Lições básicas
que todos os brasileiros deveriam saber
No décimo e último capítulo de O Brasil
no espelho (2025), Nunes chega a uma conclusão desalentadora: “(...) os
brasileiros estão mal informados, não sabem o que está acontecendo no Brasil”.
(ibid., p. 194). Buscando aferir o conhecimento dos brasileiros no tocante a
fatos noticiados pela imprensa brasileira - fatos atinentes à realidade
sociopolítica e econômica do país-, Nunes submete os brasileiros a uma espécie
de Enem de notícias, “uma prova de conhecimento com quatro questões sobre a
atualidade, no caso, dezembro de 2023”. (ibid., p. 192) Segundo o autor, as
quatro questões de múltipla escolha não pressupunham formação acadêmica ou
conhecimento técnico daqueles que concordassem em participar da pesquisa. Era
bastante que os entrevistados estivessem bem informados sobre os acontecimentos
atuais da realidade sociopolítica e econômica do Brasil.
Terminado
o teste, constatou-se que a maioria dos brasileiros foi reprovada. Depois de
questionados sobre o que achavam do seu desempenho, os brasileiros, em sua
maioria, disseram que foram bem no teste, “embora tenham acertado quase nada,
eles acham que tinham acertado bastante”. (ibid., p. 196). A grande maioria
superestima seu número de acertos, comenta Nunes.
Considerem-se,
agora, as evidências relevantes que o Enem de notícia nos tornou disponíveis:
1) Pessoas com ensino superior, homens brancos,
pretos e pardos, atingiram um nível maior de acertos nas questões;
2) Se as mulheres, independentemente da cor e
grau de escolaridade, erraram mais, é porque elas, mais frequentemente,
confessam não saber. Em comparação, os homens não gostam de admitir que não
sabem, preferindo “chutar” as respostas e fingir que sabem. O acaso pode
favorecê-los, às vezes, fazendo parecer que acertaram porque sabiam a resposta.
3) Brasileiros com nível superior acertaram mais
do que aqueles que não o possuem;
4) Os que mais concordavam com a frase “a fé
vale mais do que a ciência” tendem a errar mais respostas do que aqueles que
discordam totalmente dessa afirmação;
5) As pessoas que se declaram de esquerda
acertaram mais do que as que se declaram de centro ou de direita. Os de
esquerda atingiram quatro pontos (em cem) a mais, no Enem de notícias, do que
aqueles que se declaram de direita ou de centro;
6) A grande maioria, no entanto, superestima seu
número de acertos. Dos 42% dos brasileiros que não acertaram nenhuma questão,
apenas 6% acharam que não acertaram nenhuma.
A maioria dos brasileiros, portanto, é composta por “idiotas
confiantes”. Ciente do fato de que nós somos motores de crenças falsas, sabedor
de que os animais humanos sofrem da “ilusão do conhecimento”, hesito,
tensionado entre perplexidade e desespero, em assumir qualquer uma destas duas
atitudes quando em presença de um ser humano: ser compreensivo com ele,
reconhecendo que ele não é culpado por sua condição costumeira de autoengano,
ou repudiá-lo por acomodar-se nessa condição sem nada fazer para libertar-se
dela.
Preciso esclarecer o que é a “ilusão
do conhecimento”. Trata-se da designação popularizada do fenômeno
psicológico chamado de “efeito Dunning-Kruger”.
Consiste esse fenômeno na dissociação entre o estado de ignorância e
o reconhecimento da própria ignorância. Os psicólogos David Dunning e
Justin Kruger descreveram, portanto, um fenômeno interessante no comportamento
das pessoas: a tendência que têm as pessoas menos competentes ou instruídas
a superestimar suas habilidades. Por outro lado, as mais competentes
ou mais instruídas tendem a subestimar as suas. Dunning e Kruger explicam que
as pessoas menos instruídas ou menos competentes não têm consciência de suas
limitações, ao passo que as mais instruídas ou competentes “são mais
conscientes das complexidades envolvidas em uma esfera específica” (ibid.,
p. 198). Dunning conclui que não somos muito bons em saber que não sabemos.
É verdade que ninguém é imune à ilusão do conhecimento. O mundo em
que vivemos é demasiado complexo, e o conjunto de conhecimentos construídos e
acumulados, em diversas áreas, pela humanidade é gigantesco, de modo que todos
somos ignorantes em certa medida. Não há problema algum nisso. Essa condição só
se torna grave quando não somos capazes de reconhecê-la. Em outras palavras, o
que é preocupante é que o não reconhecimento de nossa ignorância pode acarretar
consequências socialmente danosas. Por exemplo, quando milhões de pessoas no
mundo se recusam a se vacinar por acreditarem que a vacina pode levá-las à
morte ou que pode causar-lhes graves problemas de saúde, ou quando recusam
vacinas por acreditarem que há medicamentos que podem curá-las, ainda que sua
eficácia não tenha qualquer comprovação científica. O caso emblemático dessa
ignorância foi o uso de cloroquina, estimulado pelo então Presidente da
República Jair Bolsonaro, durante a pandemia da Covid-19, como forma de
tratamento supostamente “eficaz”, apesar dos inúmeros alertas da comunidade
científica não apenas sobre sua ineficácia, mas também sobre os malefícios
potenciais advindos de seu uso indiscriminado. Como bem lembra Nunes, “é
incontável o número de pessoas que morreram por ignorar a amplitude de sua
própria ignorância, por acreditar numa capacidade de discernimento que julgavam
ter, mas não tinham”. (ibid., p. 198).
O que nos revela tanto a pesquisa de Dunning-Kruger quanto a de Nunes
é que pessoas com pouca competência e baixo desempenho não conseguem perceber
os erros, os equívocos em seu raciocínio e não sabem nada acerca de alguns
temas, embora pareçam confiantes em que sabem. Outro achado da pesquisa de
Nunes é que os entrevistados tendem a acreditar em informações falsas, se elas
reforçam suas posições políticas. Isso vale tanto para os partidários da
direita, da extrema-direita, do centro e da esquerda. Nossas crenças ideológicas
nos levam, com muita facilidade, a formar convicções sobre temas dos quais não
temos qualquer conhecimento. Segundo Nunes, é justamente a maioria que
ignora o que acontece no Brasil que superestima seu conhecimento.
1.
As bolhas digitais: as câmeras de
eco da intolerância
Consoante observa Nunes (ibid., p. 203):
O problema do mundo na terceira década do
século XXI não é a escassez de informação, mas, sim, seu excesso. O desafio é
encontrar formas de discernir informação de desinformação, de qualificar a
informação e de filtrar a quantidade dela.
Os meios
digitais, especialmente as redes sociais, levaram à explosão de oferta de
fontes de informação e entretenimento. O mercado informacional disputa hoje o
tempo e a atenção dos consumidores das redes digitais. A fragmentação e o modo
de funcionamento das redes sociais fazem proliferar, mais facilmente, a
desinformação do que a informação profissional e de qualidade, ao mesmo tempo
que favorecem a dispersão de entretenimento. Segundo Nunes, “o entretenimento e
a desinformação levam vantagem sobre notícias por serem mais atrativos e fácies
de consumir”. (ibid.).
As
chamadas bolhas digitais, formadas pela dinâmica dos algoritmos das
plataformas das redes sociais, reúnem pessoas que pensam igual, que “curtem” os
mesmos conteúdos e que rejeitam os que pensam diferente. As pessoas recebem,
predominantemente, conteúdos compatíveis com suas preferências. Como diz Nunes,
“cria-se, assim, um público dividido, mal informado e que tem pouco contato com
opiniões diferentes da sua”. (ibid., p. 204). O convívio predominante com
pessoas que pensam igual a nós valida nossas próprias opiniões e acentua em nós
a tendência de sermos intolerantes com quem diverge de nossas ideias. O autor
observa também que parte significativa da população brasileira processa e
reproduz informações falsas em vez de informações objetivas e verdadeiras sobre
a realidade do Brasil. Num estudo recente intitulado What Makes News
Sharable on Social Media (O que torna as notícias compartilháveis nas
redes sociais), mostrou-se que as pessoas costumam clicar e acompanhar, nas
redes sociais, conteúdos que têm forte apelo emocional, e as notícias falsas
preenchem esse requisito com mais frequência do que as notícias verdadeiras.
(cf. Nunes, 2025)
Uma mente
ignorante não é uma “tábula rasa” ou um recipiente vazio, mas um processo
repleto de desordem de experiências de vida irrelevantes ou enganosas. A mente
ignorante abriga, segundo Dunning, teorias, intuições, estratégias, algoritmos,
heurísticas, metáforas e palpites que apenas aparentam ser conhecimento útil e
adequado.
Enquanto
os finlandeses lideram o ranking mundial dos países cuja população é mais
competente na identificação de conteúdos falsos na internet, os brasileiros
ocupam o penúltimo lugar entre 21 países. (cf. Nunes, 2025). Nunes aposta na
mobilização de estratégias que incentivem e facilitem o acesso das pessoas à
informação profissional. Mas a capacidade de discernimento entre fake News
e informações verdadeiras dificilmente se desenvolverá sem uma educação de
qualidade, que desenvolva, nos estudantes, a consciência crítica.
O índice
de ilusão do conhecimento é menor em pessoas mais bem informadas, pessoas que
leem notícias em plataformas jornalísticas ou acompanham telejornais
diariamente. Por outro lado, o índice de ilusão do conhecimento é maior em
pessoas que não consomem notícias, nem mesmo as que circulam nas redes sociais.
Quando
atentamos para o que nos revelam os dados do IBGE, do Censo Escolar
e do Todos pela Educação, referentes à escolarização dos brasileiros,
tornamo-nos conscientes da profundidade do desafio a ser enfrentado. O que se
seguem são informações baseadas em pesquisas empreendidas por essas
instituições mencionadas, ao longo do ano de 2024. Os dados auferidos foram
publicados entre 2024 e o início de 2026.
As
pesquisas do IBGE, do Censo Escolar e do Todos pela Educação revelam que o
nível de escolarização dos brasileiros está avançando, quando consideramos o
tempo de permanência dos estudantes na escola e a conclusão das séries.
Todavia, ainda há problemas graves na aprendizagem real, e a evasão no Ensino
Médio continua sendo um problema a ser enfrentado. Mas, segundo informação do
Portal do G1, o abandono escolar no 1º ano do Ensino Médio teve queda de 40% de
2024 a 2025, um avanço consequente, possivelmente, da implementação do programa
Pé-de-Meia do Governo Federal (embora ainda não se disponham de estudos que
avaliem o impacto desse programa na redução da evasão escolar); mas, sobretudo,
do crescimento da oferta do ensino integral e da relevância dos conteúdos
ensinados para o mercado de trabalho. No tangente ao programa Pé-de-Meia, ele
funciona da seguinte maneira:
Quando um estudante beneficiado confirma a matrícula em
janeiro/fevereiro, ganha R$ 200. Caso mantenha um índice mínimo de 80% de
presença nas aulas, embolsa mais R$ 1.800 por ano. E, a cada série em que é
aprovado na escola, recebe um depósito de R$ 1.000 na poupança o saque só pode
ocorrer no fim do ensino médio.
O abandono
do Ensino Médio chega a 20% entre estudantes com idade a partir de 16 anos.
Essa evasão é, principalmente, motivada pela necessidade de trabalhar, gravidez
precoce e desinteresse pelos estudos. Não obstante, a média dos anos de estudo
dos brasileiros atingiu 10,1 anos, quando consideramos pessoas acima dos 25
anos. O total de pessoas com escolaridade superior subiu para 20,5%; no
entanto, o Brasil ainda convive com um número maior de adultos sem o Ensino
Fundamental! O analfabetismo, no atual governo Lula, registrou uma queda
histórica: menos de 5% da população continua analfabeta. A faixa da população
que concluiu o Ensino Médio atinge hoje os 56%.
Segundo
Nunes, pesquisas publicadas pela Folha de São Paulo e pelo
Todos pela Educação alertam sobre o fato de que, se os alunos
concluem mais etapas no processo de sua escolarização, não atingem, por isso,
um nível de proficiência adequado em matemática e em leitura. E não é escusável
enfatizar: sem o desenvolvimento da competência de leitura dos estudantes
brasileiros, continuaremos a manter as gerações atuais e futuras nesse ciclo de
produção de ignorantes confiantes, de brasileiros e brasileiras inaptos para
entender até mesmo o que lhes é perguntado. Como esperar que esses mesmos
brasileiros e brasileiras mal informados, porque também mal formados em escolas
públicas sucateadas, sejam capazes de participar ativa e criticamente da vida
política brasileira? Como esperar que sejam capazes de lutar pelos seus
direitos, de reconhecer sua subcidadania, de revoltar-se contra essa condição
de exclusão social e política, de exigir maior participação política, se lhes
privamos das habilidades socio-cognitiva-interacionais requeridas pela prática
de leitura?
2.
Lições básicas para brasileiros
sabe-tudo
1ª Lição: Segundo Piketty, o capitalismo,
mesmo quando funciona conforme suas regras e meios, é uma máquina de
produção crescente de desigualdades de renda e riqueza.
2ª Lição: O capitalismo é, estruturalmente, antitético à democracia. Em
primeiro lugar, porque nunca houve sociedades capitalistas em que a riqueza não
tivesse acesso privilegiado ao poder. Em segundo lugar, principalmente, porque
a condição insuperável da existência do capitalismo é que a mais básica das
condições de vida, as exigências mais básicas da reprodução social precisam
submeter-se aos imperativos da acumulação do capital e às “leis” do mercado.
3ª lição: Para Rancière, a democracia não é uma forma de governo em
que todo poder emana do povo, tampouco é a forma de sociedade regulada pelo
poder da mercadoria. A democracia é a ação que retira continuamente dos
governos oligárquicos o monopólio da vida pública e retira do poder econômico a
onipotência sobre a vida.
Para Ellen Wood (2011), a democracia não é um
conjunto de regras destinadas a assegurar a lisura da representação política.
4ª lição: O capitalismo produz desemprego como resultado rotineiro de seu
funcionamento normal. No mundo do trabalho do século XXI, 50% dos
trabalhadores não serão necessários, “não terão lugar neste novo e admirável
mundo do capital” (PAULA, 2021, p. 40). A nova tarefa da esquerda socialista
é lutar pela humanidade.
5ª lição: A existência de pessoas e famílias ricas não se deve as suas
capacidades laboriosas, inovadoras e excepcionais, mas simplesmente ao fato de
serem filhos de ricos, netos de ricos ou de terem auferido rendas crescentes na
forma de heranças, de lucros, juros e aluguéis, que crescem, sistematicamente,
acima dos rendimentos do trabalho e acima do crescimento da renda e da produção
nacionais.
Segue-se que, segundo Piketty, no
capitalismo, é inevitável que os patrimônios herdados sejam superiores aos
patrimônios constituídos no curso de uma vida de trabalho e que a concentração
de capital atinja níveis extremamente elevados e incompatíveis com os valores
meritocráticos e os princípios da justiça social, que são os fundamentos das
sociedades democráticas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário