sábado, 15 de agosto de 2026

"Não existe capitalismo governado pelo poder popular". (Ellen M. Wood)

 



Lições básicas

que todos os brasileiros deveriam saber

 

No décimo e último capítulo de O Brasil no espelho (2025), Nunes chega a uma conclusão desalentadora: “(...) os brasileiros estão mal informados, não sabem o que está acontecendo no Brasil”. (ibid., p. 194). Buscando aferir o conhecimento dos brasileiros no tocante a fatos noticiados pela imprensa brasileira - fatos atinentes à realidade sociopolítica e econômica do país-, Nunes submete os brasileiros a uma espécie de Enem de notícias, “uma prova de conhecimento com quatro questões sobre a atualidade, no caso, dezembro de 2023”. (ibid., p. 192) Segundo o autor, as quatro questões de múltipla escolha não pressupunham formação acadêmica ou conhecimento técnico daqueles que concordassem em participar da pesquisa. Era bastante que os entrevistados estivessem bem informados sobre os acontecimentos atuais da realidade sociopolítica e econômica do Brasil.

Terminado o teste, constatou-se que a maioria dos brasileiros foi reprovada. Depois de questionados sobre o que achavam do seu desempenho, os brasileiros, em sua maioria, disseram que foram bem no teste, “embora tenham acertado quase nada, eles acham que tinham acertado bastante”. (ibid., p. 196). A grande maioria superestima seu número de acertos, comenta Nunes.

Considerem-se, agora, as evidências relevantes que o Enem de notícia nos tornou disponíveis:

 

1)    Pessoas com ensino superior, homens brancos, pretos e pardos, atingiram um nível maior de acertos nas questões;

2)   Se as mulheres, independentemente da cor e grau de escolaridade, erraram mais, é porque elas, mais frequentemente, confessam não saber. Em comparação, os homens não gostam de admitir que não sabem, preferindo “chutar” as respostas e fingir que sabem. O acaso pode favorecê-los, às vezes, fazendo parecer que acertaram porque sabiam a resposta.

3)   Brasileiros com nível superior acertaram mais do que aqueles que não o possuem;

4)   Os que mais concordavam com a frase “a fé vale mais do que a ciência” tendem a errar mais respostas do que aqueles que discordam totalmente dessa afirmação;

5)   As pessoas que se declaram de esquerda acertaram mais do que as que se declaram de centro ou de direita. Os de esquerda atingiram quatro pontos (em cem) a mais, no Enem de notícias, do que aqueles que se declaram de direita ou de centro;

6)   A grande maioria, no entanto, superestima seu número de acertos. Dos 42% dos brasileiros que não acertaram nenhuma questão, apenas 6% acharam que não acertaram nenhuma.

 

A maioria dos brasileiros, portanto, é composta por “idiotas confiantes”. Ciente do fato de que nós somos motores de crenças falsas, sabedor de que os animais humanos sofrem da “ilusão do conhecimento”, hesito, tensionado entre perplexidade e desespero, em assumir qualquer uma destas duas atitudes quando em presença de um ser humano: ser compreensivo com ele, reconhecendo que ele não é culpado por sua condição costumeira de autoengano, ou repudiá-lo por acomodar-se nessa condição sem nada fazer para libertar-se dela.

Preciso esclarecer o que é  a “ilusão do conhecimento”. Trata-se da designação popularizada do fenômeno psicológico chamado de “efeito Dunning-Kruger”.  Consiste esse fenômeno na dissociação entre o estado de ignorância e o reconhecimento da própria ignorância. Os psicólogos David Dunning e Justin Kruger descreveram, portanto, um fenômeno interessante no comportamento das pessoas: a tendência que têm as pessoas menos competentes ou instruídas a superestimar suas habilidades. Por outro lado, as mais competentes ou mais instruídas tendem a subestimar as suas. Dunning e Kruger explicam que as pessoas menos instruídas ou menos competentes não têm consciência de suas limitações, ao passo que as mais instruídas ou competentes “são mais conscientes das complexidades envolvidas em uma esfera específica” (ibid., p. 198). Dunning conclui que não somos muito bons em saber que não sabemos.

É verdade que ninguém é imune à ilusão do conhecimento. O mundo em que vivemos é demasiado complexo, e o conjunto de conhecimentos construídos e acumulados, em diversas áreas, pela humanidade é gigantesco, de modo que todos somos ignorantes em certa medida. Não há problema algum nisso. Essa condição só se torna grave quando não somos capazes de reconhecê-la. Em outras palavras, o que é preocupante é que o não reconhecimento de nossa ignorância pode acarretar consequências socialmente danosas. Por exemplo, quando milhões de pessoas no mundo se recusam a se vacinar por acreditarem que a vacina pode levá-las à morte ou que pode causar-lhes graves problemas de saúde, ou quando recusam vacinas por acreditarem que há medicamentos que podem curá-las, ainda que sua eficácia não tenha qualquer comprovação científica. O caso emblemático dessa ignorância foi o uso de cloroquina, estimulado pelo então Presidente da República Jair Bolsonaro, durante a pandemia da Covid-19, como forma de tratamento supostamente “eficaz”, apesar dos inúmeros alertas da comunidade científica não apenas sobre sua ineficácia, mas também sobre os malefícios potenciais advindos de seu uso indiscriminado. Como bem lembra Nunes, “é incontável o número de pessoas que morreram por ignorar a amplitude de sua própria ignorância, por acreditar numa capacidade de discernimento que julgavam ter, mas não tinham”. (ibid., p. 198).

O que nos revela tanto a pesquisa de Dunning-Kruger quanto a de Nunes é que pessoas com pouca competência e baixo desempenho não conseguem perceber os erros, os equívocos em seu raciocínio e não sabem nada acerca de alguns temas, embora pareçam confiantes em que sabem. Outro achado da pesquisa de Nunes é que os entrevistados tendem a acreditar em informações falsas, se elas reforçam suas posições políticas. Isso vale tanto para os partidários da direita, da extrema-direita, do centro e da esquerda. Nossas crenças ideológicas nos levam, com muita facilidade, a formar convicções sobre temas dos quais não temos qualquer conhecimento. Segundo Nunes, é justamente a maioria que ignora o que acontece no Brasil que superestima seu conhecimento.

 

1.     As bolhas digitais: as câmeras de eco da intolerância

 

Consoante observa Nunes (ibid., p. 203):

O problema do mundo na terceira década do século XXI não é a escassez de informação, mas, sim, seu excesso. O desafio é encontrar formas de discernir informação de desinformação, de qualificar a informação e de filtrar a quantidade dela.

 

Os meios digitais, especialmente as redes sociais, levaram à explosão de oferta de fontes de informação e entretenimento. O mercado informacional disputa hoje o tempo e a atenção dos consumidores das redes digitais. A fragmentação e o modo de funcionamento das redes sociais fazem proliferar, mais facilmente, a desinformação do que a informação profissional e de qualidade, ao mesmo tempo que favorecem a dispersão de entretenimento. Segundo Nunes, “o entretenimento e a desinformação levam vantagem sobre notícias por serem mais atrativos e fácies de consumir”. (ibid.).

As chamadas bolhas digitais, formadas pela dinâmica dos algoritmos das plataformas das redes sociais, reúnem pessoas que pensam igual, que “curtem” os mesmos conteúdos e que rejeitam os que pensam diferente. As pessoas recebem, predominantemente, conteúdos compatíveis com suas preferências. Como diz Nunes, “cria-se, assim, um público dividido, mal informado e que tem pouco contato com opiniões diferentes da sua”. (ibid., p. 204). O convívio predominante com pessoas que pensam igual a nós valida nossas próprias opiniões e acentua em nós a tendência de sermos intolerantes com quem diverge de nossas ideias. O autor observa também que parte significativa da população brasileira processa e reproduz informações falsas em vez de informações objetivas e verdadeiras sobre a realidade do Brasil. Num estudo recente intitulado What Makes News Sharable on Social Media (O que torna as notícias compartilháveis nas redes sociais), mostrou-se que as pessoas costumam clicar e acompanhar, nas redes sociais, conteúdos que têm forte apelo emocional, e as notícias falsas preenchem esse requisito com mais frequência do que as notícias verdadeiras. (cf. Nunes, 2025)

Uma mente ignorante não é uma “tábula rasa” ou um recipiente vazio, mas um processo repleto de desordem de experiências de vida irrelevantes ou enganosas. A mente ignorante abriga, segundo Dunning, teorias, intuições, estratégias, algoritmos, heurísticas, metáforas e palpites que apenas aparentam ser conhecimento útil e adequado.

Enquanto os finlandeses lideram o ranking mundial dos países cuja população é mais competente na identificação de conteúdos falsos na internet, os brasileiros ocupam o penúltimo lugar entre 21 países. (cf. Nunes, 2025). Nunes aposta na mobilização de estratégias que incentivem e facilitem o acesso das pessoas à informação profissional. Mas a capacidade de discernimento entre fake News e informações verdadeiras dificilmente se desenvolverá sem uma educação de qualidade, que desenvolva, nos estudantes, a consciência crítica.

O índice de ilusão do conhecimento é menor em pessoas mais bem informadas, pessoas que leem notícias em plataformas jornalísticas ou acompanham telejornais diariamente. Por outro lado, o índice de ilusão do conhecimento é maior em pessoas que não consomem notícias, nem mesmo as que circulam nas redes sociais.

Quando atentamos para o que nos revelam os dados do IBGE, do Censo Escolar e do Todos pela Educação, referentes à escolarização dos brasileiros, tornamo-nos conscientes da profundidade do desafio a ser enfrentado. O que se seguem são informações baseadas em pesquisas empreendidas por essas instituições mencionadas, ao longo do ano de 2024. Os dados auferidos foram publicados entre 2024 e o início de 2026.

As pesquisas do IBGE, do Censo Escolar e do Todos pela Educação revelam que o nível de escolarização dos brasileiros está avançando, quando consideramos o tempo de permanência dos estudantes na escola e a conclusão das séries. Todavia, ainda há problemas graves na aprendizagem real, e a evasão no Ensino Médio continua sendo um problema a ser enfrentado. Mas, segundo informação do Portal do G1, o abandono escolar no 1º ano do Ensino Médio teve queda de 40% de 2024 a 2025, um avanço consequente, possivelmente, da implementação do programa Pé-de-Meia do Governo Federal (embora ainda não se disponham de estudos que avaliem o impacto desse programa na redução da evasão escolar); mas, sobretudo, do crescimento da oferta do ensino integral e da relevância dos conteúdos ensinados para o mercado de trabalho. No tangente ao programa Pé-de-Meia, ele funciona da seguinte maneira:

 

Quando um estudante beneficiado confirma a matrícula em janeiro/fevereiro, ganha R$ 200. Caso mantenha um índice mínimo de 80% de presença nas aulas, embolsa mais R$ 1.800 por ano. E, a cada série em que é aprovado na escola, recebe um depósito de R$ 1.000 na poupança o saque só pode ocorrer no fim do ensino médio.

(https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/06/26/abandono-escolar-no-1o-ano-do-ensino-medio-cai-40percent-de-2024-a-2025-diz-censo.ghtml)

 

O abandono do Ensino Médio chega a 20% entre estudantes com idade a partir de 16 anos. Essa evasão é, principalmente, motivada pela necessidade de trabalhar, gravidez precoce e desinteresse pelos estudos. Não obstante, a média dos anos de estudo dos brasileiros atingiu 10,1 anos, quando consideramos pessoas acima dos 25 anos. O total de pessoas com escolaridade superior subiu para 20,5%; no entanto, o Brasil ainda convive com um número maior de adultos sem o Ensino Fundamental! O analfabetismo, no atual governo Lula, registrou uma queda histórica: menos de 5% da população continua analfabeta. A faixa da população que concluiu o Ensino Médio atinge hoje os 56%.

Segundo Nunes, pesquisas publicadas pela Folha de São Paulo e pelo Todos pela Educação alertam sobre o fato de que, se os alunos concluem mais etapas no processo de sua escolarização, não atingem, por isso, um nível de proficiência adequado em matemática e em leitura. E não é escusável enfatizar: sem o desenvolvimento da competência de leitura dos estudantes brasileiros, continuaremos a manter as gerações atuais e futuras nesse ciclo de produção de ignorantes confiantes, de brasileiros e brasileiras inaptos para entender até mesmo o que lhes é perguntado. Como esperar que esses mesmos brasileiros e brasileiras mal informados, porque também mal formados em escolas públicas sucateadas, sejam capazes de participar ativa e criticamente da vida política brasileira? Como esperar que sejam capazes de lutar pelos seus direitos, de reconhecer sua subcidadania, de revoltar-se contra essa condição de exclusão social e política, de exigir maior participação política, se lhes privamos das habilidades socio-cognitiva-interacionais requeridas pela prática de leitura?

 

2.     Lições básicas para brasileiros sabe-tudo

 

1ª Lição:  Segundo Piketty, o capitalismo, mesmo quando funciona conforme suas regras e meios, é uma máquina de produção crescente de desigualdades de renda e riqueza.

2ª Lição: O capitalismo é, estruturalmente, antitético à democracia. Em primeiro lugar, porque nunca houve sociedades capitalistas em que a riqueza não tivesse acesso privilegiado ao poder. Em segundo lugar, principalmente, porque a condição insuperável da existência do capitalismo é que a mais básica das condições de vida, as exigências mais básicas da reprodução social precisam submeter-se aos imperativos da acumulação do capital e às “leis” do mercado.

3ª lição: Para Rancière, a democracia não é uma forma de governo em que todo poder emana do povo, tampouco é a forma de sociedade regulada pelo poder da mercadoria. A democracia é a ação que retira continuamente dos governos oligárquicos o monopólio da vida pública e retira do poder econômico a onipotência sobre a vida.

Para Ellen Wood (2011), a democracia não é um conjunto de regras destinadas a assegurar a lisura da representação política.

4ª lição: O capitalismo produz desemprego como resultado rotineiro de seu funcionamento normal. No mundo do trabalho do século XXI, 50% dos trabalhadores não serão necessários, “não terão lugar neste novo e admirável mundo do capital” (PAULA, 2021, p. 40). A nova tarefa da esquerda socialista é lutar pela humanidade.

5ª lição: A existência de pessoas e famílias ricas não se deve as suas capacidades laboriosas, inovadoras e excepcionais, mas simplesmente ao fato de serem filhos de ricos, netos de ricos ou de terem auferido rendas crescentes na forma de heranças, de lucros, juros e aluguéis, que crescem, sistematicamente, acima dos rendimentos do trabalho e acima do crescimento da renda e da produção nacionais.

Segue-se que, segundo Piketty, no capitalismo, é inevitável que os patrimônios herdados sejam superiores aos patrimônios constituídos no curso de uma vida de trabalho e que a concentração de capital atinja níveis extremamente elevados e incompatíveis com os valores meritocráticos e os princípios da justiça social, que são os fundamentos das sociedades democráticas.


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