O corpo e seu silêncio
Ela pedia,
insistia, mas ele não falava; o silêncio o preenchia por inteiro, comprimia seu
diafragma, era como uma represa impedindo-lhe o fluxo das palavras. Uma fissura
e palavras entrecortadas, transpassadas, miúdas eram ouvidas... e só! Embora
resistente fosse o silêncio ante a pressão do desejo inaudível, uma voz íntima
dentro de si representava-lhe como deveria vociferar, que gestos corporais
deveriam ser feitos para expurgar a pressão da ansiedade, do medo, das
inquietudes, cuja familiaridade remonta a tempos que pareciam sepultados em sua
vida... Mas outra voz íntima lhe expunha a inutilidade de dizer o que quer que
fosse, dizer era um desperdício; a fala não seria mais do que o expurgo de um
vazio, de uma vacuidade incompreensível a quem não tem ouvidos treinados para a
escuta psicanalítica, para realizar a interpretação de um especialista nos conflitos dos
recônditos da alma humana... O choro abafado prevaleceu na companhia do
silêncio, àquela altura, estendendo entre os dois uma cova funda de incompreensibilidade
mútua... Decidiu dormir, mesmo que o sono permanecesse sufocado, adiado pela
ansiedade...
O que poderia ter
falado ele? O que queria ter falado? Toda a sua dor tinha de haver-se com a
incompletude da linguagem, com sua opacidade. Nenhum signo, nenhuma cadeia
sintagmática, nem o mais elaborado e complexo arranjo textual poderia aliviá-la.;
digo: poderia dar-lhe a expressão fidedigna, transparente, monossêmica a que ele aspirava. Sua dor
era da ordem das profundezas, dos abissais traumas de uma infância primeva e insuperável,
de uma infância ubícável, fantasmoática. Pode-se ressignificá-las, dar-lhes uma
inscrição diferente, “nova” na ordem do simbólico e do imaginário, mas jamais se
pode apagá-las. Não obstante, ele queria ter dito que é dotado de uma
profundidade psíquica, de um anseio profundo de autoexpressão; queria, talvez, ter dito que suportava o peso de uma paixão
efusiva de sustentar a flagrante e irremediável fragilidade da vida e o absurdo
que lhe é entranhadamente constitutivo sobre uma fundação imaginário-simbólica que
remontasse ao lema iluminista “Sapere Aude”. Mas o que ouvia: “os livros
que lê lhe fazem mal”, “quando tinha fé, você não sentia isso”. E a
incompreensibilidade será, definitivamente, insuperável... os dois espíritos
formam imagens do mundo antagônicas, antitéticas. A significação existencial do
conhecimento, a necessidade visceral, fisiológica de sua busca, tão evidentes para ele, tão íntimas dele, são, para muitas
pessoas, terminantemente, experiências estranhas, alheias, inacessíveis, por
natureza, por constituição fisiológica, pelo modo da conformação sintomática de
suas experiências da primeira infância, pelas formas como o fluxo deveniente da
vida as afeta ou as afetou, pela conformação de seus instintos, de seus afetos.
Nitzsche tinha
razão: o pensamento, a consciência e as ideias que formamos são sintomas de
estados fisiológicos. “Juízos, juízos de valor acerca da vida, contra ou
a favor, nunca podem ser verdadeiros; afinal eles têm valor apenas como sintomas,
são considerados apenas enquanto sintomas” (CI, O Problema de Sócrates, §
2). Posteriormente comentadores de Nietzsche reuniram sua lição sobre o
papel do corpo na constituição do conhecimento, sob a fórmula “Toda filosofia
não é senão a confissão de um corpo”. Esta é tomada à pena de Michel
Onfray, que acrescenta: ... “não é senão o mal-entendido da carne”.
Nietzsche, mais
do que qualquer outro filósofo compreendeu bem e melhor externou o papel do
corpo na elaboração de um pensamento, de uma obra. A conceitualização “segue o
talo do corpo e não o precede jamais”. (Onfray). O corpo trabalha antes do
espírito, e o pensamento é apenas a resultante de forças que lutaram no mais
profundo da carne. É o corpo que soluciona o problema sozinho, sem o concurso
da consciência. O organismo armazena conflitos, lhes dá um espaço, um lugar,
diz Onfray, até que sente, num dia, a necessidade de permitir-lhes o expurgo, a
dissolução sob uma forma brutal.
Como escrevi em
minha tese de doutorado a respeito da compreensão nietzschiana do corpo:
“Não
existe, para Nietzsche, alma separada do corpo. Não existe o espírito em si. O
espírito é corpo, e há somente corpo como efetivação das forças. Sucedeu que o
espírito foi, ao longo da história do pensamento, considerado uma coisa
superior, mas ele está submetido a relações instintuais mais profundas,
ensinará Nietzsche. O corpo é a “grande razão”: é todo o corpo que pensa. Não
há o “eu” como substância pensante, à moda cartesiana. Destarte, atribuindo ao
processo de conhecimento uma base sensualista, Nietzsche adverte que “não temos
absolutamente nenhuma categoria para podermos cindir um “mundo em si” de um
mundo como fenômeno”[1],
visto que “nossas categorias racionais são de proveniência sensualista:
deduzidas do mundo empírico”[2].
Se eu
sou o meu corpo, o corpo que eu sou é um centro de forças, de impulsos
contraditórios. Meu corpo, ou, o que dá no mesmo, o que sou, é uma grande luta
entre instintos que, tensionalmente, buscam se reconciliar de tempo em tempo,
sem que o conflito seja de todo extinto. Há coesão entre os instintos, mas ela
é sempre tensa, sempre instável. É certo que Nietzsche não deixou de reconhecer
que o erro faz parte da vida e que nossa consciência nos ilude e se ilude. O
homem cria e depois se esquece de que é o verdadeiro artista de suas criações.
O corpo, portanto, para Nietzsche, é um complexo de vontades de potência
organizadas hierarquicamente.” (RODRIGUES, 2023, p. 287).
A consciência,
ensina Nietzsche, é um desenvolvimento tardio e superficial da vida. Antecipando
o que seria o núcleo da teoria psicanalítica, ele ensina que a maior parte da
atividade psíquica ocorre abaixo do limiar da consciência. Contra a ilusão dos
lógicos, ele sentencia “(...) um pensamento vem quando “ele” quer e não quando “eu”
quero” (BM, § 17). Anticartesiano, ele acrescenta “de modo que é um falseamento
da realidade efetiva dizer: o sujeito “eu” é a condição do predicado “penso”".
E a
incompreensibilidade entre ele e ela é o sintoma de um abismo corporal, de dois
corpos, de dois arranjos fisiológico-afetivo-instintuais que integram a si e em
si perspectivas distintas do mundo, por vezes, antagônicas. Por isso, a
convivência, embora possível entre eles, precisa estender-se sobre a superfície
das trivialidades dialógicas e experienciais cotidianas.
Mas ambos talvez
sofram da ilusão da transparência ontológica do “eu”. Pois na relação com o
outro, há sempre um jogo, uma negociação discursiva de imagens recíprocas de si,
animado por um anseio de um resultado conciliatório, jamais plenamente alcançado: um querer
fazer coincidir com a imagem que um faz do outro a imagem que cada um faz de si
mesmo. “Quero que me veja como eu sou”, “Quero que saiba quem eu sou!”. Jamais!
Isso seria terrível! “Pois nem eu nem você "somos" antes do encontro com os outros
e com o Outro (para falar lacanianamente!).
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