domingo, 21 de junho de 2026

"Todo mundo vai para o túmulo sem sentido algum". (Woody Allen).

 




1.      As questões graves da existência, as que tocam ao terror da morte, ao sentido da vida, reclamam, para que não sejam superficializadas, esvaziadas de sua significação profunda, a linguagem poética, a língua dos poetas. Pois somente ela é adequada para externar o drama muito pessoal do investigador que se ocupe delas. Há poucos dias, acalentou-me a ideia de escrever sob a forma de diário. Mas não de um diário que contivesse registros de minhas vivências banais na cotidianidade mediana. Meu diário seria um diário de leituras, de sentimentos, inquietações, interrogações provocadas pelas leituras que faço; um diário que registrasse também os saberes que os livros me oferecem, os temas que me obsedam.

 

2.      Todo meu viver rodopia em torno desta questão intransigente, férrea: em face da certeza de minha morte, que importância tem fazer o que quer que seja?

 

 

3.      Honestamente, lamento quase sempre fracassar, ao convidar os outros a participar de meu banquete do desespero. Queria que os outros com quem convivo ou com quem tenho trocas verbais esporádicas se tornassem participantes desta ceia perturbadora. Pudessem eles comungar comigo do terror do mundo e da angústia perante a finitude!

 

4.      Neste exato momento, muitas mortes acontecem dentro de mim; sou um cemitério celular ambulante! Explico-me ao leitor incauto: as células que compõem um organismo humano, uma vez sujeitas a um processo inelutável de degradação, se autodestroem para serem substituídas por outras novas. Mas chega um momento da vida desse organismo que a revitalização das células com o auxílio da morte cessa. A morte sempre vence, no final!

 

5.      Como disse Georg Carpart Focke, numa entrevista com Cioran, “a decomposição é o nosso destino”. Tudo, inevitavelmente, caminha para o fim.

 

“(...) não um fim apocalíptico (...), mas muito certamente por meio de um processo anárquico de produção e reprodução, por meio do desgaste do espírito e da perda do sentido”. (Focke).

 

 

Estas anotações seguintes se encontram no livro Por que o mundo existe? (2013), de Jim Holt.

 

A realidade, ensina Schopenhauer, é um teatro de sofrimento avassalador; e a não existência é melhor que a existência. Em entrevista de 2010, concedida a um padre católico, Woody Allen dala da “opressiva desolação do universo”. (confesso que me agradaria conversar Woddy Allen; nossa ressonância espiritual me gratifica!).

 

“É uma experiência brutal e sem sentido - uma experiência angustiante e sem sentido com alguns oásis, prazeres e algum encanto e alguma paz, mas que não passam de pequenos oásis”. (Woody Allen).

 

Nela não há justiça - observa Holt - como tampouco qualquer racionalidade. Cada um faz o que pode para aliviar “a agonia da condição humana”. Alguns a distorcem por meio da religião, outros correm atrás do dinheiro ou amor. Allen escolheu fazer filmes e se lamentar.

 

Diz Woody Allen:

 

“Eu, de fato, sinto um certo alívio me lamentando”.

 

Mas, no fim das contas:

 

“Todo mundo vai para o túmulo sem sentido algum”.

 

Como suportar esse horror? Reprimindo-o.

 

O mundo é, fundamentalmente, demoníaco. (Becker).

 

Na luta contínua e incansável de meu espírito e de meu corpo contra os humores debilitantes, contra a ansiedade costumeira, contra as agitações orgânicas que tornam a minha existência um fardo tormentoso, há momentos de uma efêmera alegria que me insufla a alma de uma vaidade nietzschiana. Tímida e demasiado recatada: por que sou tão sábio.

 

Desagrada-me saber que as pessoas, em geral, não compreendem o pessimismo filosófico. Os otimistas são tolos, pueris; não chegaram a ser possuídos pela Lucidez demoníaca.

O homem saudável não tem aspirações ao saber, mas permanece, confortavelmente, aninhado na ignorância de ser. O homem saudável busca apenas conforto e segurança existencial. Para Cioran, a Lucidez é uma forma de mística sem absoluto. Nesse sentido, “a lucidez opera uma erosão profunda da consciência, pulverizando tudo o que figura, para ela, como uma saída, uma escapatória, uma possibilidade, minando assim tanto as razões de viver quanto as de morrer [...]”[1] (“a lucidez não extirpa o desejo de viver, longe disso; limita-se a tornar a vida imprópria”).

 

 




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