
O meu silêncio
Este é mais um dia comum,
deste meu cotidiano comum que, no entanto, me é próprio. Não há um só dia em
que eu não pense na morte, na minha, na morte de tudo que é vivente e
frágil. A fragilidade da vida me é uma certeza familiar. Não há um só dia em
que eu evite pensar nos amores não vividos, nos que perdi, nos que queria ter
vivido num instante de insensatez poética, nos que foram esmagados pela tirania
do efêmero, por razões que não compreendo ou que dispensam compreensão.
Ouçamos a Camus:
“Um homem é mais homem
pelas coisas que silencia do que pelas que diz” (p. 99)
Eu escrevo para não ser
lido e assim consigo algum contentamento. Este silêncio me é também familiar;
eu o arrasto pelos caminhos que percorro; eu o constranjo pela insistência nos
versos ou na prosa; forço-o a dizer o inefável, o que me excede no labor da
filosofia. A minha verdade mora nesse silêncio que faço falar sem falar, não
nas palavras que enuncio; palavras costumam nos trair. O meu silêncio é de dor,
é de desejo que não calo. Nesse silêncio, convivem o que me é estranho e o que me é familiar.
Ouçamos a Camus:
“(...) o homem
é seu próprio fim. E seu único fim. Se ele quer ser outra coisa, é nesta vida”.
(p. 103)
Nada me é mais estranho
do que o eterno, que nega no homem o mundo sem o qual não há o humano. Eterno e
humano são antíteses, são abstrações antagônicas.
“Um coração
tão tenso – escreve Camus – foge do eterno, e todas as Igrejas, divinas e
políticas, pretendem o eterno”.
E de novo a pertinência
da morte, meu silêncio definitivo, meu abismo imperscrutável, meu leito
derradeiro onde toda dor é silenciada, pois na cova onde jazerá meu corpo não
estará mais quem fui; apenas o que de mim restou, os restos que resistiram à aniquilação
total. Mas não se iludam: eu mesmo estarei aniquilado; somente meu silêncio
permanecerá. Ele é minha obra, meu legado. Os gênios deixam seu silêncio no que
escreveram. Estão nas bibliotecas. O meu silêncio ficará com os restos do que
um dia fui eu. Que seja!
Ouçamos a Camus, que,
brilhantemente, nos lega este passo:
“No fim de
tudo isso, apesar de tudo, está a morte. Nós o sabemos. Também sabemos que ela
termina com tudo. Por isso são horríveis os cemitérios que cobrem a Europa e
que obcecam alguns entre nós. Só embeleza o que se ama, e a morte nos repugna e
nos cansa (...)”.
(p. 103)
Escrevo estas linhas
enquanto leio um capítulo de Camus; e me reconheço no conquistador que
“escolheu o cercado de ferro negro ou a fossa anônima” que confirmam minha
breve estadia neste mundo do absurdo, único e verdadeiro mundo.E não posso
deixar de referir as palavras de Camus novamente, antes de retornar ao meu
silêncio familiar:
“Os melhores
entre os homens do eterno sentem-se às vezes tomados por um espanto cheio de
consideração e piedade pelos espíritos que podem viver com tal imagem de sua
própria morte. Esses espíritos, no
entanto, extraem disso a sua força e a sua justificativa. Nosso destino
está à nossa frente e é a ele que desafiamos. Menos por orgulho que por
consciência de nossa condição insignificante. Também temos às vezes piedade de
nós mesmos. É a única compaixão que nos parece aceitável: um sentimento que
talvez vocês não compreendam e que lhes parece pouco viril. No entanto, são os
mais corajosos entre nós que o experimentam. Mas chamamos viris os lúcidos e
não queremos uma força que se separe da clarividência”.
(p. 104)