SAPERE
AUDE
FILOSOFIA MEDIEVAL E A ORIGINALIDADE DO CRISTIANISMO
São Paulo opôs à
sabedoria dos filósofos a sabedoria divina. Assinalou a incomensurabilidade
entre elas. Acusou a filosofia de não ter reconhecido Deus na sabedoria de
Deus. A loucura de Deus é mais sábia que a pretensa sabedoria do homem. Assim,
Paulo faz coro com aqueles que, na tradição do que se convencionou chamar de
“filosofia cristã”, julgavam o cristianismo superior à filosofia pagã. Por
outro lado, Santo Agostinho pôs a serviço do cristianismo a riqueza da cultura
pagã. Disse não haver razão para que as verdades filosóficas sejam temidas.
Conviria tomá-las aos seus falsos possuidores. Agostinho admitia a
possibilidade de conciliar a razão com a fé: a razão pede-nos que busquemos,
primeiramente, entender algo, avaliar se é ou não absurdo, para, em seguida,
dar ou não nosso assentimento (entenda para crer); por outro lado, a fé
estabelece a crença como condição de possiblidade para o entendimento.
Primeiramente, devemos crer na Palavra de Deus para então compreendê-la. Assim,
Agostinho alinha-se com aqueles autores cristãos para quem é possível articular
a filosofia pagã com as verdades da fé. Mas esse esforço de unir razão
filosófica a fé cristã nunca se realizou, na tradição do pensamento cristão,
sem algum prejuízo para a primeira. A atitude filosófica é incompatível com a
demanda da fé. Esse é um tema que será objeto de discussão no próximo texto. Neste
texto, pretendo introduzir o leitor no universo das preocupações da Filosofia
Medieval e examinar a originalidade do Cristianismo.
Posto que seja
ateu, sinto-me, quase sempre, constrangido a justificar meu interesse pelos
estudos da religião. Ocorre que a adoção do ateísmo não me foi custosa,
tampouco foi uma consequência do desalento com os ensinamentos da Igreja. Meu
ateísmo nasce e amadurece em consequência do avanço de meus estudos das
religiões, particularmente da Bíblia e da história dos cristianismos
primitivos. Não foi através da leitura de Schopenhauer ou do Anticristo
de Nietzsche, que li quando ainda era católico (há vinte cinco anos, quiçá!),
que me tornei ateu. A frequentação de outros autores foi mais determinante de
minha renúncia à fé religiosa, entre os quais se enfileiram Ludwig Feuerbach,
Bertrand Russel, Michel Onfray, Christopher Hitchens, e, em especial, Bart D.
Ehrman. Em suma, abandonei a fé porque aprendi mais sobre a Bíblia e sobre a
história do cristianismo. Foi uma experiência arrebatadora e fascinante o ter
descoberto verdades sobre as Escrituras que são ignoradas pelas massas de fiéis
aqui no Brasil e em várias partes do mundo.
Meu ingresso no
curso de Filosofia contribuiu para refinar meus saberes acerca da religião e do
cristianismo, em particular. A filosofia nasce em diálogo-confronto com a
religião, de sorte que a questão de Deus ou do divino é uma questão que se põe
aos filósofos desde a origem do pensamento ocidental na Grécia do século VI
a.C. Tornar-se filósofo não faz de alguém, necessariamente, um ateu ou uma
pessoa avessa às religiões. Parece-me, porém, que uma entrega intensa e total
às elucubrações filosóficas faz, no mínimo, estremecer as convicções
religiosas. A filosofia se caracteriza por assentar-se numa atitude crítica
radical, da qual carecem a teologia e as religiões. Para mim, a filosofia
consolidou meu ateísmo e refinou, ou melhor, afiou meu espírito crítico.
Apesar de ser um
ateu quem se dedicará ao exame da relação entre a razão e a fé na Filosofia
Medieval, não se pretende aqui fazer uma defesa do ateísmo ou um ataque aberto
e ferino à fé cristã. É claro, contudo, que meu intento é prosseguir no
caminho, já aberto nos textos anteriores, da defesa da razão ou da
racionalidade numa época em que ela parece recuar em face das investidas dos
discursos que propagam o negacionismo, o ódio ao conhecimento, as fantasias
conspiratórias, ao mesmo tempo que confundem o direito à opinião com o direito
à ignorância, à recusa ao esclarecimento.
No exame que
empreenderei (no próximo texto) da doutrina de autores como Tertuliano,
considerado um dos Pais da Igreja, Clemente de Alexandria (em relação a quem a
atribuição do título é mais controversa) e Orígenes (um autor cristão convicto
e mártir), estarei preocupado em dilucidar o conceito do Deus cristão e em
apontar algumas falhas, alguns erros e contradições que emergem quando da
análise mais atenta do discurso teológico desses autores. Embora seja um leitor dos teólogos e dos manuais de
teologia, minha abordagem da questão de Deus se inscreve na esteira dos estudos
em Filosofia da Religião. Por conseguinte, meu interesse pela religião é
diferente do interesse que por ela tem um devoto. Como filósofo, a religião,
para mim, é um objeto de investigação, de estudo, de análise crítica. É esse
seu estatuto na Filosofia da Religião: um objeto de estudo crítico.
Antes, pois, de
exibir meu repertório de conhecimentos teológicos, cuido imprescindível dizer
que entendo Deus como uma ficção imaginário-simbólica, ou ainda uma significação
imaginário-simbólica. Ficção deve ser entendido em seu sentido
etimológico, a saber, como ‘criação’, ‘fabricação’, ‘invenção’ ou ‘algo
inventado ou fabricado’. É nessa acepção que empreguei “ficção” em minha tese
de doutorado. Em princípio, urge dizer
que “Deus” é um signo, um objeto-de-discurso; nesse sentido, ele é um signo
linguístico como qualquer outro. Seu estatuto ontológico, no entanto,
assemelha-se mais (mas não é idêntico!) a noções como “liberdade”,
“existência”, “democracia” do que a conceitos que descrevem coisas como “sofá”,
“cachorro” e “cadeira”. É que a palavra “liberdade”, por exemplo, não tem um
referente fora do discurso, não é acessível à experiência sensível; não é
suscetível de representação pictórica (experimente desenhar a liberdade). Você
pode simbolizar a liberdade, desenhando, por exemplo, a Estátua da Liberdade,
asas de pássaros, correntes quebradas; mas símbolos são destituídos de natureza
linguística, de modo que é sempre suficiente e inadequado quanto à sua
significação. O significado de
que se constitui o símbolo nunca pode ser captado pelo pensamento diretamente e
não existe fora do processo simbólico. Por isso, a relação entre o significante
e o significado, no símbolo, é de epifania ou revelação. O símbolo evoca um
sentido secreto. O símbolo encerra em si o irrepresentável, o invisível e a
“epifania de um mistério”[1].
Assim, é possível que, ao desenharmos a Estátua da Liberdade, uma pessoa
imediatamente reconheça que a imagem pictórica representa o objeto que fica na
ilha de Manhattan, em Nova Iorque, e não que simboliza a liberdade, salvo se
tiver noções de simbologia. Sucede diferente com o signo linguístico “cachorro”,
que descreve uma classe de entes existentes fora da imaginação, do pensamento e
que podem ser representados sob a forma de desenho, cujo referente é
identificável de modo imediato e unívoco. Se eu desenhar um cachorro, você não
dirá que desenhei um carro, ainda que eu seja um desenhista pouco talentoso.
É claro que sugerir
ter Deus um estatuto puramente imaginário-simbólico, ou pensá-lo como “ente
imaginário”, uma ‘figura inventada’, é ofensivo para muitos fiéis. Sei que as
pessoas que acreditam na existência de Deus o representam como um ser
verdadeiramente existente, radicalmente distinto do homem, transcendente a este
e ao mundo, causa sui, causa do Universo, etc. Essa operação
linguístico-imaginária ou mental pela qual um conceito é projetado como coisa
concreta, independente e exterior à mente que o concebeu tem um nome na
filosofia: hipostasiação, e o produto dela é a hipóstase.
Sem pretender fazer
incursão nesse terreno herético, quero esclarecer o conceito de
“imaginário-simbólico”, para o que refiro um trecho de minha tese de doutorado.
Advirto que “Deus” não é o único produto do imaginário-simbólico. Tudo que é
experienciado pelo homem só o é porque se inscreve (se converte em objeto da
consciência, em conceito, em dado significativo) num imaginário-simbólico.
Segue-se o trecho:
Passemos, pois, a
considerar o que é o imaginário para alguns estudiosos do assunto, entre
os quais selecionamos aqueles que nos fornecem subsídios teóricos para pensar
como o homem se constitui como um animal simbólico, um ser vivo excêntrico,
descentrado, porquanto denominar o homem de animal simbólico significa admitir que ele é um animal
excêntrico, extravagante, pois que desnaturado, atravessado radicalmente pelo
desajuste em relação à ordem natural.
Em primeiro lugar,
Durand, nos adverte que, na extensão do conceito de “imaginário”, abrigam-se
muitas coisas:
Numerosos
autores notaram com razão a extrema confusão que reina na demasiada rica
terminologia do imaginário: signos, imagens, símbolos, alegorias, emblemas,
arquétipos, esquemas (schèmes), frames, ilustrações, representações
esquemáticas, diagramas e sinepsias são termos indiferentemente empregados
pelos analistas do imaginário. [2]
Atentos a esta mixórdia
de termos que entram a fazer parte da definição do imaginário, impomo-nos a
necessidade de precisar o que nós entendemos por “imaginário”. Além de Durand,
os autores evocados aqui nos ajudarão a compor nossa definição de imaginário.
Não vamos nos deter na discussão da teoria do imaginário proposta por Durand,
mas há alguns aspectos de seu estudo do imaginário que nos vêm a propósito. O
primeiro deles é que Durand considera o pensamento humano como, essencialmente,
imagético, no que Capra & Luisi[3] estão
de acordo e com ele os estudiosos da Linguística Cognitiva: pensamos através de
imagens, o sistema linguístico não pode funcionar sem imagens. Nosso discurso é
permeado de metáforas. O pensamento é enraizado no corpo, de sorte que as bases
de nosso sistema conceptual-cognitivo são a percepção, o movimento corporal e
as experiências de caráter físico e social. O pensamento humano é imaginativo
e, consequentemente, os conceitos que não são diretamente ancorados em nossa
experiência física se elaboram a partir de metáforas, metonímias e imagética
mental, fazendo-os ultrapassar o simples “espelhamento” da realidade. A razão
humana emerge a partir da natureza de nosso organismo e de fatores que
contribuem para a nossa experiência individual e social. Além dos fatores
endógenos, como a herança genética, há fatores externos como o ambiente em que
vivemos, o modo como interagimos com esse ambiente, a qualidade de nossas
interações sociais que contribuem para o surgimento e desenvolvimento da razão
humana.
Sendo discípulo de
Bachelard, Durand não pensa a imagem como cópia, reflexo do real. Para Durand,
o campo do imaginário é uma estrutura dinâmica. Durand concorda com Bachelard,
quando este entende que a imaginação é uma produção de imagens que criam a realidade.
A imagem – repitamos – não é cópia de objetos percebidos. A imaginação não é
cópia de uma realidade que ela se encarregaria de reorganizar. A imaginação é
criadora. Para Durand, o corpo inteiro participa na constituição da imagem. O
que chamamos, no senso comum, de “mundo real” é produto do imaginário, para
Bachelard. Avaliando a contribuição bachelardiana para o estudo do imaginário,
Scofano nos dá a saber o seguinte:
O homem demiurgo bachelardiano, por meio de sua
imaginação criadora, inventa o mundo à sua volta por intermédio do trabalho. O
que chamamos mundo real é, na verdade, algo imaginado; trata-se de uma
construção que tem origem em nossos sonhos, devaneios e demandas do desejo. Não
é algo que já estava dado e, pela razão, podemos entendê-lo como se fosse uma
verdade pronta. Bachelard ajudou categoricamente na desconstrução do arrogante
conceito de que nossa razão funcionava como um espelho da natureza. Deu-nos um
banho de humildade. O próprio homem bachelardiano é visto como demiurgo
exatamente por sua fragilidade ante as forças que o envolvem. Trata-se de um
homem frágil, débil, situado em um contexto histórico em que campeiam muitas
forças sobre as quais ele não tem nenhum controle, tudo é provisório e finito
e, por isso, o homem dá sentido à sua vida lançando mão da razão e da
imaginação. [...].[4]
Em virtude de sua
fragilidade e impotência em face das forças do devir, daquilo que, como vimos,
Rosset e Morin chamam de “crueldade do real”, o homem constrói as teias
simbólicas (que Geertz chamará de “cultura”), sejam elas religiosas,
metafísicas, científicas, artísticas ou filosóficas, para suportar a crueza do
real, os golpes duros do acaso e, sobretudo, para afastar de sua consciência o
caráter ineliminavelmente trágico de sua existência. Como acrescenta Scofano ,
“essas teias simbólicas e os produtos culturais inventados pelo homem e sua
imaginação acabam por modificá-lo e também, de certa forma, reinventá-lo” [5]. Para Durand, a imaginação não é caótica,
arbitrária e contingente. O que ele chama de “imaginação simbólica” é negação
vital, é negação do nada da morte e do tempo. A imaginação simbólica cumpre uma
função de eufemização, mediante a qual o homem busca melhorar sua condição
existencial no mundo. Mas a imaginação simbólica não é uma máscara sobreposta à
consciência face à crueldade do real, à aterradora figura da morte. Ela é
caracterizada por um dinamismo prospectivo que, ressignificando a morte como
repouso, como sono, a eufemiza e a suplanta. Todas as criações humanas são
tributárias do imaginário. O imaginário, para Durand, é o tesouro que
compreende tudo aquilo que foi pensado pelo homem.
(...) o
imaginário – ou seja, o conjunto de
imagens e relações de imagens que constitui o capital pensado do homo sapiens
– aparece-nos como o grande denominador
fundamental onde se vêm encontrar todas as criações do pensamento humano.[6]
Para Durand, o
imaginário está presente em toda e qualquer forma de atividade psíquica do
homem, seja ela de caráter prático, seja de caráter teórico. O mundo simbólico,
entendido como mundo dos signos e símbolos diversos, é um mundo arbitrário que
rege a vida humana. Durand advoga que o imaginário depende do real para
existir, mas o real só é possível, só pode se constituir como realidade
experienciável, por meio do imaginário. Sem o imaginário e o simbólico, não é
possível ao homem a experiência do real. Após observar que a vida mental da
criança só pode assumir a forma do “adultocentrismo” por meio do estreitamento
ou racalcamento do sentido das metáforas, Durand pondera que “é esse sentido
das metáforas, esse grande semantismo do imaginário, que é a matriz da qual todo o pensamento racionalizado e o seu cortejo
semiológico se desenvolve”[7]. O imaginário
constitui “a essência do espírito humano”, que se interpõe entre a assimilação
pura do reflexo e a adaptação da consciência à objetividade. Assim, o
imaginário se expressa como “esforço do ser para erguer uma esperança viva
diante e contra o mundo objetivo da morte” [8]. Comentando
a concepção durandiana de imaginário como “essência do espírito”, Pitta[9] nos faz ver o seu alcance como “ato de
criação”. Segundo essa especialista nos estudos do imaginário e da obra de
Gilbert Durand, “o ato de criação (tanto artístico, como o de tornar algo
significativo) é o impulso oriundo do ser (individual ou coletivo) completo (o
corpo, alma, sentimentos, sensibilidade, emoções...)” [10].
Em seguida, arremata a autora, o imaginário “é a raiz de tudo aquilo que, para o ser humano, existe”. [11] O que
nos interessa, na proposta teórica do imaginário em Durand, para efeito de
nossa concepção do niilismo como campo hermenêutico, como ambiência epistêmica,
como um fenômeno histórico e antropológico que visa à desmistificação do homem,
se elabora na afirmação de que, para criar sentido, para criar significados
para as suas experiências, o homem se serve ativamente da imaginação, o homem
põe em atividade a função da imaginação. A natureza ou o universo não dão
sentido a si mesmos. O universo, em si, não tem significado, é incapaz de dar a
si mesmo algum sentido. São os seres humanos que projetam seus significados no
universo, no mundo. Outrossim, Durand nos permite endossar a tese de que o
imaginário não constitui um domínio acessório, fantástico, excrescente do real,
mas a própria condição de possibilidade de experienciá-lo e de
torná-lo significativamente possível ao homem. Lembra Pitta que “depois do
esqueleto, muitas culturas modificam a pele através de cortes ou deformações:
esticando-se os lábios, o pescoço ou as orelhas, fazem-se perfurações,
tatuagens e escarificações”[12].
Através dos tempos, vivendo em comunidades culturais, os homens
modificaram seu corpo, mesmo superficialmente por meio do uso de roupas,
tratamento do cabelo e maquiagem. Pitta se pergunta sobre a razão por que o
homem modifica tanto o que foi feito pela natureza. Segundo a autora,
modificando seu corpo, “o homem está exercendo uma faculdade que lhe é própria,
que é a de dar sentido ao mundo, ao universo”[13].
Não devemos nos esquecer de que a linguagem envolve o ser humano muito antes de
este encontrar-se fisicamente no mundo. O bebê humano é envolvido pela
linguagem gestual, pelo ritmo e o som antes mesmo de nascer. Pitta observa
também que a razão, embora possibilite ao homem analisar e compreender suas
experiências de mundo, analisar e compreender os acontecimentos do mundo e as
relações entre eles, não é capaz de criar significado. O locus do sentido se
acha no imaginário. Para que a criação de significados seja possível, é
necessária a imaginação. Tanto no Ocidente quanto no Oriente, cientistas,
filósofos, estudiosos da religião, sociólogos, artistas, políticos, arquitetos,
físicos, matemáticos – e o homem comum em seu cotidiano – se servem da
imaginação para criar significados. Nas palavras de Pitta, “todas as culturas
criam filosofias, teorias, religiões, obras de arte... recriam a cada instante,
o universo” [14].
(...)
Por imaginário-simbólico,
portanto, entendemos a matriz de produção de todos os significados, imagens,
figuras, formas socialmente objetivadas e subjetivamente reais. O
imaginário-simbólico é um estruturante originário, condição sem a qual é
impossível a experiência humana do real.
O imaginário-simbólico é a raiz de toda a experiência humana de mundo.
Toda a experiência humana da realidade está mergulhada num
imaginário-simbólico, é por ele ordenada, articulada, entretecida e alimentada
significativamente. O imaginário-simbólico é o imaginário social. Nesse
conceito, subsumem-se os dois tipos de imaginário discriminados por
Castoriadis, a saber, o “imaginário efetivo” e o “imaginário radical”.
Deus, no entanto,
não é concebido pelos autores cristãos como uma figura, uma significação do
imaginário-simbólico judaico-cristão, evidentemente. Para eles e para a
teologia cristã, Deus é o ens necessarium, como afirmou São Tomás. Meu
exame do conceito de Deus, na tradição da filosofia-teologia cristã, será fiel
aos conceitos metafísicos e teológicos com os quais Deus é definido e pensado.
Não está em questão a existência de Deus, tampouco o estatuto ontológico de sua
existência. Lanço-me, doravante, à tarefa de apresentar o que foi a Filosofia
Medieval.
1. Quando a razão encontra a fé: a filosofia na era
medieval
A Filosofia
Medieval é o período histórico da filosofia ocidental que se estende, mais
ou menos, do final do helenismo, século IV-V até o Renascimento e o início do
pensamento moderno, no final do século XV e XVI. Por conseguinte, o início da
filosofia medieval no século V d.C coincide com a queda do Império Romano e se
estende até o início da Modernidade. Todavia, a maior parte da produção
filosófico-teológica da Idade Média, que conhecemos como “filosofia medieval”,
está compreendida entre os séculos XII e XIV. Sua característica principal é o
encontro da fé com a razão filosófica, mediante a apropriação e
reinterpretação, especialmente, das filosofias de Platão e Aristóteles. Vale ajuntar
que o Cristianismo, conquanto se tenha originado do Judaísmo, desenvolve-se no
contexto do helenismo. A cultura ocidental é resultado justamente da síntese
entre o judaísmo, o cristianismo e a cultura grega. O helenismo fornece o
imaginário-simbólico político e cultural em cujo seio se tornou possível a
aproximação entre a cultura judaica e a filosofia grega, encontro que, mais
tarde, oportunizaria o surgimento de uma filosofia cristã. Foi em Alexandria,
no século I. d.C., portanto, uma cidade cosmopolita, caracterizada pelo
convívio entre a cultura egípcia, a cultura grega, a cultura judaica e a
cultura romana, que as primeiras tentativas da referida síntese se verificaram.
Em Alexandria, o convívio entre essas diferentes culturas era mediado por uma
grande tolerância religiosa, sustentada num espírito de sincretismo
característico da cultura greco-romana. Lá se falavam várias línguas. É em
Alexandria também que foi feita a Septuaginta, tradução para o grego do Pentateuco
(os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica), por volta do século III d.C.
Segue-se a divisão
tradicional da Filosofia Medieval em três períodos ou estágios de seu
desenvolvimento:
1)
Patrística: compreende as reflexões teológicas dos Padres da
Igreja. Estende-se do século V d.C ao século VIII. Nesse período, busca-se
explicar o cristianismo por meio da filosofia grega, sobretudo pela apropriação
de Platão. O principal expoente desse período é Aurelius Augustinus, mais
conhecido como Santo Agostinho (354-430 d.C).
2)
Alta
Escolástica: seu início é no
século XI, e seu término é no século XIII. Esse período afigura-se como o auge
da especulação filosófico-teológica cristã. Graças ao trabalho dos estudiosos e
tradutores árabes, Aristóteles torna-se conhecido pelos teólogos cristãos, que
conheciam o latim. Nascem as universidades, e a Fé e a Razão são conciliadas. Destaca-se,
nesse período, São Tomás de Aquino, por cujas mãos Aristóteles é reconhecido
pela Igreja pelo aposto o Filósofo. Tomás de Aquino entendia que
Aristóteles era o melhor filósofo natural que já existiu e que ele só precisava
ser “batizado” pela Igreja. Com a apropriação e releitura de Aristóteles, São
Tomás procurou defender que a fé revelada e a razão não se contradizem.
3)
Baixa
Escolástica: é o período da
crise, da decadência da filosofia cristã Razão e Fé se separam. Desenvolve-se o
Nominalismo pela pena de Guilherme de Ockham. Fixam-se os limites da razão na
busca de compreender a natureza de Deus. Esse período se estende do século XIV ao
século XV.
Esclarecido, em
linhas gerais, o desenvolvimento da Filosofia Medieval, começo por considerar
questões que, embora secundárias em relação ao escopo de minhas análises, quando
esclarecidas, removem do percurso reflexivo algumas impertinências
referenciais. A primeira questão consiste em saber se podemos nos referir aos
autores cristãos do período da Filosofia Medieval como filósofos. Seriam eles
teólogos ou filósofos? A segunda questão é se podemos falar em uma “filosofia
cristã” numa tradição de pensamento centrada na preocupação da defesa de uma fé
que se pretende universal e na pregação de uma doutrina que alega
fundamentar-se numa Verdade revelada e transcendente.
Tome-se a primeira
questão. Para os autores medievais, os filósofos eram pagãos ou infiéis.
Aristóteles, chamado O Filósofo, nos meios universitários dos séculos XIII e
XIV, era pagão, ou seja, era uma pessoa que, vivendo antes de Cristo, não
conhecia a mensagem cristã. Outros filósofos muito respeitados como Avicena,
Averróis ou Maimônides eram infiéis, porque os dois primeiros, muçulmanos; e o
último, judeu. Àqueles a quem, modernamente, chamamos de “filósofos medievais”
se referem aos autores cristãos antigos como “os santos”, para distingui-los
dos filósofos. Os “santos” eram os que, hoje, chamamos de Padres da Igreja.
Cabe aqui um alvitre. Nem todas as obras produzidas durante o período da
Patrística têm como autores os chamados Padres da Igreja. Segundo Étienne
Gilson (2013), essa designação não é rigorosamente precisa. Padres da Igreja
seria, primeiramente, a designação aplicada a todos os escritores eclesiásticos
antigos, que morreram em nome da fé cristã e na comunhão da Igreja. Padres da
Igreja eram também, noutro sentido, aqueles autores que deviam exibir as quatro seguintes qualidades: ortodoxia
doutrinal, santidade de vida, aprovação da Igreja e relativa antiguidade (até
os fins do século III d.C, aproximadamente). Se um determinado autor carecia da
característica da “antiguidade”, mas foi eminentemente um representante da
doutrina da Igreja, a ele era conferido o título de Doutor da Igreja. O uso
consagrou, contudo, a atribuição do título “Padres da Igreja” aos mais antigos
entre os autores cristãos até Gregório Magno. A Idade Média, no entanto,
autorizava a atribuição de sancti a todos os autores. Falava-se de
Doutores da Igreja, sempre que se pretendia diferenciar os “santos” dos
filósofos. Em 1298, o Papa Bonifácio VIII conferiu o grau de Doutor da Igreja a
Ambrósio, Jerônimo e Gregório Magno. Tomás de Aquino só viria a receber esse
título três séculos depois (1567 ou 1568). Devemos, contudo, atinar em que “o
Doutor da Igreja não é infalível e que, onde erra, não fala como Doutor”
(ibid., p. XXI).
Num nível
hierárquico abaixo dos Doutores da Igreja, se acham os escritores
eclesiásticos, entre os quais se situa Orígenes. Esses escritores não mereciam
o título de Doutores da Igreja, porquanto sua ortodoxia não era irretocável,
embora desse testemunho da tradição. Étienne ensina que essas distinções estão
longe de serem precisas. Ainda que os escritores não fossem classificados num
mesmo nível de contribuição e adequação dogmática, a Idade Média não os
discriminava segundo uma classificação precisa. Por isso, Étienne prefere
reunir os Escritores eclesiásticos e os Doutores da Igreja sob as designações
de Padres Gregos e Padres Latinos. Mais do que saber o modo certo
de denominá-los, importa compreender como esses Padres se posicionavam perante
a filosofia grega.
Retomando-se a
primeira questão aventada, os autores cristãos antigos se consideravam teólogos
e, se algum deles se servisse da filosofia em seus trabalhos teológicos, era,
pois, chamado de teólogo filosofante, e não de filósofo.
Neste artigo, chamo
a todos os autores cristãos da Idade Média de teólogos ou, alternativamente, pensadores
cristãos, mas não de filósofos. Todavia, se não os consideramos filósofos,
teria havido uma filosofia cristã? Podemos denominar de “filosofia cristã” o
conjunto de sistemas de pensamento elaborados por teólogos cristãos, cujo traço
distintivo é o terem-se originado da fé cristã? Gilson acredita que sim, mas
não sem partir de um critério. Para Gilson, o conjunto de sistemas filosóficos
cuja origem remonta aos tempos apostólicos e cuja duração se prolonga até
nossos dias pode ser chamado de filosofia cristã, desde que suas proposições
sejam “suscetíveis de demonstração natural” (Gilson, 2012, p. 11). Segue-se o
excerto em que o autor esclarece o que entende por “filosofia cristã”:
É cristã
toda filosofia que, criada por cristãos convictos, distingue entre os domínios
da ciência e da fé, demonstra suas proposições com razões naturais, e não
obstante vê na revelação cristã um auxílio valioso, e até certo ponto mesmo
moralmente necessário para a razão. (ibid.).
Que não reste
dúvida quanto ao critério utilizado pelo autor na distinção entre filosofia e
teologia cristã. Só podemos falar numa “filosofia cristã” “quando o
assentimento às proposições por ela enunciadas se basear na experiência, ou em
reflexões de ordem racional” (ibid.). Segundo Gilson, só pertencem à filosofia
cristã as proposições que não apelam às verdades reveladas, inacessíveis à
razão. O que distingue, fundamentalmente, a filosofia cristã da teologia cristã
é que esta justifica suas alegações com base em verdades reveladas por Deus, e
aquela busca tornar conhecidas as verdades reveladas por meio de verdades
naturalmente já conhecidas. Não obstante, Gilson reconhece que “existe um nexo
íntimo entre a especulação filosófica e as doutrinas teológicas cristãs”.
(ibid.). O leitor que preferir falar em “filosofia cristã” pode fundamentar sua
posição recorrendo à autoridade de Gilson Étienne; mas eu não o acompanho por
duas razões básicas: 1) a filosofia se caracteriza, fundamentalmente, por uma
atitude crítica radical; 2) a filosofia, nascendo como busca da verdade, não
deixou de questionar não apenas o que é a verdade, mas também - e sobretudo -
suas prerrogativas de acesso a ela. Em outros termos, a filosofia, embora,
originalmente, aspirasse a conhecer a verdade, não deixou de questionar sua
própria pretensão a conhecê-la. Tanto a atividade radicalmente crítica quanto o
questionamento da verdade e da pretensão a conhecê-la são estranhas à teologia
cristã. O Cristianismo - como veremos - é uma religião (e não uma filosofia!).
Ele afirma que a Verdade é uma pessoa - Jesus Cristo. A Verdade é Deus;
portanto, não pode ser objeto de dúvida ou questionamento. Em que pese o fato
de que, ao longo de seu desenvolvimento, a teologia cristã se tenha servido da
razão e recorrido às contribuições da filosofia pagã, ela não incorporou a si
(e nem o poderia, sem sacrificar seu propósito) a atitude filosófica e,
consequentemente, não submeteu suas próprias alegações a uma crítica radical. Vejamos
o que é a atitude filosófica:
[é] a
decisão de não aceitar como naturais, óbvias e evidentes as coisas, as ideias,
os fatos, as situações, os valores de nossa existência cotidiana, bem a
validade inquestionável de nossos comportamentos e dos outros. (Chauí, 2011, p.
15).
A atitude
filosófica redunda numa atitude crítica, quando reunimos as duas
características que a definem. A primeira característica, negativa, consiste em
dizer não ao senso comum, às crenças, às opiniões e aos valores recebidos, que
são irrefletidamente aceitos em nossa vida cotidiana. Consiste também em
recusar o conformismo intelectual - “é o que todo mundo diz e pensa”. A atitude
filosófica recusa os preconceitos, submete ao crivo da razão as crenças e
opiniões vigentes para desvelar-lhes a causa e o sentido.
A segunda
característica da atitude filosófica consiste na interrogação sobre o que
são as coisas, as ideias, os valores, os comportamentos, o homem. É
outrossim uma interrogação sobre o porquê e o como da totalidade do universo e
de nossa existência. Sendo, fundamentalmente, uma atitude crítica, a
atitude filosófica afirma-se e se desenvolve num curso de “crises”, que não a
suspendem, não a refreiam, mas lhe abrevem novos horizontes de investigação e
questionamento.
Derivada do verbo krisein,
donde provém também “crise”, a palavra “crítica” significa: 1) capacidade
para julgar, discernir e decidir corretamente; 2) exame racional de
todas as coisas sem preconceito ou prejulgamento; 3) exame e avaliação
minuciosa de alguma coisa (uma ideia, um valor, uma afirmação, uma obra de arte
ou de pensamento). Consoante Chauí, “a Filosofia começa dizendo não às
crenças e aos preconceitos do dia a dia para que possam ser avaliados racional
e criticamente. Por isso começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos
saber”. (ibid., p. 18). Vê-se que essa orientação espiritual própria da
filosofia é incompatível com a teologia e com a religião, sobretudo com o
cristianismo, uma religião monoteísta. A teologia cristã assume o pressuposto
indubitável da existência de Deus e da Verdade por ele revelada. Não submete ao
questionamento a alegação de que Deus é a Verdade e que ele se revelou ao homem
por meio de sua Palavra bíblica. Pelas duas razões anteriormente expostas e
esclarecidas, assumo que não se produziu uma filosofia cristã, mas uma teologia
cristã fundamentada na apropriação, reinterpretação (às vezes, distorção) e
articulação de conceitos da filosofia grega. Não sem alguma reserva, assumo que
a fé cristã foi sistematizada sob a forma de uma metafísica cristã,
nutrida no espírito dogmático de sua teologia. Porque cristã, essa metafísica
não se subsume na definição de Filosofia, como pretendia Aristóteles. A
metafísica cristã não é simplesmente a investigação das causas e primeiros princípios
da totalidade do que existe, não é a ciência do ser enquanto ser. Ela é uma
onto-teologia: o Ser é Deus e, ainda, Deus é o Ser e além do Ser. Em
suma, enquanto teologia cristã, os sistemas de pensamento produzidos pelos teólogos
cristãos, ou pelos pensadores cristãos, se estrutura numa metafísica
cristã cujo fim é especular sobre como podemos nos assegurar da existência de
Deus e sobre o que/ quem é Deus.
No tangente à
complexa relação entre a filosofia e a teologia no período medieval, vale
atender nas palavras de Gilson:
(...) toda a
história da filosofia na Idade Média pressupõe a decisão de abstrair essa
filosofia do meio teológico em que nasceu e de que não a podemos separa sem
violentar a realidade histórica. (Gilson, 2013, p. XII).
Consoante observa o
autor, não é possível traçar uma demarcação rigorosa entre a história da
filosofia e a história da teologia na Idade Média. Isso não significa dizer,
porém, que não se possa falar de uma história da filosofia medieval. A
filosofia e os problemas levantados pelos filósofos gregos se encontram nos
escritos de homens que se apresentavam abertamente como teólogos ou aspirantes
a teólogos. A história da filosofia medieval é uma abstração de uma realidade
mais vasta e complexa que foi a teologia católica na Idade Média.
1.1.
O
cristianismo é uma religião
O título desta
subseção pode parecer uma platitude. É consabido que o cristianismo é uma
religião. Mesmo que empregassem, não raro, termos filosóficos para exprimir sua
fé, os escritores cristãos alteravam o significado filosófico antigo desses
termos, dando-lhes um sentido religioso. Lembra Gilson que a religião se dirige
ao homem “e lhe fala de seu destino, seja para que se submeta a ele, como no
caso da religião grega, seja para que o faça, como no caso da religião cristã”.
(Gilson, 2013, p. XVI). Em contraste, a filosofia “é um saber que se dirige à
inteligência e lhe diz o que são as coisas”.
Acresça-se que a
religião cristã tomou contato com a filosofia grega no século II d.C. Não faltaram convertidos da cultura grega
para a nova fé. Consoante Gilson, “(...) poderíamos remontar ainda mais cedo e
procurar quais noções de origem filosófica se encontram nos livros do Novo
Testamento, no Evangelho de Lucas, o mais grego dos Evangelhos, nas Epístolas
escritas ou atribuídas a São Paulo. Antes de fazer algumas considerações sobre
os fundamentos da doutrina cristã, convém lançar alguns olhares sobre a
dificuldade de definir o conceito de religião. Estarei preocupado em chamar a
atenção para o fato de que há muitas maneiras de definir o que é religião e
também darei a conhecer a definição de religião que vou adotar. Posteriormente,
volverei olhares sobre o cristianismo, apresentado, em linhas gerais, suas
alegações doutrinárias fundamentais e descrevendo sua originalidade.
Podemos falar numa experiência
religiosa quando a vivência de uma pessoa é impregnada de um sentido (uma
presença) de ordem religiosa. Evidentemente, essa definição nada esclarece
sobre o que seria essa ordem religiosa. Para que saibamos do que se trata,
consideremos os componentes de uma experiência religiosa, independentemente do
sistema religioso que a nutre.
Antes, porém, de
apresentar e descrever esses componentes, convém dar a conhecer o que Filho
(2012) entende por experiência. Para ele, experiência é “o movimento total da
vida do espírito humano, aí incluídas a dimensão sensível (vivência
sensorial e empírica), a dimensão afetiva (a dinâmica dos sentimentos) e
a dimensão intelectual (o que chamamos de pensamento)”. (ibid., grifo
meu, p. 21). A experiência engloba, pois,
as dimensões fundamentais da vida humana.
O primeiro
componente da experiência religiosa é o intelectual. Por meio dele toda
a vida individual é destinada à divindade. O divino é considerado a Verdade e,
através das práticas religiosas, o indivíduo se relaciona com ele e a ele se
entrega por meio de um “sim” à verdade superior, ao mesmo tempo que reconhece a
verdade de seu ser de criatura. Além do componente intelectual, a experiência
religiosa é constituída também de um componente voluntário, pois que a
experiência religiosa se manifesta como ato de liberdade e de generosidade que
fundamenta e institui a relação com o divino. Na experiência religiosa, um
indivíduo resigna-se à sua condição de criatura, acolhe a grandeza e santidade
do divino, submete-se a ele e dedica toda a sua vida a servi-lo. Finalmente, há
um componente afetivo, reconhecido no conjunto de atos mediante os quais
um indivíduo decide seu destino e aperfeiçoa seu ser, oferecendo-os à divindade.
Nessa entrega afetiva de sua vida à divindade, o indivíduo exulta-se de alegria
numa experiência de encontro com o infinito. Tão logo é tomado por um
sentimento de profunda adoração, de súplica e humildade exaltante. Em religiões
ateológicas, como o budismo, o componente afetivo expressa-se na vivência
individual de modo diferente, mas nem por isso deixa de existir. Não convém
aqui me estender sobre o componente afetivo nessas religiões sem deus,
porquanto minha preocupação em definir a religião e esclarecer a experiência
religiosa pressupõe a relação com uma instância transcendente que podemos
chamar de o divino ou deus. O divino é, pois, transcendente, no sentido de que
é superior à criatura, está acima dela, está para além de tudo que é finito e
perecível. Todavia, uma das preocupações da teologia, particularmente da
teologia cristã, é demonstrar de que modo um Deus transcendente pode ser
conhecido na imanência, na condição concreta, precária e limitada da vida
humana. Estar acima ou além não redunda na ideia de estar separado. O Deus
cristão é transcendente na medida em que excede os limites da finitude.
Etimologicamente, “transcendente” é aquilo que atravessa o imanente, o
perpassa, o sustenta e o fecunda. Portanto, não é simplesmente o que está além.
É possível
discriminar ainda dois componentes sociais que constituem a condição de toda
experiência religiosa. Um é de natureza ativa; o outro, comunitária. Por um
lado, a religião implica um engajamento de toda a vida e governa as ações
individuais. Na experiência religiosa, todos os atos tornam-se inspirados e
consagrados. Na medida em que o ser humano, perante o divino, é inserido como
membro numa gigantesca família, não pode procurar o transcendente sem o auxílio
dos demais membros (componente comunitário).
Passo, agora, a
considerar a etimologia da palavra “religião”, cuja origem remonta ao latim religio.
Desde já, cabe frisar que estamos diante de uma falsa etimologia quando
associamos ao étimo religio os sentidos de ligare e religare,
ou seja, ‘unir’, ‘ligar’, ‘religar’. Coube a Lactâncio (250-320), que associou
ao termo religio aquelas noções, consagrá-las na história. É bem verdade
que, desde a Antiguidade, é controverso o sentido etimológico de religio.
Parece que é Cícero (106-43 a.C.) que tem razão ao usar religio associado
ao verbo relegere, que significa
‘reler’, ‘rever com cuidado’. A forma relegere formou-se a partir de legere,
que, originalmente, significava ‘colher’, ‘juntar’, ‘rever o que se fez’,
‘retomar pelo pensamento’.
A essa complexidade
etimológica de religio, deve-se acrescer o fato de que os antigos
filósofos gregos e romanos não dispunham de um vocábulo para designar a
vivência do que nós, modernos, designamos, em nossas línguas, como “religião”.
Não obstante, os gregos dispunham de três termos que expressavam,
aproximadamente, o que nós, modernos, chamamos de religião. A rigor, não
faltavam aos antigos gregos vocábulos que definiam ou descreviam ‘dados’ da
consciência religiosa. Da raiz theo, surgem ‘o divino’, ‘o deus’, por
exemplo. Mas três conceitos merecem menção aqui. O primeiro deles é eusébeia
que, em Ésquilo, designa a disposição interior de piedade e amor pelos deuses,
embora também significasse o amor filial. O segundo é o termo threskeia,
que delimita a exterioridade da prática religiosa, designando o respeito à
divindade mediante a observância de certos ritos. Finalmente, o terceiro termo
se diz theosébeia, que não significa apenas piedade, mas também a pessoa
religiosa ou a característica que a define como tal. Vale notar, en passant,
que “piedade” aí é uma disposição interior para o respeito pelo divino.
Entre os romanos,
vale notar que o sentido atribuído por Cícero à palavra religio, na sua
obra A natureza do deuses II, será retomado por Santo Agostinho
(354-430) e por Lactâncio, dois autores cristãos. Coube também a Cícero
distinguir entre religio e superstitio (superstição).
Como o senso comum
não pensa, os homens, imersos nas vivências do senso comum, falam de religião
como se já soubessem o que pretendem dizer ao empregar essa palavra. Todavia, a
quem quer que folheie algum livro de Filosofia da Religião, de Sociologia ou Antropologia
da Religião deparar-se-lhe-á alguma menção à dificuldade encontrada pelos
estudiosos na busca por uma definição precisa e unívoca de religião. Definir
religião é difícil porque falta aos estudiosos um consenso acerca dos critérios
com que a experiência religiosa pode ser definida. Seria o sobrenatural uma
característica básica da religião? Mas a magia supõe também sua existência.
Seriam os deuses? Há religiões sem deuses, como o budismo. Seriam os espíritos?
Mas eles se encontram nas crendices populares também. Um aspecto da dificuldade
de encontrar-se uma definição precisa da religião repousa em outra dificuldade,
a saber, a de isolar o fato religioso. Durkheim reduzi-o ao totemismo; Bruhl,
por sua vez, à mentalidade mística. Se, nas sociedades modernas, as esferas do
parental, da economia, da política se diferenciam, sem muita dificuldade, da
esfera religiosa, isso não é verdade para as sociedades tradicionais ou
pré-modernas. No curso dos séculos de colonização e exploração de várias
regiões do globo, os navegadores entendiam a religião como o conjunto de
cultos e crenças, de atitudes mentais, gestuais, devocionais que se orientavam
por concepções de um além-mundo. Para aqueles que não têm vivências numa
religião, são suas formas de expressão prática que concorrem para defini-la.
Assim, costuma-se definir a religião como um conjunto de condutas
vividamente simbólicas para uma coletividade e de relações que remetem o homem
a uma realidade que ele assume como superior ou transcendente a sua condição
existencial e ao mundo.
Passo, doravante,
em revista, algumas definições clássicas de religião. Começo por referir a
concepção de Durkheim (1858-1917), para quem a religião é “um sistema
solidário de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas,
proibidas, crenças e práticas que unem numa mesma comunidade moral, chamada
Igreja, todos os que a ela aderem”. Para Durkheim, a religião cria uma
divisão no mundo: separa a esfera do sagrado da esfera profana. O sagrado é o
separado, intocável e perigoso. O profano, por seu turno, é o domínio do
cotidiano, dos negócios humanos. Para ele, a religião também se constitui de
mitos e ritos, cuja funcionalidade só se efetiva em grupos. A religião “cola”
as pessoas e cria identidade coletiva por meio da comunidade moral, que é a
Igreja.
Outra definição
bastante conhecida é a que nos legou a pena de Rudolf Otto (1869-1937). Para
ele, a religião está centrada no numinoso - a experiência do “totalmente
Outro”. Otto chama a esse numinoso o mysterium tremendum et fascinans
(o mistério tremendo e fascinante). Mysterium se diz do que é
radicalmente distinto de tudo que há no mundo e daquilo que não pode
expressar-se por um conceito. Tremendum é o que provoca terror, pavor e
o sentimento de pequenez da criatura em face do poder esmagador, por exemplo,
de um deus. Finalmente, fascinans é, ao mesmo tempo, o que atrai,
arrebata, encanta e o que causa, ao mesmo tempo, temor e amor.
Finalmente, pode-se
referir a definição de religião que encontramos em O sagrado e o profano, de
Mircea Eliade (1907- 1986). Renomado estudioso das religiões, Eliade pensa o
religioso como domínio de manifestação do sagrado (hierofania). A religião é,
portanto, o conjunto de comportamentos que manifestam o sagrado (hierofania) e
organizam o espaço, o tempo e a vida. A hierofania, como revelação do sagrado,
é um conceito-chave no pensamento de Eliade. Uma vez manifesto o sagrado, tudo
pode se tornar sagrado (uma pedra, uma árvore, uma gruta, etc.). O mundo
profano é homogêneo, isto é, seus domínios e objetos não têm diferença
qualitativa. A hierofania é um rasgo nessa monotonia. De repente, uma pedra ou
um gesto manifesta um modo de ser que não é deste mundo. Deixando de ser
homogêneo, pela hierofania, o mundo passa a constituir-se de centros sagrados
(templos, Meca, santuários, etc.). Também o tempo se torna sagrado, por meio
dos ritos que reatualizam o tempo mítico, das festas que expressam o sentimento
de participação no cosmo. Para Eliade, o homo religiosus vive num mundo
constituído de dois planos: o do profano e o do sagrado. Uma pedra que se torna
sagrada não deixa de ser uma pedra; todavia, para o homo religiosus , ela
não é apenas uma pedra, mas a manifestação de uma força, é símbolo de outra
coisa; mas, embora possamos dizer, semioticamente, que o sagrado é apenas um
significado atribuído às coisas, ao ver ou tocar a pedra sagrada, o homo
religiosus crê que ela apresenta o sagrado. Na hierofania, a pedra não é um
símbolo da solidez divina; ela presentifica a solidez divina. Para
Eliade, a experiência religiosa não se traduz na observância de ensinamentos
dogmáticos, não se reduz ao domínio de uma doutrina, mas é, fundamentalmente,
viver imerso num mundo onde o sagrado brota nas coisas, se derrama na realidade
e a funda.
Num sentido oposto
ou diverso das definições aqui apresentadas, duas mais psicologizadas do que a
outra, embora todas baseadas na ideia do sagrado e da separação entre duas
esferas de realidade, vão duas outras maneiras de definir e pensar o religioso,
das quais nos dão testemunho Kierkegaard (1813-1855) e James George Frazer
(1854-1941). Kierkegaard fora um cristão atormentado pelo caráter paradoxal da
experiência religiosa. Para ele, a vida religiosa é um paradoxo. A religião é
um enigma, quer no sentido ético, quer no sentido teórico. Ela é inteiramente
permeada por antinomias e contradições. Por isso, na sua opinião, a religião
Promete
possuir a verdade absoluta, mas sua história apresenta erros e heresias.
Promete e espera um mundo transcendente, além dos limites da experiência
humana, mas permanece humana e muito humana. (Portugal, 1996, p. 58).
Kierkegaard, no
entanto, dedicou-se a examinar a relação do homem religioso (cristão) com Deus.
É tarefa do homem efetuar a síntese entre o finito (o corpo) e o infinito (a
alma), e essa síntese é precisamente a essência do homem. Kierkegaard reconhece
o problema, que não é mais o do ato de ascensão do espírito a Deus, pela
desertificação do corpo ou do mundo, mas o do como da relação do eu consigo
mesmo, a qual constitui a existência em sua divisão e em seu diálogo com Deus.
Kierkegaard não se
cansou de lembrar que aquela relação não é possível senão pela mediação de seu
fundamento comum, que é Deus. A síntese cristã demanda um esforço que não mais
se pauta por um dualismo: é necessário realizar uma síntese, a qual é uma complexidade
constituída de três termos – a alma, o corpo e
o espírito.
O antropólogo James
George Jazer (1854-1941) mantém, por seu turno, que a religião se inicia com a
elevação da existência humana às forças supra-humanas. Se, originalmente, os
deuses eram vistos como forças da natureza, e o homem era movido pelo
sentimento geral de solidariedade da vida, no decorrer do tempo, sua
personalidade se projetou na imagem dos deuses pessoais. A origem da religião,
para Frazer, residiria no sentimento de dependência do homem; este sente-se
assujeitado ao divino. Filho (2012), por sua vez, define a religião como
“vivência pessoal que ela exprime e à qual ela dá uma forma histórica” (ibid.,
p. 12).
A definição de
religião que adoto e que subjaz a todas as reflexões subsequentes, neste
artigo, é tomada a Sweetman (2013), em seu Religião: conceito-chaves em
filosofia. O autor também lembra a dificuldade de oferecer uma definição
exaustiva de religião que dê conta da complexidade do fenômeno religioso.
Portanto, toda definição de religião acaba por ser incompleta ou lacunar. No
entanto, ele se preocupa em oferecer uma definição que, pelo menos, inclua os
aspectos principais da visão religiosa de mundo. Segue-se a definição proposta
pelo autor e que é por mim esposada:
(...) a religião
pode ser definida como um sistema (geralmente) complexo de crenças (sobre a
realidade, a pessoa humana e a moralidade) que regulam a vida (influenciam o
modo como vivemos), que são expressas em certos tipos de rituais e práticas, e
que se baseiam, em grande parte, na crença em uma realidade sagrada e
transcendente (invisível). (ibid., p. 13).
Em muitas de suas
formas de concretização histórica, as religiões incluem a crença em Deus ou,
pelo menos, num Ser Supremo, não necessariamente pessoal, que é considerado o
criador do universo e da vida, e também uma crença numa vida após a morte, que
é significativamente melhor e superior à vida terrena. Essa vida além-túmulo é
considerada a verdadeira vida e nosso destino último. As religiões também
encerram teorias metafísicas sobre a natureza do homem: rezam que ele é
constituído por duas substâncias, uma, material e corpórea; e outra, imaterial
e incorpórea. As religiões defendem que a alma é a instância superior do homem,
identificada, em nossa tradição filosófica, com o intelecto (capacidade de
raciocínio). Também o livre-arbítrio é uma qualidade valorizada, porque é a
condição para que sejamos seres morais, isto é, capazes de discernir entre o
bem e o mal. A maioria das religiões também prega que é possível ao homem
estabelecer uma relação com Deus, uma relação mediada pela palavra por meio da
oração.
Apresentada, pois,
a definição de religião que adoto aqui, cuido necessário apresentar os
seguintes pressupostos com base nos quais se orienta toda a discussão ulterior.
Tais pressupostos foram elaborados a partir das contribuições de Revière, em
seu Socioantropologia das religiões (2013).
1º pp: A qualidade
de ‘revelada’ de uma religião é sempre uma ficção imaginário-simbólica. São os
homens, em suas atividades concretas na história, moldadas estas num
imaginário-simbólico fundante, que dizem ser revelada a sua religião;
2º Outrossim, são
os seres humanos, cujas crenças, valores e práticas sociais são moldadas num
imaginário-simbólico, que creem verdadeira a sua religião em desfavor das
demais;
3º Também são os
seres humanos quem estabelece os limites do sagrado e do profano; mas nem todos
eles creem na mesma coisa.
Gostaria também de
acrescer que não é somenos enfatizar os aspectos imaginário-simbólicos e
emocionais da experiência religiosa. As religiões se expressam na forma de
relações que são elas mesmas sistemas de símbolos que agem sobre os indivíduos,
de modo a neles suscitar motivações e disposições poderosas, profundas e
duradouras. Esses sistemas de símbolos lhes oferecem concepções de ordem geral
sobre a existência, e essas concepções lhes parecem tão reais, que os
religiosos sentem que suas motivações e disposições se ancoram somente na
concretude da realidade.
Malgrado acreditar,
enquanto filósofo ateu, que a experiência religiosa e a religião como
instituição humana e histórica mistifiquem a experiência humana de mundo, não
ignoro que a religião cumpre funções diversas importantes, entre as quais
merecem nota as seguintes (v. Revière, ibid., p. 26):
O caráter polimórfico da religião, sua diversidade doutrinária,
ritualística e imaginário-simbólica, não obnubila um fato comum a todas as suas
formas de institucionalização histórica: a religião é uma resposta à
irresistível busca humana de sentido último para a vida. Ademais, “(...) é
verdade que, em resposta a uma busca de sentido, a religião seja tanto mais
sentida como verdadeira quanto mais ela ajuda o homem a dar unidade à sua
existência”.
1.2. O Cristianismo: a fé que mudou a história
O Cristianismo
nasce como uma seita herética no interior do Judaísmo. Todavia, ele não é
produto de uma cisão com um Judaísmo estático, mas de um Judaísmo que se
redefiniu radicalmente durante o século I d.C. O Cristianismo é um dos frutos
(o mais importante e revolucionário, decerto!) dessa radical redefinição.
As raízes
históricas do Cristianismo fincam-se no solo do Oriente Próximo, mas exatamente
no solo da Palestina do século I d.C. Foi por volta de 30 d.C que um obscuro
profeta judeu apocalipticista, chamado Jesus, nascido na Galileia, mais
precisamente em Nazaré, foi julgado, condenado e crucificado pelas autoridades
romanas. A Palestina do período em que Jesus nasceu, viveu e morreu estava sob
domínio dos romanos. Eles a invadiram em 63 a.C. O maior império do mundo, o
Império Romano, conferia certa independência às suas colônias, desde que elas
fossem submissas, obedientes e pagassem seus impostos. É por isso que não
devemos ver a Palestina como um território “ocupado” pelos romanos.
Politicamente, o Império permitia ao rei local administrar seu reino como um
protetorado. Os romanos não tinham a ambição de governar a Palestina; estavam
mais preocupados em manter essa região pacificada e estável politicamente. Os
problemas locais deviam ficar sob responsabilidade de um rei judeu. De 37 a.C.
até 4 a.C., coube a Herodes, o Grande, essa função.
Herodes tinha uma
personalidade dominadora e ambiciosa. Grandes quantias de dinheiro foram por
ele destinadas a projetos de construção e à fundação de novas cidades. Herodes,
como fosse protegido de Roma, precisava pagar tributos ao Imperador e a ele submeter-se
em matéria de política externa; no entanto, gozava de grande liberdade. Depois
de sua morte, o Imperador César Augusto, a quem devemos a criação do governo e
das estruturas do Império Romano, decidiu dividir a Palestina entre os filhos
do finado rei. Todos os herdeiros governaram a região de modo semelhante ao seu
pai, exceto o que ficou encarregado de governar a Judeia (localizada na região
sul da Palestina, que abrangia Jerusalém). Como se mostrasse incompetente, foi
destituído em 6 a.C. Os romanos, então, decidiram governar diretamente essa
parte da Galileia, para o que nomearam um oficial para o posto de prefeito. Mas
ser prefeito de Judeia não era algo muito apreciado. Os romanos consideravam-na
um lugar atrasado, habitado por bárbaros insanos, que professavam uma religião
estranha. Não era, portanto, para eles, uma região agradável para ficar.
Ademais, o prefeito dispunha somente de alguns milhares de soldados, número
insuficiente para policiar a região de forma adequada. Por conseguinte, ele
ficava, a maior parte do tempo, em Cesareia, uma cidade romanizada na costa,
delegando os encargos do dia a dia da Judeia e de Jerusalém ao mais alto
sacerdote judeu, que atuava como uma espécie de primeiro-ministro, fixando e
cobrando impostos, assegurando a observância da lei e a preservação da
ordem.
Doravante, volvo
olhares sobre o Cristianismo e sobre a figura de Jesus Cristo, como homem
histórico. No tocante ao Cristianismo, estarei interessado em assinalar os
pilares dessa fé, que se manifestou historicamente sob diversas denominações e
vertentes, e em apontar as
características que constituem sua originalidade. Apesar de o Cristianismo,
desde as origens, ter sido marcado por uma diversidade de crenças e opiniões,
podemos hoje delimitar, com razoável segurança, os dogmas que as diversas
tradições cristãs compartilham entre si. Ao considerar a figura de Jesus,
pretendo assinalar o que sabemos sobre o Jesus histórico. A imagem de Jesus
como um ser divino, o Filho de Deus é uma construção bíblica e teológica. Esse
tema será objeto de análise em outro texto.
Em princípio,
podemos dizer que o Cristianismo é uma religião monoteísta (muito embora o
historiador Paul Veyne o considere um politeísmo monista) baseada na pessoa de
Jesus de Nazaré, chamado o Cristo - termo grego para o Messias - o
Ungido. O Cristianismo, chamado originalmente de Movimento do Caminho e
Movimento de Jesus, estava entre os muitos movimentos que, no interior do
Judaísmo, buscavam a renovação da esperança do povo. O que hoje consta da
Bíblia como registros da vida e ministério de Jesus de Nazaré e do trabalho de
seus discípulos era, por muito tempo, tradições orais. Somente muito tempo
depois, essas tradições foram codificadas na escrita e transformadas em dogmas
e articuladas num cânone que organizava e normatizava uma nova fé. Os quatro
Evangelhos canônicos (Marcos, Mateus, Lucas e João) não são documentos
históricos totalmente fidedignos, de modo que não podemos saber, em maiores
detalhes, o que exatamente Jesus disse e fez. O cristianismo – vale dizer –
pode ser compreendido como um movimento religioso cujo desenvolvimento resultou
de acontecimentos sobre a vida de Jesus de Nazaré, a respeito dos quais o que
sabemos é produto de interpretações calcadas sobre a fé de seus seguidores. Por
isso, é difícil saber, com segurança, o que é verdade a respeito da vida de
Jesus.
Não há dúvidas, por
outro lado, de que, a partir do homem Jesus, proclamado divino, muitas mulheres
e homens construíram um significado para as suas vidas, conseguiram expressar
seus desejos mais profundos e combater a opressão e a injustiça. E, certamente,
malgrado as inumeráveis contradições que permeiam os escritos sobre a vida
desse líder religioso, conseguiram afirmar sua identidade única em face de
muitas outras. Há, é verdade, algumas informações historicamente seguras, com
base nas quais podemos dizer que o Cristianismo pregava que os famintos seriam,
em breve, saciados e os injustiçados conheceriam a justiça quando da vinda
(muito em breve) do Reino de Deus. O Movimento de Jesus vinha em socorro dos
marginalizados do mundo e buscava aliviá-los de suas dores imediatas: cegos e
leprosos eram curados, famintos alimentados, estrangeiros acolhidos.
Durante sua vida,
Jesus rivalizou com os fariseus e os sacerdotes, despertando sobre si ódio e
sede de vingança. En passant, cumpre notar que os fariseus era um grupo
de maioria leiga que se especializou no estudo da Lei judaica e na sua
aplicação à vida cotidiana. Por seu turno, os sacerdotes formavam o grupo de
líderes oficiais do Judaísmo e agiam como professores e especialistas.
Rivalizando com esses dois grupos, havia os saduceus, para quem os mortos não
ressuscitariam. Os essênios formavam outro partido no interior do Judaísmo. À
semelhança dos fariseus, eram grupos não oficiais, mas daqueles divergiam
quanto ao modo como interpretavam a Lei. Se os fariseus descuravam do rigor
interpretativo ao se ocuparem dela, os essênios a estudavam e a interpretavam rigorosamente.
Como uma heresia
surgida no interior do Judaísmo, que ousara desferir duras críticas ao Judaísmo
do Templo e das sinagogas, o Movimento de Jesus tornou intolerável a
convivência de cristãos e judeus. Os judeus, embora acreditassem que Deus
enviaria um messias para libertar seu povo, esse messias seria um líder
especial, uma figura admiravelmente poderosa, e não um carpinteiro saído do
interior de uma Galileia rural. Jesus foi acusado de realizar milagres que
somente Deus seria capaz de realizar, de infringir as leis judaicas do sábado,
de comer com os impuros e os criminosos. Por isso, seu destino foi a condenação
à morte na cruz.
Interrompo o curso
dessas considerações para apontar as características doutrinárias comuns às
diversas denominações cristãs.
2. Encarnação: O Filho
de Deus se fez homem, ou Deus mesmo se fez homem;
3. Morte e
Ressurreição:
Sem a fé na Ressurreição de Jesus, não haveria Cristianismo. Jesus morreu, mas
ressuscitou no terceiro dia. A Cruz, símbolo de maldição para os judeus do
Templo, era, para os cristãos, a expiação dos pecados e a vitória sobre a
morte. A ressurreição vence a morte;
4. Salvação
pela graça:
A reconciliação com Deus se dá pela fé em Cristo;
5. Escritura e
Tradição:
a Bíblia é seu livro normativo. Catolicismo e Ortodoxia representam a tradição
apostólica e o magistério;
6. Escatologia: espera da
segunda vinda de Cristo ao mundo, quando acontecerá o Juízo Final, a
ressurreição dos mortos e quando os eleitos conhecerão a vida eterna.
Os pilares
supracitados dão sustentação ao edifício da ortodoxia cristã; mas,
historicamente, o cristianismo está longe de ter sido uma fé homogênea. Como já
discuti em outros textos neste blog, era imensa a diversidade de cristianismos
primitivos. Nos séculos II e III, eram muitas as visões cristãs
a respeito de Deus, de Cristo, do significado de sua morte, entre outras
coisas. Por exemplo, havia cristãos que acalentavam a crença em que Deus criou
o mundo; outros, porém, não pensavam assim. Para estes, o mundo tinha sido
criado por uma divindade inferior ou subordinada, e ignorante. Para esse grupo
de cristãos, isso explicava por que o mundo é tão cheio de sofrimento, miséria
e maldade. Não havia uma Bíblia, como a conhecemos hoje, no tempo em que Jesus
viveu. O cânone da Bíblia cristã (os 27 livros do Novo Testamento) só seria
estabelecido, depois de inúmeros debates, controvérsias e tentativas
frustradas, no século V d.C. Coube a Atanásio, bispo de Alexandria e inimigo da
heresia ariana, cujos textos defendiam a fé proclamada pelo Concílio de Nicéia,
em 325 d.C., determinar os 27 livros que conhecemos hoje como representativos
do cânone, em 367 d.C. Não obstante, a determinação de Atanásio, ela não pôs
fim às disputas em torno de quais textos deveriam compor o cânone. Por muitos
séculos, várias igrejas adotaram listas um pouco diferentes, algumas das quais
incluíam 3 Coríntios como canônico. À medida que avançava o século V, o
conjunto de textos determinados por Atanásio como canônico obteve unanimidade.
Ensinará, pois, Ehrman, em Quem Jesus foi? Quem Jesus não
foi? (2010):
“(...) Esses
livros, e apenas eles, foram copiados por escribas que reproduziram as
Escrituras durante toda a Idade Média. E, embora nenhum concílio mundial da
Igreja tenha ratificado a lista de Atanásio por mais de um milênio, o uso pelo
povo forneceu uma espécie de ratificação de fato, até o momento da invenção da
imprensa. Quando passou a ser mais fácil imprimir bíblias, depois da invenção
dos tipos móveis, no século XV, o cânone já estava estabelecido. A partir de
então não havia dúvidas quanto a quais livros deviam ser incluídos, e em qual
ordem. Hoje, onde quer que você compre um Novo Testamento, será sempre o mesmo
conjunto de livros, na mesma sequência”. (ibid., p. 239)
Como ensinam Schmid
& Schröder, em seu O surgimento da Bíblia (2020), O Judaísmo só se
tornou uma religião do Livro, cuja preocupação central fosse unicamente o
estudo dos textos sagrados após a destruição do Segundo Templo pelos romanos em
70 d.C. Com a destruição do Templo, findou o culto sacrificial, e a religião
judaica passou a ser experienciada inteiramente no estudo e celebração da
Escritura. Data desse período, o surgimento da concepção de uma Bíblia como
coletânea completa e normativa de livros. Antes desse período, circulavam
textos, escritos e livros que, embora usados religiosamente, não se prestavam a
uma classificação como exemplares de uma literatura bíblica, inexistente àquela
altura. A mudança gradual da religião de Israel e de Judá de uma religião de
culto para uma religião do Livro ocorreu no primeiro milênio a.C. Esse processo
foi catalisado pela destruição do Templo em 587 a.C pelos babilônicos. O
período babilônico teve, portanto, uma importância fundamental para o
surgimento da Bíblia e, de modo correspondente, para a transformação do
Judaísmo numa religião centrada na Escritura, forma que a liga ao compromisso
com a Torá e com a fé num único Deus. Está claro, pois, que não existia ainda a
Bíblia no tempo em que viveu Jesus.
O Cristianismo
separou-se do Judaísmo a partir do século II d.C. Ele nasce como movimento
messiânico dentro do Judaísmo do Segundo Templo. Em síntese, o Cristianismo é a
fé de que Jesus é o Messias prometido a Israel e Filho de Deus, cuja vida,
morte e ressurreição descerram o caminho para a comunhão de cada indivíduo com
Deus. Ao longo de séculos, a Igreja cristã, com sua imensa diversidade, passou
a enfatizar menos a função social do cristianismo de assistência aos
marginalizados e flagelados do mundo. Também deixou de enfatizar a crucifixão e
morte injusta do líder Jesus de Nazaré e acentuou a necessidade de obediência à
vontade de Deus e ao seu desígnio. Quase esquecido o caráter revolucionário e
histórico do movimento de Jesus, o Cristianismo passou a ser interpretado como
uma invenção espiritual de Deus na história humana. De fato, para os
proto-ortodoxos, o Cristianismo representava a Revelação definitiva e completa
da Palavra de Deus através da vinda à terra de seu Filho, Jesus Cristo. A
crença de que Deus enviaria um Messias para reunir de novo seu povo disperso é
produto do imaginário-simbólico judaico. Os antigos hebreus acreditavam que o
Deus de Israel se manifestara diversas vezes e de modo especial na história de
seu povo, por meio de acontecimentos envolvendo os patriarcas, seus líderes,
profetas, profetisas e reis. Na pessoa de Jesus Cristo, Deus se revela sob forma de amor pela humanidade, a qual tinha
se desviado Dele por força do pecado. Jesus instituiria uma nova Aliança com
Deus, então rompida pelo pecado. O caráter apocalíptico do judaísmo foi herdado
por Jesus e, consequentemente, pelo Cristianismo que se formava em torno de sua
vida e atos. Tal como os judeus, os cristãos dos primeiros séculos de nossa era
também pensavam que o mundo estava prestes a acabar. Por isso, Deus enviara seu
único Filho, Jesus Cristo, a fim de redimir a humanidade de seus pecados e
estabelecer uma nova Aliança. Com a vinda de Jesus Cristo, nascido da Virgem
Maria, ao mundo, Deus Pai completa tudo que tinha de dizer a todos os homens e
mulheres. A definitiva revelação de Deus estava, enfim, terminada com o
Cristianismo. Por conseguinte, já nos primeiros séculos, a Igreja cristã
estabelece e dissemina a crença de que Jesus, o verdadeiro e único filho de
Deus Pai, expressou, de forma única, sua íntima relação com Ele, origem de
todas as coisas. O Filho, Jesus, e Deus Pai estiveram juntos desde toda a
eternidade. Foi no Concílio de Niceia, em 325, e, posteriormente, no de
Constantinopla, em 381, que se proclamou que o Filho único de Deus, Jesus, é
consubstancial ao Pai, a saber, tem a mesma substância que Deus. Para
fundamentar o dogma da consubstancialidade, a Igreja retoma a fórmula
evangélica de João - “o Verbo se fez carne”. Estabeleceu-se, assim, que a
Encarnação é a crença de que Deus assumiu uma forma humana na figura de Jesus
Cristo para a salvação da humanidade. Depois de longas disputas com grupos
heréticos, os proto-ortodoxos, então vitoriosos, estabeleceram para toda a
cristandade que Jesus é verdadeira e completamente Deus e verdadeira e
completamente homem.
Como pretendo
discorrer, na próxima subseção, sobre a originalidade do cristianismo, é
oportuno dizer que um dos aspectos da originalidade do Deus cristão é a sua
representação como Deus uno e trino (A Santíssima Trindade). Antes de morrer,
Jesus prometera a seus discípulos mais próximos que enviaria o Espírito Santo
para conduzi-los no ensinamento da verdade cristã. Assim, para a Igreja, o
Espírito Santo é a terceira pessoa divina, ao lado do Pai e do Filho. O
Espírito Santo se faria presente onde quer que houvesse duas ou três pessoas
falando em nome de Jesus. O monoteísmo cristão tornar-se-ia distinto dos demais
monoteísmos conhecidos pela profissão da fé num único Deus em três pessoas.
Embora terminada, a
Revelação de Deus não foi completamente explicitada. Dar a todos os seres
humanos conhecer plenamente essa revelação é a tarefa da Igreja, assistida,
para tanto, pelo Espírito Santo até o final da História. É o Espírito Santo,
portanto, que confere à Igreja a autoridade para deliberar sobre tudo que diz
respeito à fé cristã. O Cristianismo nasce como uma religião, ao mesmo tempo,
divina e humana, celeste e terrestre, do corpo e da alma. Como máxima revelação
de Deus ao mundo, sua finalidade é a salvação e a reunião de todas as criaturas
na unidade perfeita do Deus único e trino. Para a Igreja, tudo procede da
Trindade e tudo converge para ela. Com o desenvolvimento de uma teologia
complexa e filosoficamente refinada acerca da figura de Jesus, da missão da
Igreja, do fim último da existência humana e do mundo, o Cristianismo, não
sem a conversão sincera de Constantino e
seu poder político, conseguiu dar início a seu projeto de universalização.
1.2.1.
A
originalidade do Cristianismo
Para o
desenvolvimento da análise que ora se descortinará, valho-me das contribuições
de Paul Veyne, em seu Quando nosso mundo se tornou cristão (2011). Esse
eminente historiador elenca as razões que tornaram o Cristianismo uma religião sui
generis. Ao apresentar as características que formaram a originalidade do
Cristianismo, Veyne explica como a nova religião se mostrou superior ao
paganismo. Essas características que tornaram o Cristianismo uma religião
superior às concorrentes pagãs foram decisivas para a conversão de Constantino,
que a tomou como verdadeira e digna de seu trono. Como enfatiza Veyne,
Poucas
religiões - talvez nenhuma - conheceram no correr dos séculos um enriquecimento
espiritual e intelectual igual ao do cristianismo; no século de Constantino,
essa religião ainda era sumária, mas, mesmo assim, superou amplamente o
paganismo. (ibid., p. 35).
Fato inquietante,
essa religião, inicialmente encontrando indiferença e hostilidade na massa da
população, gerando desconfiança e alarme entre os eruditos, que a consideravam
o maior erro da história, conseguiu, no curso de poucos séculos, ocupar lugar de
destaque na opinião e debates públicos. Como explicar tão impressionante
sucesso? Veremos aqui as repostas oferecidas por Veyne.
Não deixa de ser
surpreendente que o Cristianismo tenha logrado tamanho sucesso, a despeito de
ser mais exigente para com seus fiéis do que as religiões pagãs. Sua vitória,
evidentemente, não é consequência exclusiva de suas qualidades superiores. A
autoridade do Império Romano representada na pessoa de Constantino e da Igreja
foram determinantes desse sucesso. O Cristianismo oferecia um salvador original
que, no entanto, não podia agradar a todos os gostos. O neoplatonismo parecia
menos dramático para os eruditos. Dessarte, tão-somente uma autoridade
política, como a de Constantino, poderia fazer com que uma tradição suplantasse
a outra.
Começo por
apresentar o que, na opinião de Veyne, é a originalidade principal do
Cristianismo: ser uma religião do amor. Essa característica da nova
religião explica seu sucesso entre os membros da elite. Mas não só ela. Também
a autoridade sobre-humana de seu Mestre Jesus. A vida, para quem abraçava a
nova fé, tornava-se mais intensa, mais estruturada de sentido. O convertido devia seguir uma
regra que, para ele, se tornava um modo ou estilo de vida, à semelhança do que
acontecia nas seitas filosóficas à época, mas com uma recompensa infinitamente
maior: adotando rigorosamente esse novo modo de vida, o indivíduo sentia que
sua existência recebia um significado transcendente e eterno num plano divino,
experiência esta que não lhe possibilitavam as filosofias e as religiões pagãs.
O paganismo não transformava a vida humana a esse ponto; ela permanecia como é:
precária cosmologicamente e efêmera. Mas o Deus cristão garantia unidade à vida
humana, e cada ação, cada experiência do homem no mundo adquiriam um sentido
maior, que não encontrava nele sua fonte, mas que o orientava na direção de um
Ser Absoluto e eterno.
Para Veyne, a
história inova, e ver o Cristianismo como uma resposta a uma expectativa geral,
ou como marca do “espírito da época” (Zeitgeist), é não compreender sua
radical originalidade. O Cristianismo logrou impressionante sucesso angariando
adeptos em todos os cantos do mundo, porque ofereceu algo muito diferente e
novo. Rompendo com o particularismo da religião judaica, o Cristianismo
fundamentou-se numa paixão mútua entre Deus e a humanidade. A invenção mais
original do Cristianismo é esse relacionamento mútuo e apaixonado entre Deus e
o homem. Consoante assinala Veyne (ibid., p. 38), “foi por esse amor, pelo
sentimento que de seu Senhor se irradiava e por uma concepção sublime do mundo
e do homem que a nova religião se impôs”.
Outro aspecto da
originalidade do Cristianismo não tem nada que ver com seu monoteísmo, mas com
“o gigantismo de seu deus, criador do céu e da terra” (ibid., p. 39). Nenhum
deus pagão podia vangloriar-se desse gigantismo. Certamente, o Deus cristão
herdou esse gigantismo do Deus judaico e, não obstante seu caráter
antropomórfico, tornou-se um Deus metafísico, qualidade facilmente atestada no
exame dos trabalhos teológicos desenvolvidos na tradição da metafísica cristã.
Com ser metafísico, o Deus cristão não deixou de ter caráter humano, vivo,
apaixonado e protetor. Herdando o gigantismo do Deus judaico, o Deus cristão
tornar-se-á o fundamento e autor da ordem cósmica e do Bem, função antes
desempenhada pelo deus supremo do insensível e pálido deísmo dos filósofos
antigos.
Segundo Veyne, não
é o suposto monoteísmo que torna o Cristianismo uma religião original. Aliás,
para esse historiador, o Cristianismo é um politeísmo (um Deus trino; Jesus e
Maria são objeto de adoração sobrenatural). A singularidade do Cristianismo
advém de seu monismo. O monismo - vale dizer - é uma posição filosófica segundo
a qual tudo o que existe, toda a diversidade fenomênica do mundo é a
manifestação de uma única substância fundamental. É a natureza metafísica do
Cristianismo (seu monismo) que faz dele uma religião superior. Atendamos nas
seguintes palavras conclusivas do autor:
O
cristianismo não passava de uma história popular aos olhos dos neoplatônicos,
mas era uma história filosófica; situava-se muito acima de um panteão e de uma
poeira de cultos; o cristianismo se considerava a única verdade, impondo-se à
humanidade inteira, dando a todos os homens uma vocação sobrenatural e uma igualdade
espiritual. Uma Igreja una sancionava esse monismo. Era uma religião capaz de
convencer numerosos eruditos e era digna de um grande imperador piedoso como o
jovem Constantino, e digna de seu trono. (ibid., p. 40).
Como religião do
amor, o Cristianismo é a religião da misericórdia infinita de um Deus que se
apaixona (sofre) pela sorte da humanidade, e mais, de cada um de nós. O
paganismo, observa Veyne, não admitia uma relação apaixonada entre o homem e a
divindade. Segundo o autor, “quando um cristão se punha em pensamento diante de
seu deus, sabia que não deixava de ser olhado e de ser amado”. (ibid., p. 41).
Por outro lado, os deuses pagãos viviam para si mesmos. Cristo, o Deus que se
fez carne, sacrificou-se pela humanidade. A figura do Senhor, sua autoridade e
carisma, também é uma razão para o sucesso dessa seita herética. Mas era,
sobretudo, a exaltação da figura sobre-humana de Cristo, anunciada previamente
pelos profetas bíblicos e demonstrada nos milagres, na Ressurreição e nos
ensinamentos do Mestre, que tornou o Cristianismo muito atraente a vários
segmentos sociais. As inúmeras conversões a nova fé se deviam não ao Calvário
do Crucificado, mas ao triunfo da Ressurreição, da vitória sobre a morte.
Cristo era um homem de carne e osso, nisso diferia dos deuses pagãos. Ele viveu
numa época muito receptiva à divinização de homens. Vários Imperadores romanos
foram considerados deuses ou assim se autoproclamavam. Veyne enfatiza também o
papel da moral como um traço distintivo da nova fé. Não se adora o Deus cristão
com oferendas e vítimas sacrificiais, mas se observa a sua Lei. Nas palavras do
autor, “o papel fundamental que a moral desempenha no cristianismo era
amplamente estranho ao paganismo; tratava-se de mais uma originalidade cristã”.
(ibid., p. 43). Os escritos cristãos, surpreendentemente, tratam muito mais da
moral do que do amor. Veyne compara o sucesso do Cristianismo a um best
seller. Trata-se, para o autor, de uma obra-prima mundial, de modo algum
prejudicada pela incoerência que resulta da invenção de um Deus infinitamente
misericordioso e amoroso que reserva aos infiéis um Inferno de sofrimentos
dilacerantes (tratarei disso mais adiante). O Cristianismo criou uma nova
sensibilidade calcada no amor como a virtude maior. Desse modo, serviu de
modelo para as religiões que lhe sucederam - o Maniqueísmo e o Islamismo. Nas
palavras de Veyne, “quaisquer que sejam suas diferenças, nenhuma das três tem
nada em comum com os velhos paganismos ao redor do mundo”. (ibid., p. 45).
Não foi a crença na
imortalidade da alma ou a promessa de uma vida além-mundo que conferem ao
Cristianismo seu caráter superior e original. Não custa lembrar que é preciso
já crer em Deus e amá-lo para ter fé em sua palavra sobre o Além-mundo. O
Cristianismo nascera numa época histórica em que mil doutrinas e lendas sobre a
vida além-túmulo ou sobre a imortalidade da alma eram correntes. O Cristianismo
não podia encontrar aí razões para vangloriar-se. Mas ele ofereceu o Paraíso ou
o Inferno como respostas a duas questões existenciais fundamentais: De onde
viemos? Para onde vamos? A crença num Inferno não deixou de constituir uma
dificuldade para os doutrinadores. Santo Agostinho, por exemplo, chegou a
confessar que a justiça de Deus não é a nossa. Como um deus do amor e da
justiça poderia ser o mesmo deus que preparou um inferno com uma infinidade de
tormentos para os seres humanos que, “ao cabo de uma prova ou de uma loteria da
qual era o inventor” (ibid., p. 49), fracassassem? Todavia, um crente pode amar
fervorosamente Deus, a despeito do Inferno, porque este não se lhe afigura
senão como uma ideia, que não comporta a mesma força afetiva do amor e da fé em
Deus. Como bem observa Veyne, “(...) a incoerência, além de seu grande efeito
melodramático, não leva à revolta ou à descrença: nos cérebros, os afetos e
as ideias não estão na mesma camada”. (ibid., grifo meu). Devemos nos
prevenir contra a suposição de que uma doutrina religiosa deveria organizar-se
segundo os parâmetros da lógica. Mesmo não sendo uma obra de arte, uma religião
deita raízes na mesma capacidade criadora da obra de arte. Isso explica por que
o dogma do Inferno não prejudica a doutrina cristã. Ele é, na verdade, um
atrativo a mais: une o terror ao amor. Que outra característica mais intrigante
poderia ter um best-seller?
Os
inventores do Inferno e das penas eternas em dobro (o fogo, no sentido próprio
da palavra, e o castigo da privação de Deus) acreditaram em um triller
que obtivesse um grande sucesso: aterrorizou um grande público, porque as
pessoas sempre se deixam impressionar pelas ficções apavorantes; quanto aos
autores do triller, sem dúvida lhes agrada imaginar os inimigos da
Verdade sendo queimados. (ibid., p. 50).
No domínio do
imaginário-simbólico, a incoerência não é de todo irremediável. A imaginação se
nutre das tensões, dos impasses, do incompreensível mas apaixonante: um pai
misericordioso mas impiedoso, que nos coloca num jogo de escolha entre a
danação e salvação, que nos ameaça com pavores infernais e que tudo isso seja
santificado, o que mais poderíamos querer de um best seller triunfante?
O medo da danação não refreava as conversões; estas não cessam de acontecer, porque
era a crença num Deus que ama cada um de nós em particular que as motivavam.
Portanto, o motivo para a conversão era mais elevado do que o medo do Inferno
ou da danação.
Reitere-se que não
é a esperança num além-túmulo que levava as pessoas a converter-se ao
Cristianismo. Veyne não vê o Cristianismo como uma religião consoladora. O que
levava alguém a se tornar um neófito era a descoberta de que sua vida pessoal
fazia parte de um grande projeto divino em função do qual ela ganhava um
significado superior (metafísico) e no qual a imortalidade e a incerteza da
Salvação estavam apenas implicadas. A epopeia histórico-metafísica da Criação e
da Redenção descortinada pelo Cristianismo, com seus efeitos de sombra e luz,
nutre-nos com a resposta sobre nossa origem e sobre nosso destino final. Como
observa Veyne, “sem essa epopeia exaltadora, a crença na imortalidade da alma
não seria mais do que uma superstição insuficiente para fazer mudar de vida”.
(ibid., p. 52).
Por fim, outro
aspecto original do Cristianismo é seu sentido agudo de fraternidade. Deus
engloba todo o mundo em seu incomensurável amor e lhe prepara um destino
sublime. O cristão experimenta em seu coração esse amor e encontra a presença
de Deus em si mesmo. O mundo é povoado de homens na sua busca amorosa de Deus.
Ao humilhar-se em face dessa divindade amorosa, o crente sente-se como parte de
um projeto divino superior, confessa-se pecador em face da grandeza do Criador,
oferece a Deus seu coração constrito; reconhece-Lhe a soberania para louvá-la e
exaltá-la. Nossa existência no universo já não comporta mais a chaga do absurdo
de uma breve passagem entre dois nadas - justamente um sentimento devastador
que nem o epicurismo nem o estoicismo conseguiram elidir da alma humana.
Como se vê,
a nova religião suscitava - pelas repostas que dava a esses itens -
interrogações e esperanças mais imensas do que as do intelectualismo impessoal
do neoplatonismo (de onde entretanto sairão em parte a mística sofista e a do
Pseudo-Dionísio). (ibid., p. 53).
Antes de pôr termo
a esta exposição, gostaria de dizer algumas palavras mais sobre o Jesus
histórico. O que podemos saber, com base nos estudos histórico-críticos, a
respeito de quem foi Jesus? Refiro-me, evidentemente, ao Jesus histórico.
Afirmações teológicas sobre sua identidade não podem ser apreciadas por
historiadores; elas pertencem ao domínio da fé. Há algumas certezas, mas também
muitas incertezas sobre quem foi Jesus. A dificuldade de fornecer um retrato
verdadeiro de quem ele foi, do que ele fez e disse deveras decorre dos
seguintes fatos:
1º) Os
historiadores críticos da Bíblia ensinam que não podemos saber quem, de fato, são
os autores dos Evangelhos. Sabemos que, quase certamente, não foram escritos
pelos camponeses humildes que falavam aramaico e que formavam o grupo dos
discípulos próximos de Jesus;
2º) Os Evangelhos
abrigam muitas discrepâncias e contradições. Eles oferecem retratos bastante
diferentes sobre quem foi Jesus, sobre o que ele fez e disse;
3º) Grande parte do
conteúdo dos Evangelhos não é historicamente confiável;
As fontes externas
à Bíblia de que dispomos permitem-nos estabelecer, com segurança, que Jesus foi
um pregador judeu da Palestina do século I. No entanto, elas oferecem
informações escassas quando se trata de saber mais detalhes sobre sua vida. Nem
Josefo, nem Tácito nos ajudam nessa empresa. Paulo fornece-nos algumas
informações importantes, mas não nos brinda com informações mais detalhadas, se
quisermos saber o que exatamente Jesus disse, fez e vivenciou. Urge, aqui,
citar a lição de Ehrman (2014) acerca da inadequação dos Evangelhos canônicos
como documentos históricos:
Os
Evangelhos canônicos estão cheios de informação, mas há discordâncias entre
eles em vários detalhes e os seus panoramas sobre Jesus divergem uns dos
outros, às vezes, radicalmente. Como resultado, as informações que fornecem
precisam ser abordadas com um olhar crítico e atento. (ibid., p. 265).
Malgrado esses
problemas, pode-se estabelecer alguns fatos sobre a vida de Jesus a respeito
dos quais quase todos os estudiosos críticos concordam. Jesus foi um judeu do
norte da Palestina (Nazaré) que viveu, quando adulto, na década de 20 da Era
Comum. Tornou-se seguidor de João Batista e passou a pregar para os judeus nas
áreas rurais da Galileia. Em suas pregações, falava sobre o “Reino de Deus” e
se utilizava de parábolas para transmitir seus ensinamentos. Angariou
discípulos, conquistou reputação curando enfermos e exorcizando demônios. Por
volta de 30 EC., viajou a Jerusalém durante a celebração da Páscoa e atraiu
para si a hostilidade dos líderes judaicos locais, que o denunciaram a Pôncio
Pilatos para ser julgado. Pilatos o condenou à crucificação por ele ter alegado
ser o rei dos judeus. Todavia, há mais coisas sobre Jesus, por exemplo, sobre
que tipo de professor e pregador judeu foi, que não podemos saber. Por isso, os
acadêmicos divergem quanto às imagens atribuídas a Jesus. Alguns acreditam que
ele deve ser considerado, basicamente, um rabino judeu do século I, cujo ministério
tinha por finalidade ensinar a seus seguidores o melhor modo de obedecer à Lei
de Moisés. Outros há que dizem que Jesus era um homem judeu santo, uma espécie
de mago afamado por realizar feitos extraordinários. Outros ainda sustentam que
ele deve ser considerado um revolucionário político cuja missão era provocar a
rebelião armada dos oprimidos contra Roma. Há também aqueles para quem Jesus
era um reformador social, que insistiu em que os judeus deveriam adotar um modo
de vida diferente. Seria Jesus uma espécie de protomarxista ou defensor das
pautas feministas. Por fim, há aqueles que sugerem ser ele uma versão judaica
de filósofo cínico, como aqueles que viveram na Grécia Antiga, cujo trabalho
consistia em incentivar seus seguidores a que desapegassem dos bens materiais
deste mundo e vivessem uma vida simples com parcos recursos.
Segundo Ehrman, a
visão consensual da maioria dos estudiosos, tanto nos Estados Unidos quanto na
Europa, é que Jesus deve ser visto como um “pregador apocalipticista judeu
que previu a intervenção de Deus na história para derrotar as forças do mal que
controlam este mundo e para estabelecer uma nova ordem, um novo reino aqui na
terra, o reino de Deus”. (ibid., p. 266, grifo meu). Jesus não era o único profeta apocalipticista
de seu tempo. Ele acreditava, como outros profetas de sua época, que o fim dos
tempos estava próximo e que esse fim chegaria ainda durante a vida de sua
geração. Por fim, enfatizo que o “Reino de Deus”, de que falava Jesus, não era
um estado celestial, transcendente a este mundo, tampouco um “estado de
espírito”, mas um reino imanente e concreto, que se realizaria aqui na terra.
[1] Cf. SCOFANO, Reuber; MAIA, Maria
Vitoria C.M. Gilbert Durand e a imaginação simbólica. In: AZEVEDO, Nyrma Souza Nunes; SCOFANO, Reuber. Introdução aos pensadores do imaginário. Campinas: Editora Alínea, 2018, p.
96.
[2] DURAND, ibidem, p. 59.
[3] CAPRA, Fritjof; LUISI, Pier Luigi.
A visão sistêmica da vida: uma concepção
unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. Tradução de Mayra Eichemberg e Newton
Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 2014.
[4] SCOFANO, Reuber G. A imaginação em
Gaston Bachelard. In: AZEVEDO, Nyrma Souza Nunes; SCOFANO, Reuber. Introdução aos pensadores do imaginário. Campinas: Editora Alínea, 2018, p.
92.
[5] Ibidem.
[6] DURAND, ibidem, p. 18. (grifos
nossos).
[7] Ibidem, p. 31. (grifo nosso).
[8] Ibidem, p. 432.
[9] PITTA, Danielle Perin Rocha. Iniciação à teoria do imaginário de Gilbert
Durand. Curitiba: CVR, 2017.
[10] Ibidem, p. 20.
[11] Ibidem. (grifo nosso).
[12] Ibidem, p. 17.
[13] Ibidem.
[14] Ibidem.
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