1.
As questões graves da
existência, as que tocam ao terror da morte, ao sentido da vida, reclamam, para
que não sejam superficializadas, esvaziadas de sua significação profunda, a
linguagem poética, a língua dos poetas. Pois somente ela é adequada para
externar o drama muito pessoal do investigador que se ocupe delas. Há poucos
dias, acalentou-me a ideia de escrever sob a forma de diário. Mas não de um
diário que contivesse registros de minhas vivências banais na cotidianidade
mediana. Meu diário seria um diário de leituras, de sentimentos, inquietações,
interrogações provocadas pelas leituras que faço; um diário que registrasse
também os saberes que os livros me oferecem, os temas que me obsedam.
2.
Todo meu viver rodopia em
torno desta questão intransigente, férrea: em face da certeza de minha
morte, que importância tem fazer o que quer que seja?
3.
Honestamente, lamento quase
sempre fracassar, ao convidar os outros a participar de meu banquete do
desespero. Queria que os outros com quem convivo ou com quem tenho trocas
verbais esporádicas se tornassem participantes desta ceia perturbadora. Pudessem
eles comungar comigo do terror do mundo e da angústia perante a finitude!
4.
Neste exato momento, muitas
mortes acontecem dentro de mim; sou um cemitério celular ambulante! Explico-me
ao leitor incauto: as células que compõem um organismo humano, uma vez sujeitas
a um processo inelutável de degradação, se autodestroem para serem substituídas
por outras novas. Mas chega um momento da vida desse organismo que a
revitalização das células com o auxílio da morte cessa. A morte sempre vence,
no final!
5.
Como disse Georg Carpart Focke,
numa entrevista com Cioran, “a decomposição é o nosso destino”. Tudo,
inevitavelmente, caminha para o fim.
“(...) não um fim apocalíptico
(...), mas muito certamente por meio de um processo anárquico de produção e
reprodução, por meio do desgaste do espírito e da perda do sentido”. (Focke).
Estas anotações seguintes
se encontram no livro Por que o mundo existe? (2013), de Jim Holt.
A realidade, ensina Schopenhauer,
é um teatro de sofrimento avassalador; e a não existência é melhor que a
existência. Em entrevista de 2010, concedida a um padre católico, Woody Allen
dala da “opressiva desolação do universo”. (confesso que me agradaria conversar
Woddy Allen; nossa ressonância espiritual me gratifica!).
“É uma
experiência brutal e sem sentido - uma experiência angustiante e sem sentido
com alguns oásis, prazeres e algum encanto e alguma paz, mas que não passam de
pequenos oásis”. (Woody Allen).
Nela não há justiça - observa
Holt - como tampouco qualquer racionalidade. Cada um faz o que pode para aliviar
“a agonia da condição humana”. Alguns a distorcem por meio da religião, outros
correm atrás do dinheiro ou amor. Allen escolheu fazer filmes e se lamentar.
Diz Woody Allen:
“Eu, de fato,
sinto um certo alívio me lamentando”.
Mas, no fim das contas:
“Todo mundo
vai para o túmulo sem sentido algum”.
Como suportar esse horror?
Reprimindo-o.
O mundo é, fundamentalmente,
demoníaco. (Becker).
Na luta contínua e
incansável de meu espírito e de meu corpo contra os humores debilitantes,
contra a ansiedade costumeira, contra as agitações orgânicas que tornam a minha
existência um fardo tormentoso, há momentos de uma efêmera alegria que me
insufla a alma de uma vaidade nietzschiana. Tímida e demasiado recatada: por
que sou tão sábio.
Desagrada-me saber que as
pessoas, em geral, não compreendem o pessimismo filosófico. Os otimistas
são tolos, pueris; não chegaram a ser possuídos pela Lucidez demoníaca.
O
homem saudável não tem aspirações ao saber, mas permanece, confortavelmente,
aninhado na ignorância de ser. O homem saudável busca apenas conforto e
segurança existencial. Para Cioran, a Lucidez é uma forma de mística sem
absoluto. Nesse sentido, “a lucidez opera uma erosão profunda da consciência,
pulverizando tudo o que figura, para ela, como uma saída, uma escapatória, uma
possibilidade, minando assim tanto as razões de viver quanto as de morrer
[...]”[1] (“a
lucidez não extirpa o desejo de viver, longe disso; limita-se a tornar a vida
imprópria”).
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