domingo, 11 de outubro de 2026

“Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de ação” (Cioran)

 


                

               Um mundo onde nada se resolve

 

O resultado do 1º turno das eleições presidenciais causou-me atordoamento, perturbação, debilidade intelectual. A burrice é tenaz, arrogante. Sobre ela o conhecimento não exerce qualquer efeito. Como observa Casanova (2020, p. 116), “a burrice não se deixa instruir, não sabe se atenuar, não aceita se calar e a tudo se atira com sete pedras nas mãos. Ela persiste apesar de tudo, apesar de todos, apesar de si. (...)”. Resta-nos combatê-la sempre, incessantemente. Mas como combatê-la? A burrice parece imune a argumentos racionais, é cega para o contraditório; o burro vê o seu interlocutor como um inimigo a ser derrotado,  a ser aniquilado num campo de batalha, que não é o do diálogo, mas o da ofensa, do ódio, do ressentimento.

Quanto mais convivo com o animal humano, mais convicto fico de que ele é um animal doente, louco, estúpido. A racionalidade não é seu apanágio, mas uma habilidade, uma competência que ele perde com facilidade, que precisa conquistar e reconquistar penosamente, incessantemente. Se nem a educação, nem o conhecimento pode modificar o homem, pode demovê-lo de sua tendência à irracionalidade, à demência, então resta-nos esperar que o homem acelere o processo de sua extinção inevitável.

Em uma de suas entrevistas, Cioran declarou:

 

“Os desapontados pela filosofia voltam para a sabedoria (...). Embora seja verdade que se deve começar pela filosofia, é preciso ser capaz de desaprender dela. Talvez seja inclusive o dever supremo”. (p. 275).

 

Segundo Cioran, à sua época - o que, para mim, vale para todos os períodos históricos - o que está no centro da produção intelectual não é mais a questão de como é possível o conhecimento, o que podemos conhecer. O que ocupa o primeiro lugar na agenda dos pensadores é “a maneira de encarar a vida, a questão de saber como se pode tolerá-la”. Cioran diz que só conhece dois grandes problemas: como tolerar a vida e como tolerar a si mesmo. Esses dois grandes problemas são atemporais. Podem até ser mais ou menos acentuados num ou noutro período histórico; mas jamais são problemas característicos de um período histórico específico. Esses dois problemas existencialmente fundamentais impõem-nos o suportar duas grandes tarefas. Segundo Cioran, cada indivíduo, em sua solidão ineliminável, deve resolver, ao menos em parte, cada um desses problemas sem apelar para auxílio exterior.

 

“Há na vida sofrimento maior do que o dever de tolerar a si mesmo, de se levantar a cada manhã e dizer: “começa mais um dia, outra vez, preciso fazer isso, aguentar também este dia?”. É portanto apenas questão de agir, de criar... Essa é também a razão pela qual sou contra o trabalho”. (p. 275).

 

Eis uma das teses de Cioran que repito, quase diariamente e silenciosamente em pensamento, como se fosse um mantra: nós estamos no mundo para não fazer nada. Malgrado minha condição contingencial de não ser herdeiro obrigar-me ao exercício do trabalho, realizo-o esmerando-me na arte do descompromisso, do desleixo atencioso. Cuido, assim, poupar-me de demasiado aborrecimento, de crises paralisantes de ansiedade. Minha constituição fisiológica, orgânica, afetiva me predispôs a ser um homem teórico, e não de ação. Ainda que grite exasperadamente de meu âmago um revolucionário reprimido, basta recordar-me da finitude de minha existência para aplacar qualquer furor que se assemelhe àquele que animou o terrorismo anarquista.

Ora, se a vida humana não tem qualquer fim último, nenhum sentido superior, se cada animal humano está no mundo para não fazer nada, então o ato de escrever é já uma violação de nossa condição enquanto ser no mundo. Por isso, Cioran mantém que:

 

 “Não se deve sequer escrever. A única coisa importante é manter diante dos olhos esses problemas insolúveis e viver como Epiteto ou Marco Aurélio”. (p. 276).

 

 

 

Cioran compara o homem a um escritor que não tem mais nada a dizer, a um pintor que não tem o que pintar, que não tem interesse por coisa alguma. Se seu espírito ainda não atingiu o esgotamento, está muito próximo de atingi-lo.

 

“Para mim, o homem só existe verdadeiramente quando não faz coisa alguma. Assim que age, assim que se prepara para fazer algo, torna-se uma criatura patética”. (p. 271).

 

 

Se, relutantes em admitir que o aparecimento do animal humano no mundo não o investiu do poder, do talento para a realização de alguma grandiosa tarefa histórica ou cósmica, teimamos em prolongar a história como catástrofe, como aventura demoníaca, que segrega desastres, resta àqueles que não se deixam arrastar pela turba dos agitadores que chegarão tarde demais à compreensão da verdade indigesta de que a vida não significa nada, resta avivar, diariamente, no íntimo de seu espírito a verdade que o Universo, em sua indiferença abissal, proclama em cada átimo do “Devir: uma agonia sem desenlace” (Silogismos da Amargura, p. 45): “Tudo que fazemos é vazio de realidade”. Em outras palavras, tudo que fazemos é vão, cada ato tem como pano de fundo a vanidade de tudo que existe, sussurada pelo túmulo a que estamos, desde o nascimento, destinados. Abaixo, Cioran expõe-nos uma lição que, para mim, tem o caráter de um artigo de fé: não consigo recusá-la, oferecer-lhe contra-argumentos:

 

“Lemos livros, claro, eu em todo caso leio muito, talvez demais. Mas nada disso tem nenhum sentido. Se a vida faz algum sentido para mim, é antes quando estou na cama e deixo meus pensamentos passearem sem propósito. Tenho então a impressão de trabalhar realmente, Mas quando de fato me coloco para trabalhar, sou de imediato chacoalhado pela certeza de que a única coisa que faço é perseguir uma ilusão”. (p. 271).

 

 

Eu poderia, se o tivesse conhecido, ouvi-lo falar por longas horas, em êxtase; pois que lendo e relendo suas obras, sinto que Cioran escreveu seus livros para mim, para leitores fisiológica e afetivamente conexos com seu sentimento trágico da vida. Estou convencido de que não é qualquer leitor que consegue compreender a escrita cioraniana. A escrita de Cioran repele leitores cujo corpo é fisiológico e afetivamente atrofiados para suportar as interrogações existencialmente profundas, perturbadoras. A escrita cioraniana é um acontecimento de uma afecção do corpo. Mas essa íntima relação entre o corpo e a produção escrita em Cioran não é o tema deste texto. Deixo para dele me ocupar em outra ocasião.

Tal como Cioran, leio muito, até demais. E também tenho a mesma experiência de vanidade dessa prática diária. Sobretudo, nesse tempo histórico de recrudescimento da ofensiva fascista, da antipolítica bélica da extrema-direita no Brasil, a leitura nunca antes me pareceu tão inócua, tão ineficaz contra a perturbação do jogo político provocada pela guerra cultural deflagrada pela extrema-direita. Nossos adversários, na arena da esfera pública e da política institucional, odeiam o conhecimento; se pudessem, incendiariam os livros; não reconhecem qualquer ética de diálogo; não dialogam, vociferam, rugem, rosnam salivantes de ódio. Neles, a racionalidade regrediu a uma fase que a ameaça com a completa ruptura na bestialidade de hordas para as quais o outro é um inimigo a ser aniquilado.

Se retorno a Cioran, não é para buscar em seus escritos, em seus ensinamentos filosóficos, uma dose de potência para resistir. De Cioran não se pode esperar qualquer conselho para enfrentar os períodos tormentosos, que mergulham a existência humana na insanidade coletiva, nas tolices das turbas de fanáticos e idólatras. Se busco, nas páginas de Cioran, recordar seus trágicos e lúcidos ensinamentos, é para desanuviar-me das aflições, das preocupações, das tensões cerebrais desencadeadas por minha obcecação por compreender como mais de 56 milhões de eleitores desejam o retorno de um Bolsonaro à Presidência da República, a despeito do pandemônio que foi o governo de Jair Bolsonaro.

Cioran aplaca o furor revolucionário de quem quer que se candidate a ser um mátir. Aliás, deve-se, contra todo entusiasmo ativista, lembrar a lição de Durkheim, segundo a qual os sistemas sociais preexistem e sobrevivem aos indivíduos que os produzem em suas atividades. Demais, os sistemas sociais se expandem no espaço e no tempo para além de qualquer agente singular. Também devemos ter em conta que a estrutura social está fora e dentro de nós. Ela é moldada pela agência humana, ao mesmo tempo que molda, determina a conduta individual, as atividades dos agentes. E antes de pôr fim a este texto, arrolando várias passagens de Cioran em que ele externa sua concepção de história, refiro abaixo um trecho de minha tese de doutorado em Filosofia, cuja leitura ensina-nos a mensurar nosso grau de poder de transformar o curso dos acontecimentos sócio-históricos:

 

Todo indivíduo, seja um recém-nascido, seja uma criança, seja um ancião, tem um lugar designado, fixado pela estrutura específica da sociedade em que vive. O homem é, certamente, uma espécie de animal aberta para o mundo; é o verdadeiro criador do mundo social em que vive. Exteriorizando-se, o homem cria esse mundo e projeta na realidade seus próprios significados. Mas esse processo de exteriorização do homem e de fabricação do mundo sócio-histórico como seu mundo não se realiza em condições de absoluta liberdade. Esse processo envolve uma contínua e longa autorregulação de cada ser humano nas interações com outros seres humanos. Como ensina Elias, “o que falta ao homem em termos de predeterminação hereditária, em seu trato com os outros seres, tem que ser substituído por uma determinação social, uma moldagem sociogênica das funções psíquicas”[1]. Tornar-se membro de uma sociedade é, para o indivíduo, submeter-se necessariamente a uma moldagem social. Ainda segundo o autor, “toda a maneira como o indivíduo se vê e se conduz em suas relações com os outros depende da estrutura da associação ou associações a respeito das quais ele aprende a dizer ‘nós’”

 

LIÇÕES DE CIORAN SOBRE A HISTÓRIA

HISTÓRIA UNIVERSAL

 

“História Universal: história do mal. Suprimir os desastres do devir humano é o mesmo que conceber a natureza sem estações. Se você não contribuiu para uma catástrofe, desparecerá sem deixar vestígio. Interessamos aos outros pela desgraça que semeamos à nossa volta. “Nunca fiz ninguém sofrer!” – exclamação para sempre estranha a uma criatura de carne e osso”. (p. 137).

 

“É evidente que estamos no mundo para não fazer nada; mas, em vez de arrastar preguiçosamente nossa podridão, exalamos suor e nos esfalfamos no ar fétido. A História inteira está em estado de putrefação; seu fedor desloca-se para o futuro: corremos para lá, mesmo que seja apenas pela febre inerente a toda decomposição”. (p. 65).

 

Em vez de deixarmos que o tempo nos triturasse lentamente, preferimos reforça-lo, acrescentar aos seus os nossos instantes. Este tempo recente, enxertado no antigo, este tempo elaborado e projectado, revelaria em breve a sua virulência: objetivando-se, tornar-se-ia história, monstro por nós lançado contra nós, fatalidade a que é impossível escapar, ainda que recorrendo às formas da passividade, às receitas da sabedoria”. (p. 8).

 

“Se cada um de nós tivesse “compreendido”, a história teria há muito terminado”. (p. 128).

 

“Não existe situação mais falsa do que a de termos compreendido tudo e continuarmos vivos”. (p. 176).

“A história é indefensável. É preciso reagir em relação a ela com a inflexível abulia do cínico; ou então, pensar como todo mundo, caminhar com a turba do rebeldes, dos assassinos e dos crentes”. (p. 98).

 

BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO

 

A História como sede mortal de ficções

 

“A História: manufatura de ideais..., mitologia lunática, frenesi de horas e de solitários..., recusa de aceitar a realidade tal qual é, sede mortal de ficções”.

 

A História como sede mortal de ficções

 

“[...] a história é uma perpétua crise, uma quebra da ingenuidade. Os estados negativos – que são precisamente os que exasperam a consciência – distribuem-se diversamente, contudo, estão presentes em todos os períodos históricos [...]”. (p. 181-182).

 

Para Cioran, os períodos históricos que alcançaram algum “equilíbrio” e promoveram alguma porção de “felicidade” conheceram, em contrapartida, o tédio, “término natural da felicidade”; e quando tumultuosos sofrem tanto de desespero quanto de crises religiosas, que dele se seguem.

“A ideia de Paraíso terrestre foi composta com todos os elementos incompatíveis com a História, com o espaço onde florescem os estados negativos”. (p. 182).

 

“A história é a ironia em marcha, a gargalhada do Espírito através dos homens e dos acontecimentos. Hoje triunfa tal crença; amanhã, vencida, será amaldiçoada e substituída: os que creram nela a seguirão em sua derrota”. (p. 183).

 

A insignificância radical da História

 

“Que a História não tenha nenhum sentido, é algo que deveria alegrar-nos. Nós nos atormentaríamos por uma solução feliz do devir, por uma festa final na qual nossos suores e desastres arcassem com todos os gastos? [...]. A visão de um desenlace paradisíaco supera, por seu absurdo, as piores divagações da esperança”. (p. 184).

 

Do Tempo colhemos momentos mais generosos que outros, mas nele também se acham “acidentes sem importância em uma intolerável monotonia de perplexidades”. (p. 185).

 

Segundo Cioran, o homem que crê ser o protagonista da história é o fanático por excelência. Essa crença o levará a apoiar alguma ideologia que ofereça uma fórmula para a salvação da humanidade. Assim, segundo o filósofo, sempre que uma ideia ou narrativa a ela associada é exaltada e idolatrada como superior à própria vida, têm início todos os tipos de massacres que desfilaram no tempo histórico. Não obstante termos nos habituado a pensar os processos históricos se desdobrando linearmente, na história, os homens não fazem senão andar em círculo. Para Cioran, a ânsia de poder é que leva a História a renovar-se e a permanecer, contudo, sempre igual. Por conseguinte, “as guerras religiosas e as revoluções que assolaram a história possuem apenas o mérito de revelarem que andamos em círculo” (Petean, 2015, p. 60). Para Cioran, o curso sem finalidade e sentido dos acontecimentos históricos patenteia que “os homens combatem apenas por palavras e preceitos ideológicos, nossos eternos grilhões”. (Petean, idem.). Reconhecendo que o homem é um animal delirante por excelência, um cativo daquilo que ele mesmo cria, sempre movido pela avidez de aderir a uma “verdade”, Cioran destila seu ceticismo implacável corroendo as teorias políticas e as ideologias que, constituindo e justificando as tramas dos acontecimentos e  as ordens históricas, oferecem à humanidade sonhos que se acompanham sempre dos piores crimes e atrocidades. Na história, “andamos entre enredos que comportam promessas de felicidades e crimes inevitáveis”. (Petean, ibidem., p. 62).

“A história, espaço onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar, não é, evidentemente, de essência angelical”. (p. 52)

 

“Ninguém quer aceitar que a história se desenvolve sem nenhum motivo, independentemente de uma direção determinada, de um objetivo”. (p. 100).

 

 

A HISTÓRIA COMO FARDO

 

Cioran concebe a história como fardo e suplício. Os homens se deixam arrastar pelo devir histórico, se imiscuindo em seu fluxo, por medo da monotonia e do tédio, “desse medo que sempre nos fará amar o sabor e a novidade do desastre e preferir qualquer desgraça à estagnação” (História e Utopia, p. 118).

 

Cioran não acredita na liberdade do homem. Arrastados pelos turbilhões da História, os homens ignoram que uma força obscura, que pulsões inconscientes os impelem para a aderir a uma nova verdade. Todas as ficções inventadas para dotar de sentido  o mundo histórico patenteiam a teimosia que têm os homens em recusar o reino do caos e em resistir ao avanço do magma das incertezas. Não encontrando diferença entre sistemas políticos que se pretendem racionais e sistemas religiosos que reivindicam o monopólio da verdade, Cioran afirma que todas as promessas históricas carreiam condenações, punições e massacres. Por isso, para ele, a história nada mais é do que uma usina de massacres. Sistemas políticas, ideologias ou normas morais que prometem o paraíso na terra ou a reforma da humanidade são, tanto para Cioran quanto para Nietzsche, ilusões originadas de nossa tendência a negar o caos.

Republicado em 1960, no livro História e Utopia, Cioran se vale de conhecimentos históricos, políticos e sociais, faz incursões nos estudos da religião e dos mitos, com vistas a elaborar uma visão da história profundamente pessimista, de acordo com a qual a história é movida por forças irracionais. Sua visão de história faz lembrar à de Hobbes e a de Schopenhauer.

Sua lucidez habitual combina-se com um cinismo irônico e pessimista para denunciar a agressividade inerente à natureza humana como móbil da história. Em Cioran, como lembra Brum, em prefácio recente de História e Utopia, “a história, cenário de exaltação do agir humano, também é uma prisão para o homem, uma submissão ao tempo” (p. 7). Assim, ao debruçar-se sobre a História e suas utopias, Cioran enfatiza que “o drama metafísico do homem repete-se na escala coletiva” (p.  Jaudeau, 2001,  47). As ideologias não fazem senão reproduzir as inquietações, as perturbações e as taras dos indivíduos submetidos à necessidade vital que têm os sapiens de produzir ficções.

  

É esta a condição profundamente trágica do homem decaído no Tempo e na História:

 

“Nascer. Decair no Tempo e na História. Inquietar-se por nadas grandiosos, esquartejar-se pela própria incapacidade de adequar-se ao Devir, ao fluxo insensato, brutal, violento das ações humanas. Condenar-se à incapacidade de escolher entre ilusões – sejam quais forem os pretextos: políticos, ideológicos, filosóficos, éticos – e ao mesmo tempo, em um duplo movimento um duplo plano, atormentar-se e amaldiçoar-se por não conseguir, jamais, acalmar-se na resignação, na fé, na indiferença” (Pecoraro, 2004, p. 179).

 

A lúcida fúria cioraniana, de que se impregna o exame dos frêmitos vãos e das lutuosas rivalidades cosmologicamente insignificantes do homem atarefado, na história, corrói como um ácido os sistemas e as teorias que reproduzem o mesmo estribilho de massas crentes no sentido da história. O Essencial, nesse sentido, se revela como falta de uma essência ao processo histórico. As supostas verdades por que lutam os homens são, na realidade, um balaio de erros. Ao longo da história, os homens erraram ao pretender conferir um sentido, um escopo, uma substância, uma “realidade” a um domínio da existência humana submetido ao acaso, ao absurdo, ao Mal. Para Cioran, o homem se ilude ao acreditar que faz a história, que é capaz de dominá-la. Sucede, na realidade, que é a história  que o abala, que o agita, que o despedaça, que se desenvolve no encontro, na tensão entre o insolúvel e o intolerável.

O pessimismo gnóstico sustentado por Cioran está na base da sua visão terrificante da história, segundo a qual ela é uma prisão para o homem. Para Cioran, dado que não podemos não nascer e que a unidade primordial foi rompida por causa do pecado, fomos expulsos do paraíso e jogados no mundo onde vivemos condenados à perdição. Abandonados ao devir, à corrupção e à morte inexorável, aspiramos à serenidade imaginária de uma idade de ouro que remonta a um passado imemorial antes da queda. È porque fomos contaminados por uma nostalgia das origens, que buscamos reencontrar o paraíso perdido aqui neste mundo. Mas a nostalgia donde procede o paraíso carece precisamente da saudade e se torna, por isso, “nostalgia invertida, falseada e viciada, dirigida para o futuro, obnubilada pelo “progresso”, réplica temporal, metamorfose disparatada do paraíso [...]”. (História e Utopia, p. 100).

 

História

 

“A história, espaço onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar, não é, evidentemente, de essência angelical”. (p. 52)

 

“Ninguém quer aceitar que a história se desenvolve sem nenhum motivo, independentemente de uma direção determinada, de um objetivo”. (p. 100).

 

Sobre a sociedade

 

“Um grande passo à frente foi dado no dia em que os homens compreenderam que, para melhor poder atormentar-se uns aos outros, era preciso reunir-se, organizar-se em sociedade”. (p. 101).


História

 

“A história, esse dinamismo de vítimas”. (p. 94).

 



[1] ELIAS, ibidem, p. 38. (grifo nosso).

 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

"Dever da lucidez: alcançar um desespero correto, uma ferocidade apolínea". (Cioran).

 

                              




                         Uma dose da sabedoria trágica de Cioran

 

E assim terminava uma noite fria de setembro, depois de algumas horas debruçado sobre os livros. Em Silogismos da Amargura, se me deparou o seguinte trecho de Cioran, que expressa uma experiência que me é muito familiar e corriqueira.

 

“Bem no meio de importantes estudos, descobri que ia morrer um dia..., minha modéstia desapareceu imediatamente. Convencido de que não me restava mais nada a aprender, abandonei meus estudos para informar o mundo de tão extraordinária descoberta”. (Cioran, 2011, p. 61).

 

Tal como Cioran, antes de encontrar esse excerto, eu estava entretido, por longas horas, na leitura e na reescrita do que vinha lendo. Também eu estava imbuído da importância dessa tarefa. Enquanto dela me ocupava, mantinha-me desatento a essa verdade estarrecedora. Ao pousar meus olhos sobre esse trecho, uma única coisa restou-me fazer, antes de ir dormir: anotá-lo. E assim fui para a cama com a viva recordação de que todo empreendimento a que damos grande valor é esvaziado de todo sentido e importância em face de nosso destino tumular.

Cioran sabia que a maioria da humanidade é covarde; a maioria precisa das superstições, da religião, das fabulações metafísicas para suportar a vida.

 

“É preciso ter coragem de reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir um sentido ao que visivelmente não comporta um”. (ibid.).

 

Paradoxalmente, segundo Cioran, pode-se ter gosto por esse naufrágio no nada de tudo o que vive. Cioran considera que o homem está condenado desde o princípio, que está destinado a desaparecer; mas ele resistirá à extinção por vício:

“O homem tem todas as chances de desaparecer e desaparecerá mais cedo do que pensa, mas, por outro lado, tem razão em prolongar essa tragicomédia, nem que seja por distração ou por vício”.

 

Em minha tese de doutorado sobre o niilismo no pensamento de Schopenhauer, Nietzsche e Cioran, patenteei a significação complexa da experiência da Lucidez na obra de Cioran. Cioran fala da Lucidez ora como “a visão do pior”, ora como “a visão do Mal”, ora como um não saber mais elevado, “uma mística sem absoluto”. Cioran definiu a Lucidez de várias maneiras; uma delas, no entanto, é consistente com o trecho que citarei abaixo. Em minha tese, observei que “Cioran compreende a Lucidez como a doença do homem desperto do sono profundo de suas ilusões sobre a vida”. Viver desperto do encantamento provocado pelas ilusões sobre a vida é um estado a que o homem comum, terminantemente, não pode aceder. Cioran, no entanto, acredita que a Lucidez é preferível ao viver do homem comum que chafurda em ilusões. Novamente encontramos aqui a necessidade de viver com a inquebrantável coragem de assumir uma verdade cruel:

 

“Deve-se ter lucidez como individuo, sabendo que o excesso de lucidez torna a vida insuportável. A vida é tolerável apenas se não for levada às últimas consequências”.  (Cioran, 2014, p. 330, grifos meus).

 

Em prefácio à obra Cioran: a filosofia em chamas (2004), de Rossano Pecoraro, Volpi observa que “há pensadores que incendeiam palavras” (ibid, p. 9), e Cioran era um incendiário soberano. Ainda nas palavras de Volpi,

 

“A sua inteligência é um fogo que queima tudo aquilo que encontra e que por fim se alimenta da sua própria chama”. (ibid.).

 

Volpi adverte que o leitor estará perdido, ficará existencialmente desamparado, se ler seriamente Cioran, se acreditar nele, porque “sua é uma obra que infecciona, envenena, mata”. (ibid.).

 

“(...) Página após página, ministra ao leitor um concentrado de pessimismo que intoxica mortalmente cada coisa: conceitos, ideias, esperanças, ímpetos metafísicos da filosofia. Sufoca no começo toda tentativa de ancorar a existência em um sentido que a tranquilize ante o abismo da absurdidade que a ameaça”. (ibid.).


Todos os expedientes imaginário-simbólicos (filosóficos, artísticos, míticos, religiosos, etc.) utilizados pelos humanos com vistas a suavizar sua condição de um ser animal que se sabe condenado à morte inexorável é obscurecida pela sombra do Nada.

Se, contudo, a Lucidez torna a vida insuportável, por que obstinar-se em destruir as ilusões de que necessitam os seres humanos para viver?

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

"Mercados sem freio gerarão mais poder monopolista, mais abusos do setor financeiro, mais desequilíbrio nas relações comerciais". (Joseph Stiglitz)

 



A dívida pública: um mecanismo de expropriação da classe trabalhadora em escala mundial

 

Os dias em que me mantive dedicado à confecção de textos reunidos num cartapácio de papéis, que se conservam num fichário, propiciaram-me a realização de um trabalho que extrapolou os limites que eu mesmo havia fixado para minhas produções escritas. Se os excedo, é porque minha sede de conhecimento - do latim sitim, que significa ‘secura’, ‘estar seco por dentro’, exacerbada por minha fome de conhecimento - do latim, fames, famem, que significa escassez, penúria - é insaciável.

Nesse fichário, onde se encontra uma quantidade de folhas de papéis que não contabilizei, há uma variedade de textos que versam sobre temas igualmente variados. Um desses temas será objeto de discussão no presente texto, a saber, a dívida pública. Não estou apenas interessado em esclarecer o grande público sobre o que é a dívida pública e como ela se forma, o que já seria uma grande contribuição, se considerarmos o fato de que a maioria das pessoas, no Brasil e no mundo, é confundida ou mesmo enganada pelo discurso da imprensa hegemônica no tratamento desta e de outras matérias social, política e economicamente relevantes à vida de todo indivíduo. Estarei, sobremaneira, interessado em oferecer ao leitor um conhecimento do funcionamento da dívida pública que o torne imune ao logro fabricado pelo discurso midiático hegemônico, sempre que o tema tem destaque na cena jornalística.

Eu escrevo este texto com a plena certeza de que não é apenas os Antônios, Josés e Marias das classes populares que não sabem nada ou quase nada acerca do funcionamento do sistema da Dívida e do capitalismo financeiro, de cujas engrenagens aquele sistema se alimenta. Não só as pessoas mais social e economicamente vulneráveis, com pouco ou nenhum acesso à cultura letrada, não sabem como opera, para além de suas experiências imediatas da cotidianidade mediana, o sistema do capitalismo financeirizado e como o sistema da Dívida expropria a riqueza de toda a sociedade, mas também muitos indivíduos com grau de escolaridade superior, entre os quais estão professores, com os quais compartilho os espaços escolares. Muitos deles, bolsonaristas, não parecem saber como funciona o capitalismo hoje; tampouco parecem saber como funciona o sistema da Dívida. Vários deles “caíram no conto do vigário” lavajatista e jamais se “levantaram”.

Malgrado minha crença de que uma compreensão adequada e clara do fenômeno socioeconômico de que me ocupo neste texto e de seus desdobramentos temáticos dependa, em grande medida, da definição prévia de alguns conceitos sobre cujo significado o leitor precisa ter clareza, limitar-me-ei a definir dois desses conceitos em razão da centralidade de sua importância no curso da discussão que se iniciará e em nome da economia de tempo e espaço convenientes ao desenvolvimento dela.

 

1.    Capitalismo financeiro e sistema financeiro

 

O capitalismo financeiro caracteriza-se pelo desvio dos recursos da produção para as aplicações financeiras. É a fase do capitalismo atual, na qual as instituições financeiras passaram a controlar a economia global, de modo que a negociação de ações, moedas, títulos, dívidas e derivativos se sobrepõe às atividades do setor produtivo, ou seja, de mercadorias e serviços.

O capitalismo financeiro é resultado da fusão do capital industrial com o capital bancário. É a fase do capitalismo monopolista, no qual surgiram as grandes corporações globais que controlam setores inteiros do mercado, reduzindo sensivelmente a livre concorrência. A economia global encontra-se, hoje, portanto, sob o controle dos trustes, que são fusões entre empresas que operam no mesmo ramo de atividades comerciais com vistas ao controle da produção e do mercado; do cartel, que consiste no acordo entre empresas concorrentes para fixar preços e dividir as áreas em que vão atuar; do holding (empresa-mãe), que é a empresa principal que controla fatia de ações de outras companhias.

A fase do capitalismo financeiro é a fase da globalização da economia, em que não há limites para o fluxo de capitas, que se torna instantâneo e transnacional. Destarte, o fluxo de capitais desregulamentado favorece as aplicações financeiras em escala global, em detrimento dos investimentos produtivos.

Por fim, o capitalismo financeiro se caracteriza também pela predominante especulação financeira, cuja finalidade é a busca de lucro rápido, mediante o valor de ativos (ações e títulos) no mercado, sem qualquer preocupação com a produção real de bens e serviços. Em seu A civilização capitalista (2014), Fábio Konder Comparato chama a atenção para o que acontece quando corporações empresariais formam um sistema de poder reticular de grande influência global:

 

“As fusões e incorporações empresariais (...) passaram a ser utilizadas não apenas para aumentar a concentração de capital, mas preponderantemente para dinamizar a liquidez das empresas [entenda-se: sua capacidade financeira], permitindo maior distribuição de lucros e outros ganhos pecuniários”. (Comparato, ibid., p. 262).

 

O que eu espero que o leitor que vive do trabalho entenda (e não esqueça!) é que é ele (e toda a classe a que pertence (a classe trabalhadora)) que sofre com a perda daquilo pelo qual ele busca garantir sua sobrevivência - o trabalho, quando as empresas e seus administradores estão unicamente interessados na farta distribuição de dividendos por meio das operações de compra e resgate de suas ações. Ora, para refestelar-se com os vultosos lucros advindos do capital improdutivo, os empresários e acionistas precisam maximizar os ativos líquidos e abandonar os programas de investimento. Quando a empresa renuncia a investir em atividades produtivas, ela sacrifica seu futuro - cortar custos se faz necessário - e a demissão em massa de trabalhadores é apenas um efeito colateral inevitável.

Quer chamemos o capitalismo, em sua forma atual, de capitalismo financeiro, quer de capitalismo tardio, como propôs Ernest Mandel, a despeito da diferença de enfoque que essas designações pressupõem, uma característica é constante no atual estágio de desenvolvimento do capitalismo: a busca do superlucro como principal estímulo de acumulação. É importante ter em conta o fato de que falar em capitalismo financeiro implica o reconhecimento de que ele é produto de uma crise do capital ocorrida no último quartel do século XX, quando

 

“(...) o grande empresariado [mudou] o foco de suas atividades, da indústria e do comércio, para o setor financeiro e especulativo, pouco se importando com as consequências macroeconômicas que tal mudança provocaria.” (Comparato, 2014, p. 262).

 

Também gostaria de que meu leitor ausente, supostamente não especializado nas matérias de que me ocupo neste texto, soubesse que o mundo em que ele vive, trabalha, se cansa,  ri e chora, se diverte, se alegra, se entristece, é um mundo regido por uma outra lógica do capital, um mundo onde minorias improdutivas se apropriam do produto social (riqueza produzida pelo trabalho de todos); para falar grosso modo: por uma lógica em virtude da qual minorias se apropriam de seus sonhos, de suas oportunidades de autorrealização, de seu dinheiro, conquistado com o suor de seu trabalho!

Em Resgatar a função social da economia (2022), Dowbor lembra que o capitalismo sofreu uma grande transformação com a chamada revolução digital. Levando à expansão radical das tecnologias, à generalização da economia imaterial, à conectividade global, ao domínio do dinheiro virtual, à precarização do trabalho, a revolução digital modificou a base da sociedade capitalista. Dowbor nos ensina que “a apropriação do produto social por minorias ricas, porém improdutivas, já não exige geração de emprego e produção de bens e serviços, na mesma escala”. (ibid., p. 9, grifo meu). A apropriação da riqueza social por minorias ricas se dá pela intermediação do dinheiro, do conhecimento, das comunicações e das informações privadas.

 

“(...) Onde imperavam as fábricas, hoje temos as plataformas em escala planetária, que exploram não só pessoas - através do endividamento, por exemplo-, mas também as próprias empresas produtivas, por meio de dividendos pagos a acionistas ausentes. (ibid., p. 10).

 

 

Mudam as mãos que dominam e controlam o mundo, mas a exploração de uma maioria por uma minoria permanece e se exacerba. Embora ainda exista atividade industrial no capitalismo financeiro, o eixo e o controle da economia global deixaram de estar nas mãos dos capitalistas industriais. Hoje, estão nas mãos de gigantes financeiras como BlackRock, uma multinacional de gestão de ativos e aplicações financeiras, de plataformas como a Alphabet (Google), de ferramentas de manipulação como a Meta, uma das empresas mais valiosas do mundo, dona do Facebook, do Instagram, WhatsApp, Giphy, entre outras, e de intermediárias comerciais como a Amazon. Como observa Dowbor, a apropriação do excedente social mudou radicalmente e, com essa mudança, também se alterou a natureza do sistema capitalista.

 

“Estamos no meio de uma transformação profunda da sociedade, nas suas dimensões econômica, social, política e cultural, gerando o que tem sido chamado de crise civilizatória”. (ibid.).

 

Passo, agora, a esclarecer o que é o sistema financeiro. Quando falamos de sistema financeiro, devemos entender o conjunto de estabelecimentos financeiros e seus agentes: bancos centrais,  bancos comerciais, bancos de desenvolvimento (BNDES), bancos de investimento, bem como instituições não bancárias de crédito, como associações de poupança e empréstimos, instituições cooperativas, casas de câmbio, Bolsas de Valores, corretoras e intermediários ou atravessadores financeiros. Todas as operações realizadas no sistema financeiro formam o mercado financeiro, que é, por seu turno, o conjunto formado pelo mercado monetário, onde, por exemplo, se negociam títulos e valores, e pelo mercado de capitais, onde operam as Bolsas de Valores e as instituições financeiras, como os bancos. O mercado financeiro compreende todas as transações com moedas e títulos (papéis financeiros), bem como as instituições que as realizam, entre as quais o Banco Central, caixas econômicas, bancos estaduais, bancos comerciais e de investimentos, corretoras, Bolsas de Valores, etc.

O sistema financeiro nacional abrange todas as instituições financeiras destinadas à gestão das políticas monetárias do Governo, sob a orientação do Conselho Monetário Nacional (CMN). Entre as instituições financeiras que compõem o sistema financeiro do Brasil estão, além do CMN, o Banco Central do Brasil, o Banco do Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), entre outras.

 

2.    A Dívida: como se dá o endividamento dos Estados-nação

 

Para a apresentação e a discussão do que se seguirá, nesta seção, busquei apoio teórico e historiográfico na grande obra Dívida: os primeiros 5 mil anos (2023), de David Graeber. Escapa à alçada da presente discussão rastrear a instituição da dívida pública até períodos históricos remotos. Por isso, não estou preocupado em discorrer sobre a origem histórica da Dívida. Limito-me a mostrar de que modo os países chamados “subdesenvolvidos” se endividaram, ou melhor, contraíram uma “dívida” pela qual não são responsáveis.

Em prefácio à referida obra de Graeber, Piketty ensina-nos que há um elo fundamental entre a dívida, o poder e a escravidão. Ainda, segundo Piketty, se a modernidade pôs fim à transmissão intergeracional das dívidas, à perpetuação familiar de dependência absoluta, ela continua, no entanto, a transmitir, de geração em geração, infinitamente, a dívida pública.

Fato é que ninguém sabe, como mostra Graeber, o que é exatamente a dívida. A imprensa venal e corporativa, nomeadamente a Rede Globo, no Brasil, sendo difusora do imaginário-simbólico da elite dos proprietários, repisa, quase diariamente, o mítico discurso da austeridade e do compromisso moral do Estado em cuidar para não aumentar ainda mais a dívida pública. Para evitar esse aumento, reza o discurso dominante que o Estado deve conter ou cortar os gastos públicos, fazendo, assim, a grande massa, sem a devida instrução ou competência especializada, acreditar que o crescimento da dívida é consequência de práticas de política econômica irresponsáveis de um Estado perdulário. Assim, reforça-se o discurso segundo o qual políticas públicas são “gastos públicos” e gastos públicos travam o crescimento econômico, o que é falso tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista histórico. Veremos o que, deveras, trava a economia de qualquer país.

Se, por um lado, a maioria de população mundial desconhece como se gera e funciona o sistema da Dívida; por outro lado, mesmo aqueles que, supostamente, sabem o que é dívida pública, como foi gerada e como funciona, enquanto sistema de valorização do capital, no grupo dos quais estão economistas pró-mercado, preferem fazer coro ao discurso dominante das elites e da imprensa controlada por elas a esclarecer a população desprotegida sobre o modo como é sistematicamente roubada através do sistema de uma Dívida que ela não contraiu. Contudo,  há  economistas que esclarecem, em vez de confundir a população, entre os quais estão Ladislau Dowbor, Eduardo Moreira, Celso Furtado, entre nós; Thomaz Piketty e Joseph Stiglitz - para citar dois grandes economistas mundiais). Aliás, Dowbor cuida escandaloso o fato de que há economistas ligados às instituições financeiras e à grande imprensa que insistem em atribuir o travamento da economia ao excesso de “gastos públicos”.

Graeber conta, em seu livro Dívida (2023), sobre uma ocasião em que foi apresentado a uma advogada ativista que não sabia o que era o FMI (Fundo Monetário Internacional). Pacientemente, ele lhe explicou que o FMI agia, basicamente, como fiscal das dívidas mundiais. Fazendo algumas breves incursões históricas, disse a ela que, durante a crise do petróleo na década de 1970, os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) injetaram volumes gigantescos do dinheiro obtido com suas riquezas nos bancos do Ocidente, de modo que não havia mais onde pudessem investir. A saída encontrada pelo Citibank, por exemplo, foi convencer políticos e ditadores do Sul Global a tomar empréstimos, com a promessa de que eles poderiam se tornar competitivos no mercado global. Inicialmente, os empréstimos foram tomados a juros baixos, que rapidamente se elevaram em função da rígida política financeira dos Estados Unidos no início da década de 1980, àquela altura também muito endividado. Com juros elevados sobre a dívida, os países periféricos do capitalismo global não conseguiam saldá-la e, consequentemente, mergulharam numa crise financeira que atraiu o oportunismo do FMI. O FMI, muito solidário, interveio, oferecendo aos países devedores o refinanciamento da dívida, mas com algumas condições. Em primeiro lugar, eles deveriam renunciar a subsidiar os preços de produtos alimentícios básicos. Em segundo lugar, deveriam abandonar a manutenção de reservas estratégicas de alimentos. Em terceiro lugar, deveriam também abandonar políticas assistencialistas de saúde e de educação pública. O leitor que ainda consegue alcançar algum entendimento elementar do mundo deve atender no fato de que a “ajuda” do FMI é um “pacote” explosivo e desastroso para qualquer economia nacional!

Graeber também falou a advogada ativista da pobreza que se aprofundava com a política financeira imposta pelo FMI, do saque de recursos públicos, do colapso de sociedades inteiras, da violência endêmica nessas regiões vulneráveis ao controle do capitalismo financeiro, etc. Graeber assinala que “a dívida dos consumidores é a força central de nossa economia”, e essa dívida não é, como se costuma propalar por aí, um legado de governos de esquerda.

Justamente porque não sabemos o que é a dívida e porque seu conceito é flexível que ela é tão forte. Quando digo “não sabemos”, incluo todos nós, sejamos especialistas ou não.

 

“Se há algo que a história nos mostra, é que não existe maneira melhor de justificar relações baseadas na violência, de fazer essas relações parecerem morais, do que enquadrá-las na linguagem da dívida - sobretudo porque isso faz com que a vítima seja vista como alguém que comete algo errado”. (Graeber, ibid., p. 16, grifo meu).

 

E uma dessas vítimas do sistema da Dívida é Madagascar.

 

2.1.         A dívida de Madagascar

 

A dívida dos países periféricos do capitalismo global, como, por exemplo, Madagascar, Bolívia e Filipinas é uma herança perniciosa de sua história, marcada pela colonização europeia.

Em 1895, a França invadiu Madagascar, pôs fim ao governo da rainha Ronavalona III e declarou o país como uma colônia francesa. Depois que o general Joseph Gallieni “pacificou” o país, a França impôs impostos pesados à população de Madagascar, em parte, para - pasme-se! - reembolsar os custos de terem invadido o seu país, mas também para custear estradas de ferro, rodovias, pontes, plantações, etc. na nova colônia. O governo francês buscava, assim, garantir a sua autossuficiência; mas a população de Madagascar não foi consultada se desejariam todas aquelas coisas.

Durante os cinquenta anos seguintes, o governo francês assassinou muitos malgaxes que se opunham ao regime: 100 mil malgaxes foram mortos. A revolta dos malgaxes contra o regime opressor do colonizador era vista como um dano provocado contra a França. Ainda no início da colonização dizia-se que os habitantes da ilha de Madagascar deviam dinheiro à França; e até hoje eles continuam na condição de supostos devedores, “(...) e o restante do mundo considera justo esse esquema”. (ibid., p. 17, grifo meu).

A comunidade internacional silenciava sobre a violência, a pilhagem e os assassinatos cometidos pelo regime francês na colônia. Preferia ver apenas uma questão moral no fato de o governo de Madagascar protelar o pagamento de suas dívidas.

 

2.2.         Haiti e a punição ao vencedor

 

A dívida haitiana tem feições de uma justa recompensa, mas é um daqueles abusos cometidos pelos mais fortes contra os mais fracos. A República do Haiti foi o primeiro país pobre a ser submetido à permanente escravidão por dívida. Fundado por antigos escravizados que ousaram organizar uma rebelião amparada por grandiosas declarações de direitos e liberdades universais, o Haiti derrotou os exércitos de Napoleão, que pretendiam forçar o país a retornar à condição de escravidão.

A França, imediatamente, atribuiu à recém-criada república uma dívida de 150 milhões de francos por danos em plantações expropriadas. Ademais, exigiu o ressarcimento pelos custos de aprovisionamento das expedições militares fracassadas. Segundo Graeber, “(...) todos os outros países, incluindo os Estados Unidos, concordaram em impor um embargo ao Haiti até que sua dívida fosse paga”. Se os motivos para imputar aos haitianos uma dívida injusta são suficientemente absurdos, o ardil com que o valor dela foi estipulado prova que não há dívida alguma, mas apenas expropriação - em uma palavra -, roubo. O valor acumulado da dívida era produzido intencionalmente para impossibilitar seu pagamento (o equivalente a cerca de 18 bilhões de dólares). O embargo imposto ao Haiti levou a que o nome do país se tornasse sinônimo de dívida, pobreza e miséria.

No entanto, a dívida destrói a vida das pessoas nos países pobres, mas também afeta os Estados Unidos. O mesmo país que exigia que os países mais pobres pagassem suas dívidas, acumulou muitas a partir da década de 1980. Contudo, a dívida externa norte-americana assume a forma de títulos do Tesouro, mantidos por especuladores internacionais em países que são, em sua maioria, protetorados militares dos Estados Unidos - entre os quais, a Alemanha, Coreia do Sul, Japão, Tailândia, Taiwan e países do Golfo, quase todos guarnecidos por bases norte-americanas carregadas de armas e equipamentos pagos com aquele mesmo déficit público. Caberia a questão: esse dinheiro continuamente canalizado para o Tesouro norte-americano é empréstimo ou tributo?

Antes de tomar para objeto de meditações o modo como, deveras, funciona a dívida pública, teço ainda algumas considerações sobre o que é uma dívida no âmbito da ciência econômica. Consoante mostra Graeber, à luz da teoria econômica padrão, não é verdade que é preciso pagar a própria dívida (essa crença na obrigação de restituir aquilo que se deve é uma crença moral). Quem concede empréstimo deve considerar algum grau de risco. Os bancos fornecem empréstimos absurdos, porque eles sempre recebem o valor emprestado de volta, com juros, não importa o que aconteça. A dívida, conforme a entendemos no senso comum, “é a obrigação de pagar certa quantia de dinheiro”. (ibid., p. 27). Segue-se daí que a dívida pode ser quantificada com precisão, diferindo, nesse aspecto, de outra forma de obrigação. Se eu devo um favor a alguém, sei que devo a uma pessoa específica.

 

“Mas quando são devidos 40 mil dólares a 12% de juros, na verdade não importa quem é o credor; tampouco importa, a qualquer uma das partes, pensar no que a outra precisa, deseja ou é capaz de fazer (...)”. (ibid.).

 

Segundo Graeber, interessa, pois, apenas o cálculo do saldo a pagar. Se, para tanto, será necessário vender uma filha como prostituta, por mais que isso seja uma grande infelicidade, ao credor é um efeito sem importância - “Dinheiro é dinheiro, e trato é trato”. (ibid.). Graeber mostra que “dinheiro e dívida aparecem em cena exatamente ao mesmo tempo” (ibid., p. 37), por isso “uma história da dívida é necessariamente uma história do dinheiro”.

A origem do dinheiro é abordada pelos economistas de tal modo, que a dívida é um fenômeno secundário. A história que eles contam segue a ordem: primeiro o escambo, depois o dinheiro; e muito posteriormente, o crédito. Mas o escambo é um dado mítico, não é uma realidade histórica. Nas palavras de Graeber, “a história do dinheiro para os economistas sempre começa no reino da fantasia do escambo. O problema é onde situar essa fantasia no tempo e no espaço. (...)”. (ibid., p. 40).

 

3.     A dívida pública: uma apropriação indébita generalizada

 

Desde já, o leitor que, por ventura, vem acompanhando o desenvolvimento desta discussão até aqui, deverá reter o seguinte: a dívida pública é apropriação ilegal dos recursos públicos pelo capital fictício (em tempo, vou esclarecer o que é o “capital fictício”). Como ensina Dowbor em A era do capital improdutivo (2017), uma vez que os juros acumulados sobre a dívida pública restringem o acesso da população aos bens públicos, encarecem o consumo e impedem o investimento, ela nada mais é do que um fenômeno de apropriação indébita generalizada, ou “a extração de uma parte do excedente socialmente produzido por quem se limitou a controlar e exigir o rendimento de seus papéis”. (Dowbor, 2017, p. 183). A dívida pública, ainda segundo Dowbor, “criou uma classe de capitalistas ociosos, enriqueceu, de improviso, os agentes financeiros, que servem de intermediário entre o governo e a nação”. (ibid., p. 184). Marx já nos advertia contra o fato de que a dívida pública se tornara uma das alavancas mais poderosas de acumulação primitiva. Em outras palavras, a dívida pública explica como grupos de indivíduos e famílias vieram a ser tornar ricas (certamente, o enriquecimento não é fruto do trabalho deles!). Na medida em que a dívida pública dotou o dinheiro da capacidade de criar mais dinheiro, convertendo-o, pois, em capital, ela possibilitou aos proprietários dos meios de produção não se expor mais a aborrecimentos e riscos inerentes às aplicações industriais. Os credores do Estado nada dão, porquanto “a soma [de valores “emprestados”] torna-se títulos da dívida pública, facilmente transferíveis, que continuam a funcionar em suas mãos como se fossem dinheiro”. (ibid.). Marx, em O Capital, já nos ensinava que o sistema da dívida acarreta um aumento dos impostos para cobrir os seus juros. Dado que o sistema da dívida pública baseia-se nos recursos públicos, os quais são usados para financiar o serviço anual do sistema, o próprio sistema moderno de arrecadação de impostos é o fator mais importante e necessário de endividamento da nação (o que gera o endividamento, o que trava a economia brasileira não são os “gastos públicos” do PT com programas de assistência aos mais pobres!). Esse mecanismo de apropriação de recursos públicos não é novidade; mas, atualmente, ele se expandiu e se tornou mais sofisticado.

Também Silva, em A apropriação ilegal dos recursos públicos pelo capital fictício (2021), destaca o caráter expropriador do sistema da dívida. O mecanismo da dívida pública reside numa lógica que, operando o locupletamento das elites econômicas, carreia o empobrecimento de toda uma classe que vive do trabalho. No âmbito do sistema da dívida, deve-se distinguir entre duas formas de dívida: a dívida interna e a dívida externa. A dívida interna é “formada pela contração de empréstimos de recursos junto ao mercado interno que, a depender da espécie, irá ocorrer na moeda local ou estará indexada ao dólar, de maneira que o valor irá variar conforme a mudança na taxa de câmbio”. (ibid., p. 50). Por sua vez, a dívida externa se caracteriza pela contração de empréstimos de recursos concedidos por credores estrangeiros, que podem ser países, na forma de acordos bilaterais, instituições financeiras multilaterais, como o FMI e o Banco Mundial, e pessoas privadas, entre bancos e pessoa física, por exemplo.

Antes de prosseguir, quero enfatizar o fato de que o sistema financeiro “gera apropriação dos recursos públicos não por quem produz, mas por quem maneja papéis”. (Dowbor, ibid., p. 172). Dowbor se refere ao enriquecimento astronômico de pessoas (acionistas, especuladores financeiros) simplesmente resgatando títulos da dívida. Esse dreno generalizado da riqueza social por uma classe de indivíduos improdutivos aprofunda a desigualdade, porque “aplicadores financeiros estão na parte superior da riqueza, [e] o trabalhador tenta fechar o mês”. (ibid.). O sistema financeiro produz o rentismo como meio de ganhar dinheiro fácil sem a contraparte produtiva.

Não se deve confundir riqueza com capital. Somente o aumento do capital impulsiona o crescimento econômico, porque a riqueza pode aumentar simplesmente em decorrência de um aumento de rentas, e a capacidade produtiva da economia pode não aumentar no mesmo ritmo da riqueza medida. Pode suceder que a capacidade produtiva decline enquanto a riqueza aumenta. Como ensina Dowbor, comprar papéis que rendem e produzir sapatos (ou dar aulas) são dinâmicas econômicas distintas. Muitos administradores e intermediários dos papéis dos outros se apresentam como geradores de riqueza, mas a sua riqueza privada é riqueza improdutiva, capital estéril. Vale aqui atender no seguinte excerto em que Dowbor é enfático em dizer que o que trava a economia não é o investimento em políticas públicas; ao contrário, como também mostra Stiglitz e Piketty, as políticas públicas são indispensáveis ao crescimento econômico de qualquer país; isso não é mera afirmação de teoria econômica, é uma evidência histórica.

 

“Nenhuma elite aceita que este tipo de apropriação do excedente por meio de mecanismos financeiros, gerando tanto lucro com tão pouco esforço, seja reduzido para níveis civilizados. Dizer que o travamento geral se deve ao gasto com programas sociais por parte do governo é simplesmente ridículo. O que temos pela frente não é um ajuste fiscal, mas uma reforma financeira de maneira geral. Em particular, os bancos precisam voltar a fazer a lição de casa, ou seja, identificar projetos e oportunidades de investimento produtivo e fomentar a economia”. (ibid., p. 214, grifos meus).

 

Nesse trecho, Dowbor também defende o que deveria ser feito para estancar a sangria financeira: não meramente ajustes fiscais, medidas eleitoreiras e agradáveis ao mercado e à imprensa financiada pela elite econômica. No Brasil, é necessário criar mecanismos de controle do sistema financeiro. O sistema deixou de funcionar em favor da economia: a lógica da rentabilidade mudou, pois vale mais a pena aplicar os ativos da empresa em títulos da dívida pública a investir na expansão de sua capacidade produtiva. Segundo Dowbor (os dados são de 2017, período de publicação do livro), no mundo, há 737 grupos controlando 80% do universo corporativo. Outros 147 grupos controlam 40%, dos quais três quartos são bancos. Esses grupos estão mais interessados na rentabilidade financeira final, a qual é definida por aqueles que ocupam o topo da pirâmide financeira. Sucede que o espaço de decisão empresarial, outrora ocupado por quem produzia um bem ou um serviço determinado, deslocou-se. Quem toma as decisões são acionistas dominantes ou controladores financeiros de diversos tipos, que veem a empresa como mera unidade de extração de dividendos. A mudança profunda que se vê na forma de controle da empresa acarreta uma nova forma de extrair mais-valia nos quadros dos processos produtivos. Tanto a uma BHP Billinton quanto a acionistas do Bradesco, por meio da Vale e Valepar, interessa apenas a maximização do rendimento financeiro da Samarco, em geral, em curto prazo. Ainda que possa haver visionários no topo da pirâmide, mesmo estes são pessoas que ganham dinheiro por meio da máxima apropriação do excedente produzido na base da pirâmide.

A essa altura, convém esclarecer de que modo os Estados contraem a dívida pública. A principal forma pela qual o Poder Público contrai a dívida pública é mediante a emissão de títulos (papéis financeiros que garantem ao comprador alta rentabilidade). O prazo para o resgate do título da dívida pública não importa. O credor do Estado não se preocupa com o resgate do título, porque, tendo emprestado dinheiro para financiar o Estado, o título da dívida rende juros (juros exorbitantes, que é o que o Governo não cessa de pagar!). Esse título pode ser comercializado no mercado e, uma vez estando em circulação, a propriedade sobre ele se altera. Enquanto muitos lucram com a negociação desses papéis, o governo tem grande parte de seu orçamento comprometido com o serviço da dívida pública. A título de exemplo, segundo Dowbor, em 2017, o PIB brasileiro era da ordem de 6 trilhões (uma pesquisa no Google nos apresenta o valor de 6583 trilhões, dado fornecido pelo IBGE). Toda vez que desse total se destina 60 bilhões para a especulação financeira, 1% do PIB é drenado. Em 2015, o Brasil gastou 8,5% do PIB com o pagamento da dívida pública, o que equivale a cerca de 500 bilhões de reais de nossos impostos transferidos, basicamente, para grupos financeiros (Dowbor, 2017). Portanto, caro leitor enganado, é assim que se esteriliza uma parte significativa da capacidade de o Governo investir em infraestruturas (rodovias, pontes, habitações, saneamento básico, etc.) e políticas públicas. Outo mecanismo de apropriação da riqueza social por grupos financeiros é a taxa Selic. O aumento da taxa Selic pelo Banco Central costuma se justificar, com o apoio do mercado e da imprensa hegemônica, pela necessidade de manter baixa a inflação. Ora, mas quando se eleva a taxa Selic, desestimula-se o investimento produtivo nas empresas, porque uma taxa Selic alta aumenta o rendimento com os títulos da dívida pública. Como ensina Dowbor, os bancos e intermediários financeiros encontram aí a maneira mais fácil de ganhar dinheiro: deixa-se de fomentar o crescimento da economia por meio da busca de bons projetos produtivos, que demandaria trabalho na identificação de clientes e na análise de linhas de créditos, em proveito do enriquecimento com os juros sobre a dívida pública.

Retomemos, agora, o fio discursivo que nos conduzia a considerar as duas formas sob as quais se apresenta a dívida pública. Esclarecida a distinção entre dívida interna e dívida externa, faço um breve recorte histórico da formação da dívida pública no período do pós-guerra. Posteriormente, dou a conhecer o significado de capital fictício e continuo a ponderar sobre como a dívida pública está na raiz das crises do capitalismo atual. Leitor, que vive do trabalho, aprenda: o seu verdadeiro inimigo não é o Lula, nem o PT, mas o capitalismo e, em particular, a ciranda financeira movida por um sistema econômico que produz o enriquecimento de uma minoria à custa do empobrecimento de uma esmagadora maioria! A ignorância é desculpável, a burrice é vexatória!

 

3.1.         A dívida do pós-guerra

 

O Plano Marshal foi determinante para a recuperação da economia europeia, então devastada, depois da Segunda Guerra Mundial. A rápida recuperação dessa economia decorreu do auxílio financeiro norte-americano - conhecido pelo nome de Plano Marshal. Os recursos provenientes dos Estados Unidos (dólares), acrescidos aos investimentos internos, levaram a economia da Europa a atingir uma taxa de crescimento que foi a maior da história. Isso possibilitou a recuperação exponencial da renda das famílias europeias e a formação de um amplo mercado consumidor, cujo principal beneficiário foi a classe média.

Toda essa prosperidade socioeconômica gerou o acúmulo de reservas em dólares nos países da Europa ocidental. Esses dólares foram destinados tanto ao pagamento da dívida externa quanto à garantia da importação de mercadorias, justamente num período histórico em que a recuperação da Europa coincidia “com a expansão das corporações norte-americanas no mercado europeu”. (Silva, 2021, p. 50).

Os países europeus, na década de 1960, possuíam um acúmulo de dólares, cujo excesso de liquidez poderia gerar inflação. Para evitar um processo inflacionário, os bancos europeus, inundados de dólares, decidiram conceder empréstimos dos recursos aos países periféricos. O resultado já o sabemos: endividamento desses países. Outro acontecimento cujo desdobramento culminaria com o endividamento dos países pobres foi o fim do câmbio fixo, então substituído pelo câmbio variável. Em 1973, a OPEP levou a efeito uma operação para elevar o preço do barril de petróleo, um dos principais insumos da indústria norte-americana e europeia. Naquele ano, os países membros da OPEP impuseram embargos à venda do petróleo, o que acarretou a acumulação de longas filas nos postos de combustíveis dos Estados Unidos e o desabastecimento da indústria. Com o aumento do preço do petróleo, os países exportadores viram acumularem suas reservas de dólares. A mesma lógica financeira foi adotada pelos bancos que tinham a custódia do dinheiro oriundo dos países europeus e dos países exportadores de petróleo: decidiram emprestar dinheiro aos países subdesenvolvidos.

 

Reative na memória, leitor, a crença do senso-comum, diariamente reproduzida pela imprensa hegemônica brasileira, segundo a qual a dívida pública é o resultado da política econômica de um Estado irresponsável com as “contas públicas”. Essa crença não se sustenta quando confrontada com a verdade histórica. Para que se tenha clareza quanto à falácia da utilização da dívida externa como mecanismo de desenvolvimento econômico, vou me deter na consideração do que é o FMI e para que finalidade ele foi criado.

O FMI ou Fundo Monetário Internacional foi criado em 1944, em Bretton Woods, com o fito de estabilizar o sistema financeiro internacional. Originado dos Estados Unidos e dos países europeus aliados, o FMI tinha uma missão inequívoca: criar um sistema financeiro internacional equilibrado e vocacionado a recuperar a economia europeia no período pós-guerra. Conforme observa Silva (ibid., p. 51), “os Estados Unidos se movimentaram internacionalmente, em prol do capital financeiro”.

O estatuto do FMI prevê, no artigo I, alínea b, que o objetivo dessa instituição financeira é facilitar a expansão e o crescimento equilibrado do comércio internacional, contribuindo, assim, para o estabelecimento e a manutenção de níveis elevados de emprego e de rendimento real para o desenvolvimento dos recursos produtivos de todos os membros. Como nota Silva, o texto não consegue disfarçar uma contradição que o torna política e economicamente enviesado:

 

“Desde quando seria possível facilitar a expansão e o crescimento equilibrado impondo aos devedores a exaustão de seus recursos para exportação, com queda do preço internacional, a fim de gerar dólares para pagar os credores internacionais?”. (Silva, ibid., p. 55).

 

Ora, não é possível um crescimento econômico equilibrado e um nível elevado de emprego quando os planos de ajuste estrutural implicam cortes orçamentários. Os países endividados, com menores receitas de capital, sofrem com menores investimentos e serviços públicos.

A ampliação da dívida externa bilateral entre países se justificava pelo argumento de que, ao tomar os empréstimos, os países periféricos poderiam contratar as corporações dos países ricos para desenvolver a infraestrutura e o mercado consumidor em seus territórios.

Malgrado o fato de ser grande o volume da dívida pública externa dos países periféricos, até os fins da década de 1970, ela era suportável, visto que suas taxas de juros eram baixas e os empréstimos contraídos possibilitavam o aumento da produção e, consequentemente, do volume das exportações com as quais podiam reembolsar e investir.

O auxílio do FMI não visava, no entanto, a suprir as carências orçamentárias dos países subdesenvolvidos, a fim de que eles pudessem prestar melhor serviço às suas populações. O que o FMI fez foi conceder um empréstimo a determinado país em dificuldade de pagamento, desde que o dinheiro emprestado fosse usado para reembolsar os bancos e os demais credores privados. Para garantir que os países devedores pagassem a dívida, o FMI criou o Plano de Ajuste Estrutural (PAE). A fim de que os países pudessem receber recursos do FMI para pagar seus credores, eles deveriam submeter-se a um Plano de Ajuste Estrutural, em função do qual seus orçamentos públicos e as políticas públicas estariam sujeitas aos interesses do FMI e de seus mandatários.

A política econômica imperialista do FMI criou um ambiente comercial favorável aos especuladores financeiros, de sorte que estes podiam aventurar-se mais no mercado financeiro da dívida externa dos países subdesenvolvidos. Todas as vezes que esses países estivessem em dificuldades orçamentárias para pagar seus credores, eles poderiam recorrer ao FMI, que prontamente lhes aportariam os recursos devidos. Não deveria ser escandaloso constatar que o volume da dívida, em termos monetários, concentrada na elite econômica internacional, chega à cifra astronômica de 4 trilhões e 402 bilhões de dólares?

 

3.2.         O Capital fictício

 

O capital fictício é a forma assumida pelo capital que se desvincula de sua contraparte produtiva. Através do capital fictício, os juros remuneram o capital. É o capital factício que “se apropria dos recursos públicos, esgotando as fontes de financiamento das políticas públicas”. (Silva, 2021, p. 13). Quando consideramos a relação da dívida pública com o capital fictício, ela não passa de um aspecto sintomático da evolução da reprodução do capital. Portanto, a dívida pública é produto de processos históricos característicos do modo de produção social do capital.

 

3.3.         O círculo vicioso da Dívida

 

Por mais que se pague, a dívida não para de crescer!

 

“O montante da dívida externa dos países de baixa e média renda que atingiu 7 trilhões 810 bilhões de dólares, em 2018, há dez anos atrás era de 3 trilhões 462 bilhões de dólares (...). (Silva, ibid., p. 60).

 

Somente um tolo não vê que o sistema da Dívida é um sistema de dominação, embora muito sutil. Se, a despeito dos vultosos pagamentos, a dívida continua a aumentar, é porque os valores utilizados para amortizá-la são menores do que os juros que ela porta. Espero que meu leitor não seja tão intelectualmente limitado para não entender que se o rendimento do capital emprestado é maior do que a produção do país devedor, este país certamente, não só permanecerá devedor, como também sofrerá com o aumento do estoque da dívida, pois que as receitas públicas destinadas ao pagamento da dívida são insuficientes tanto para amortizá-la quanto para cobrir todo o débito acrescido de juros.

Em seu artigo Sistema da Dívida pública: entenda como você é roubado, que se topa no livro Resgatar o Brasil (2018), Maria Lucia Fattorelli mostra que é por meio da dívida pública que o sistema financeiro rouba os recursos públicos. A dívida pública consome metade do orçamento federal! O sistema da Dívida, como ela chama esse processo complexo de dreno da riqueza socialmente produzida para o bolso das elites econômicas, transformou o Estado brasileiro em um instrumento a serviço do poder financeiro transnacional. A grande mídia mente diariamente para o telespectador e os usuários das redes sociais. Mas não devemos nos surpreender com a falta de honestidade da imprensa brasileira: há representantes do setor financeiro atuando em seus conselhos editoriais, e os bancos patrocinam caras propagandas. Fattorelli nos admoesta sobre como a grande massa é enganada pelo falso discurso da austeridade, ao qual faz eco a grande imprensa:

 

Ao contrário do falso e recorrente discurso de que a única saída para o controle das contas públicas seria a austeridade sobre os gastos sociais, reduzindo-se o tamanho do Estado social e realizando contrarreformas - em especial a da Previdência - que suprimem direitos sociais, na realidade, o gasto delinquente que precisa ser controlado é o gasto financeiro com a chamada dívida pública, que tem crescido de forma exponencial, sem a devida transparência, colocando o Estado brasileiro a serviço do privilégio de grandes bancos rentistas de maneira cada vez mais escandalosa, chegando a desviar diretamente o fluxo de arrecadação tributária (...)”. (ibid., p. 71).

 

A redução da ‘questão política’ no Brasil e no mundo a trocas verbais superficiais e eivadas de hostilidades, preconceitos e ódio àqueles que se situam no lado oposto ao do nosso espectro político só interessa às elites econômicas, que continuam lucrando com a desinformação generalizada da população no que tange a quem, de fato, a oprime, a explora. A própria mídia é uma aliada na permanência desse estado de desinformação político-econômica da população. As mesmas reações de censura, de indignação da população à corrupção política não se estendem aos casos de corrupção muito maior e mais grave cometida pelo sistema financeiro. Há corrupção no mercado e isso não tem a mesma visibilidade midiática que tem a corrupção política. E se há tanta corrupção tanto no meio político quanto no mercado é porque o sistema econômico-social que domina cada esfera de nossa vida favorece a corrupção.

Em que pese o fato de nossa Constituição prever o princípio da transparência, não sabemos a quem destinamos quase metade do orçamento federal, consumido com o pagamento de juros da dívida.

 


3.4.         Quem mais explora a classe trabalhadora hoje?

 

Enquanto você, leitor ausente, consome seu tempo diário nas redes sociais defendendo um ator político, de quem você espera ‘mudança’, ‘transformação’, ‘grande limpeza’, ‘um futuro próspero’, você e toda a classe social a que pertence e que vive do trabalho é explorada de modo mais exacerbado por pequenos grupos de rentistas. Sim, hoje, é o rentismo o grande explorador da classe trabalhadora! Segundo Dowbor (2017), o sistema econômico brasileiro foi invadido e estava sendo paralisado (àquela época, 2017) por dinâmicas financeiras muito diferentes dos mecanismos do capitalismo produtor de bens e serviços. Advirto que a economia brasileira não deixou de ser vulnerável à sangria financeira. Mas, naquela época, sob o governo do golpista Michel Temer, o Estado brasileiro estava totalmente à mercê dos interesses privados do capital financeiro. Na atual fase do capitalismo - o capitalismo financeiro - a economia é drenada por parasitas. (Dowbor, 2017). Já passou da hora de os sindicatos e os movimentos sociais (a esquerda brasileira, sobretudo!) aprofundarem a compreensão do modo com a mais-valia é apropriada hoje. Decerto, sua forma tradicional ainda subsiste, mas foi agravada “por um sistema mais amplo de extração do excedente produzido pela sociedade”. (ibid., p. 248). Agora, todos somos explorados em cada compra ou transação que fazemos, seja através dos crediários, dos cartões, tarifas e juros, seja pela estrutura injusta de tributação. Consoante enfatiza Dowbor,

 

“O rentismo é hoje sistematicamente mais explorador, e pior, um entrave aos processos produtivos, e às políticas públicas. O seu poder é grande, trata-se da estrutura de poder mais presente nos processos decisórios públicos e privados”. (ibid., p. 248, grifo meu).

 

Chamo a atenção para o trecho final em que o autor afirma ser o rentismo “a estrutura de poder mais presente nos processos decisórios públicos e privados”. Em outras palavras, a classe dos rentistas tem muito mais poder de influenciar a agenda política, as decisões de nossos governantes do que cada voto ou manifestação política popular. Seu voto, ingênuo leitor, é mera formalidade de um processo supostamente “democrático” que, ocorrendo a cada quatro anos, não muda radicalmente as regras do jogo, apenas troca as suas peças, quando não mantêm as que nele já se encontram há bastante tempo.

O rentismo é improdutivo, no sentido de que sua dinâmica de extração não se acompanha de uma contrapartida econômica para a sociedade. Em outros termos, o sistema financeiro favorece a formação de uma pequena classe de indivíduos e famílias que vivem de renda, que lucram com dinheiro fácil, com aplicações financeiras, sem enfrentar os riscos do investimento na produção, ou seja, sem produzir bens e serviços que atendam às necessidades da sociedade. Quando buscamos compreender o que causa o travamento da economia e reduz o consumo das famílias, o discurso entronizado pela grande mídia e reproduzido pelo senso comum, que responsabiliza o PT, nomeadamente, Lula e Dilma por “quebrar o país”, se demonstra inegavelmente falso, enganoso. Mas falarei disso na próxima subseção. Por ora, atenho-me à causa real que leva à estagnação de uma economia, ao endividamento e empobrecimento das famílias.

São os juros extorsivos que tiveram um papel decisivo na crise de 2013 (mas a imprensa venal conseguiu convencer as massas de que a crise foi produzida pelas “pedaladas fiscais” da presidenta Dilma!). Um estoque de dividas das famílias e das empresas em fevereiro de 2018 na casa de 3.062 bilhões de reais não é significativamente elevado, já que representava 46,3% de uma relação de crédito sobre o PIB. Comparada à dívida de outros países onde, frequentemente, aquela relação ultrapassa 100% do PIB, vemos que a dívida em si não é o grande problema. O escândalo reside nos juros.

 

“(...) o juro extraído do estoque de 3.062 bilhões de dívida é de 823 bilhões de reais por ano. Trata-se do montante que famílias e empresas pagam com juros, e que deixa de se transformar em consumo ou em investimento pelo setor privado da economia”. (ibid., p. 239).

 

Em seu Resgatar a função social da economia (2022), Dowbor alerta-nos que o endividamento generalizado das famílias (novamente, ele não é culpa do PT nem do Lula!), sobre o qual a mídia comprada tanto fala como se fosse resultado de uma política econômica estatal irresponsável, é um fenômeno mundial. Também empresas e Estados estão endividados, e esse endividamento é tanto interno quanto internacional. Já em seu artigo O fim da farsa: o fluxo financeiro integrado, que se encontra em Resgatar o Brasil, Dowbor escreve como quem desabafa:

 

“Escrevo o presente artigo cansado da imensa farsa que representa a forma como se tem analisado a política econômica nos últimos quatro anos. O grau de distorção é espantoso e a sobrevivência do discurso, incessantemente repetido nas mídias, só pode ser explicado pelo desconhecimento profundo, por ampla maioria da população, de como funciona a economia, que dirá de seus números”. (Dowbor, 2018, p. 45).

 

 

Em seguida, Dowbor nos esclarece sobre a função da economia e o que seria o bom funcionamento da economia. Nas palavras do autor, “fazer funcionar a economia consiste em orientar os recursos em função das necessidades das famílias”. (ibid., p. 45-46). O objetivo geral da economia é promover o bem-estar das famílias. Quando falamos de bem-estar das famílias, não nos referimos apenas ao salário, à renda. Embora importante, a renda não é suficiente para garantir esse bem-estar. A economia deve também permitir às famílias o acesso ao salário indireto, isto é, ao consumo coletivo somente possível quando um país oferece sistemas públicos de saúde, educação, cultura, segurança, etc. Uma boa economia, portanto, é aquela que serve à população. Dowbor patenteia que as políticas públicas, em qualquer sociedade, representam como ordem de grandeza 40% da economia. Renomados economistas como Joseph Stiglitz e Thomaz Pikett acompanham Dowbor em denunciar como balela a ideia de “Estado mínimo”, expressão que frequenta a fala de gente que nunca leu uma obra de liberalismo econômico, nunca leu Polanyi, sequer conhece alguma coisa de Adam Smith, mas que gosta de “posar” de “inteligentinha”. Em seu Resgatar a função social da economia, já citado aqui, Dowbor ensina-nos:

 

“Em vez de discursos ideológicos sobre “Estado mínimo” e “redução de gastos”, temos de resgatar a dimensão pública e de acesso universal a serviços que, afinal, são absolutamente essenciais, como saúde, educação, segurança e, evidentemente, a sustentabilidade ambiental”. (ibid., p. 121, grifo meu).

 

Quando consideramos a realidade social do Brasil, o resgate das políticas sociais através do Estado “é particularmente importante, na medida em que o acesso público, gratuito e universal constitui uma poderosa ferramenta de redução das desigualdades - nosso principal entrave estrutural”. (ibid.). Reduzir as desigualdades é uma condição necessária ao crescimento econômico. A imprensa alardeia o crescimento do PIB como um marcador de saúde econômica. Ainda que seja importante o crescimento do PIB, mais importante ainda é saber para quem ele cresce, como a riqueza socialmente produzida está sendo distribuída. Um Estado eficiente na promoção de políticas públicas é necessário não porque o povo gosta do “nanny state”, como se referem os americanos ao Estado de bem-estar social, “mas porque é mais eficiente em termos de cálculo de custo-benefício elementar, e porque assegura uma maior igualdade social”. (Dowbor, 2018, p. 49). As políticas públicas adquiriram uma importância maior no mundo nas últimas décadas. Seu peso ultrapassa o da indústria e o da agricultura somados. Nessa área de atividades, os mecanismos de mercado simplesmente não funcionam. Não espere que o mercado resolva o problema da desigualdade de distribuição de riqueza e renda! Todos os brasileiros, sobretudo, os que ocupam os estratos mais baixos da pirâmide social deveriam compreender que, quando setores sociais são apropriados pelas empresas, o resultado é “a indústria da doença, a indústria do diploma e a pasteurização da cultura, em vez de políticas inteligentes em termos de resultados econômicos, sociais e ambientais”. (ibid.).

 

 

3.5.         Não seja trouxa leitor: O PT não roubou o Brasil!

 

Basta abrir uma rede social, seja o Instagram, para encontrar larga e facilmente comentários de ódio ao PT, a Lula e de repúdio à esquerda. A grande mídia conseguiu, em nome do jornalismo de “qualidade” e de compromisso com os fatos, com a verdade, convencer parcelas grandes da população brasileira, desabituadas do convívio com os livros, que foi o PT que “quebrou o Brasil”. Não se trata de fazer aqui uma defesa do PT, mas de fazer ver que a crise que deflagrou as manifestações de Junho de 2013, bem como o grande problema da sociedade e economia brasileiras não foram causados por um partido político ou por um presidente ou presidenta específicos. Essa mesma imprensa venal dissemina, diariamente, a ideia de que os “gastos públicos” são o grande responsável pelo endividamento do país (espero que, a esta altura, eu tenha conseguido convencer o leitor de que isso não é verdade!). Ao invés de esclarecer a população, veículos de comunicação de massa, como a Rede Globo, contribuem para assegurar a hegemonia necessária à continuação do roubo da população brasileira cometido pelo capital financeiro. Depois de listar os mecanismos por meio dos quais a dívida pública é gerada, Fattorelli escreve o seguinte:

 

“Em 2015, por exemplo, a dívida interna cresceu R$ 732 bilhões em apenas 11 meses; os investimentos federais ficaram restritos a apenas R$ 9,6 bilhões. Toda a economia apresentou queda brutal, com desindustrialização, retração no comércio, desemprego recorde, encolhimento do PIB em quase 4% (...).” (ibid., p. 63).

 

Mas o que pouca gente sabe é que, apesar da retração da economia, os bancos continuaram lucrando, e muito! Naquele cenário, o lucro dos bancos atingiu a marca impressionante de R$ 96 bilhões de reais. Segundo Fattorelli, “(...) 20% superior ao de 2014, e teria sido 30% maior não fossem as exageradas provisões que atingiram R$ 183,7 bilhões, e ainda reduziram seus lucros tributáveis”. (ibid., p. 63-64).

Se você não sabe, leitor ausente, os bancos não produzem riqueza. Eles passaram a operar como peças importantes do sistema financeiro com desvio de finalidade. Mas já lhe ocorreu, leitor incauto, perguntar qual é a função econômica dos bancos? A transferência de recursos públicos para os bancos é flagrante e obscena, e a engrenagem responsável por essa transferência é o sistema da Dívida. Segundo Dowbor, os bancos precisam voltar a ser vetores do desenvolvimento econômico. Os bancos lidam com nosso dinheiro, dinheiro que estão em nossas poupanças.

 

“(...) um banco, mesmo privado, funciona sobre a base de uma carta patente que o autoriza a trabalhar com o dinheiro da sociedade, com lucro que é legítimo quando exerce sua função sistêmica social de promoção do desenvolvimento”. (Dowbor, 2017, p. 259-260).

 

 

Para Dowbor, o que não se pode perder de vista é que, se o lucro do banco decorre da apropriação de uma parcela do produto adicional gerado na sociedade, que foi reinvestido em empreendimentos produtivos com retorno benéfico à sociedade, esse lucro é lícito. No entanto, quando o banco aufere seu lucro a partir de movimentações especulativas e juros que travam o investimento e a demanda, “cobrando pedágio e dificultando o acesso, o resultado é um poderoso entrave ao desenvolvimento”. (Dowbor, 2017, p. 260).

Detenho-me agora na discussão sobre o legado dos governos petistas entre 2003 e 2013. Acho que deve ter ficado claro que o PT não foi o responsável por “quebrar o Brasil”. Entre 2003 e 2013, o Brasil viveu um círculo econômico virtuoso. Essa fase foi chamada pelo Banco Mundial de década dourada da economia brasileira. Enumero as melhorias socioeconômicas reais do país durante aqueles 10 anos “dourados”:

 

1)    Cerca de 20 milhões de empregos formais foram criados, e o desemprego baixou para 4,8%, índice próximo do pleno emprego. No atual governo Lula, o índice de desemprego é de 5,3%, a menor marca desde 2012;

2)    O salário mínimo, mesmo que insuficiente, acarretou a elevação salarial em geral;

3)    Políticas redistributivas favoreceram 13 milhões de famílias, ou cerca de 50 milhões de pessoas;

4)    Cerca de 15 milhões de brasileiros passaram a ter acesso à eletricidade, o que mudou radicalmente suas condições de vida;

5)    O número de pessoas que ingressaram na universidade mais que dobrou, e as portas da universidade se abriram aos filhos e filhas dos mais pobres.

A título de comparação, no primeiro ano do governo de Jair Messias Bolsonaro, 2019, o índice de desemprego era 11,9%. Era significativamente alto o número de pessoas que procuravam emprego havia pelo menos dois anos, naquele período.

Todos os bons resultados dos governos petistas, elencados acima, geraram demanda, que, por sua vez, gerou expansão produtiva, que, então, manteve em equilíbrio as contas públicas. Mas a aliança entre as elites, a imprensa venal, o aparelho jurídico-policial e a Lava Jato, apoiada pela classe média conservadora, insatisfeita com a ascensão dos mais pobres, montou a grande farsa, segundo a qual “a generosidade com os eternamente excluídos do Brasil constitui populismo e quebrou as contas públicas”. (Dowbor, 2022, p. 51). Leia-se o que escreve Dowbor acerca dessa farsa até hoje tomada como verdade no senso comum:

 

“(...) Chamar de populismo uma política que responde às necessidades da população é até curioso: o governo é eleito para fazer o quê? E dizer que quebraram as contas públicas é simplesmente uma mentira: quando lançam a grande guerra contra o governo, em 2013,  governo apresenta um superávit de 1,4% (resultado primário) e um déficit total de 2,1% ao contarmos o dreno que constituem os recursos transferidos para os bancos. A Europa considera normal trabalhar com déficit de até 3%”. (ibid.).

 

O círculo virtuoso da economia brasileira nos 10 anos de governo petista, compreendidos entre 2003 e 2013 foi interrompido pela ação do sistema financeiro que se apressou em se apropriar do dinheiro da população por meio do endividamento. Mas o que chegou às casas das massas através do Jornal Nacional foi uma sequência de noticiários que formaram a opinião pública favorável à criminalização do PT. Como os prisioneiros da Caverna de Platão, os telespectadores, o homem da rua, tomam não conseguiam ver a verdadeira realidade que os noticiários propositadamente encobriam. O endividamento do povo provocado pelos mecanismos do sistema financeiro estende-se às empresas, sobretudo às médias e pequenas, e ao Estado. Mas esses mecanismos são invisíveis àqueles cuja vida está condenada socialmente à luta pela sobrevivência.

Não é difícil compreender as consequências danosas para a economia, quando famílias, pequenas e médias empresas e o Estado ficam endividados. Se o consumo das famílias desacelera, as empresas deixam de produzir, e ambos os setores passam a pagar menos impostos. Menos impostos significa redução da capacidade de o Estado realizar investimentos em infraestruturas e em políticas sociais. Assim, segundo Dowbor, “a pá de cal é a própria dívida do Estado, que se vê obrigado a desviar grande parte dos seus recursos para pagar juros dos grupos financeiros”. (ibid., p. 52). O resultado é o ciclo vicioso da economia.

Em 2015, um ano antes do golpe sofrido pela Presidenta Dilma Rousseff, o sistema da Dívida drenou meio trilhão de reais (o equivalente a 8% do PIB) essencialmente para bancos e grupos financeiros. Por isso, observa Dowbor, “atribuir o déficit das contas e a necessidade de um ajuste fiscal ao excesso de “gastos” com  políticas sociais constitui uma farsa” (ibid., p. 56). O déficit foi produzido pelo sistema da Dívida. O déficit das atividades próprias do governo, chamado “resultado primário” das contas públicas, sequer ultrapassou 2% do PIB. A União Europeia recomenda que o déficit não ultrapasse os 3%. Vê-se, pois, que o alarde do mercado e da imprensa servil ao capital financeiro não se justificava.

 

“No nosso caso, os juros sobre a dívida pública representam até 8% do PIB, dinheiro que poderia dinamizar a economia através do investimento público. Os ganhos improdutivos do sistema parasitário assim criado são em grande parte reaplicados na dívida pública que explode. (Dowbor, 2022, p. 56, grifo meu).

 

Os investimentos públicos, que são investimentos nas pessoas, geraram os principais milagres econômicos, na Ásia, na Finlândia e em outros países.

Para levar a bom termo este texto, a lição básica que se pode depreender de toda a discussão empreendida é que a financeirização da economia leva ao desvio de recursos do investimento produtivo para as aplicações financeiras, acarretando o enriquecimento dos agentes improdutivos.

Em países como a Alemanha, a China e o Canadá, o sistema financeiro cumpre a função de dinamizar o consumo das famílias com juros baixos, os investimentos empresariais, as políticas públicas de acesso aos serviços sociais e também os investimentos estruturais. O crédito no Brasil, como ordem de grandeza, não é mais caro do que o resto do mundo em alguns “por cento”. É 800% a 1200% mais caro! Na prática, pagamos ao mês o valor correspondente ao que o resto do mundo paga ao ano. Quando a presidenta Dilma tentou reduzir esses juros, ela foi retirada do governo.

Dowbor (2021) elenca 4 mecanismos por meio dos quais o sistema financeiro se apropria do dinheiro dos contribuintes, dinheiro nosso, que deveria ser investido em projetos, em programas para a melhoria das nossas vidas.

A crise financeira de 2008 foi resultado de especulações irresponsáveis. Naquela época, o governo americano encontrou, em poucos meses, trilhões de dólares de dinheiro público para socorrer os bancos. Nota Dowbor  que:

 

“(...) a facilidade com a qual a conta foi repassada para as populações, sob forma de redução de políticas sociais, salários e outros direitos, ainda que tivéssemos presenciado numerosas manifestações de protesto pelo planeta adora, também espanta”. (Dowbor, 2021, p. 98).

 

O primeiro mecanismo é a transferência de dinheiro dos governos para os grupos financeiros. Nesse caso, esses grupos chantageiam diretamente os governantes: se vocês não nos pagarem, todos quebramos. Portanto, paguem! 

O segundo mecanismo é o da alavancagem. Por meio desse mecanismo, os bancos ganham dinheiro com um dinheiro que eles não têm. Esse mecanismo funciona assim. Suponhamos que o banco remunere minha poupança a 8% ao ano, depois empresta esse meu dinheiro a 24%. O banco lucra com a diferença. É mais arriscado quando o banco empresta para mais pessoas um valor superior ao das poupanças depositadas, mas ele sabe que, raramente, as pessoas vão retirar o dinheiro depositado na poupança; o banco empresta, pois um dinheiro que não tem. Ele recebe 24% de juros sem pagar os 8% de remuneração da poupança. Como resume Dowbor, “é lucro líquido”. (ibid.). Dado o fato de a moeda ser virtual, ou seja, nada além de sinais magnéticos, a facilidade com que se pratica a alavancagem é imensa. Um dos maiores bancos mundiais, o Lehman Brothers, emprestou mais dinheiro do que tinha em caixa. Seus lucros foram exorbitantes. Quando, no entanto, os clientes decidiram resgatar o dinheiro, a gigante financeira desmoronou. Destarte, segundo Dowbor, “ganha-se muito com a alavancagem, com dinheiro que não se tem, apresentando apenas o luxo das instalações e uma boa conversa (...)”. (ibid.).

O terceiro mecanismo é chamado de Carry-trade, que não possui uma tradução satisfatória em português. Mas o que interessa é compreender como funciona o mecanismo de drenagem do dinheiro público. Grupos financeiros tomam emprestado, a 1%, dinheiro ao Japão e o aplicam em títulos da dívida pública no Brasil. Nesse mecanismo, lucra-se bastante com a diferença das taxas de juros sem sair da frente de um computador. Através desse mecanismo, “grupos financeiros realizam gigantescos lucros, gerando uma volatilidade mundial de fluxos financeiros que não têm por trás nenhuma atividade econômica real”. (ibid., p. 99).

O quarto mecanismo é chamado High-Frequency Trading, ou negociação de alta frequência (em tradução livre). Compras e vendas de papéis financeiros, em larga escala e em frações de segundos, são realizadas por computadores através de sistemas pré-programados. Todo o trabalho sobre diferenças de preços é realizado por meio de algoritmos complexos. Lucra-se bastante com pequenas variações de preços no mercado.

O que esses diversos mecanismos de apropriação da riqueza social pelo sistema financeiro têm em comum é ter gerado um setor de atividades voltado apenas para o valor dos papéis e inteiramente divorciado dos interesses dos agentes econômicos. Nas palavras de Dowbor, “(...) o valor dos papéis, por sua vez, depende muito mais das intenções especulativas dos agentes, do que da base mais ou menos sólida da própria economia”. (ibid., p. 100).

Termino este texto, pois, cintando Dowbor, que, a titulo de síntese, lança luzes sobre o que realmente causa recessões econômicas, empobrecimento das famílias, queda do poder aquisitivo da classe trabalhadora no Brasil e no mundo.

 

“Essa financeirização do sistema econômico mundial em que grupos especulativos em vez de se apropriarem diretamente de bens e serviços que a humanidade produtiva gera, se contentam em emitir papéis que lhes dão direitos sobre esses bens e serviços constitui um elemento central da desorganização da economia planetária, e faz com que intermediar papéis seja incomparavelmente mais lucrativo do que enfrentar o penoso labor de produzir sapatos ou arroz. Formou-se uma classe de rentistas, bilionários que lucram simplesmente com o dinheiro dos outros”. (ibid.).

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