o fato de passar debaixo da escada que causou o acidente; apenas estava distraído, dei um passo em falso. Se a inflação entra em queda após a eleição do novo governo, não se segue que o novo governo tenha, necessariamente, causado a queda da inflação. Sua queda pode decorrer da confluência de várias causas. Reitere-se: dados dois eventos subsequentes, não é necessário que o primeiro tenha causado o segundo. A causalidade precisa ser demonstrada ou provada empiricamente.

Vejamos, agora, outros tipos de falácia correntes no uso da língua no dia a dia.

 

h)     Falácia da negação do antecedente

Num enunciado em que há relação de implicação com um antecedente na forma condicional (Se p, então q), negar o antecedente é uma forma de falácia, porquanto atribui-se somente uma causa a um evento para o qual pode haver várias causas.

(18)  Se ele for lento, perde a corrida. Ele não é lento, então não perderá a corrida.

Mas ele pode perdê-la por incompetência.

Não se incorre em falácia, se afirmamos o antecedente. Trata-se do modus ponens, ou modo de afirmar. Se A, então B. A, Logo B.

(19)  Se chover, a rua ficará molhada. Choveu, logo a rua está molhada.

Pode-se negar o consequente, caso este chamado de modus tollens (modo de negar). Se A, então B. Não B, logo não A.

(20) Se choveu, a rua está molhada. A rua não está molhada, logo não choveu.

 

i)     Falácia da afirmação do consequente

Outrossim, se afirmamos o consequente, produzimos uma falácia. Se A, então B. B, então A.

(21)  Se uma pessoa toma veneno, ela morre. Uma pessoa morreu, logo tomou veneno.

O erro consiste em ignorar que a morte dessa pessoa pode ter múltiplas outras causas.

 

j)     Apelo à força

O apelo à força é também chamado argumentum ad baculum ou argumento do porrete. Tenta-se vencer um debate, ou levar o interlocutor a aceitar uma opinião ou a adotar um comportamento desejado, recorrendo-se a ameaças, em vez de se lhe apresentar boas razões. Seguem-se alguns exemplos comuns:

(22)  Você deve aceitar minha condição, se quiser manter o emprego.

(23)  Seria uma pena se sua loja pegasse fogo por acidente. Então, é melhor aceitar o meu preço.

(24)  Quem discorda dessa pauta, perde apoio de vários partidos. Então, é melhor a apoiarmos.

Como se vê, esse tipo de falácia é, na verdade, uma renúncia à argumentação, já que a ameaça substitui o argumento. Na falta de um bom argumento, busca-se provocar no outro o comportamento desejado, ameaçando-o ou, como no último exemplo, sugerindo-lhe a consequência indesejável que sua decisão contrária acarretaria (se você não apoiar a pauta, perderemos o apoio partidário). A falácia do porrete mostra com que facilidade podemos recusar o contrato comunicativo tácito em que se baseia o uso da razão, em favor de nossa posição de poder, de nossa força física para fazer com que o outro adote o comportamento que desejamos.

Não é escusável insistir em que o lógos é filho da pólis, exercita-se e floresce na ágora, onde se encontram debatedores, e não na arena de gladiadores.