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terça-feira, 4 de agosto de 2026

“As pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer.” (Lacan)

 




O corpo e seu silêncio

 

Ela pedia, insistia, mas ele não falava; o silêncio o preenchia por inteiro, comprimia seu diafragma, era como uma represa impedindo-lhe o fluxo das palavras. Uma fissura e palavras entrecortadas, transpassadas, miúdas eram ouvidas... e só! Embora resistente fosse o silêncio ante a pressão do desejo inaudível, uma voz íntima dentro de si representava-lhe como deveria vociferar, que gestos corporais deveriam ser feitos para expurgar a pressão da ansiedade, do medo, das inquietudes, cuja familiaridade remonta a tempos que pareciam sepultados em sua vida... Mas outra voz íntima lhe expunha a inutilidade de dizer o que quer que fosse, dizer era um desperdício; a fala não seria mais do que o expurgo de um vazio, de uma vacuidade incompreensível a quem não tem ouvidos treinados para a escuta psicanalítica, para realizar a interpretação de um especialista nos conflitos dos recônditos da alma humana... O choro abafado prevaleceu na companhia do silêncio, àquela altura, estendendo entre os dois uma cova funda de incompreensibilidade mútua... Decidiu dormir, mesmo que o sono permanecesse sufocado, adiado pela ansiedade...

O que poderia ter falado ele? O que queria ter falado? Toda a sua dor tinha de haver-se com a incompletude da linguagem, com sua opacidade. Nenhum signo, nenhuma cadeia sintagmática, nem o mais elaborado e complexo arranjo textual poderia aliviá-la.; digo: poderia dar-lhe a expressão fidedigna, transparente, monossêmica a que ele aspirava. Sua dor era da ordem das profundezas, dos abissais traumas de uma infância primeva e insuperável, de uma infância ubícável, fantasmoática. Pode-se ressignificá-las, dar-lhes uma inscrição diferente, “nova” na ordem do simbólico e do imaginário, mas jamais se pode apagá-las. Não obstante, ele queria ter dito que é dotado de uma profundidade psíquica, de um anseio profundo de autoexpressão; queria, talvez, ter dito que suportava o peso de uma paixão efusiva de sustentar a flagrante e irremediável fragilidade da vida e o absurdo que lhe é entranhadamente constitutivo sobre uma fundação imaginário-simbólica que remontasse ao lema iluminista “Sapere Aude”. Mas o que ouvia: “os livros que lê lhe fazem mal”, “quando tinha fé, você não sentia isso”. E a incompreensibilidade será, definitivamente, insuperável... os dois espíritos formam imagens do mundo antagônicas, antitéticas. A significação existencial do conhecimento, a necessidade visceral, fisiológica de sua busca, tão evidentes para ele, tão íntimas dele, são, para muitas pessoas, terminantemente, experiências estranhas, alheias, inacessíveis, por natureza, por constituição fisiológica, pelo modo da conformação sintomática de suas experiências da primeira infância, pelas formas como o fluxo deveniente da vida as afeta ou as afetou, pela conformação de seus instintos, de seus afetos.

Nitzsche tinha razão: o pensamento, a consciência e as ideias que formamos são sintomas de estados fisiológicos. “Juízos, juízos de valor acerca da vida, contra ou a favor, nunca podem ser verdadeiros; afinal eles têm valor apenas como sintomas, são considerados apenas enquanto sintomas” (CI, O Problema de Sócrates, § 2). Posteriormente comentadores de Nietzsche reuniram sua lição sobre o papel do corpo na constituição do conhecimento, sob a fórmula “Toda filosofia não é senão a confissão de um corpo”. Esta é tomada à pena de Michel Onfray, que acrescenta: ... “não é senão o mal-entendido da carne”.

Nietzsche, mais do que qualquer outro filósofo compreendeu bem e melhor externou o papel do corpo na elaboração de um pensamento, de uma obra. A conceitualização “segue o talo do corpo e não o precede jamais”. (Onfray). O corpo trabalha antes do espírito, e o pensamento é apenas a resultante de forças que lutaram no mais profundo da carne. É o corpo que soluciona o problema sozinho, sem o concurso da consciência. O organismo armazena conflitos, lhes dá um espaço, um lugar, diz Onfray, até que sente, num dia, a necessidade de permitir-lhes o expurgo, a dissolução sob uma forma brutal.

Como escrevi em minha tese de doutorado a respeito da compreensão nietzschiana do corpo:

“Não existe, para Nietzsche, alma separada do corpo. Não existe o espírito em si. O espírito é corpo, e há somente corpo como efetivação das forças. Sucedeu que o espírito foi, ao longo da história do pensamento, considerado uma coisa superior, mas ele está submetido a relações instintuais mais profundas, ensinará Nietzsche. O corpo é a “grande razão”: é todo o corpo que pensa. Não há o “eu” como substância pensante, à moda cartesiana. Destarte, atribuindo ao processo de conhecimento uma base sensualista, Nietzsche adverte que “não temos absolutamente nenhuma categoria para podermos cindir um “mundo em si” de um mundo como fenômeno”[1], visto que “nossas categorias racionais são de proveniência sensualista: deduzidas do mundo empírico”[2].

Se eu sou o meu corpo, o corpo que eu sou é um centro de forças, de impulsos contraditórios. Meu corpo, ou, o que dá no mesmo, o que sou, é uma grande luta entre instintos que, tensionalmente, buscam se reconciliar de tempo em tempo, sem que o conflito seja de todo extinto. Há coesão entre os instintos, mas ela é sempre tensa, sempre instável. É certo que Nietzsche não deixou de reconhecer que o erro faz parte da vida e que nossa consciência nos ilude e se ilude. O homem cria e depois se esquece de que é o verdadeiro artista de suas criações. O corpo, portanto, para Nietzsche, é um complexo de vontades de potência organizadas hierarquicamente.” (RODRIGUES, 2023, p. 287).

A consciência, ensina Nietzsche, é um desenvolvimento tardio e superficial da vida. Antecipando o que seria o núcleo da teoria psicanalítica, ele ensina que a maior parte da atividade psíquica ocorre abaixo do limiar da consciência. Contra a ilusão dos lógicos, ele sentencia “(...) um pensamento vem quando “ele” quer e não quando “eu” quero” (BM, § 17). Anticartesiano, ele acrescenta “de modo que é um falseamento da realidade efetiva dizer: o sujeito “eu” é a condição do predicado “penso”".

E a incompreensibilidade entre ele e ela é o sintoma de um abismo corporal, de dois corpos, de dois arranjos fisiológico-afetivo-instintuais que integram a si e em si perspectivas distintas do mundo, por vezes, antagônicas. Por isso, a convivência, embora possível entre eles, precisa estender-se sobre a superfície das trivialidades dialógicas e experienciais cotidianas.

Mas ambos talvez sofram da ilusão da transparência ontológica do “eu”. Pois na relação com o outro, há sempre um jogo, uma negociação discursiva de imagens recíprocas de si, animado por um anseio de um resultado conciliatório, jamais plenamente alcançado: um querer fazer coincidir com a imagem que um faz do outro a imagem que cada um faz de si mesmo. “Quero que me veja como eu sou”, “Quero que saiba quem eu sou!”. Jamais! Isso seria terrível! “Pois nem eu nem você "somos" antes do encontro com os outros e com o Outro (para falar lacanianamente!).



[1] FP (68) 9 (98) do Outono de 1887.

 

[2] Idem.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

"A fragilidade da vida me é uma certeza familiar" (BAR)

                                           Imagem relacionada
                                
                                         O meu silêncio

Este é mais um dia comum, deste meu cotidiano comum que, no entanto, me é próprio. Não há um só dia em que eu não pense na morte, na minha, na morte de tudo que é vivente e frágil. A fragilidade da vida me é uma certeza familiar. Não há um só dia em que eu evite pensar nos amores não vividos, nos que perdi, nos que queria ter vivido num instante de insensatez poética, nos que foram esmagados pela tirania do efêmero, por razões que não compreendo ou que dispensam compreensão.

Ouçamos a Camus:

“Um homem é mais homem pelas coisas que silencia do que pelas que diz” (p. 99)

Eu escrevo para não ser lido e assim consigo algum contentamento. Este silêncio me é também familiar; eu o arrasto pelos caminhos que percorro; eu o constranjo pela insistência nos versos ou na prosa; forço-o a dizer o inefável, o que me excede no labor da filosofia. A minha verdade mora nesse silêncio que faço falar sem falar, não nas palavras que enuncio; palavras costumam nos trair. O meu silêncio é de dor, é de desejo que não calo. Nesse silêncio, convivem o que me é estranho e o que me é familiar.

Ouçamos a Camus:


“(...) o homem é seu próprio fim. E seu único fim. Se ele quer ser outra coisa, é nesta vida”.
(p. 103)



Nada me é mais estranho do que o eterno, que nega no homem o mundo sem o qual não há o humano. Eterno e humano são antíteses, são abstrações antagônicas.


“Um coração tão tenso – escreve Camus – foge do eterno, e todas as Igrejas, divinas e políticas, pretendem o eterno”.




E de novo a pertinência da morte, meu silêncio definitivo, meu abismo imperscrutável, meu leito derradeiro onde toda dor é silenciada, pois na cova onde jazerá meu corpo não estará mais quem fui; apenas o que de mim restou, os restos que resistiram à aniquilação total. Mas não se iludam: eu mesmo estarei aniquilado; somente meu silêncio permanecerá. Ele é minha obra, meu legado. Os gênios deixam seu silêncio no que escreveram. Estão nas bibliotecas. O meu silêncio ficará com os restos do que um dia fui eu. Que seja!

Ouçamos a Camus, que, brilhantemente, nos lega este passo:



“No fim de tudo isso, apesar de tudo, está a morte. Nós o sabemos. Também sabemos que ela termina com tudo. Por isso são horríveis os cemitérios que cobrem a Europa e que obcecam alguns entre nós. Só embeleza o que se ama, e a morte nos repugna e nos cansa (...)”.

(p. 103)


Escrevo estas linhas enquanto leio um capítulo de Camus; e me reconheço no conquistador que “escolheu o cercado de ferro negro ou a fossa anônima” que confirmam minha breve estadia neste mundo do absurdo, único e verdadeiro mundo.E não posso deixar de referir as palavras de Camus novamente, antes de retornar ao meu silêncio familiar:


“Os melhores entre os homens do eterno sentem-se às vezes tomados por um espanto cheio de consideração e piedade pelos espíritos que podem viver com tal imagem de sua própria morte. Esses espíritos, no entanto, extraem disso a sua força e a sua justificativa. Nosso destino está à nossa frente e é a ele que desafiamos. Menos por orgulho que por consciência de nossa condição insignificante. Também temos às vezes piedade de nós mesmos. É a única compaixão que nos parece aceitável: um sentimento que talvez vocês não compreendam e que lhes parece pouco viril. No entanto, são os mais corajosos entre nós que o experimentam. Mas chamamos viris os lúcidos e não queremos uma força que se separe da clarividência”.
(p. 104)