domingo, 12 de abril de 2026

"A lógica é a arte de conduzir bem a razão no conhecimento das coisas, tanto para instruir-se quanto para com ele instruir os outros". (Arnauld e Nicole)

 

                                         



                                      SAPERE AUDE

                               A razão e a lógica

 

Steven Pinker, em Racionalidade: o que é, por que parece estar em falta, por que é importante (2021, p. 52), define a racionalidade como “a capacidade de empregar o conhecimento para atingir objetivos”. Considerando-se a definição clássica de conhecimento como “crença verdadeira justificada”, diz-se que alguém é racional se age com base em crenças reconhecidamente verdadeiras. Ninguém seria considerado um ser racional se orientasse seu comportamento ou sua conduta com base em crenças sabidamente falsas.  Ademais, como observa Pinker, um agente racional “precisa ter um objetivo, seja o de confirmar a veracidade de uma ideia notável, chamado de razão teórica, seja o de produzir um resultado notável no mundo, chamado razão prática”. (ibid., p. 53, ênfase no original). Um agente racional, uma vez tendo fixado um objetivo, se valerá de todos os meios disponíveis e adequados para atingi-lo. Assim, para todo agente racional, o objetivo perseguido é fixo, e os meios para alcançá-lo variarão de acordo com as circunstâncias. Romeu deseja Julieta e fará de tudo para beijá-la; e se um muro se erguer entre ele e a amada, ele não ficará forçando o rosto contra o muro, mas buscará ultrapassá-lo, escalando-o ou empregando algum outro meio.

A defesa da razão, em toda e qualquer época em que ela parece ameaçada, orienta-se por uma exigência: ser racional ou agir racionalmente é assumir o dever de “alicerçar nossas crenças na verdade, a nos certificarmos de que nossa inferência a partir de uma crença rumo a outra é justificada e a fazer planos que tenham a probabilidade de produzir certo resultado”. (ibid., p. 53-54). Não se segue daí que ser racional significa seguir sempre a lógica dos manuais especializados. A lógica formal não é o mesmo que raciocínio, embora se relacione com ele. Constituem ferramentas intelectuais necessárias ao raciocínio sólido: a lógica, o pensamento crítico, a probabilidade, a correlação e a causalidade. São estes os melhores meios por meio dos quais adequamos nossas crenças e nos comprometemos com decisões a partir de evidências incertas. São também os parâmetros mais adequados para a tomada de decisões racionais, quer individual, quer coletivamente. O domínio dessas ferramentas do raciocínio é imprescindível para evitar a infestação da insensatez em nossa vida individual e nas práticas sociais de que participamos. Elas nos ajudam a mensurar escolhas arriscadas, permite-nos avaliar alegações duvidosas, entender paradoxos embaraçosos e obter o conhecimento necessário para enfrentar as vicissitudes e tragédias da existência. Muitos agem ou agiram, em vários períodos históricos, tomando como obsoleta a razão. Quando participamos de um evento sociocomunicativo cujo propósito basilar é persuadir ou convencer outros, assumimos, ainda que tacitamente, o compromisso de seguir a razão, isto é, de não aceitar argumentos que não sejam submetidos à avaliação crítica, que não tenham sido justificados. Quando argumentamos contra a razão, apresentamo-nos, de antemão, como perdedores no debate, porquanto estamos recorrendo à própria razão para desacreditá-la. A defesa da razão não redunda num apelo a que acreditemos nela, mas numa demonstração do porquê deveríamos segui-la. Embora não possamos provar que a  verdade pode ser conhecida, podemos chegar a verdades objetivas. Como lembra Pinker, a razão tem valor porque ela funciona. Quando a razão busca esclarecer a si mesma, descobre em si suas regras, que podem ser aperfeiçoadas, a fim de que se elaborem modelos normativos de lógica e probabilidade.

Convém advertir ao leitor que não ignoro os limites da razão, sobre os quais muita tinta se derramou no decurso da história da filosofia. Outrossim não negligencio o fato de que a racionalidade é, na vida diária, perturbada pelos chamados “vieses cognitivos” e pela dissonância cognitiva (Aroson, 2023). O estudo do funcionamento desses vieses e da dissonância cognitiva não é só fascinante, como também lança luzes sobre nossa suscetibilidade a erros, a formas de agir e pensar irracionais. Como argumenta Aroson, em seu premiado O animal social (2023), uma parte considerável do pensamento humano não é racional, mas racionalizador. A teoria da dissonância cognitiva prediz que as pessoas tendem a se lembrar de argumentos plausíveis que confirmam a própria opinião e dos implausíveis que invalidam a posição oposta. Somos capazes de agir racionalmente; todavia, “todos somos capazes de nos comportar irracionalmente quando precisamos reduzir a dissonância”. (ibid., p. 87).  Dado que a experiência da dissonância cognitiva é desagradável, buscamos reduzi-la.

 

Abrigar duas ideias que se contradizem mutuamente é flertar com o absurdo, e, como observou o filósofo existencialista Albert Camus, os humanos são criaturas que passam a vida tentando se convencer de que sua existência não é absurda. Como nos convencemos de que nossa vida não é absurda? Ou seja, como reduzimos a dissonância cognitiva? Fazemo-lo alterando uma ou ambas as cognições, de modo a torná-las mais compatíveis (mais consonantes) uma com a outra, ou adicionando mais cognições que ajudam a reduzir as diferenças entre as cognições iniciais. (ibid., p. 82).

 

Como minha preocupação, neste texto, não é investigar os fatores (psicológicos, neurobiológicos, sociais) que nos levam a comportamentos irracionais, atenho-me na discussão sobre o valor da razão.  Se, por um lado, seguir a razão não é seguir a lógica formal, já que “a lógica jamais governará o mundo”. (Pinker, ibid., p. 110), espera-se que agentes racionais não renunciem à lógica. A lógica formal ignora o conteúdo das proposições. O raciocínio baseado exclusivamente na lógica supõe que esqueçamos tudo que já sabemos. A lógica formal não se preocupa com o significado de seus símbolos, nem com nossos saberes prévios que influenciam nossas deliberações. Nesse sentido, a lógica não é razoável. Na vida prática e na maior parte das atividades em que estamos inseridos, não é razoável ignorar nossos conhecimentos prévios. Conquanto ignorar tais conhecimentos seja desejável em certos domínios do conhecimento especializado (na matemática, nas ciências), “no mundo natural, as pessoas se saem bastante bem quando combinam suas capacidades lógicas com seu conhecimento enciclopédico”. (ibid., p. 112). Deveras, a racionalidade que orienta nossa vida diária é uma racionalidade ecológica, ou seja, uma racionalidade que se baseia nos saberes prévios armazenados em nossa memória, que são partilhados por uma comunidade e que demandam o apoio da experiência.

Ainda que parte considerável de nosso comportamento seja irracional, no sentido de ser mal adaptativo para o aprendizado de coisas novas ou para encontrar soluções reais para nossos problemas (Aroson, 2023), e ainda que a racionalidade aplicada no dia a dia não seja regulada exclusiva e estritamente pela lógica formal, a razão não pode prescindir de certos princípios lógicos. Cuido oportuno trazer à baila algumas noções de lógica formal e comentar algumas falácias em que incorremos.

 

1.     Noções de Lógica: tipos, raciocínios e falácias

 

Principio por tecer algumas considerações sobre o que é a Lógica, sobre seu escopo e linhas de desenvolvimento. A Lógica pode ser definida como o setor ou área da Filosofia que se ocupa do aspecto racional do pensamento. Em sentido lato, a Lógica é o estudo da estrutura e dos princípios da argumentação válida, mormente, da inferência dedutiva e dos métodos de prova e demonstração. Na tradição dos estudos lógicos, pode-se discriminar entre três concepções de Lógica:

 

1)     Lógica como ciência da realidade

À luz dessa concepção, a Lógica refletiria a estrutura da realidade, já que as suas categorias, como a de sujeito e predicado, e os seus princípios, como a lei da identidade e do terceiro excluído refletiriam categorias e princípios ontológicos. Esta é, basicamente, a concepção aristotélica de lógica, predominante em grande parte do pensamento antigo e medieval e cujos rastos se pode ver em certas lógicas contemporâneas como a do platonismo de Frege (Japiassú & Marcondes, 2008).

2)     Lógica com ciência do pensamento

As categorias da Lógica e seus princípios refletiriam, nesse caso, a estrutura e o funcionamento do pensamento humano, especificamente do raciocínio dedutivo. Essa visão é característica do pensamento moderno, tendo na Logique de Port-Royal (1662), de que são expoentes Antoine Arnauld e Pierre Nicole, seu maior representante.

3)     Lógica como ciência da linguagem

É a mais contemporânea concepção de Lógica. A lógica é a ciência das linguagens formais e das categorias e princípios que empregamos para a construção de sistemas formais, para operar com esses sistemas e para fundamentar sua validade.

 

Chama-se Lógica clássica ou Lógica antiga à Lógica aristotélica-escolástica (quer na forma medieval, quer na neo-clássica). Por vezes, essa designação recobre os trabalhos, em Lógica, desenvolvidos entre Aristóteles e a Escolástica Medieval. De modo geral, a Lógica Tradicional recobre toda a lógica antiga e a medieval. Lógica Antiga é o nome dado à Lógica grega e helenística-romana, desde os pré-socráticos até, aproximadamente, Boécio. A Lógica Moderna, da Idade Média até Boole, tem sido considerada uma arte de pensar ou medicina do espírito.

A distinção entre Lógica Formal e Lógica Material repousa na distinção entre validade e verdade. O conceito central da Lógica é o de consequência lógica. Em outras palavras, a Lógica se ocupa do estudo dos argumentos válidos, os quais se caracterizam por serem aqueles em que a conclusão se segue logicamente das premissas. Assim, validade é a propriedade da forma do argumento. A validade nada diz sobre o conteúdo proposicional das sentenças que compõem o argumento. Um argumento é, portanto, válido se, sendo necessariamente verdadeiras as premissas, a conclusão é necessariamente verdadeira. Um exemplo de argumento válido é o silogismo abaixo:

 

(1)  Todo carioca é brasileiro

Zico é carioca

Zico é brasileiro

 

Por outro lado, a verdade se define como correspondência entre a proposição e a realidade. A Lógica Material, tendo como escopo o conteúdo das premissas, está interessada em determinar se elas são verdadeiras com referência à realidade. Em nosso exemplo (1), as premissas não são apenas válidas, mas também verdadeiras. Mas podemos ter um argumento válido, sem que suas premissas sejam verdadeiras. É da forma do argumento que se ocupa a Lógica Formal. Ela consiste em uma investigação das categorias e princípios por meio dos quais pensamos sobre as coisas, do ponto de vista apenas da forma ou estrutura do pensamento, abstração feita de seu conteúdo. A Lógica Formal é a lógica aristotélica. A Lógica Aristotélica divide-se em: 1) Lógica do conceito, que se ocupa dos termos ou das categorias que utilizamos para pensar; 2) Lógica das proposições, que se ocupa do modo como construímos nossos juízos, relacionando conceitos e expressando-os em proposições; 3) Lógica do silogismo, cujo fim é examinar como se relacionam inferencialmente as proposições para delas extrair conclusões.

O caráter formal da lógica aristotélica pode ser representado pelo uso de variáveis. Assim, da proposição “Todo A é B”, podemos inferir que “Algum B é A”, mas não que “Todo B é A”, quaisquer que sejam os referentes de AA e BB. Segue-se o exemplo abaixo:

 

(2)  Todo cachorro é mamífero

      A                     B

De (2), podemos deduzir que “Algum cachorro é mamífero”, mas não que “Todo mamífero é cachorro”.

 

1.2. O Silogismo

Vou-me deter  um pouco nas considerações sobre a Lógica do Silogismo, um dos legados mais importantes de Aristóteles para a história do pensamento. O silogismo é um raciocínio completo, explícito, desdobrado, que se constitui de três juízos, dois dos quais são premissas; e o terceiro, a conclusão. Veja-se o exemplo abaixo:

 

(3)  Todos os pernambucanos são brasileiros  - PREMISSA MAIOR

João é pernambucano  - PREMISSA MENOR

João é brasileiro  - CONCLUSÃO

 

Note-se que, sendo verdadeiras as premissas, segue-se que a conclusão é necessariamente verdadeira. Para que possamos determinar a validade do silogismo, precisamos compreender a sua estrutura. O silogismo, portanto, se compõe de três termos:

 

a)   TERMO MAIOR: o mais abrangente (brasileiros), que se acha na PREMISSA MAIOR e na CONCLUSÃO.

b)   TERMO MÉDIO: possui abrangência média (pernambucano).

c)   TERMO MENOR: é o mais específico, menos abrangente (João).

 

Observe-se que o termo médio aparece nas duas premissas, mas nunca na conclusão. A premissa maior contém o termo maior; e a premissa menor, o termo menor (além do médio). Há, segundo Aristóteles, três figuras do silogismo. Será bastante apresentar um exemplo da primeira figura. Na primeira figura, o termo médio é sujeito da premissa maior e predicado da premissa menor. Segue-se o exemplo abaixo:

 

(4)    Todo gato é um mamífero

Nina é um gato

Nina é um mamífero

 

O núcleo “gato” é sujeito na premissa maior (Todo gato é mamífero) e predicado da premissa menor (Nina é um gato). Uma forma inválida do argumento ilustra-se no caso (5):

 

(5)    Todo mamífero é um gato

Nina é um gato

Nina é um mamífero

 

Em (5), o termo médio “gato” é predicado da premissa maior e não aparece na conclusão, infringindo o que prevê a primeira figura do silogismo. Claro está que a premissa maior é falsa: nem todo mamífero é gato. Cachorros, baleias, morcegos são mamíferos também.

Cumpre acrescentar que a Lógica Formal constitui a base de todas as operações mentais, as quais se expressam nos seguintes princípios:

1)   Princípio da identidade (que depende do princípio da razão suficiente): Todo A é A. Tudo que existe tem uma razão para existir (princípio da razão suficiente).

 

2)   Princípio da não contradição: uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo e sob as mesmas condições. João não pode ser casado e solteiro ao mesmo tempo.

 

3)   Princípio do terceiro excluído: Ou está chovendo agora em São Pedro da Aldeia, ou não está chovendo.

 

1.3. A Lógica das proposições: o caso da implicação

 

Uma implicação de pensamentos só será falsa, se o antecedente for verdadeiro, e o consequente for falso. Veja-se o exemplo abaixo, ao qual se segue o esquema de condições que, satisfeitas, tornam verdadeira a implicação:

(6)  Se uma pessoa está com febre, então ela está doente.

a)   p (V) e q (V) = V

b)   p (V) e q (F) = F

c)    p (F) e q (V) = V

d)   p (F) e q (F) = V

 

As letras “p” e “q” representam, respectivamente, o antecedente (primeira oração) e o consequente (segunda oração). Veja-se que a única possibilidade de a implicação ser falsa é se “p” for verdadeiro, mas “q” for falso.

A Lógica das proposições é o estudo do modo como construímos nossos juízos. Convém, portanto, definir o que é um juízo. Juízos são sentenças que vinculam conceitos mediante o verbo “ser”. Um exemplo de juízo é a frase “Minha cadeira é confortável”. Tradicionalmente, distingue-se entre dois tipos de juízo: a) juízo analítico e b) juízo sintético. Kant reuniu a estes dois o juízo sintético a priori. Todavia, não me ocuparei da explicação deste último, já que ela excederia os objetivos desta exposição. Detenho-me na explicação dos juízos analítico e sintético. O juízo analítico é sempre a priori, o que significa dizer que sua verdade independe da experiência, ou seja, determinamos sua verdade apenas considerando a relação significativa entre seus termos. Por exemplo, no juízo, “Nenhum solteiro é casado”, exprime-se uma verdade porque o conceito de “solteiro” implica o conceito de ‘não casado’. Portanto, no juízo analítico, o predicado (casado) nada acrescenta ao sujeito (solteiro), já que na ideia expressa no sujeito está contida a ideia do predicado. Por outro lado, no juízo sintético, o predicado acrescenta uma qualidade ao sujeito. Atente-se para o exemplo abaixo:

 

(7)  João é honesto.

O predicado “honesto” acrescenta uma qualidade ao sujeito “João”.

Os juízos também podem ser classificados segundo os critérios de qualidade da cópula (“ser”), da qual resultam os juízos afirmativos, negativos e indefinidos (João é médico, João não é médico, João é não médico (mas pode exercer qualquer uma das inúmeras profissões existentes)); de quantidade do sujeito, do que resultam os juízos universais, particulares e singulares (Todos os pernambucanos são brasileiros, Alguns brasileiros são pernambucanos, João é médico). Coube a Miguel Psellos, teólogo-filósofo bizantino, cruzar os critérios de qualidade da cópula e quantidade do sujeito, estabelecidos por Aristóteles, representando os cruzamentos num quadro que se tornou consagrado, em virtude de sua praticidade e simplicidade. De seu empreendimento, segue-se o seguinte resultado: A = Universal afirmativo; I = Particular/Singular afirmativo; E = Universal negativo; O = Particular/Singular negativo. Abaixo, dispõem-se um exemplo de juízo para cada tipo:

 

A - Universal afirmativo = Todos os alunos são cariocas

I - Particular/Singular afirmativo = Alguns alunos são cariocas

E - Universal negativo = Nenhum aluno é carioca.

O - Particular/singular negativo = Alguns alunos não são cariocas

 

Se atentarmos para os tipos acima elencados, vemos que “I” está contido em “A” (se é verdade que TODOS OS ALUNOS SÃO CARIOCAS, é verdade também que ALGUNS ALUNOS SÃO CARIOCAS). Igualmente, vemos que A/O e E/I são irreconciliáveis, ou seja, não podem ser verdadeiros e falsos ao mesmo tempo. Se dissemos “é verdade que todos os alunos são cariocas”, não podemos assumir como verdadeiro que “alguns alunos não são cariocas”, sem incorrermos em contradição. Todavia, os pares A/E e I/O se opõem, mas não se contradizem, porque, embora não possam ser simultaneamente verdadeiros, podem ser simultaneamente falsos. Há, portanto, oposição, mas não contradição entre “Todos os alunos são cariocas” e “Todos os alunos não são cariocas”; correlativamente, há oposição, mas não contradição entre “Alguns alunos são cariocas” e “Alguns alunos não são cariocas”. Por outra lado, se dizemos “É verdade que todos os alunos são cariocas”, incorremos em contradição se admitirmos, simultaneamente, que “É verdade que alguns alunos não são cariocas”. Considere-se o exemplo a seguir, a fim de verificarmos quais inferências são possíveis e quais não o são:

 

(8)  É verdade que todas as garrafas são refrigerantes.

 

De (8), que ilustra um juízo universal afirmativo (A), podemos inferir “I”, “Algumas garrafas são refrigerantes”. Ora, está claro que da afirmação da totalidade podemos inferir a afirmação de partes, de um subconjunto dessa totalidade. Se é verdade que todos os “x” são “y”, segue-se verdadeiro que alguns “x” são “y”. No entanto, de “Todas as garrafas são refrigerantes”, não podemos inferir “Nenhuma garrafa é refrigerante”. A razão é evidente, por isso dispensa explicações.

Na próxima subseção, dou a conhecer e comento alguns casos comuns de falácias, entre as quais se encontram algumas que frequentam o discurso religioso/teológico.

 

1.4. Falácias: enganos e trapaças

 

A palavra “falácia” vem do latim fallacia, fallaciae e significa ‘engano’, trapaça’, ‘manha’. Embora aparentada a “sofisma”, que remonta ao grego sofisma, sophismatos e significa ‘habilidade’, ‘destreza’, ‘invenção engenhosa’, ‘expediente’, ‘artifício’ ou ‘intriga’, “falácia” se distingue desse termo grego, porque falácias não são intencionais, ao contrário dos sofismas, que são formulados propositalmente para confundir.

Vou referir e comentar alguns casos de falácias. Tomem-se os casos típicos do discurso religioso ou teológico.

 

a)     Conclusão que nega as premissas

 

Nesse tipo de falácia, começa-se sustentando que certas coisas têm de ser verdadeiras e termina-se com uma conclusão que contradiz as premissas iniciais. Quando a conclusão não é consistente com os argumentos que nos permitem chegar a ela, então há algum problema com o raciocínio. Veja-se o exemplo abaixo:

 

(9)    Não se pode ter certeza de nada neste mundo.

 

Diante de (9), um interlocutor poderia indagar “você tem certeza disso?”. Tendo respondido afirmativamente “tenho certeza”, o locutor de (9) comete uma falácia por inconsistência. Como pode ser verdadeiro que “de nada podemos ter certeza” e também verdadeiro que “estou certo de que o enunciado é verdadeiro”? Se a conclusão contradiz, pelo menos, uma das premissas, tem de estar errada. A conclusão, portanto, pode ser falsa em si mesma, ou pode derivar de falsas premissas. Os argumentos religiosos são exemplos prototípicos dessa falácia, em que a conclusão nega as premissas. Senão, vejamos.

 

(10) Tudo tem de ter uma causa. Cada coisa existente tem uma causa prévia. Não podemos retroceder indefinidamente na série de causas. Portanto, tem de haver uma causa incausada que deu início ao processo. Essa causa incausada é Deus.

 

Note-se, contudo, que a primeira premissa começa com “tudo”. Diz-se que “tudo tem de ter uma causa”. Se tudo deve ter uma causa, não pode haver, logicamente, uma causa não causada, ou seja, uma causa que não tenha outra causa prévia. Uma variante dessa falácia é o exemplo abaixo:

(11)  Nada é eterno. Tem de haver, portanto, um início para tudo. Logo, tem de haver um Deus que deu início a tudo.

Um Deus que seja eterno, é claro.

Quanto maior for a distância entre a conclusão que nega as premissas e seu enunciado, tanto maior será a probabilidade de o interlocutor não identificar a contradição. Se a conclusão encerra uma referência a coisas que são comumente assumidas como dotadas de propriedades excepcionais, a falácia não é reconhecida, na maioria das vezes.

b)     Petição de princípio

A petição de princípio é também comum no discurso religioso. Por meio dela, conclui-se com aquilo que se pretende provar.

(12)  A Bíblia é a Palavra de Deus?

Como você sabe?

Porque ela mesma o diz.

 

Veja-se a circularidade do raciocínio. Busca-se saber por que a Bíblia é a Palavra de Deus. Como podemos provar que ela é a Palavra de Deus? Deveríamos buscar fora da Bíblia a prova de que ela é a Palavra de Deus. Não podemos oferecer como prova ou evidência aquilo que pretendemos provar. A conclusão do raciocínio é assumida, de antemão, na premissa.

 

c) Falsa dicotomia

 

Nesse caso, reduz-se uma situação complexa a duas alternativas extremas e opostas, ignorando-se opções intermediárias. Veja-se o exemplo abaixo:

 

(13)  Ou você acredita em Deus ou sua vida não tem sentido nenhum.

 

A vida de um ateu pode ter sentido de outras maneiras. Como já mostrei em outro texto publicado neste blog, os sentidos são construídos em processos de produção social e historicamente determinados. Todas as significações que organizam a experiência humana, que dotam de coerência, importância a existência humana, individual ou coletivamente, são produtos do imaginário-simbólico socialmente instituído. A descrença em Deus não torna a vida sem sentido. Outras tantas crenças e atividades ou instituições humanas podem dar sentido a uma vida individual (família, amizade, o amor, o trabalho, a produção artística, etc).

 

d) Falácia do Deus das lacunas

Trata-se de uma falácia do tipo “tapa-buraco”. Na ausência de explicações científicas para um dado fenômeno, postula-se que a única explicação possível é de ordem sobrenatural.

(14)  Como a Ciência não consegue explicar a origem da consciência, então essa origem é Deus.

Uma resposta simples e que vale para tudo, como a que apela a Deus, não só não explica nada, não faz avançar o conhecimento científico, como também enfraquece a fé, quando uma explicação natural revela a causa do fenômeno.

 

e)     Apelo às consequências

Também chamado de agumentum ad consequentiam, nossa quinta falácia consiste em julgar verdadeira ou falsa uma afirmação, com base nos resultados que o seu estado-de-coisas acarretaria, e não com base nas evidências disponíveis.

(15) Se Deus não existir, a moral carece de fundamento; logo, Deus existe.

 

f)       Apelo à autoridade

Assume-se que uma afirmação é verdadeira porque alguma autoridade (um texto sagrado, um cientista, um sacerdote, um professor) o disse.

(16)  Cristo ressuscitou e isso é verdade, porque está na Bíblia.

 

g)     Falsa causa (post hoc)

 

(17)  Rezei e depois consegui o emprego; a oração casou o emprego.

 

Post hoc ergo propter hoc -  Depois disso, logo, por causa disso.

Se um evento acontece após o outro, o segundo é assumido como consequência do primeiro. A falácia consiste em concluir que A casou B, porque A ocorreu antes de B (e não há evidências para provar a verdade de tal afirmação). Nem sempre é verdade que o primeiro evento produziu o segundo.

O pensamento supersticioso é farto de falsas causas. Se passei debaixo da escada e, em seguida, bati com o dedão do pé numa pedra que estava mais adiante, não foi o fato de passar debaixo da escada que causou o acidente; apenas estava distraído, dei um passo em falso. Se a inflação entra em queda após a eleição do novo governo, não se segue que o novo governo tenha, necessariamente, causado a queda da inflação. Sua queda pode decorrer da confluência de várias causas. Reitere-se: dados dois eventos subsequentes, não é necessário que o primeiro tenha causado o segundo. A causalidade precisa ser demonstrada ou provada empiricamente.

Vejamos, agora, outros tipos de falácia correntes no uso da língua no dia a dia.

 

h)     Falácia da negação do antecedente

Num enunciado em que há relação de implicação com um antecedente na forma condicional (Se p, então q), negar o antecedente é uma forma de falácia, porquanto atribui-se somente uma causa a um evento para o qual pode haver várias causas.

(18)  Se ele for lento, perde a corrida. Ele não é lento, então não perderá a corrida.

Mas ele pode perdê-la por incompetência.

Não se incorre em falácia, se afirmamos o antecedente. Trata-se do modus ponens, ou modo de afirmar. Se A, então B. A, Logo B.

(19)  Se chover, a rua ficará molhada. Choveu, logo a rua está molhada.

Pode-se negar o consequente, caso este chamado de modus tollens (modo de negar). Se A, então B. Não B, logo não A.

(20) Se choveu, a rua está molhada. A rua não está molhada, logo não choveu.

 

i)     Falácia da afirmação do consequente

Outrossim, se afirmamos o consequente, produzimos uma falácia. Se A, então B. B, então A.

(21)  Se uma pessoa toma veneno, ela morre. Uma pessoa morreu, logo tomou veneno.

O erro consiste em ignorar que a morte dessa pessoa pode ter múltiplas outras causas.

 

j)     Apelo à força

O apelo à força é também chamado argumentum ad baculum ou argumento do porrete. Tenta-se vencer um debate, ou levar o interlocutor a aceitar uma opinião ou a adotar um comportamento desejado, recorrendo-se a ameaças, em vez de se lhe apresentar boas razões. Seguem-se alguns exemplos comuns:

(22)  Você deve aceitar minha condição, se quiser manter o emprego.

(23)  Seria uma pena se sua loja pegasse fogo por acidente. Então, é melhor aceitar o meu preço.

(24)  Quem discorda dessa pauta, perde apoio de vários partidos. Então, é melhor a apoiarmos.

Como se vê, esse tipo de falácia é, na verdade, uma renúncia à argumentação, já que a ameaça substitui o argumento. Na falta de um bom argumento, busca-se provocar no outro o comportamento desejado, ameaçando-o ou, como no último exemplo, sugerindo-lhe a consequência indesejável que sua decisão contrária acarretaria (se você não apoiar a pauta, perderemos o apoio partidário). A falácia do porrete mostra com que facilidade podemos recusar o contrato comunicativo tácito em que se baseia o uso da razão, em favor de nossa posição de poder, de nossa força física para fazer com que o outro adote o comportamento que desejamos.

Não é escusável insistir em que o lógos é filho da pólis, exercita-se e floresce na ágora, onde se encontram debatedores, e não na arena de gladiadores.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

"Uma vida não examinada não merece ser vivida". (Sócrates)

 

                                       


 

                                     Sapere aude

                                      A polissemia do Lógos

 

Preocupado em responder à questão que consiste em saber se o niilismo constituiria uma ameaça à razão filosófica, em minha tese de doutorado em Filosofia, mostrei que a filosofia nasce nutrida pela confiança na razão, mas, ao mesmo tempo, ao longo de toda a história do pensamento, a razão, com frequência, enredou-se em crises. A conclusão a que cheguei, ao cabo da discussão da referida questão foi esta: o empreendimento filosófico sempre se caracterizou por ser um empreendimento racional que questiona seus próprios postulados e pressupostos”. Não só não convém falar em crise (no singular) da razão - dado que são diversas as crises que ela sofreu ao longo da história do pensamento, mas também não é correto crer que as suspeitas sobre a razão começaram com os chamados por Ricouer  de “filósofos da suspeita”, dentre os quais se destaca Nietzsche. Conforme se pode ler em minha tese, se a filosofia, no século V a.C., é a constituição de uma nova ordem do saber (o racional em contraste com o saber mítico), o nascimento da razão foi também o começo de sua crise.

“(...)o que sucedeu, no século V a.C., foi a constituição de uma nova ordem do saber, que foi qualificada de racional relativamente à antiga ordem. Mas, nesse caso, não se trata mais de pensar a razão como uma faculdade imutável e a-histórica; trata-se de situá-la na história dos sistemas de pensamento, dos modos de organização do saber, pois que, assim, encontraremos momentos de ruptura na organização geral do saber, como a que se deu na Grécia do século V a.C. A ruptura que se verifica, nessa época, é chamada, por vezes, de passagem do mito à razão.

 

Designava-se assim o aparecimento de uma nova ordem do saber que organiza conjuntamente novos campos de conhecimentos, que supõem, implicitamente, novos modos de validação e reconhecimento dos discursos verdadeiros, entre os quais se contam a demonstração matemática, que se formaliza com Tales por volta de 600 a.C., a investigação física e cosmológica, que na mesma época se afasta do mito entre os físicos da Jônia, a investigação histórica, que rompe com a lenda e adquire um caráter sistemático com Heródoto. [1]

 

 

A tudo isso, se acresça, segundo Wolff, o nascimento dos primeiros grandes sistemas filosóficos. Para Wolff, os traços negativo e positivo da razão se encontrariam na nova ordem do saber da segunda metade do século V AEC. Os sofistas encarnaram o aspecto negativo da razão, por terem sido eles “responsáveis por um formidável movimento de crítica à autoridade, à tradição e aos mitos”. Por outro lado, o aspecto positivo encontra-se representado nos primeiros físicos, historiadores e filósofos, “que elaboram sobre as ruínas das antigas crenças, uma discursividade universalizável” [2]. Para Wolff, só podemos falar em “nascimento da razão” se considerarmos a constituição de modos de conhecimento ou de práticas discursivas, mas, ainda assim, “com a condição de ver na razão apenas o caráter do que é pensado ou realizado racionalmente” [3]. Wolff nega que tenha havido uma nova ordem do saber racional que substituiu a ordem antiga mítica. Não foi a razão que veio substituir, de modo completamente uniforme, o mito, “mas racionalidades diversas e conflituais” [4]. Para ele, os modos de pensamento têm uma materialidade histórica, estão encarnados em instituições sociais, são determinados por práticas políticas e são solidários de técnicas discursivas, de modo que “o pensamento racional se desenvolveu desde o início de modos antitéticos” [5]. Destarte, para ele, o que se deu foi a substituição da ordem antiga por sistemas igualmente racionais, de modo que “o nascimento da razão foi ao mesmo tempo, e necessariamente, a sua crise” [6]. Wolff não endossa a ideia, que ele considera ser mítica, de uma razão unificadora.

Se, por um lado, a confiança na razão se expressou de muitas maneiras ao longo da história do pensamento ocidental; por outro lado, essa confiança se expressou na vizinhança de constantes crises que, por sua vez, assumiram diversas formas nas quais se faziam sentir processos de ruptura. Assumir que a filosofia nasce nutrida pela confiança na razão não significa ignorar que, segundo Bornheim, “toda filosofia não passa, de certa maneira, de crise, que a filosofia e crise são palavras convergentes” [7]. Bornheim lembra que a palavra grega krisis significa ‘escolha’, ‘julgamento’, ‘sentença’, ‘debate’ e ‘disputa’. A forma krisis pressupõe, portanto, segundo o autor, certo exercício de negatividade: escolher, julgar, decidir, debater – “tudo isso implica o negar” [8]. Por isso, Tales foi o primeiro filósofo, já que precisamente foi ele que pôs em crise a explicação tradicional de ordem mitológica, da gênese do cosmo. Lembra Bohrneim que não foi suficiente que Tales afirmasse que a água era o elemento primordial. Foi necessário que se mostrasse racionalmente “a veracidade de tal asserção: foi o que fez Tales com seu evolucionismo e, em definitivo, com a invenção da ciência” [9]. Segundo o filósofo, “o Ocidente manifesta, mais do que qualquer outra cultura, uma afinidade surpreendente com as experiências de crise”[10]. Consonante com Bornheim, Prado Jr. afirma que “razão e filosofia nascem juntas, na Grécia, já em crise” [11]. Para confirmá-lo, ele nos convida a pensar na possibilidade de a filosofia grega clássica (Sócrates, Platão e Aristóteles) conseguir instituir-se sem o desafio sofístico. Para ele, se a “Razão” pôde lograr um caráter universal e um estatuto ontológico que alcançaria grande prestígio no Ocidente, isso só foi possível por um movimento dialógico em oposição àqueles que dela fizeram “uma ilha em deriva, que se dilui mesmo no rio que a transporta” [12]. O caráter “crítico” da instituição da razão se manifesta na necessidade de distinguir entre sentido e verdade, de criar dialética, analítica, semântica, ontologia contra “aqueles que produzem paradoxos a partir das ideias negativas – do não-ser, do erro, da ilusão, da loucura, enfim -, contra os heróis da me-ontologia, como Górgias (...)”[13].

As formas como a razão se faz acompanhar de crises são, como se pôde ver, bastante diversas. Basta pensarmos, para tomarmos um exemplo mais próximo de nós, na crítica vertiginosa empreendida pelo romantismo alemão de um Novalis ou Schlegel à ideia de uma arquitetônica em Kant. Todo um paradigma da racionalidade legado pela tradição se encontrou profundamente abalado; tudo se acha fraturado no romantismo alemão: o próprio paradoxo é lugar de sentido; o ser é um efeito e todo efeito é ser; sujeito e objeto se confundem; a lógica é subvertida, o rigor romântico transforma todas as coisas em coisas indiscerníveis; o sujeito é uma criação da língua (ou do discurso); a língua não comunica nada (não há elemento fundante da linguagem); não há coisas ou mundo antes da língua: não há estrutura última do mundo; falta a garantia da referencialidade da verdade; os românticos recusam a evidencialidade da vinculação entre linguagem e homem. O movimento romântico, em suma, se caracterizou, fundamentalmente, como ruptura com o modelo identitário da filosofia.”

Malgrado o fato de referir esta longa passagem de minha tese para patentear que a filosofia, nascendo junto da razão, nasce juntamente com ela em crise, não é sobre as crises da razão que falarei neste texto. Este texto é o primeiro de uma série de quatro textos, os quais, conquanto tematicamente diversos, se articulam a partir de um mesmo fio condutor: a necessidade de uma revalorização da razão, de uma insistência no exercício do bom senso, no cultivo do pensamento crítico. Este texto é a expressão de um sintoma e uma resposta a esse sintoma: a perplexidade de que me vi tomado depois que um colega, num contexto em que nossas e outras falas gravitavam em torno  do tema da religião, me indagou: “o que é a verdade?”. Da conversa participou outro colega que se esforçou por manter a religião ao abrigo da investigação crítica. Esses dois colegas frequentaram comigo as salas de aula do curso de filosofia. Estão, portanto, familiarizados com o questionamento filosófico. A despeito disso, mostraram-se pouco empenhados em desfiar reflexões mais acuradas sobre o tema que motivara nossa conversa. Um deles, declaradamente ateu, é indisposto para sobrevoos especulativos sobre temas metafísicos; o outro, com ser um religioso típico, exibe certa condescendência com a fé religiosa. Trata-se, na verdade, de alguém que declara acreditar em algum ser divino ou em alguma realidade transcendente, embora pareça anuir à crítica filosófica que expõe o caráter antropomórfico do Deus teísta.

Esvaziada de interesse, a conversa cessou, mas não sem deixar rastos de inquietação intelectual em mim. Por que algumas pessoas, mesmo instruídas e formadas na cultura letrada, tendem a refrear o uso da razão quando o que está em questão são suas crenças fundamentais como a crença num sentido metafísico da vida, numa vida pós-túmulo ou na existência de um deus criador e providente? - perguntei-me. Não me interessa responder a esta questão aqui; importa-me apresentar uma defesa da razão e de seu uso irrestrito como a única medida, regra ou caminho que nos leva a discernir o falso do verdadeiro, o real da ilusão, e que nos previne contra os perigos advindos das fantasias conspiratórias, dos assédios do delírio coletivo. A defesa da razão inicia-se com o exame dos seus diversos significados ao longo da história da filosofia. Não me será possível esclarecê-los em todos os períodos da história da filosofia, tampouco é factível rastreá-los em cada um dos inúmeros filósofos desde a antiguidade grega. Um recorte metodológico se impõe, portanto. Meu critério para a análise será o racionalismo; em outras palavras, estarão sob escopo da análise filósofos que ou a historiografia situa como percursores da tradição racionalista (Sócrates, Platão e Aristóteles) ou que são, na condição de herdeiros dessa tradição, considerados pertencentes a uma “escola” racionalista (Descartes e Espinosa).  Veremos como a razão se definiu e foi pensada na Grécia antiga, a partir, sobretudo, de Sócrates/Platão e Aristóteles. No segundo texto, em que me debruço sobre o conceito de Deus na filosofia cristã e na questão da fé, detenho-me na discussão sobre o papel da razão frente à fé e de seu lugar nessa filosofia. No terceiro texto, abordo o significado da razão num confronto entre o racionalismo cartesiano e o racionalismo espinosista. No quarto texto, concentro-me na discussão do estatuto sociológico e antropológico do mito e sua relação com a razão.

Tome-se, pois, a questão inicial: o que é a razão? Espero, no curso que me levará a respondê-la, demonstrar por que é sempre um risco renunciar a ela.

 

1.   A polissemia do Lógos

 

A palavra lógos vem do verbo grego légo (cujo infinitivo é légein). Légo significa: 1) reunir, recolher, colher, contar, enumerar, calcular; 2) narrar, pronunciar, proferir, falar, dizer, declarar, anunciar, nomear claramente, discutir; 3) pensar, refletir, ordenar; 4) querer dizer, significar, falar como orador, contar, escolher; 5) ler em voz alta, recitar, fazer dizer. Lógos é palavra, o que se diz, sentença, conversa, máxima, discurso; é também pensar, inteligência, razão, faculdade de raciocinar, fundamento, causa, princípio, razão de ser de uma coisa, argumento, exercício da razão. Em síntese, pode-se dizer que logos reune em si quatro domínios de significado: o da linguagem; o do pensamento e razão; o da norma, medida, regra; e o do ser ou essência de uma coisa.

Como se depreende da discriminação dos diversos significados da palavra logos, para os antigos gregos, pensar, dizer e ser são a mesma coisa. O verbo légo, donde provém logoscarreia a ideia de linguagem como o que reúne e conta; a ideia de falar como reunir sons; a de ler e escrever como reunir e contar letras. Como razão e pensamento, légo significa reunir ideiase como sinônimo de raciocinar, légo é calcular sobre as coisas.

A tradição grega, na esteira de Sócrates, Platão e Aristóteles, atribuiu à razão o estatuto de faculdade mental superior, de inteligência conceitual. Na verdade, a razão definida como faculdade da alma humana encontra raízes no pensamento de Pitágoras. Pitágoras já dividia a alma humana em duas partes: uma racional e outra irracional. A parte racional é incorruptível. Essa mesma distinção encontraremos na filosofia aristotélica. Comecemos, contudo, por Sócrates.

Para Sócrates, todas as contradições e todas as incertezas dos sofistas decorriam do fato de eles terem se ocupado dos problemas do homem sem que determinassem, de maneira correta, a essência do homem. À questão que é o homem?, Sócrates responde inequivocamente: o homem é a sua alma (psyché), visto que a alma é o que o distingue de todas as outras coisas. Ninguém antes de Sócrates entendeu por alma aquilo que ele entendeu. Para Sócrates, a alma é a nossa consciência pensante, a nossa razão; é a sede de nossa atividade de pensamento. A alma é o eu consciente, é a personalidade intelectual e moral do homem. Consoante ensina Reale (2009, p. 93), coube a Sócrates dar origem à tradição moral e intelectual da qual a Europa se tornou herdeira. Toda a filosofia socrática pode ser resumida nessas fórmulas convergentes: 1) conhecer a si mesmo e 2) cuidar de si mesmo. Conhecer a si mesmo não é conhecer o próprio nome nem o próprio corpo, mas examinar o interior de si mesmo e a própria alma. Cuidar de si mesmo não é cuidar do próprio corpo, mas cuidar da própria alma. Sócrates acreditava estar investido de uma tarefa por Deus: ensinar os homens a conhecer e cuidar de si mesmos.

Sócrates, no Protágoras de Platão, era apresentado como médico da alma. Ele ensinava o homem a cuidar não do corpo e das riquezas, mas, antes e acima de tudo, da alma, para que ela se torne virtuosíssima. É da virtude que advêm as maiores riquezas. Ora, a alma (psyché) é aquilo que em nós participa do Divino e é o que em nós tem o domínio. Platão compreendeu isso e insistiu no fato de que Sócrates, ao contrário dos sofistas, tendo compreendido que o homem se distingue de qualquer outra coisa pela sua alma, pôde determinar qual era a areté (excelência, virtude) humana. Ela é o que permite à alma ser boa, ser aquilo que pela sua natureza deve ser. Destarte, cultivar a areté ou virtude significa tornar boa a alma; significa realizar plenamente o eu espiritual, de sorte a alcançar o fim próprio do homem e também a felicidade.

Para Aristóteles, o lógos conhece o universal (kathólou); o universal é o objeto da ciência. Mas foi seu mestre Platão quem, antes dele, dividira a alma em três partes, ou em três faculdades maiores, como vemos na República (Livro IV): a razão (lógos), coração e sensibilidade. Em Timeu, o filósofo afirma que o lógos é a melhor parte e sua função é governar as outras partes; além disso, somente a parte racional da alma é imortal. A crença, ainda enraizada no senso comum, de que a razão é que refreia nossos ímpetos, que controla nossos apetites e paixões, moderando-os, é uma herança socrático-platônica que tem uma longa vitalidade na história da filosofia.

A parte racional é a parte espiritual e imortal da alma. É a função superior da alma, o princípio divino em nós. A psicologia proposta e descrita por Platão se articula com sua teoria ética. Não podemos perder de vista essa articulação, já que, ao dividir a psykhé em três partes, Platão está interessado em determinar as condições necessárias para que um homem pratique o bem e seja virtuoso. Se dominado pelas partes apetitiva e irascível, esse homem não pode tornar-se virtuoso. É preciso, para tanto, que a parte superior e melhor da alma comande as demais partes. A própria possibilidade de haver justiça, discutida no livro IV de A República, demanda o comando do superior e melhor sobre o que é inferior e pior. Em outras palavras, para haver justiça, a parte racional da alma, que é a parte superior e melhor, deve governar as partes inferiores, a apetitiva e irascível. Que não reste dúvida sobre a relação necessária que Platão estabelece entre a vida virtuosa e a parte racional da alma. Esclarecemo-la. Platão sustenta a crença – que deve a seu mestre Sócrates – de que as paixões do desejo e da cólera levam à produção de apetites em nosso corpo, os quais concorrem para toldar a inteligência. O obscurecimento da inteligência por esses apetites, que decorrem das paixões do desejo, impede-a de realizar sua atividade própria, que é conhecer. O que resulta daí é a ignorância, que é o próprio vício. Logo, incapaz de exercer a razão, o indivíduo fica impossibilitado de conhecer as virtudes e de tornar-se virtuoso. É assim que a vida virtuosa dependerá unicamente da parte racional da alma.

Se nos perguntarmos sobre qual é a tarefa ética da parte racional da alma, a resposta deve já nos saltar evidente: dominar as outras partes da alma, de modo a harmonizá-las com a razão. O domínio da razão sobre a concupiscência é o que chamamos temperança (sophrosýne). Sophrosýne é moderação. A temperança é a virtude da alma concupiscente que se deixa dominar pela razão. Uma alma que se dispõe para a temperança resiste aos impulsos e prazeres, modera os apetites e impõe-lhes uma medida racional. Vê-se aqui a noção de razão como métron (medida). Dela me ocuparei mais adiante. Seguem-se algumas considerações sobre o estatuto da razão na divisão da alma estabelecida por Aristóteles.

A teoria da virtude desenvolvida por Aristóteles é inteiramente estruturada pela proposição básica segundo a qual o agir virtuoso é aquele que está em conformidade com a atividade do intelecto ou da razão. O primado do intelecto tem seus desdobramentos e está ancorado sobre um pressuposto que revela a absoluta adesão de Aristóteles à doutrina socrático-platônica que identifica a essência do homem com a alma, ou com a parte racional da alma, o espírito, de sorte que “somos a nossa razão e o nosso espírito” (Reale, 2007, p. 102). No tangente aos seus desdobramentos, o primado do intelecto se expressa, por um lado, num apelo à necessidade de subordinar os desejos e as paixões à razão; por outro lado, na assunção de se considerar a atividade da razão ou do intelecto a própria essência da virtude humana. Em outros termos, com base no primado do intelecto, Aristóteles definirá a virtude humana como aquela que consiste na atividade do intelecto ou da razão. No excerto abaixo, é notável o fato de Aristóteles delegar à razão a função de comando da orientação do desejo.

 

O buscar e o evitar na esfera do desejo correspondem à afirmação e à negação na esfera do intelecto. Consequentemente, na medida em que a virtude moral é uma disposição que diz respeito á escolha, e escolha é desejo deliberado, conclui-se que, se a escolha deve ser boa, tanto a razão precisa ser verdadeira quanto o desejo, correto, e que o desejo tem que buscar as mesmas coisas afirmadas pela razão (grifo nosso)

 

Antes de fazer incursão no tratamento dispensado por Aristóteles à questão da virtude, prossigamos na mesma linha de raciocínio que ilumina o lugar fixado por ele para o primado do intelecto. Doravante, queremos mostrar de que modo o tratamento que ele dispensará à virtude em sua ética se esteia nesse primado.

Também para Aristóteles, a essência do homem é a alma. À moda platônica, ele também divide a alma em três partes: duas irracionais e uma racional. As partes irracionais da alma compõem-se da alma vegetativa e da sensitiva; a parte racional é recoberta pela alma intelectiva. Aristóteles deduzirá as virtudes dessa divisão tripartite da alma. Ele dirá que cada uma dessas três partes tem a sua atividade peculiar (a sua virtude ou excelência). Contudo, a virtude humana é tão-só aquela que consiste na atividade do intelecto ou da razão. É verdade que, diferentemente da alma vegetativa, a alma sensitiva, embora seja irracional, participa, de certo modo, da razão. Mas é por essa participação relativa que a alma sensitiva é suscetível ao domínio da razão. A alma sensitiva é, por natureza, apetitiva e concupiscível; suas tendências e impulsos, por serem desmedidos, devem ser dominados pela virtude ética – a virtude específica dessa parte da alma humana.

A razão como medida deve ser entendida tanto como o que avalia e estabelece o meio termo justo ( na ética e na política) ou princípio da ordem cósmica, como aparece em Heráclito, quanto como medida humana que serve de critério para a avaliação das coisas, para o discernimento e o julgamento de tudo que é dado à experiência humana. Conforme buscarei argumentar, quem quer que renuncie à razão priva-se da capacidade de bem julgar e discernir, e corre, assim, o risco de ter sua consciência toldada por preconceitos, superstições e fantasias que levam ao erro.

Em Heráclito, a razão ou o lógos é a razão universal ou a alma do mundo. O Lógos governa o universo, que é eterno e incorruptível. O lógos, sendo uma medida comum a todas as coisas, é que sustenta e garante a unidade na diversidade de todas as coisas. Em virtude do lógos, todas as coisas, posto que sejam múltiplas e diversas, estão unidas numa totalidade coerente, da qual os próprios homens participam e cujo conhecimento é necessário para que eles conduzam suas vidas adequadamente. O lógos é a inteligência divina que governa o real. Graças à razão que todos os homens têm em comum, cada um deles poder alcançar a sabedoria, que consiste em viver em conformidade com a ordem divina e racional (o Lógos). Com mais refinamento, encontramos a mesma doutrina no Estoicismo. Para os estoicos, a Natureza universal é a Razão. É a Razão o primeiro princípio imanente da Natureza. À filosofia cumpre a tarefa de possibilitar à razão humana exercer-se em justa harmonia com a Razão universal.

Como métron do homem, a razão passa a ser o critério de avaliação, especialmente importante no domínio ético-político da existência humana. Perder a medida, ver-se privado dela definitivamente, é a loucura, a demência. Quem age em desconformidade com a medida da razão incorre na desmedida ou hýbrisComo métron, a razão é a medida-proporção que confere inteligibilidade à experiência humana e ao universo habitado pelos animais humanos. É pela razão-medida, que se estrutura e se expressa pelo discurso,  pelo diálogo, que o homem mede ou avalia suas práticas ou atividades enquanto indivíduos e membros de uma comunidade política.

 

1.2.   A razão como referencial da conduta humana no mundo

 

Na condição de referencial da conduta humana, a razão tornou-se o símbolo da investigação crítica, há mais de 2.500 anos. Desde muito cedo, a filosofia valorizou a razão como uma faculdade ou uma força graças à qual nós podemos nos libertar das ilusões dos sentidos, dos preconceitos, do mito, das opiniões falsas que se formam a partir das aparências das coisas. A razão, assim, tornou-se um critério universal ou comum em referência ao qual os homens devem viver e se orientar em todos os campos de sua atividade. Acresça-se a isso que a razão, na medida em que é aquilo que orienta o comportamento humano, é também a força que permite ao homem controlar seus apetites. A razão pode, pois, comportar um sentido positivo e um sentido negativo. Seu sentido positivo expressa-se no seu poder de dirigir as atividades humanas de modo uniforme e constante. Os estoicos, principalmente, tomaram a razão nesse sentido. Se os animais não humanos se guiam pelo instinto, em função do qual eles buscam o que lhes é vantajoso e o que lhes permite a autoconservação, os homens possuem o guia mais perfeito, de sorte que viver segundo a natureza é, para eles, viver segundo a Razão. O sentido negativo da razão se expressa no poder que ela tem de libertar-nos das crenças infundadas e dos apetites que temos em comum com os animais. Sêneca, por exemplo, exaltava a razão. Para ele, a razão não é serva dos sentidos, mas senhora deles. Ela é uma parte do espírito divino infundida em nós. A razão é a parte imortal que há no homem. A linguagem, a escrita, as ciências, a matemática são criações dela.

Desde sua origem na Grécia Antiga, a razão é dialógica. Racionalidade é comunicação (Japiassu, 2001). Raciocinar significa “dar razão”, e não ter razão. Por isso, desde o seu nascimento com a filosofia, o uso da razão calca-se sobre um pressuposto ético: leva-se em conta a alteridade e reconhece-se a posição do interlocutor. Recorde-se que o lógos nasce na praça pública, nos debates da ágora. Foi nesse espaço político que ele rompe com os mistérios da palavra revelada e dos mitos, destituindo de autoridade aqueles que se proclamavam porta-vozes divinos.

 

Contra o mundo fechado das certezas e da obediência incondicional, contrapôs-se o mundo aberto das questões e da liberdade. Por isso, desde sua origem, a Razão foi democrática. (Japiassu, 2001, p. 77).

É somente quando somos capazes de inscrever o absoluto dos pontos de vista particulares (esta é a minha razão, a minha verdade) no sistema de relações entre esses pontos de vista que um ponto de vista universal se torna, deveras, possível. Talvez, o grande erro da Razão ocidental tenha sido o esquecer-se de que nasceu, como mostra Sócrates, do diálogo. Dialógica por natureza, a razão não nos impele a ter razão contra os outros, mas a buscar sempre dar razão (justificar nossas crenças com base na experiência, nas evidências disponíveis), a buscar a verdade juntamente com o outro e diante dele. Decerto, a razão nasce como relação e regulação de nossas relações com os outros. Isso, no entanto, não a impede de ser reguladora de si mesma e de orientar-se sempre para o universal.

A gnoseologia, para os antigos gregos, está fundada num pressuposto ontológico: há homologia entre a razão humana e o mundo, porque o mundo é dotado de uma racionalidade imanente que a razão humana é capaz de conhecer e explicar. Em alguma medida, a razão humana a reconheceu. O cosmo é uma totalidade racionalmente ordenada, boa, justa, divina. Na esteira da tradição do pensamento grego, Hegel assinala a correspondência da razão subjetiva, isto é, o conjunto dos princípios universais que todos os seres humanos empregam tanto no conhecimento como na ação, com a razão objetiva, de caráter ontológico, que consiste na razão enquanto razão de ser, ou no princípio que, na ordem das coisas, confere a conexão necessária e universal entre elas. Assim, a razão conhece, pois, aquilo que é (o Ser). Aquilo que é verdadeiramente é posto com necessidade pela razão; mas essa necessidade é a conexão efetiva da realidade que a razão é capaz de apreender, porquanto ela mesma é parte da realidade.

Na condição de razão subjetiva, a razão é aquilo através do qual se enuncia a objetividade do mundo, é o mundo refletindo sobre si mesmo. Conhecendo o mundo, a razão conhece a si mesma e revela esse conhecimento de si. Mas esse conhecimento de si da razão não deve ser visto como introspecção. A razão, ao conhecer seu objeto como seu outro, expõe suas efetuações como a verdade daquilo que é. Assim, a subjetividade constitui o conteúdo verdadeiro da objetividade, e a razão toma consciência de si em sua própria objetivação. Num ser que lhe é exterior, a razão reconhece sua própria atividade e, nesse momento, toma consciência de si mesma.

Não posso pôr termo a este texto, sem, antes, insistir na urgência de sermos conscienciosos e firmes na defesa da razão, da discursividade racional em face da ofensiva dos populismos conspiratórios de extrema direita, com suas histórias e narrativas fantasiosas, delirantes que refletem a dimensão mágica de seu discurso. Como bem observa Demuru (2024, p. 27), “para o conspiracionista raiz, um cachimbo não é, nunca, apenas um cachimbo; tudo pode significar muito mais do que aparenta significar (...). O mundo pode ser sempre dobrado às suas exigências narrativas”. Pinker (2021), por seu turno, também nos lembra que a racionalidade tem estado ausente de muitas de nossas práticas sociais, de nossas modos de estar e experienciar o mundo. Assim, ele defende que os mesmos cidadãos de quem esperamos que exibam um bom conhecimento das questões básicas de história, ciência e produção textual escrita “também deveriam dominar as ferramentas intelectuais do raciocínio sólido”. Toda vez que, na história da humanidade, a razão foi atacada, toldada, posta na condição de serva (da teologia, da fé, por exemplo), a existência do homo sapiens sapiens (que também é homo demens) mergulhou nas profundezas do obscurantismo, das superstições, da loucura, da hybris. Com Pinker, mantenho que “a racionalidade deveria orientar tudo o que pensamos e fazemos”. (Pinker, 2021, p. 11). O leitor incauto não deve concluir daí que eu superestime o poder da razão, que eu assuma o preconceito clássico segundo o qual razão e paixões são domínios opostos e estanques na economia psíquica do animal humano. As emoções não só exercem influência considerável em nossa conduta e decisões, como também contribuem para estabelecer objetivos e prioridades no agir racional. As emoções são inteligentes e podem ser intencionais. Elas funcionam como estratégias que nos permitem agir, tomar decisões. (Solomon, 2015).

Porque capaz de racionalidade, o animal humano é o único capaz da desrazão, da irracionalidade, da loucura, da deflagração do absurdo. Como bem ensina Morin (2012, p. 117), “seria irracional, louco e delirante ocultar o comportamento irracional, louco e delirante do humano”. Não existe um dispositivo cerebral intrínseco que diferencie a alucinação da percepção (é o que nos ensinam os psicanalistas - a percepção é um modo da alucinação, ou melhor, a percepção e a alucinação compartilham uma mesma origem). Não há um mecanismo cerebral que diferencie o sonho da realidade, o subjetivo do objetivo, o imaginário do real. Se o racional comporta o cálculo, a lógica, a coerência, a verificação empírica, ele é privado do sentimento de realidade. Termino, pois, citando Morin, à guisa de alerta contra a ilusão a que estamos sujeitos sempre que aderimos a um racionalismo dogmático ou ingênuo. Não obstante, manter uma atitude crítica em face da razão não significa renunciar a ela, resignar-se ao avanço dos grupos e movimentos políticos, sociais, ideológicos que a recusam, que a atacam.

 

A racionalidade é apenas uma instância, concorrente e antagônica a outras instâncias de uma trilogia inseparável. Pode ser dominada, submersa, ou mesmo sujeitada, pela afetividade ou pela pulsão. A agressividade delirante pode servir-se da lógica e utilizar a racionalidade técnica para organizar e justificar seus empreendimentos. (Morin, 2012, p. 120).