domingo, 13 de setembro de 2026

Como todas as grandes ideias, a da Queda explica tudo e não explica nada, sendo tão difícil fazer uso dela quanto viver sem ela. " (Cioran)

 

                             





                            O agente do Mal

 

Sofro, hoje mais agudamente, de uma infecção grave, que contraí em algum momento pretérito impreciso: a infecção da insignificância cosmologicamente radical da condição humana. Esse processo infeccioso de que padeço se manifesta como um esgotamento existencial, um cansaço extremo que atinge a potência de ser. Essa infecção pestilenta aguçou minha consciência da nulidade de todas as coisas, corroeu todas as ilusões indispensáveis à tolerância da vida diária. Tudo que faço é impregnado de uma insignificância mórbida. Até mesmo a prática da escrita, que, durante muito tempo, me acalentou com suas miragens paradisíacas e imagens estimulantes de um futuro intelectualmente fecundo e próspero, hoje exala uma desimportância fétida. Como tenho padecido de uma obsessão pelos eventos políticos, pela matéria política, pelo modo como o fazer político se teatraliza, se encena como um festival de embustes, e sofrido com a percepção desesperante da imbecilidade das massas que, em uníssono, repetem os lugares-comuns e a lengalenga que infestam o discurso falaz dos palanques, meu intento inicial era escrever sobre temas que se inscrevem no âmbito das investigações da realidade sociopolítica e econômica. Mas toda pretensão de esclarecer o homem-massa, que não é leitor, é desimportante e vã. Protelo para outra ocasião a escrita sobre tais temas. Para Cioran, “escrever é uma libertação interior” (2024, p. 297). Assim também era, para mim, a experiência da escrita: ela era uma arte de expurgar minhas inquietações, meus tormentos costumeiros.

Para Cioran, a história é apenas um calvário absurdo. As circunstâncias sócio-históricas em que nascemos e vivemos moldam nossa visão de mundo. Para ele, é porque nasceu na Romênia, um país “onde não se faz a história, mas a sofre”, que não pode evitar a percepção de que o homem é, fundamentalmente, objeto da história, raramente seu sujeito. Cioran concede, contudo, que “há momentos na história em que o homem se alça à dignidade de sujeito em que é criador verdadeiro”. (2024, p. 264). Mas, vindo do leste europeu, diz ser muito propenso a ver na história um processo devastador que o homem não controla. O homem é que foi engendrado pela história, embora ele se tenha convencido de que é seu autor.

“Mas, caso se observe a história mundial em si mesma, não se pode deixar de sentir que o homem é sua vítima e nada mais”. (ibid.).

 

Ao se voltar para o tema da liberdade, ele afirma que não somos verdadeiramente livres e que o problema da liberdade simplesmente não tem solução.

 

“Quando agimos, estamos convencidos de que somos livres. Mas assim que examinamos nossa ação, constatamos que sucumbimos afinal a uma ilusão ou semi-ilusão. Se tivéssemos plena consciência de que nossas ações e atos são determinados, é irrevogável que não poderíamos agir”. (ibid., p. 265).

 

Segundo Cioran, no momento em que decidimos fazer algo, cremos que tomamos uma decisão. Contudo, se nos ocupássemos em analisar detalhadamente essa decisão, reconheceríamos, sem dificuldade, que nós fomos nossos próprios escravos. Dessarte, “cada um é sua própria vítima”. A liberdade, para o filósofo romeno, continua a ser o grande problema filosófico, para o qual não há solução. Mas ele não se ressente dessa impossibilidade de solucionar o problema; na verdade, entende que é melhor assim, já que, se solução houvesse, “a filosofia perderia seu propósito”. Talvez, também seja ilusória a crença de que o homem seja tão somente um joguete do devir histórico. Mas Cioran parece convencido de que um olhar atento sobre a história mundial nos levaria a destituir o homem da responsabilidade pelo curso histórico,  não menos determinado pelo seu destino.

No que toca à condição humana, Cioran mantém que o homem está condenado desde o princípio. A imagem cioraniana do homem não é nada lisonjeira, para falar eufemisticamente. Sua opinião sobre o ser humano se inscreve num horizonte teórico teológico-metafísico. Sem a ideia de “Pecado Original, “o homem não passaria de um enigma”. Em minha tese de doutorado, esclareci, em detalhes, a visão cioraniana do homem. Basta aqui assinalar que o uso que o filósofo faz do conceito de “pecado original” não o compromete com a fé cristã. Ele mesmo diz “não acredito em Deus”, mas isso não significa que não se interesse pelas questões fundamentais de que se ocupou a religião - nomeadamente, o judaísmo-cristianismo. Cioran não está preocupado em discutir a interpretação teológica do conceito de “pecado original”, “mas sem essa ideia - diz ele - o processo histórico como um todo me pareceria absolutamente fechado”. (ibid., p. 266). É no âmbito de suas reflexões sobre o pecado original, que Cioran afirma que há algo fraturado no ser do homem: “a natureza humana abrigava desde o princípio um vício latente” . (ibid.). Portando, originariamente, esse vício como uma chaga, o homem só pôde alcançar a ilusão da liberdade e não a própria liberdade: “mas mesmo a ilusão da liberdade já é alguma coisa”. (ibid., p. 266). Cioran confessa que, no íntimo, despreza o homem.

 

“Não sou amigo do homem e realmente não tenho orgulho de ser homem. A confiança depositada no homem chega a ser um perigo ameaçador, a crença no homem é uma grande bobagem, uma loucura”. (p. 266).

 

Quando já não se consegue mais acreditar no ser humano, torna-se impossível acreditar em qualquer projeto que ele pretenda realizar. Já não se consegue acreditar nos fins propostos para a história como um todo. Tudo que o homem empreende no mundo está viciado, manchado pelo pecado original. Quando tem em conta o homem, em geral, Cioran sentencia: “talvez tivesse sido melhor que ele nunca tivesse existido... o homem é bastante dispensável”.

À guisa de conclusão, refiro um excerto colhido de minha tese de doutorado no qual esclareço o uso feito por Cioran do conceito de Pecado Original, à luz do qual se pode entender o que significa dizer que o homem está condenado desde o princípio. Escusa dizer que a minha visão do homem encontra-se em plena harmonia com a opinião que Cioran tem dele:

Cabe sublinhar que, ao esposar a ideia de “Pecado Original”, Cioran a ressignifica no registro antropológico. O Pecado Original é uma metáfora de nossa inadequação ontológica, de nossa inclinação ao Mal, de nossa dolorosa e angustiante contingência. A ideia de pecado original prescinde da ideia de revelação divina. O filósofo-teólogo romeno está convencido de que a ideia de pecado original é compatível com a racionalidade, pois que, afinal, são inúmeros os motivos que os seres humanos nos dão para que os pensemos como seres essencialmente marcados pela corrupção, pela miséria moral e ontológica. O pecado significa, portanto, para Cioran, uma quebra, uma cisão, uma ruptura pela qual se expressa um mal difuso que constitui essencialmente o homem. O filósofo romeno faz abstração dos aspectos sobrenaturais ou metafísicos implicados nas narrativas do Gênesis e se atém à sua dimensão antropológica, da qual fazem parte a transgressão, a curiosidade, a tentação, a culpa decorrente do erro, a consciência do erro cometido. Reunidos, esses aspectos do Pecado Original fazem dele o símbolo de um modo de ser específico do homem, por força do qual ele abandona sua condição natural de animal para ousar como ser que busca incessantemente a superação de si mesmo e de seus limites. Ao contrário de Nietzsche, Cioran vê nessa busca do homem de autossuperação seu destino nefasto. A busca do homem por autossuperação é fonte de sua hýbris. Para Cioran, o homem é um animal desnaturado, extravagante, extraviado. O homem é um animal vertical que vê os demais animais abaixo de si e a natureza como um âmbito à parte, uma coisa estranha, de que pode dispor a seu bel-prazer. O homem não pode evitar sua perdição. Tudo que o homem acrescenta à vida volta-se contra ela. Assim, observa o filósofo que “escravo de suas criações é – enquanto criador – um agente do Mal[1].

 

(...)

Não se pode explicar o surgimento desse gorila desencaminhado, “forjador de deuses”, fabricante de ideias, de ilusões, a não ser recorrendo à noção de traição da ordem natural das coisas, ou seja, à Queda. Ontologicamente, a Queda é uma traição à natureza. Por isso, para Cioran, o homem é uma heresia da natureza; é, essencialmente, um ser infestado pelo Mal. Deixando de viver em comunhão com Deus, ele rompeu a harmonia simbiótica a que sua vida estava ajustada. Uma vez decaído, o homem rompe com suas raízes, “e essa ruptura equivale a um cisma, contra a “ortodoxia da natureza”, cujas leis, para a sua própria preservação, precisam ser respeitadas” [2].




[1] Breviário de decomposição, p. 155. (grifo nosso).

 

[2] MENEZES, 2007, p. 66.

sábado, 15 de agosto de 2026

"Não existe capitalismo governado pelo poder popular". (Ellen M. Wood)

 



Lições básicas

que todos os brasileiros deveriam saber

 

No décimo e último capítulo de O Brasil no espelho (2025), Nunes chega a uma conclusão desalentadora: “(...) os brasileiros estão mal informados, não sabem o que está acontecendo no Brasil”. (ibid., p. 194). Buscando aferir o conhecimento dos brasileiros no tocante a fatos noticiados pela imprensa brasileira - fatos atinentes à realidade sociopolítica e econômica do país-, Nunes submete os brasileiros a uma espécie de Enem de notícias, “uma prova de conhecimento com quatro questões sobre a atualidade, no caso, dezembro de 2023”. (ibid., p. 192) Segundo o autor, as quatro questões de múltipla escolha não pressupunham formação acadêmica ou conhecimento técnico daqueles que concordassem em participar da pesquisa. Era bastante que os entrevistados estivessem bem informados sobre os acontecimentos atuais da realidade sociopolítica e econômica do Brasil.

Terminado o teste, constatou-se que a maioria dos brasileiros foi reprovada. Depois de questionados sobre o que achavam do seu desempenho, os brasileiros, em sua maioria, disseram que foram bem no teste, “embora tenham acertado quase nada, eles acham que tinham acertado bastante”. (ibid., p. 196). A grande maioria superestima seu número de acertos, comenta Nunes.

Considerem-se, agora, as evidências relevantes que o Enem de notícia nos tornou disponíveis:

 

1)    Pessoas com ensino superior, homens brancos, pretos e pardos, atingiram um nível maior de acertos nas questões;

2)   Se as mulheres, independentemente da cor e grau de escolaridade, erraram mais, é porque elas, mais frequentemente, confessam não saber. Em comparação, os homens não gostam de admitir que não sabem, preferindo “chutar” as respostas e fingir que sabem. O acaso pode favorecê-los, às vezes, fazendo parecer que acertaram porque sabiam a resposta.

3)   Brasileiros com nível superior acertaram mais do que aqueles que não o possuem;

4)   Os que mais concordavam com a frase “a fé vale mais do que a ciência” tendem a errar mais respostas do que aqueles que discordam totalmente dessa afirmação;

5)   As pessoas que se declaram de esquerda acertaram mais do que as que se declaram de centro ou de direita. Os de esquerda atingiram quatro pontos (em cem) a mais, no Enem de notícias, do que aqueles que se declaram de direita ou de centro;

6)   A grande maioria, no entanto, superestima seu número de acertos. Dos 42% dos brasileiros que não acertaram nenhuma questão, apenas 6% acharam que não acertaram nenhuma.

 

A maioria dos brasileiros, portanto, é composta por “idiotas confiantes”. Ciente do fato de que nós somos motores de crenças falsas, sabedor de que os animais humanos sofrem da “ilusão do conhecimento”, hesito, tensionado entre perplexidade e desespero, em assumir qualquer uma destas duas atitudes quando em presença de um ser humano: ser compreensivo com ele, reconhecendo que ele não é culpado por sua condição costumeira de autoengano, ou repudiá-lo por acomodar-se nessa condição sem nada fazer para libertar-se dela.

Preciso esclarecer o que é  a “ilusão do conhecimento”. Trata-se da designação popularizada do fenômeno psicológico chamado de “efeito Dunning-Kruger”.  Consiste esse fenômeno na dissociação entre o estado de ignorância e o reconhecimento da própria ignorância. Os psicólogos David Dunning e Justin Kruger descreveram, portanto, um fenômeno interessante no comportamento das pessoas: a tendência que têm as pessoas menos competentes ou instruídas a superestimar suas habilidades. Por outro lado, as mais competentes ou mais instruídas tendem a subestimar as suas. Dunning e Kruger explicam que as pessoas menos instruídas ou menos competentes não têm consciência de suas limitações, ao passo que as mais instruídas ou competentes “são mais conscientes das complexidades envolvidas em uma esfera específica” (ibid., p. 198). Dunning conclui que não somos muito bons em saber que não sabemos.

É verdade que ninguém é imune à ilusão do conhecimento. O mundo em que vivemos é demasiado complexo, e o conjunto de conhecimentos construídos e acumulados, em diversas áreas, pela humanidade é gigantesco, de modo que todos somos ignorantes em certa medida. Não há problema algum nisso. Essa condição só se torna grave quando não somos capazes de reconhecê-la. Em outras palavras, o que é preocupante é que o não reconhecimento de nossa ignorância pode acarretar consequências socialmente danosas. Por exemplo, quando milhões de pessoas no mundo se recusam a se vacinar por acreditarem que a vacina pode levá-las à morte ou que pode causar-lhes graves problemas de saúde, ou quando recusam vacinas por acreditarem que há medicamentos que podem curá-las, ainda que sua eficácia não tenha qualquer comprovação científica. O caso emblemático dessa ignorância foi o uso de cloroquina, estimulado pelo então Presidente da República Jair Bolsonaro, durante a pandemia da Covid-19, como forma de tratamento supostamente “eficaz”, apesar dos inúmeros alertas da comunidade científica não apenas sobre sua ineficácia, mas também sobre os malefícios potenciais advindos de seu uso indiscriminado. Como bem lembra Nunes, “é incontável o número de pessoas que morreram por ignorar a amplitude de sua própria ignorância, por acreditar numa capacidade de discernimento que julgavam ter, mas não tinham”. (ibid., p. 198).

O que nos revela tanto a pesquisa de Dunning-Kruger quanto a de Nunes é que pessoas com pouca competência e baixo desempenho não conseguem perceber os erros, os equívocos em seu raciocínio e não sabem nada acerca de alguns temas, embora pareçam confiantes em que sabem. Outro achado da pesquisa de Nunes é que os entrevistados tendem a acreditar em informações falsas, se elas reforçam suas posições políticas. Isso vale tanto para os partidários da direita, da extrema-direita, do centro e da esquerda. Nossas crenças ideológicas nos levam, com muita facilidade, a formar convicções sobre temas dos quais não temos qualquer conhecimento. Segundo Nunes, é justamente a maioria que ignora o que acontece no Brasil que superestima seu conhecimento.

 

1.     As bolhas digitais: as câmaras de eco da intolerância

 

Consoante observa Nunes (ibid., p. 203):

O problema do mundo na terceira década do século XXI não é a escassez de informação, mas, sim, seu excesso. O desafio é encontrar formas de discernir informação de desinformação, de qualificar a informação e de filtrar a quantidade dela.

 

Os meios digitais, especialmente as redes sociais, levaram à explosão de oferta de fontes de informação e entretenimento. O mercado informacional disputa hoje o tempo e a atenção dos consumidores das redes digitais. A fragmentação e o modo de funcionamento das redes sociais fazem proliferar, mais facilmente, a desinformação do que a informação profissional e de qualidade, ao mesmo tempo que favorecem a dispersão de entretenimento. Segundo Nunes, “o entretenimento e a desinformação levam vantagem sobre notícias por serem mais atrativos e fácies de consumir”. (ibid.).

As chamadas bolhas digitais, formadas pela dinâmica dos algoritmos das plataformas das redes sociais, reúnem pessoas que pensam igual, que “curtem” os mesmos conteúdos e que rejeitam os que pensam diferente. As pessoas recebem, predominantemente, conteúdos compatíveis com suas preferências. Como diz Nunes, “cria-se, assim, um público dividido, mal informado e que tem pouco contato com opiniões diferentes da sua”. (ibid., p. 204). O convívio predominante com pessoas que pensam igual a nós valida nossas próprias opiniões e acentua em nós a tendência de sermos intolerantes com quem diverge de nossas ideias. O autor observa também que parte significativa da população brasileira processa e reproduz informações falsas em vez de informações objetivas e verdadeiras sobre a realidade do Brasil. Num estudo recente intitulado What Makes News Sharable on Social Media (O que torna as notícias compartilháveis nas redes sociais), mostrou-se que as pessoas costumam clicar e acompanhar, nas redes sociais, conteúdos que têm forte apelo emocional, e as notícias falsas preenchem esse requisito com mais frequência do que as notícias verdadeiras. (cf. Nunes, 2025)

Uma mente ignorante não é uma “tábula rasa” ou um recipiente vazio, mas um processo repleto de desordem de experiências de vida irrelevantes ou enganosas. A mente ignorante abriga, segundo Dunning, teorias, intuições, estratégias, algoritmos, heurísticas, metáforas e palpites que apenas aparentam ser conhecimento útil e adequado.

Enquanto os finlandeses lideram o ranking mundial dos países cuja população é mais competente na identificação de conteúdos falsos na internet, os brasileiros ocupam o penúltimo lugar entre 21 países. (cf. Nunes, 2025). Nunes aposta na mobilização de estratégias que incentivem e facilitem o acesso das pessoas à informação profissional. Mas a capacidade de discernimento entre fake News e informações verdadeiras dificilmente se desenvolverá sem uma educação de qualidade, que desenvolva, nos estudantes, a consciência crítica.

O índice de ilusão do conhecimento é menor em pessoas mais bem informadas, pessoas que leem notícias em plataformas jornalísticas ou acompanham telejornais diariamente. Por outro lado, o índice de ilusão do conhecimento é maior em pessoas que não consomem notícias, nem mesmo as que circulam nas redes sociais.

Quando atentamos para o que nos revelam os dados do IBGE, do Censo Escolar e do Todos pela Educação, referentes à escolarização dos brasileiros, tornamo-nos conscientes da profundidade do desafio a ser enfrentado. O que se seguem são informações baseadas em pesquisas empreendidas por essas instituições mencionadas, ao longo do ano de 2024. Os dados auferidos foram publicados entre 2024 e o início de 2026.

As pesquisas do IBGE, do Censo Escolar e do Todos pela Educação revelam que o nível de escolarização dos brasileiros está avançando, quando consideramos o tempo de permanência dos estudantes na escola e a conclusão das séries. Todavia, ainda há problemas graves na aprendizagem real, e a evasão no Ensino Médio continua sendo um problema a ser enfrentado. Mas, segundo informação do Portal do G1, o abandono escolar no 1º ano do Ensino Médio teve queda de 40% de 2024 a 2025, um avanço consequente, possivelmente, da implementação do programa Pé-de-Meia do Governo Federal (embora ainda não se disponham de estudos que avaliem o impacto desse programa na redução da evasão escolar); mas, sobretudo, do crescimento da oferta do ensino integral e da relevância dos conteúdos ensinados para o mercado de trabalho. No tangente ao programa Pé-de-Meia, ele funciona da seguinte maneira:

 

Quando um estudante beneficiado confirma a matrícula em janeiro/fevereiro, ganha R$ 200. Caso mantenha um índice mínimo de 80% de presença nas aulas, embolsa mais R$ 1.800 por ano. E, a cada série em que é aprovado na escola, recebe um depósito de R$ 1.000 na poupança o saque só pode ocorrer no fim do ensino médio.

(https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/06/26/abandono-escolar-no-1o-ano-do-ensino-medio-cai-40percent-de-2024-a-2025-diz-censo.ghtml)

 

O abandono do Ensino Médio chega a 20% entre estudantes com idade a partir de 16 anos. Essa evasão é, principalmente, motivada pela necessidade de trabalhar, gravidez precoce e desinteresse pelos estudos. Não obstante, a média dos anos de estudo dos brasileiros atingiu 10,1 anos, quando consideramos pessoas acima dos 25 anos. O total de pessoas com escolaridade superior subiu para 20,5%; no entanto, o Brasil ainda convive com um número maior de adultos sem o Ensino Fundamental! O analfabetismo, no atual governo Lula, registrou uma queda histórica: menos de 5% da população continua analfabeta. A faixa da população que concluiu o Ensino Médio atinge hoje os 56%.

Segundo Nunes, pesquisas publicadas pela Folha de São Paulo e pelo Todos pela Educação alertam sobre o fato de que, se os alunos concluem mais etapas no processo de sua escolarização, não atingem, por isso, um nível de proficiência adequado em matemática e em leitura. E não é escusável enfatizar: sem o desenvolvimento da competência de leitura dos estudantes brasileiros, continuaremos a manter as gerações atuais e futuras nesse ciclo de produção de ignorantes confiantes, de brasileiros e brasileiras inaptos para entender até mesmo o que lhes é perguntado. Como esperar que esses mesmos brasileiros e brasileiras mal informados, porque também mal formados em escolas públicas sucateadas, sejam capazes de participar ativa e criticamente da vida política brasileira? Como esperar que sejam capazes de lutar pelos seus direitos, de reconhecer sua subcidadania, de revoltar-se contra essa condição de exclusão social e política, de exigir maior participação política, se lhes privamos das habilidades socio-cognitiva-interacionais requeridas pela prática de leitura?

 

2.     Lições básicas para brasileiros sabe-tudo

 

1ª Lição:  Segundo Piketty, o capitalismo, mesmo quando funciona conforme suas regras e meios, é uma máquina de produção crescente de desigualdades de renda e riqueza.

2ª Lição: O capitalismo é, estruturalmente, antitético à democracia. Em primeiro lugar, porque nunca houve sociedades capitalistas em que a riqueza não tivesse acesso privilegiado ao poder. Em segundo lugar, principalmente, porque a condição insuperável da existência do capitalismo é que a mais básica das condições de vida, as exigências mais básicas da reprodução social precisam submeter-se aos imperativos da acumulação do capital e às “leis” do mercado.

3ª lição: Para Rancière, a democracia não é uma forma de governo em que todo poder emana do povo, tampouco é a forma de sociedade regulada pelo poder da mercadoria. A democracia é a ação que retira continuamente dos governos oligárquicos o monopólio da vida pública e retira do poder econômico a onipotência sobre a vida.

Para Ellen Wood (2011), a democracia não é um conjunto de regras destinadas a assegurar a lisura da representação política.

4ª lição: O capitalismo produz desemprego como resultado rotineiro de seu funcionamento normal. No mundo do trabalho do século XXI, 50% dos trabalhadores não serão necessários, “não terão lugar neste novo e admirável mundo do capital” (PAULA, 2021, p. 40). A nova tarefa da esquerda socialista é lutar pela humanidade.

5ª lição: A existência de pessoas e famílias ricas não se deve as suas capacidades laboriosas, inovadoras e excepcionais, mas simplesmente ao fato de serem filhos de ricos, netos de ricos ou de terem auferido rendas crescentes na forma de heranças, de lucros, juros e aluguéis, que crescem, sistematicamente, acima dos rendimentos do trabalho e acima do crescimento da renda e da produção nacionais.

Segue-se que, segundo Piketty, no capitalismo, é inevitável que os patrimônios herdados sejam superiores aos patrimônios constituídos no curso de uma vida de trabalho e que a concentração de capital atinja níveis extremamente elevados e incompatíveis com os valores meritocráticos e os princípios da justiça social, que são os fundamentos das sociedades democráticas.

 

domingo, 9 de agosto de 2026

"A inteligência de um governante pode ser estimada observando os homens que ele tem ao seu redor" (Nicolau Maquiavel)

 

                               



                                    O caminho para a politização

 

Se, desde as manifestações de Junho de 2013, a população brasileira parece estar mais “interessada” em política, não se segue daí que ela esteja mais politizada, no sentido de exibir um repertório de conhecimentos especializados sobre as diversas dimensões da atividade política (especialmente, saber quais são seus direitos e deveres na sociedade, saber como funciona o poder,  inteirar-se sobre leis, economia e práticas governamentais a fim de participar de forma crítica da vida política). Não é só a famigerada “polarização política” (diariamente martelada pela mídia) que marca, em nosso tempo, a experiência política dos brasileiros, também é marcante a defesa emocional de certas personalidades políticas. Além disso, se essa polarização constitui uma novidade recente na história do Brasil, a apatia política da população continua sendo um traço, historicamente, persistente. Embora as redes sociais oportunizem o confronto de posicionamentos político-ideológicos, todos os usuários estão expostos a discussões rasas e fragmentadas, em que diferenças de opiniões políticas são encaradas como ataques pessoais e rejeitadas sem a contraposição de argumentos. Falar mais de “matérias políticas” não significa estar instrumentalizado com saberes, teoricamente consistentes, sobre o complexo universo da política. Não apenas a maioria dos brasileiros, quase certamente, não sabe responder a questões como “O que é política”, “o que é Estado”, “o que é democracia”, “o que é mercado”, “o que é sociedade civil”, entre tantas outras que perpassam a investigação da Filosofia Política, da Sociologia e da Ciência Política, a maioria, como atesta Nunes, em Brasil no espelho (2025), também ignora o que acontece no Brasil e é justamente esta maioria que superestima seu conhecimento. Mas isso é outro problema de que não vou me ocupar aqui. 

Interessa-me insistir que ser politizado não equivale a declarar-se partidário de um ou outro espectro político e empenhar-se na defesa de sua posição ideológica - por exemplo, ser de direita ou de esquerda. Se, hoje, no Brasil, se fala muito de “política”, isso não torna nossa esfera pública mais democrática e tolerante. Ao contrário, a pesquisa Brasil no espelho mostra que as pessoas desconfiam mais de quem não segue sua mesma linha ideológica; chegam a não tolerar aqueles que divergem de suas opiniões políticas, por mais grosseiras e tolas que sejam. Quando o confronto de opiniões políticas se converte em ataques de ódio ao outro, o que construímos é um ambiente hostil ao debate e, em última instância, obstruímos o exercício pleno da democracia, que, no Brasil, não se tornou uma experiência cultural. Não temos uma cultura democrática! Mas este é um tema para outro texto. Basta-me acrescentar ao curso de minha exposição que é a própria vida social e política que, no Brasil, se tornou perigosamente conflituosa e temerária; sobretudo quando a maioria dos brasileiros, que não tem noção precisa da realidade, mas acha que sabe muito, encontra confirmação de suas crenças falsas, irreais, absurdas em outras pessoas que também não têm noção alguma da realidade.

Dois pontos são essenciais a essa discussão: 1) Se, no Brasil, mantém-se um ambiente hostil ao debate, o próprio caráter dialógico fundante da política fica inviável; 2) Como interagir com pessoas que acham que sabem muito, mas sabem pouco ou não sabem nada? Você, leitor, poderia apressar-se em responder que basta fornecer às pessoas mais informações para que elas se tornem capazes de admitir o que é verdade. Mas a ignorância não se supera tão facilmente assim. Não é apenas fornecendo mais informações a uma pessoa, que ela se tornará mais esclarecida. A informação, muitas vezes, leva ao erro, e não à verdade. Não é coletando e processando quantidades maiores de informações que nos encontraremos no caminho rumo à verdade, ao conhecimento sólido. Informações parciais ou análise falha de dados disponíveis podem levar até mesmo os especialistas ao erro. Nunes, a propósito, lembra-nos do seguinte:

 

O problema do mundo na terceira década do século XXI não é a escassez de informação, mas sim, seu excesso. O desafio é encontrar formas de discernir informação de desinformação, de qualificar a informação e de filtrar a quantidade dela. (Nunes, 2025, p. 203).

 

 

Não quero que o leitor pense que nutro expectativas irreais sobre o modo como a população brasileira deveria envolver-se no debate político. Não espero que os brasileiros se tornem especialistas em matéria política, mas um entendimento razoável do funcionamento das instituições políticas e das questões que ocupam a agenda de todos aqueles que aspiram à construção de uma sociedade mais justa e igualitária é uma condição necessária à maior e melhor participação política de todos os que estão, deveras, preocupados em mudar as condições que nos distanciam de uma vida próspera e feliz como coletividade. (vida feliz e política? - isso é coisa dos gregos antigos!).

A pesquisa empreendida para a produção do livro O Brasil no espelho patenteia um dado alarmante: “os brasileiros não estão bem informados, portanto a maioria parece não saber o que acontece no país”. (ibid., p. 201). Se vivessem na Grécia Antiga do século IV a.C., os brasileiros seriam ignorados na ágora, onde os cidadãos atenienses se reuniam para discutir assuntos de interesse público.

Reportemos há cerca de 2.400 anos, quando Aristóteles ensinava na Grécia. A vida cotidiana dos gregos era muito diferente da vida dos brasileiros hoje, sob muitos aspectos, que não valem menção aqui. Mas há uma coisa que não mudou desde aquele tempo: os pensadores da Grécia Antiga acreditavam, como acreditam os nossos intelectuais de hoje e as pessoas de bom senso, que a vida social e política não se realiza plenamente, se as pessoas não souberem o que acontece no dia a dia de sua sociedade. Elas precisam saber o que acontece em sua cidade, em seu país, entender a realidade sociopolítica, histórica para que exista o que Jürgen Habermas chamou de “esfera pública”, área em que os cidadãos têm liberdade para debater os problemas da vida em comunidade. Ora, se não se tem conhecimento da realidade, não é possível discuti-la. Não estou certo de que devemos considerar as redes sociais a nova esfera pública ou uma nova modalidade dessa esfera, porque entendo que não há, nas plataformas digitais como Facebook e Instagram, debate político. O que desfila, nesses ambientes digitais, são opiniões, muitas vezes, irreais, grosseiras e eivadas de ofensas aos que divergem delas. Além disso, essas opiniões circulam sem qualquer conexão com o tópico discursivo, isto é, o assunto principal de uma notícia política, por exemplo, que assanha o hábito dos brasileiros de opinar sobre tudo. Quem, de fora, acompanha o desenrolar das manifestações verbais perde de vista, a certa altura, o tema central que as motivou, já que elas se degeneram em ofensas pessoais.

Se você, que me acompanhou até aqui, está entre os milhares de milhões que “navegam” nesse oceano cheio de escolhos de tolices que impedem ou esterilizam a reflexão equilibrada, teoricamente fundamentada, da realidade social e política, que são as redes sociais, convido-lhe a deixar, momentaneamente, esse lodaçal do senso comum, que tende a operar simplificações da realidade, para arriscar-se numa compreensão mais filosófica, sociológica e antropologicamente consistente da questão política.

A política é uma dimensão da condição humana no mundo bastante complexa; aliás como o é a realidade mesma! Por isso, vou-me cingir a dar a conhecer 3 definições de política que são correntes na literatura especializada, ou mais precisamente, nos manuais de Filosofia Política. O que, sinceramente, desejo é que você, terminada a leitura deste texto, se convença de que a política, enquanto uma dimensão da condição humana, não está limitada ao aparato burocrático-governamental dos Estados-nação; e se convença, sobretudo, de que você não se tornou mais politizado ou politizada simplesmente porque se envolve, quase diariamente, em arengas tolas, nas redes sociais, animadas quer pelas paixões irracionais da idolatria, quer por supostos saberes sobre conceitos como ‘comunismo’, ‘capitalismo’, ‘Estado’, ‘liberalismo’, ‘mercado’, cuja compreensão exige anos de estudos formais na academia, os quais, por sua vez, implicam o convívio íntimo com os livros dedicados ao estudo dos fenômenos que eles descrevem. 

No senso comum, a palavra política, quando não empregada com conotações negativas que bloqueiam qualquer compreensão da política como um tipo de atividade humana e transformadora do real, refere-se, quase sempre, à política institucional, no horizonte da qual se fala  sobre as ações e omissões de um deputado, de um órgão da administração pública,  ou sobre as práticas dos partidos políticos, sobre as medidas adotadas pelo governo de ocasião, etc. A política institucional recobre, portanto, os partidos políticos, o governo, o parlamento, as eleições gerais ou municipais, as campanhas destinadas a angariar votos dos eleitores, etc. Um comício, por exemplo, é uma reunião política.

A palavra política origina-se do adjetivo grego pólis (politikós), que diz respeito à cidade e, consequentemente, ao que é público, urbano, civil. Pólis recobre também o que é social e sociável. O termo política tornou-se significativamente mais amplo em virtude da obra Política de Aristóteles, considerada “o primeiro tratado sobre a natureza, funções e divisão do Estado, e sobre as várias formas de Governo”. (Bobbio, 1995, p. 954). Segundo Bobbio, a ciência do Governo estuda as coisas da cidade.

O termo política sofreu uma transposição de significado, desde sua origem. Originalmente, ele recobria o conjunto de coisas qualificadas de “políticas”, mas, com o tempo, passou a significar o tipo de saber, mais ou menos organizado, sobre esse mesmo conjunto de coisas. Durante muitos séculos, usou-se o termo política para designar os livros dedicados ao estudo da esfera de atividades humanas que inclui, de algum modo, assuntos referentes ao Estado.

Na modernidade, a palavra política foi perdendo, pouco a pouco, seu significado original e adquirindo o sentido de ciência do Estado, doutrina do Estado ou Filosofia Política. Todas essas expressões recortam a noção de que a política se ocupa do conjunto de atividades que, de alguma maneira, tem na pólis seu objeto de preocupação. Mas a pólis agora é um termo empregado como equivalente ao termo Estado. A pólis é, assim, o sujeito, quando a esfera política recobre os atos de ordenar ou proibir alguma coisa com efeitos vinculadores para todos os membros do grupo social, ou o exercício de um domínio exclusivo sobre um determinado território (função básica do Estado), o legislar por meio de normas válidas erga omnes (para todos e não apenas para os envolvidos num processo), o tirar e transferir recursos de um setor da sociedade para outros (também uma função estatal). Outras vezes, a pólis se torna objeto, quando são recobertas pela esfera política ações como a conquista, a manutenção, a defesa, a ampliação, o robustecimento, a derrubada, a destruição do poder estatal.

Minha preocupação básica na produção deste texto é contribuir para que você, leitor ou leitora, se aperceba de que o fenômeno político é muito mais complexo do que sugerem os noticiários televisivos sobre os acontecimentos políticos do país e que pode ser mais interessante do que os recortes que dele nos oferecem a imprensa. Minha preocupação, contudo, vai além: quero que você, leitor ou leitora, entenda que política se discute sim, mas não sob a forma rasa, simplista e contaminada por paixões que nos cegam, que nos bloqueiam o senso crítico, tão corrente nas redes sociais. Toda a lenga-lenga, a cantilena em torno do nome de personalidades políticas (Lula x Bolsonaro), de espectros ideológicos (Direita x Esquerda) não constitui um sinal de que os brasileiros estão mais politizados, mas que são apenas “idiotas confiantes”.

Em seu Antropologia, Mércio Pereira Gomes afirma que “a política diz respeito ao poder e sua distribuição desigual entre os homens”. (Gomes, 2011, p. 115). Uma das formas de compreender o fenômeno político é pelo estudo do que é o poder, como ele é adquirido, quem o detém, onde ele se encontra e para que ele serve. Se, como sugere Gomes, o poder é o elemento central da atividade política, então não se compreende adequadamente o que é a política sem compreender o fenômeno do poder. Convém, pois, dissertar sobre a relação entre a política e o poder. Esta relação está no cerne da primeira definição de política possível (há outras possíveis definições, como veremos).

 

1.    Política como práxis humana ligada ao poder

 

Quando definida como práxis humana, a política é considerada como atividade intimamente ligada ao poder. Ora, mas se queremos entender o que é política, precisamos saber o que é o poder. Como defini-lo? Não faltam definições de poder na literatura especializada. No entanto, tradicionalmente, pode-se definir o poder como o que é “consistente com os meios adequados à obtenção de qualquer vantagem” (Hobbes) ou ainda “o conjunto dos meios que permitem alcançar os efeitos desejados” (Rousseau). Um desses meios é, além do domínio sobre a natureza, o domínio sobre outros seres humanos. Por vezes, o poder é definido como uma relação entre dois sujeitos sociais, na qual um deles impõe sua própria vontade ao outro, determinando-lhe o comportamento. Veja-se que até aqui o conceito de poder compreende a ideia de propriedade que alguém possui e que lhe permite fazer coisas segundo sua vontade ou dominar outros, determinando-lhe o comportamento. Mas o domínio sobre os outros é, quase sempre, apenas um meio para a obtenção de outros fins vantajosos. Por isso, o poder é a posse dos meios (no conjunto dos quais se inclui o domínio sobre a natureza e sobre outros seres humanos) indispensáveis à obtenção dos efeitos ou vantagens desejados. Se assumimos que o poder é o elemento central da atividade política, então podemos conceber a política como a arte de conquista, distribuição e manutenção do poder. É claro, leitor, que essa concepção de política não esgota a complexidade do fenômeno político. Complexidade, aliás, é a palavra-chave quando estamos interessados em conhecer a realidade.

Segundo Bobbio, podemos distinguir entre três tipos de poder: o poder econômico, o poder ideológico e o poder político. Lanço alguma luz sobre essas três formas de poder, dando um enfoque especial ao poder político.

O que queremos dizer quando dizemos que alguém, uma corporação ou uma nação tem poder econômico? Queremos dizer que essa pessoa, corporação ou nação (pensemos nos Estados Unidos, nos grandes empresários que influenciam as decisões do Governo) se vale da posse de certos bens, necessários ou considerados como tais, numa situação de escassez, para forçar aqueles que não os possuem a manter um certo comportamento, consistente, sobretudo, com a realização de um tipo de trabalho. O poder econômico se exerce quer na esfera das relações institucionais dentro de um país, quer na esfera das relações internacionais. Em nossas sociedades capitalistas, ele se manifesta de forma opressiva na esfera da produção. Cito Bobbio:

 

Na posse dos meios de produção reside uma enorme fonte de poder para aqueles que não os tem:  o poder do chefe de uma empresa deveria da possibilidade que a posse ou a disponibilidade dos meios de produção lhe oferece de poder vender a força de trabalho em troca de um salário. Em geral, todo aquele que possui abundância de bens é capaz de determinar o comportamento de quem se encontra em condições de penúria, mediante a promessa e a concessão de vantagens. (Bobbio, ibid., p. 955).

 

Ora, se você, leitor ou leitora incautos, não compreende como se constitui o poder econômico no modo de produção capitalista, continuará repisando a crença falsa e enganosa segundo a qual os empresários é que dão oportunidades de trabalho. Eles não oferecem trabalho, mas forçam a maioria da população despossuída a trabalhar nas condições fixadas por eles em troca de um salário, sem o qual ela sofreria com a fome e a miséria.

No tangente ao poder ideológico, pode-se defini-lo como a influência que as ideias, formuladas, de um certo modo, e expressas, em certas circunstâncias, por uma pessoa ou grupo investidos de autoridade, exercem sobre a conduta de outros indivíduos. O poder ideológico encarna-se naqueles que sabem, como os sacerdotes das sociedades arcaicas, ou como os intelectuais e cientistas das sociedades modernas, porque é através deles que os valores dominantes e os conhecimentos especializados se comunicam,  e é através deles que se consuma o processo de socialização necessário à coesão e integração do grupo. Não cabe aqui esmiuçar o funcionamento do poder ideológico; minha preocupação é esclarecer o poder político.

O que comumente chamamos de poder político é o poder que tem um individuo sobre outro indivíduo. Esta relação de poder se expressa de várias maneiras na vida em sociedade: como relação entre governantes e governados, entre soberano e súditos, entre Estado e cidadãos, entre pais e filhos, etc. Há, portanto, várias maneiras pelas quais um indivíduo pode exercer poder sobre outro indivíduo, e o poder político é apenas uma delas. Na tradição clássica da filosofia política que remonta Aristóteles, discriminavam-se três formas principais de poder: o poder paterno, o poder despótico e o poder político. Note-se que, na esteira de Aristóteles, o déspota não é político; o despotismo, modernamente definido como uma forma de governo no qual o governante dispõe de poder irrestrito sobre os governados, é uma ruptura com a esfera política.

Vários critérios de distinção entre essas três formas de poder foram propostos no curso do tempo. Em Aristóteles, o critério de distinção baseia-se no interesse daquele em benefício de quem se exerce o poder. O poder paterno é exercido em benefício dos filhos. O poder despótico é exercido em benefício do senhor. O poder político é exercido em benefício tanto de quem governa quanto dos governados. Mas o poder político só se realiza, segundo o Estagirita, nas formas corretas de Governo. Nas formas de Governo em que predominam os vícios, o poder é exercido em benefício exclusivo dos governantes. Você deve ter percebido, leitor, que o poder político é partilhado entre aqueles que ocupam o Governo e aqueles que integram o que chamamos modernamente de sociedade civil, ou seja, entre governantes e cidadãos. O exercício do poder político não pode ser exercido de modo ilimitado, sob pena de degringolar em tiranias.

O critério, contudo, que terminou por consagrar-se nos tratados de jusnaturalismo foi o do fundamento ou princípio de legitimação. Ou seja, não se obtém o poder político por usurpação. Encontramos esse critério formulado por Locke, em seu Segundo Tratado sobre o governo (1689). Nessa obra, Locke argumenta que o fundamento do poder civil (político) é o consenso. Sucede que nem o critério estabelecido por Aristóteles nem o proposto por Locke dão conta de assinalar o caráter específico do poder político. Quer se diferencie por voltar-se para o interesse dos governantes e dos governados, quer por basear-se no consenso, o poder político não nos permite ver o caráter distintivo de qualquer Governo, mas apenas do bom Governo. Em qualquer dos casos, o poder político supõe, como condição de sua realização, um Governo ideal, um Governo tal como deveria ser. De passagem, faço ver ao leitor que passei a me referir a ‘Governo’, sem esclarecer não só seu significado, mas também sua relação com o poder político (embora a relação tenha sido tacitamente enunciada quando me referi à obra Política de Aristóteles) . Não obstante, tecerei os esclarecimentos necessários ao alcance de um entendimento adequado pelo leitor, após a apresentação das três definições de política. Prossigo, por ora, tratando do poder político.

O poder político, por fim, consiste na posse dos instrumentos mediante os quais se exerce a força física (as armas de todos os tipos e potência). O poder político, o poder econômico e o poder ideológico fundamentam, conservam e reproduzem uma estrutura social dividida em classes, isto é, em ricos e pobres (poder econômico), em sábios e ignorantes (poder ideológico) e em fortes e fracos (poder político). Assim, segundo Bobbio,

 

Como o poder cujo meio específico é a força, de longe o meio mais eficaz para condicionar os comportamentos, o poder político é, em toda a sociedade de desiguais, o poder supremo, ou seja, o poder ao qual todos os demais estão de algum modo subordinados (...)”. (Bobbio, ibid., p. 955-956).

 

Antes de me deter na discussão das três definições de política, gostaria de precisar melhor o conceito de poder. A vida intelectual reconhece o caráter complexo da realidade; por isso, se queremos compreender verdadeiramente a realidade, necessitamos desenvolver a capacidade do pensamento complexo. Para que você entenda, leitor, a concepção de uma realidade complexa, refiro abaixo as palavras de Morin:

 

[...] a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associadas: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Num segundo momento, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico. Mas então a complexidade se apresenta com os traços inquietantes do emaranhado, do inextricável, da desordem, da ambiguidade e da incerteza... Por isso, o conhecimento necessita ordenar os fenômenos rechaçando a desordem, afastar o incerto, isto é, selecionar os elementos da ordem e da certeza, precisar, clarificar, distinguir, hierarquizar... Mas tais operações, necessárias à inteligibilidade, correm o risco de provocar a cegueira, se elas eliminam os outros aspectos do complexus.[1]

 

Vemos, pois, que a complexidade da realidade envolve imperfeição e incerteza. A complexidade exige o reconhecimento do irredutível, a saber, do que não pode ser reduzido ao simples, do que não se presta a simplificações. Por conseguinte, na vida intelectual, o objeto do conhecimento não tem nada de simples, de unívoco. No senso comum, usamos a palavra “poder”, por exemplo, em diversos contextos, como se ela significasse a mesma coisa em qualquer contexto. Mas o fenômeno do poder, como uma dimensão dessa realidade intrinsecamente complexa, é também complexo, multifacetado, de modo que sua análise exige múltiplas perspectivas. Não estou sugerindo que devemos conhecer todas as maneiras pelas quais o poder foi concebido, analisado; mas precisamos estar ciente de que os conceitos com quais operamos para descrever, analisar e compreender a realidade são sempre, necessariamente, conceitos polissêmicos, complexos.

Portanto, a abordagem predominante do poder, influenciada pelas ideias de Max Weber, está centrada no exercício dos poderes que permitem a tomada de decisões em organizações sociais, tais como o Estado, as empresas comerciais, as universidades, as igrejas, etc. Nessas instituições, as relações de poder são assimétricas e se estruturam em torno dos interesses e objetivos conflitantes dos participantes. Há uma segunda abordagem de poder bastante influente, que se origina de um conjunto de preocupações atinentes ao modo como as estruturas institucionais moldam o exercício do poder. Essa abordagem foi desenvolvida por Antonio Gramsci, Talcott Parsons e Michel Foucault. Em linhas gerais, essa abordagem do poder tem como escopo as estratégias e técnicas de poder e sua preocupação básica é mostrar como ele é difundido pela sociedade. O poder não é visto apenas como uma propriedade restrita às organizações soberanas, como o Estado; mas como uma propriedade coletiva dos sistemas sociais, cujos atores são vistos como cooperadores. O poder facilita, portanto, tanto o fortalecimento quanto a disciplina coletiva. Uma das grandes lições de Foucault, nesta seara, foi mostrar que as formas de poder mais eficazes são aquelas exercidas por pessoas que aprenderam a disciplinar o seu próprio comportamento. Elas foram, enquanto sujeitos, constituídas discursivamente em subalternos que se conformam, sem que seja necessária qualquer ação direta da parte de um superior.

 

2.    Três definições de política

 

A primeira definição de política é a de política como um tipo de atividade humana. Claro é que ainda não se esclareceu a especificidade desse tipo de atividade humana. Há muitas formas de atividade que os seres humanos realizam. A política é um tipo dentre elas. A política é uma atividade que realizamos em conjunto. Mackenzie, em Política: conceitos-chave (2011), ensina que não há atividade política sem o encontro com os outros:

 

Estando o indivíduo sozinho, na ilha deserta que tantas vezes imaginamos, dele não se diria que pudesse estar envolvido em atividade política, porque, simplesmente, não teria com que interagir. (Mackenzie, ibid., p. 12).

 

 

Ora, vê-se que a política é uma atividade que exige a interação entre, pelo menos, duas pessoas. No entanto, não se segue daí que toda interação humana seja de natureza política. A interação entre, pelo menos, duas pessoas é condição necessária, porém, não é condição suficiente para que haja atividade política.

Essa primeira definição de política pode ser chamada de definição lato sensu (em sentido amplo). À luz dessa concepção ampliada de política, ela constitui uma dimensão universal da condição humana e se realiza sempre que dois ou mais seres humanos se encontrem engajados em alguma atividade coletiva, quer formal, quer informal, pública ou privada. A política é um meio para resolver disputas, mas não o único, é claro. Imaginemos dois ilhéus empenhados na resolução de um conflito de interesses. Eles poderiam estar divergindo quanto à melhor maneira de distribuir os recursos da ilha, ou sobre o modo de reparti-la, para que cada um tivesse sua porção de terra. Se eles recorressem à violência ou ao jogo de cara ou coroa, não estariam realizando uma atividade política. Como assinala Mackenzie, “(...) a solução dos problemas envolvidos será, muito provavelmente, o resultado de uma atividade que estamos caracterizando como política, por exemplo, [se] algum debate ou discussão sobre como deveriam resolver o seu choque de interesses [acontecesse]”. (ibid., p. 13). Aqui preciso ser enfático: a palavra, o diálogo, a discussão racional (argumentada) constitui o cerne da atividade política. Se duas pessoas se agridem fisicamente ou verbalmente em virtude de um conflito de interesses, elas deixam o campo político, que consiste em coexistir mediando conflitos, divergências através do lógos.

A segunda definição de política é a que a concebe como um modo específico de obter consenso em condições em que há divergência entre pessoas. Os participantes da atividade política precisam estar engajados num processo cuja finalidade é o estabelecimento de normas e padrões que os ajudem a resolver disputas futuras. Não se espera que eles estejam apenas preocupados em satisfazer seus interesses imediatos. Como forma de atividade que visa à produção de consenso entre pessoas ou grupos, a política é, pois, definida como a arte de resolver conflitos de forma apropriada, sem o recurso à violência ou à tirania.

A terceira definição de política é aquela que a vê como um meio para a realização do bem comum. O conflito não está excluído do domínio político, já que é quase inevitável que o encontro prolongado entre duas pessoas gere, em algum momento, divergência de interesses e opiniões. Mas agora podemos pensar a política como uma atividade por meio da qual interesses divergentes podem ser reconciliados, no âmbito de uma unidade de governo. Nesse caso, para que seja resolvida a divergência de interesses politicamente, é necessária a atribuição de participação dos envolvidos no poder, em medida proporcional à sua importância para o bem-estar e sobrevivência de toda a comunidade. Nessa terceira definição de política, a política não é, essencialmente, uma atividade destinada à resolução de conflitos. Ela é um empreendimento muito mais cooperativo. Por meio dela, busca-se promover o bem-estar e sobrevivência da coletividade, da sociedade, de modo que a contradição entre interesses egoístas, as disputas de interesses entre duas ou mais pessoas devem ser resolvidas em nome do bem-estar da sociedade. Como ensina Mackenzie, “ao invés de pressupor divergência e conflito, pode ser que a melhor maneira de pensar a política seja a busca do bem comum”. (ibid., p. 14). O que é esse bem-comum é outro problema que a filosofia deve encarregar-se de definir. De qualquer modo, essa terceira maneira de conceber a atividade política leva-nos à conclusão de que sua finalidade não é propriamente a resolução de alguma divergência relacionada à posse e distribuição de recursos. A política pressupõe a cooperação e a busca do que os gregos chamavam vida boa. Evidentemente, o que era concebido como vida boa na Grécia do século IV a.C é bastante diverso do que nós, indivíduos de sociedades capitalistas do século XXI d.C., entendemos por “vida boa”. Seja como for, o que valia para os antigos gregos continua valendo para nós hoje: a política deve servir à realização da felicidade das coletividades humanas, não apenas à realização da felicidade individual. Decerto, é mais difícil alcançar esse objetivo em sociedades marcadas pelo individualismo como as sociedades ocidentais ou as sociedades influenciadas pelos valores capitalistas.

O que importa, neste texto, é, no entanto, mostrar ao leitor ou leitora que é possível pensar a atividade política de modo diverso de como as pessoas comuns a pensam, nas suas vivências diárias, sempre que a sua atenção se volta para as práticas institucionais da política em nossa sociedade. Segundo pesquisa realizada pela Quaest, em Abril de 2026, 50% dos brasileiros declaram estar pessimistas quando o assunto é o sistema político do país (https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/04/21/quaest-otimismo-brasil.ghtml). Pensar diversamente o modo de realizar a atividade política, sobretudo no seu âmbito institucional, é indispensável à luta pela sua transformação. O fatalismo, também em matéria política, só leva à imobilização, à apatia e ao enrijecimento do status quo.

A terceira acepção de política que venho apresentando aqui deita raízes no pensamento de diversos filósofos desde a Antiguidade: de Aristóteles, passando por Rousseau, no século XVIII, a Hannah Arendt, no século XX. Mais recentemente, nessa tradição da filosofia política, deve-se situar Michael Sandel. Para este autor, a política não pressupõe a divergência, o conflito, mas a cooperação e a busca da vida boa, na qual podem engajar-se todos os cidadãos.

 

Para concluir

 

Eu disse que retomaria a relação entre política e governo. Não há dúvida de que, no imaginário social, sempre que pensamos em política, associamo-la, frementemente, a Governos. Governar pode ser entendido em várias acepções. No âmbito dos estudos sobre política, pode-se definir governar como um modo de controle ou de influência sobre uma pessoa ou povo nos domínios de um território com vistas a orientar, fixar a conduta dessa pessoa ou povo. O termo governo, por sua vez, pode designar:

 

a)     O ato de governar;

b)     O conjunto daqueles que nos governam;

c)     O aparato ou a maquinaria da organização investida da autoridade para governar.

 

Assim, a política tem a ver também com a maneira como somos governados.

 

(...) independentemente de se priorizar ora o conflito, ora a conciliação, ou ainda a decisão coletiva, podemos perceber que a política tem algo a ver com a maneira como somos governados por normas. (Mackenzie, ibid., p. 17).

 

 

Mas, advirto o leitor sobre um fato importante: somos governados por novas formas de governança que só crescem e que não dependem estritamente da atividade do Governo, ainda que estejam intimamente ligados a ele. O filósofo que melhor nos esclarece sobre como somos constituídos, moldados, fabricados por essas formas de governança em nossas práticas da vida diária é Michel Foucault, mas esse é um tema para outro texto.

 




[1] MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Tradução de Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2015b, p. 13-14. (grifos nossos).

 

 

Postagem em destaque

Décadence - uma degeneração da vontade

                               As duas negações do imoralista N ietzsche não pretendeu destruir toda e qualquer moral, tampouco...