O que é viver?
Um
breve intercurso entre Cioran e Morin
Cioran confessou, certa vez, que não escreve
se a escrita não lhe for uma exigência interior, ou melhor seria dizer, uma
exigência de sua fisiologia. Disse também que sempre acreditou no que escrevia
e que essa crença ingênua “está em contradição com minha visão das coisas”.
(2024, p. 337). Mas Cioran não se importa com isso. Trapacear ou não é
indiferente.
Outrora, o ato de escrever era também para
mim uma exigência de meu corpo, de minha estrutura fisiológica, da constituição
de meus afetos. Se o ato da escrita não corresponde a uma exigência interior,
diz Cioran, “é apenas literatura”. (ibid., p. 336).
Ao ser indagado sobre o significado da
experiência do fracasso, ele diz que se pode tirar dessa experiência uma “lição
extraordinária”, mas, adverte que “há muita gente que não aguenta”. (ibid., p.
333). Para Cioran, “no fim das contas, a experiência da vida é o fracasso”.
Os mais suscetíveis ao fracasso são aqueles que são ambiciosos, que têm
projetos de vida, são os que fazem planos para o futuro. Aos que ficam
lamentosos, lamuriosos com o fracasso, Cioran sugere uma visita ao cemitério:
“Por isso levo as
pessoas para o cemitério, e isso não é mentira; basta ver os resultados. É a
única forma de minimizar uma situação trágica, é nítido...”. (ibid., p. 333-334).
Cioran afirma que ir ao túmulo de um amigo
faz-nos entender tudo: só não aprendemos a superar esse tipo de experiência!
Ao se referir à consciência do nada,
Cioran assevera que, se levarmos até as últimas consequências a consciência do nada,
coisa alguma se sustenta, gesto algum é possível. Atenda-se nas palavras do
filósofo romeno:
“Pode-se ter
consciência do nada, mas não se podem tirar todas as conclusões disso. É
evidente que, caso se tenha a consciência do nada, é absurdo escrever um livro,
até mesmo ridículo”. (ibid.,
p. 337).
Deve-se dizer mais, sem, com isso, trair o
pensamento de Cioran: ter uma consciência aguçada do nada leva à inação,
à debilidade mortal, não valeria sequer levantar-se da cama! Certo, pois! Para
Cioran, “(...) há, apesar de tudo, essa vitalidade misteriosa que leva a
fazer algo”. (ibid.). Talvez, seja essa vitalidade a vontade cega
schopenhaueriana? Mas a conclusão a que chega Cioran sobre a vida é o que dará
mais fôlego aos pensamentos ulteriores que se desenvolverão neste texto. Cioran
diz: “E talvez a vida seja isto, sem querer usar palavras difíceis, é que
fazemos coisas com as quais nos envolvemos sem acreditar nelas, sim , é algo
assim”. (ibid., grifo meu).
Decerto, para aqueles que tem uma consciência
aguçada do nada, que nadifica toda a experiência humana do mundo até as
entranhas, para quem sente visceralmente, em cada ato cotidiano, desde o
despertar até o adormecer, a insignificância cosmologicamente radical da
condição humana no mundo, a vida é ocupar-se continuamente com coisas, com
tarefas nas quais não se acredita. Mas, a maioria esmagadora da humanidade leva
muito a sério suas tarefas, seus projetos, suas realizações pessoais.
Doravante, abro uma interlocução com Edgar
Morin. O tema continua sendo a vida: o que é a vida? A vida é o oposto da
morte, como se costuma crer? Cioran falou da vida, pelo menos nos fragmentos
referidos anteriormente, sob a perspectiva da condição humana no mundo. Viver
é, essencialmente, estar -se ocupado com coisas, tarefas, projetos que têm
significado para nós, que importam a nós. Mas, há aqueles dentre nós que fazem
o que fazem sem acreditar no que fazem. Cioran também se ocupou da vida à luz
de sua metafísica negativa: a vida é um erro da matéria, plena de antinomias e
contradições. Ela é governada pelo princípio de negatividade. Outrossim,
ele estava consciente dessa inscrição da morte no tecido da vida, à qual fará
referência Morin, conforme mostrarei. Em Do inconveniente de ter nascido, Cioran
escreve:
“Ladear uma ribeira,
passar, correr junto com a água, sem esforço, sem precipitação, enquanto a
morte continua em nós as suas ruminações, o seu solilóquio ininterrupto”. (2006,
p. 38).
Duas
belas imagens para representar essa operária silenciosa e incansável que é a
morte que nos parasita. Ela, como um verme, rumina, nos corrói continuamente por
dentro, com sua voz solitária e inaudível.
Em seu Conhecimento, ignorância e mistério
(2017), Morin observa que o aparecimento da vida dependeu de inúmeras
coincidências que permitiram a associação, a combinação de inúmeras
macromoléculas, mas também de condições excepcionais de nascimento: turbilhões,
tempestades. Surgida, portanto, na dependência de coincidências muito
aleatórias, a vida manifestou um formidável querer viver. (Schopenhauer acertou
em intuir uma vontade cega, um querer viver que constitui a essência íntima do
mundo). Todavia, se, em tudo, há essa vontade cega, esse querer viver, segundo
Morin, “(...) desde o nascimento, a vida veio a ser parasitada pela morte”.
(ibid, p. 49). A morte não é o antípoda da vida, seu antagonista. Mas é seu
parasita. De que formas a morte parasita a vida?
Em primeiro lugar, segundo Morin, a própria
auto-organização do ser vivo está constantemente sujeita à desintegração. Há,
na própria constituição dos seres vivos, as condições que os levam à morte.
Para se manterem vivos, os seres auto-organizadores consomem energia em grande
quantidade. Sua atividade destinada à manutenção de sua vida envolve processos
de degradação que os conduzem à morte. No esforço contínuo de manter a vida, a
morte os assedia desde o funcionamento interior de seu corpo. Para resistir à
desintegração na morte, os seres vivos precisam extrair energia, organização e
informação do meio ambiente. A morte está programada como possibilidade
dentro do próprio ser vivo. Entre as principais fontes endógenas que levam à
morte do ser vivo, estão os erros do DNA. Os erros de replicação e reparo
celular podem gerar doenças fatais. Toda divisão celular pode gerar mutação. Se
o sistema de reparo falha, podem ocorrer:
a) A Síndrome
de Li-Fraumeni, caracterizada pela mutação no gene p53, “o guardião do
genoma”. Essa síndrome eleva o risco de desenvolvimento de câncer, ao longo da
vida, para mais de 90%.
b) Xerodema
Pigmentoso: é uma falha no reparo do DNA após exposição aos raios
UV. Assim, qualquer exposição ao sol, sobretudo, por crianças, leva ao
desenvolvimento de câncer de pele, fatal na infância.
c) Síndrome
de Lynch (tumor de Lynch): é uma falha no sistema de revisão do
texto do DNA.
Todas
as vezes em que uma célula de nosso corpo se divide, ela precisa gerar 3
bilhões de letras de DNA. A enzima que copia, chamada, polimerase, erra
muito. Para que um erro não resulte num câncer, temos um segundo sistema que se
encarrega de reparar os erros. É o Mistmacth Repair ou Reparo de
incompatibilidades. Esse sistema opera com 4 proteínas principais presentes
na esteira do DNA: MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2.
As
proteínas MSH2 e MSH6, combinadas, identificam o erro. As MLH1 e PMS2 cortam o
trecho errado e instruem a produção de nova cópia. Todos nós já nascemos com
quatro proteínas mutadas em todas as células de nosso corpo. Herdamos de nossos
pais essas mutações. O câncer pode surgir, quando o sistema de freio de
segurança, que impediria seu aparecimento, é removido.
Qualquer
tecido que se divide muito está em risco. Por exemplo, o câncer de cólon tem
risco de incidência entre 50 e 80% até os 70 anos. Se falta a proteína MLH1, a
proteína PMS2 fica instável e é degradada. Se falta a MSH2, a MSH6 desaparece
também. Isso eleva, em grau altíssimo, o risco de câncer colorretal, que passa
de 50% para 80% até os 70 anos.
A
doença rara, até então desconhecida pelo grande público, que levou à morte o influenciador Lito
Sousa, do canal Aviões e Músicas, é um exemplo de como a morte pode ser
provocada pelo acúmulo interno de proteínas, ou seja, ela é gerada do interior
e por condições interiores ao próprio sistema vivo. A doença de Creutzfeldt-Jakob
se caracteriza por uma condição neurodegenerativa severa, causada pelo acúmulo
anormal de uma proteína chamada príon no cérebro. Temos uma proteína em
nosso cérebro, que, dobrada de modo errado, causa-nos essa doença devastadora e
fatal! Se isso não torna a vida uma experiência angustiante e absurda, é que a
maioria dos animais humanos vive confortavelmente ajustados à mentira vital
(Ernest Becker).
A autonomia dos sistemas vivos se apoia na
dependência em relação a sua ecologia. Surge, então, o paradoxo da autonomia
no âmago dos sistemas vivos: a autonomia precisa ser dependente para ser
autônoma.
Concentro-me, a partir de agora, na exposição
do jogo entre vida e morte. A vida é um trabalho permanente, durante o qual se
consome energia até que ela é conduzida à morte. Atentemos para as seguintes
palavras de Morin:
“A atividade de viver
produz a morte que combate aniquilando outras vidas e, no caso dos
policelulares, levando à morte suas próprias células para substituí-las por
outras novas”. (ibid., p. 50).
Todas as formas vivas estão condenadas à
necessidade de sobrevivência. Para tanto, elas precisam se alimentar
constantemente. As plantas obtêm sua energia através de suas folhas e se
alimentam por meio de suas raízes. Os animais empregam a maquinaria de seu corpo
e os recursos de que dispõe para buscar alimento. Quanto mais complexa se
tornou a vida, mais frágil ela ficou, mais ameaçada pela morte ela se tornou;
no entanto, mais organizada precisou ficar para lhe opor resistência. As
células que compõem um organismo humano, uma vez sujeitas a um processo inelutável
de degradação (novamente, estamos destinados à morte inevitável desde a
nossa constituição orgânica complexa), se autodestroem para serem substituídas
por outras. A morte das células está a serviço do rejuvenescimento e da
vitalização do indivíduo como um todo. Segundo Morin, “500 mil das nossas
células morrem a cada segundo; 30 milhões a cada minuto”. (ibid., p. 30). Neste
exato momento em que escrevo, milhares de milhões de mortes acontecem dentro de
mim; sou um cemitério celular ambulante! Todos os processos auto-organizadores
e mantenedores da vida de meu organismo prenunciam meu destino tumular! A vida
não é só, como a definiu Bichat, “o conjunto das forças que resistem à
morte”, mas também o que integra a si a morte. A vida, pois, se constrói se
destruindo ou se destrói se construindo. O que é viver? Responde Morin: “(...) é
ir em direção à morte combatendo-a” (ibid., p. 50). Daí a vida ser luta,
resistência a um destino que lhe está entalhado no interior e sob cujo peso ela
inevitavelmente será destruída. Segundo Morin, “a vida trabalha no sentido de
viver trabalhando, para morrer e a vida trabalha no sentido de morrer
trabalhando para viver”. (ibid.). Fernando Pessoa também expressou sua aguçada
consciência de que viver nada mais é do que estar condenado ao desaparecimento
no abismo da morte. Em seu O Livro do Desassossego (2006), legou-nos esta
pérola de sabedoria:
“Considero a vida uma
estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo
(...). Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência”. (Pessoa, ibid.,
p. 42, grifo meu).
Trabalho inútil, vão da vida! Sua atividade a
empurra para a morte certa, mas, ainda assim, precisa executar seu trabalho
para conservar-se por maior tempo possível longe das garras da morte! O fim da
vida é a morte, inexorável, inelutável, implacável! Ao viver, cada ser caminha
em direção à morte; vivendo, cada ser trabalha para morrer, mas também para
prolongar a vida.
“O tempo é a condição
para viver; a morte é o preço a pagar para viver. Viver e morrer são
antinômicos e inseparáveis.” (ibid.).
O indivíduo e a espécie são, ao mesmo tempo,
fim e meio um do outro. A espécie produz o indivíduo, que, ao se reproduzir,
produz, por sua vez, a espécie. Cada indivíduo vivo é constituído por uma autoafirmação
egocêntrica, em função da qual ele se situa no centro de seu mundo; mas,
por outro lado, está a serviço de sua descendência. Quando é membro de um
grande número de animais, ele é integrado no nós de uma sociedade ou de um
casal genitor. Segundo Morin, “os vivos não apenas são animados, mas possuídos
pela vida e, nesse ponto de vista, quase sonâmbulos”. (ibid., p. 53). Ainda
segundo o autor, “nós somos habitados e possuídos pela máquina que habitamos e
possuímos”.(ibid.). Na maior parte do tempo, a organização viva funciona de
forma inacessível à nossa percepção sensível e à nossa consciência. Não somos
nós que temos fome; é a fome que se apossa de nós.
À guisa de conclusão, elenco e comento duas
lições fundamentais sobre a natureza da vida, colhidas de Morin:
1ª lição: a vida é
marginal e representa um desvio no seio do mundo físico. Isso a torna
espantosa!
2ª lição: houve um gigantesco
salto de complexidade entre a organização molecular e a autoeco-organização
viva.
Para Morin, “a vida é maravilhosa e
aterrorizante”.
“A vida é
inteligente, engenhosa, criadora, maravilhosa, cheia de sentido e ao mesmo
tempo incompreensível, absurda, insensata e horrível”.
(ibid., p. 56, grifos meus).
Embora a organização dos seres vivos pareça
uma obra-prima de complexidade, a vida é pura loucura. Nota Morin, com
perspicácia, “a loucura sempre esteve presente na história humana”.
Somos ávidos de encontrar um sentido para a vida, mas, se sentido há, “não é no
sentido que conferimos à palavra ‘sentido’”. (ibid.). Consoante entende Morin,
o sentido da vida está escondido dentro do absurdo. Também para ele, o
sentido da vida está em sua finalidade, que é viver por viver. Isso me
faz vir à memória um trecho de Cioran, em seu Nos cumes do desespero,
que cito a seguir: “para ser sincero, diria que não sei por
que vivo e por que não cesso de viver. A chave, provavelmente reside no
fenômeno da irracionalidade da vida, que faz com que ela se mantenha sem motivo”.
A própria irracionalidade da vida é o que a faz querer prolongar-se no tempo,
sem pedir ou exigir fins, sentidos. Viver por viver conota a noção de viver
sem propósito. Vive-se, assim, por hábito, por um impulso cego (a Vontade)
que me faz viver sob o modo de um automatismo orgânico. A questão do “para que”
se vive continua sem resposta. Mas, se, conforme diz Morin, o sentido da vida
está escondido no absurdo, então o sentido é definitivamente incompreensível,
quiçá incognoscível ou, in extremis, inexiste.
No respeitante à
questão do sentido da vida, já externei o que penso em outros textos
deste blog. É bastante recordar que a expressão “sentido da vida” é usada no
domínio discursivo do senso comum com pressupostos religiosos e/ou metafísicos.
O sentido da vida se define em relação a outra vida pós-túmulo, sem a qual esta
vida terrena deixa de ter sentido. Em minha análise filosófico-sociológica,
desenvolvida alhures, são os homens que fabricam, que constroem reservatórios
de sentidos, imaginário-simbólicos que constituem redes, teias de
significados que sustentam suas vivências e experiências de mundo. Por serem
animais simbólicos, os seres humanos estão condenados a doar sentido a tudo que
fazem, a tudo que acontece e que lhes acontece. Nossa relação com o real (no
sentido lacaniano) se dá através da tela da fantasia. Eis aí o próximo
tema para meditações cuidadosas em outro texto.





