SAPERE
AUDE
A
razão e a lógica
Steven
Pinker, em Racionalidade: o que é, por que parece estar em falta, por
que é importante (2021, p. 52), define a racionalidade como “a
capacidade de empregar o conhecimento para atingir objetivos”. Considerando-se
a definição clássica de conhecimento como “crença verdadeira justificada”,
diz-se que alguém é racional se age com base em crenças reconhecidamente
verdadeiras. Ninguém seria considerado um ser racional se orientasse seu
comportamento ou sua conduta com base em crenças sabidamente falsas. Ademais, como observa Pinker, um agente
racional “precisa ter um objetivo, seja o de confirmar a veracidade de
uma ideia notável, chamado de razão teórica, seja o de produzir um resultado
notável no mundo, chamado razão prática”. (ibid., p. 53, ênfase no original).
Um agente racional, uma vez tendo fixado um objetivo, se valerá de todos os
meios disponíveis e adequados para atingi-lo. Assim, para todo agente racional,
o objetivo perseguido é fixo, e os meios para alcançá-lo variarão de acordo com
as circunstâncias. Romeu deseja Julieta e fará de tudo para beijá-la; e se um
muro se erguer entre ele e a amada, ele não ficará forçando o rosto contra o
muro, mas buscará ultrapassá-lo, escalando-o ou empregando algum outro meio.
A defesa da razão,
em toda e qualquer época em que ela parece ameaçada, orienta-se por uma
exigência: ser racional ou agir racionalmente é assumir o dever de “alicerçar
nossas crenças na verdade, a nos certificarmos de que nossa inferência a partir
de uma crença rumo a outra é justificada e a fazer planos que tenham a
probabilidade de produzir certo resultado”. (ibid., p. 53-54). Não se segue daí
que ser racional significa seguir sempre a lógica dos manuais especializados. A
lógica formal não é o mesmo que raciocínio, embora se relacione com ele.
Constituem ferramentas intelectuais necessárias ao raciocínio sólido: a lógica,
o pensamento crítico, a probabilidade, a correlação e a causalidade.
São estes os melhores meios por meio dos quais adequamos nossas crenças e nos
comprometemos com decisões a partir de evidências incertas. São também os
parâmetros mais adequados para a tomada de decisões racionais, quer individual,
quer coletivamente. O domínio dessas ferramentas do raciocínio é imprescindível
para evitar a infestação da insensatez em nossa vida individual e nas práticas
sociais de que participamos. Elas nos ajudam a mensurar escolhas arriscadas,
permite-nos avaliar alegações duvidosas, entender paradoxos embaraçosos e obter
o conhecimento necessário para enfrentar as vicissitudes e tragédias da
existência. Muitos agem ou agiram, em vários períodos históricos, tomando como
obsoleta a razão. Quando participamos de um evento sociocomunicativo cujo
propósito basilar é persuadir ou convencer outros, assumimos, ainda que
tacitamente, o compromisso de seguir a razão, isto é, de não aceitar argumentos
que não sejam submetidos à avaliação crítica, que não tenham sido justificados.
Quando argumentamos contra a razão, apresentamo-nos, de antemão, como
perdedores no debate, porquanto estamos recorrendo à própria razão para
desacreditá-la. A defesa da razão não redunda num apelo a que acreditemos nela,
mas numa demonstração do porquê deveríamos segui-la. Embora não possamos provar
que a verdade pode ser conhecida,
podemos chegar a verdades objetivas. Como lembra Pinker, a razão tem valor
porque ela funciona. Quando a razão busca esclarecer a si mesma, descobre em si
suas regras, que podem ser aperfeiçoadas, a fim de que se elaborem modelos
normativos de lógica e probabilidade.
Convém advertir ao leitor que não ignoro os limites
da razão, sobre os quais muita tinta se derramou no decurso da história da
filosofia. Outrossim não negligencio o fato de que a racionalidade é, na vida
diária, perturbada pelos chamados “vieses cognitivos” e pela dissonância
cognitiva (Aroson, 2023). O estudo do funcionamento desses vieses e da
dissonância cognitiva não é só fascinante, como também lança luzes sobre nossa
suscetibilidade a erros, a formas de agir e pensar irracionais. Como argumenta
Aroson, em seu premiado O animal social (2023), uma parte considerável
do pensamento humano não é racional, mas racionalizador. A teoria da
dissonância cognitiva prediz que as pessoas tendem a se lembrar de argumentos
plausíveis que confirmam a própria opinião e dos implausíveis que invalidam a
posição oposta. Somos capazes de agir racionalmente; todavia, “todos somos
capazes de nos comportar irracionalmente quando precisamos reduzir a
dissonância”. (ibid., p. 87). Dado que a
experiência da dissonância cognitiva é desagradável, buscamos reduzi-la.
Abrigar duas ideias que se contradizem mutuamente é
flertar com o absurdo, e, como observou o filósofo existencialista Albert
Camus, os humanos são criaturas que passam a vida tentando se convencer de que
sua existência não é absurda. Como nos convencemos de que nossa vida não é
absurda? Ou seja, como reduzimos a dissonância cognitiva? Fazemo-lo alterando
uma ou ambas as cognições, de modo a torná-las mais compatíveis (mais
consonantes) uma com a outra, ou adicionando mais cognições que ajudam a
reduzir as diferenças entre as cognições iniciais. (ibid., p. 82).
Como minha
preocupação, neste texto, não é investigar os fatores (psicológicos,
neurobiológicos, sociais) que nos levam a comportamentos irracionais, atenho-me
na discussão sobre o valor da razão. Se,
por um lado, seguir a razão não é seguir a lógica formal, já que “a lógica
jamais governará o mundo”. (Pinker, ibid., p. 110), espera-se que agentes
racionais não renunciem à lógica. A lógica formal ignora o conteúdo das
proposições. O raciocínio baseado exclusivamente na lógica supõe que esqueçamos
tudo que já sabemos. A lógica formal não se preocupa com o significado de seus
símbolos, nem com nossos saberes prévios que influenciam nossas deliberações.
Nesse sentido, a lógica não é razoável. Na vida prática e na maior parte das
atividades em que estamos inseridos, não é razoável ignorar nossos
conhecimentos prévios. Conquanto ignorar tais conhecimentos seja desejável em
certos domínios do conhecimento especializado (na matemática, nas ciências),
“no mundo natural, as pessoas se saem bastante bem quando combinam suas
capacidades lógicas com seu conhecimento enciclopédico”. (ibid., p. 112).
Deveras, a racionalidade que orienta nossa vida diária é uma racionalidade
ecológica, ou seja, uma racionalidade que se baseia nos saberes prévios
armazenados em nossa memória, que são partilhados por uma comunidade e que
demandam o apoio da experiência.
Ainda que
parte considerável de nosso comportamento seja irracional, no sentido de ser
mal adaptativo para o aprendizado de coisas novas ou para encontrar soluções
reais para nossos problemas (Aroson, 2023), e ainda que a racionalidade
aplicada no dia a dia não seja regulada exclusiva e estritamente pela lógica
formal, a razão não pode prescindir de certos princípios lógicos. Cuido
oportuno trazer à baila algumas noções de lógica formal e comentar algumas
falácias em que incorremos.
1.
Noções de
Lógica: tipos, raciocínios e falácias
Principio por
tecer algumas considerações sobre o que é a Lógica, sobre seu escopo e
linhas de desenvolvimento. A Lógica pode ser definida como o setor ou
área da Filosofia que se ocupa do aspecto racional do pensamento. Em
sentido lato, a Lógica é o estudo da estrutura e dos princípios da argumentação
válida, mormente, da inferência dedutiva e dos métodos de prova e demonstração.
Na tradição dos estudos lógicos, pode-se discriminar entre três concepções de
Lógica:
1)
Lógica
como ciência da realidade
À luz dessa concepção, a Lógica refletiria a
estrutura da realidade, já que as suas categorias, como a de sujeito e
predicado, e os seus princípios, como a lei da identidade e do terceiro
excluído refletiriam categorias e princípios ontológicos. Esta é,
basicamente, a concepção aristotélica de lógica, predominante em grande parte
do pensamento antigo e medieval e cujos rastos se pode ver em certas lógicas
contemporâneas como a do platonismo de Frege (Japiassú & Marcondes, 2008).
2)
Lógica
com ciência do pensamento
As categorias da Lógica e seus princípios
refletiriam, nesse caso, a estrutura e o funcionamento do pensamento humano,
especificamente do raciocínio dedutivo. Essa visão é característica do
pensamento moderno, tendo na Logique de Port-Royal (1662), de que são
expoentes Antoine Arnauld e Pierre Nicole, seu maior representante.
3)
Lógica
como ciência da linguagem
É a mais
contemporânea concepção de Lógica. A lógica é a ciência das linguagens formais
e das categorias e princípios que empregamos para a construção de sistemas
formais, para operar com esses sistemas e para fundamentar sua validade.
Chama-se Lógica
clássica ou Lógica antiga à Lógica aristotélica-escolástica (quer na
forma medieval, quer na neo-clássica). Por vezes, essa designação recobre os
trabalhos, em Lógica, desenvolvidos entre Aristóteles e a Escolástica Medieval.
De modo geral, a Lógica Tradicional recobre toda a lógica antiga e a
medieval. Lógica Antiga é o nome dado à Lógica grega e
helenística-romana, desde os pré-socráticos até, aproximadamente, Boécio. A Lógica
Moderna, da Idade Média até Boole, tem sido considerada uma arte de
pensar ou medicina do espírito.
A distinção entre Lógica Formal e Lógica
Material repousa na distinção entre validade e verdade. O conceito central
da Lógica é o de consequência lógica. Em outras palavras, a
Lógica se ocupa do estudo dos argumentos válidos, os quais se caracterizam por
serem aqueles em que a conclusão se segue logicamente das premissas. Assim, validade
é a propriedade da forma do argumento. A validade nada diz sobre o conteúdo
proposicional das sentenças que compõem o argumento. Um argumento é, portanto,
válido se, sendo necessariamente verdadeiras as premissas, a conclusão é
necessariamente verdadeira. Um exemplo de argumento válido é o silogismo
abaixo:
(1) Todo carioca é brasileiro
Zico é carioca
Zico é brasileiro
Por outro lado, a verdade se define como
correspondência entre a proposição e a realidade. A Lógica Material,
tendo como escopo o conteúdo das premissas, está interessada em determinar se
elas são verdadeiras com referência à realidade. Em nosso exemplo (1), as
premissas não são apenas válidas, mas também verdadeiras. Mas podemos ter um
argumento válido, sem que suas premissas sejam verdadeiras. É da forma do
argumento que se ocupa a Lógica Formal. Ela consiste em uma investigação das
categorias e princípios por meio dos quais pensamos sobre as coisas, do ponto
de vista apenas da forma ou estrutura do pensamento, abstração feita de seu
conteúdo. A Lógica Formal é a lógica aristotélica. A Lógica Aristotélica
divide-se em: 1) Lógica do conceito, que se ocupa dos termos ou das
categorias que utilizamos para pensar; 2) Lógica das proposições, que se
ocupa do modo como construímos nossos juízos, relacionando conceitos e
expressando-os em proposições; 3) Lógica do silogismo, cujo fim é
examinar como se relacionam inferencialmente as proposições para delas extrair
conclusões.
O caráter formal da lógica aristotélica pode ser
representado pelo uso de variáveis. Assim, da proposição “Todo A é B”, podemos
inferir que “Algum B é A”, mas não que “Todo B é A”, quaisquer que sejam os
referentes de AA e BB. Segue-se o exemplo abaixo:
(2) Todo cachorro é mamífero
A B
De (2),
podemos deduzir que “Algum cachorro é mamífero”, mas não que “Todo mamífero é
cachorro”.
1.2. O
Silogismo
Vou-me deter um pouco nas considerações sobre a Lógica do
Silogismo, um dos legados mais importantes de Aristóteles para a história do
pensamento. O silogismo é um raciocínio completo, explícito,
desdobrado, que se constitui de três juízos, dois dos quais são premissas; e o
terceiro, a conclusão. Veja-se o exemplo abaixo:
(3) Todos os pernambucanos são brasileiros - PREMISSA MAIOR
João é pernambucano
- PREMISSA MENOR
João é brasileiro
- CONCLUSÃO
Note-se que, sendo verdadeiras as premissas,
segue-se que a conclusão é necessariamente verdadeira. Para que possamos
determinar a validade do silogismo, precisamos compreender a sua estrutura. O
silogismo, portanto, se compõe de três termos:
a) TERMO MAIOR: o mais abrangente (brasileiros), que se acha na PREMISSA MAIOR e na
CONCLUSÃO.
b) TERMO MÉDIO: possui abrangência média (pernambucano).
c) TERMO MENOR: é o mais específico, menos abrangente (João).
Observe-se que o termo médio aparece nas
duas premissas, mas nunca na conclusão. A premissa maior contém o termo maior;
e a premissa menor, o termo menor (além do médio). Há, segundo Aristóteles,
três figuras do silogismo. Será bastante apresentar um exemplo da
primeira figura. Na primeira figura, o termo médio é sujeito da premissa
maior e predicado da premissa menor. Segue-se o exemplo abaixo:
(4) Todo gato é um mamífero
Nina é um gato
Nina é um mamífero
O núcleo “gato” é sujeito na premissa maior (Todo
gato é mamífero) e predicado da premissa menor (Nina é um gato). Uma forma
inválida do argumento ilustra-se no caso (5):
(5) Todo mamífero é um gato
Nina é um gato
Nina é um mamífero
Em (5), o termo médio “gato” é predicado da
premissa maior e não aparece na conclusão, infringindo o que prevê a primeira
figura do silogismo. Claro está que a premissa maior é falsa: nem todo mamífero
é gato. Cachorros, baleias, morcegos são mamíferos também.
Cumpre
acrescentar que a Lógica Formal constitui a base de todas as operações
mentais, as quais se expressam nos seguintes princípios:
1) Princípio da identidade (que depende do princípio da razão suficiente):
Todo A é A. Tudo que existe tem uma razão para existir (princípio da razão
suficiente).
2) Princípio da não contradição: uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao
mesmo tempo e sob as mesmas condições. João não pode ser casado e solteiro ao
mesmo tempo.
3) Princípio do terceiro excluído: Ou está chovendo agora em São Pedro da Aldeia, ou
não está chovendo.
1.3. A Lógica das proposições: o caso da implicação
Uma
implicação de pensamentos só será falsa, se o antecedente for verdadeiro, e o
consequente for falso. Veja-se o exemplo abaixo, ao qual se segue o esquema de
condições que, satisfeitas, tornam verdadeira a implicação:
(6) Se uma pessoa está com febre, então ela está
doente.
a) p (V) e q (V) = V
b) p (V) e q (F) = F
c) p (F) e q (V) = V
d) p (F) e q (F) = V
As letras “p” e “q” representam, respectivamente, o
antecedente (primeira oração) e o consequente (segunda oração). Veja-se que a
única possibilidade de a implicação ser falsa é se “p” for verdadeiro, mas “q”
for falso.
A Lógica das proposições é o estudo do modo
como construímos nossos juízos. Convém, portanto, definir o que é um juízo. Juízos
são sentenças que vinculam conceitos mediante o verbo “ser”. Um exemplo de
juízo é a frase “Minha cadeira é confortável”. Tradicionalmente, distingue-se
entre dois tipos de juízo: a) juízo analítico e b) juízo sintético.
Kant reuniu a estes dois o juízo sintético a priori. Todavia, não
me ocuparei da explicação deste último, já que ela excederia os objetivos desta
exposição. Detenho-me na explicação dos juízos analítico e sintético. O juízo
analítico é sempre a priori, o que significa dizer que sua verdade
independe da experiência, ou seja, determinamos sua verdade apenas considerando
a relação significativa entre seus termos. Por exemplo, no juízo, “Nenhum
solteiro é casado”, exprime-se uma verdade porque o conceito de “solteiro”
implica o conceito de ‘não casado’. Portanto, no juízo analítico, o
predicado (casado) nada acrescenta ao sujeito (solteiro), já que na ideia
expressa no sujeito está contida a ideia do predicado. Por outro lado, no juízo
sintético, o predicado acrescenta uma qualidade ao sujeito. Atente-se para
o exemplo abaixo:
(7) João é honesto.
O predicado
“honesto” acrescenta uma qualidade ao sujeito “João”.
Os juízos também podem ser classificados segundo os
critérios de qualidade da cópula (“ser”), da qual resultam os juízos afirmativos,
negativos e indefinidos (João é médico, João não é médico, João é
não médico (mas pode exercer qualquer uma das inúmeras profissões existentes));
de quantidade do sujeito, do que resultam os juízos universais, particulares
e singulares (Todos os pernambucanos são brasileiros, Alguns brasileiros
são pernambucanos, João é médico). Coube a Miguel Psellos, teólogo-filósofo
bizantino, cruzar os critérios de qualidade da cópula e quantidade do sujeito,
estabelecidos por Aristóteles, representando os cruzamentos num quadro que se
tornou consagrado, em virtude de sua praticidade e simplicidade. De seu
empreendimento, segue-se o seguinte resultado: A = Universal afirmativo; I =
Particular/Singular afirmativo; E = Universal negativo; O = Particular/Singular
negativo. Abaixo, dispõem-se um exemplo de juízo para cada tipo:
A - Universal afirmativo = Todos os alunos são
cariocas
I - Particular/Singular afirmativo = Alguns
alunos são cariocas
E - Universal negativo = Nenhum aluno é carioca.
O - Particular/singular negativo = Alguns alunos
não são cariocas
Se atentarmos para os tipos acima elencados, vemos
que “I” está contido em “A” (se é verdade que TODOS OS ALUNOS SÃO CARIOCAS, é
verdade também que ALGUNS ALUNOS SÃO CARIOCAS). Igualmente, vemos que A/O e E/I
são irreconciliáveis, ou seja, não podem ser verdadeiros e falsos ao mesmo
tempo. Se dissemos “é verdade que todos os alunos são cariocas”, não podemos
assumir como verdadeiro que “alguns alunos não são cariocas”, sem incorrermos
em contradição. Todavia, os pares A/E e I/O se opõem, mas não se contradizem,
porque, embora não possam ser simultaneamente verdadeiros, podem ser
simultaneamente falsos. Há, portanto, oposição, mas não contradição entre
“Todos os alunos são cariocas” e “Todos os alunos não são cariocas”;
correlativamente, há oposição, mas não contradição entre “Alguns alunos são
cariocas” e “Alguns alunos não são cariocas”. Por outra lado, se dizemos “É
verdade que todos os alunos são cariocas”, incorremos em contradição se
admitirmos, simultaneamente, que “É verdade que alguns alunos não são cariocas”.
Considere-se o exemplo a seguir, a fim de verificarmos quais inferências são
possíveis e quais não o são:
(8) É verdade que todas as garrafas são refrigerantes.
De (8), que
ilustra um juízo universal afirmativo (A), podemos inferir “I”, “Algumas
garrafas são refrigerantes”. Ora, está claro que da afirmação da totalidade
podemos inferir a afirmação de partes, de um subconjunto dessa totalidade. Se é
verdade que todos os “x” são “y”, segue-se verdadeiro que alguns “x” são “y”.
No entanto, de “Todas as garrafas são refrigerantes”, não podemos inferir
“Nenhuma garrafa é refrigerante”. A razão é evidente, por isso dispensa
explicações.
Na próxima
subseção, dou a conhecer e comento alguns casos comuns de falácias, entre as
quais se encontram algumas que frequentam o discurso religioso/teológico.
1.4.
Falácias: enganos e trapaças
A palavra
“falácia” vem do latim fallacia, fallaciae e significa ‘engano’,
trapaça’, ‘manha’. Embora aparentada a “sofisma”, que remonta ao grego sofisma,
sophismatos e significa ‘habilidade’, ‘destreza’, ‘invenção engenhosa’,
‘expediente’, ‘artifício’ ou ‘intriga’, “falácia” se distingue desse termo
grego, porque falácias não são intencionais, ao contrário dos sofismas, que são
formulados propositalmente para confundir.
Vou referir e
comentar alguns casos de falácias. Tomem-se os casos típicos do discurso
religioso ou teológico.
a)
Conclusão
que nega as premissas
Nesse tipo de
falácia, começa-se sustentando que certas coisas têm de ser verdadeiras e
termina-se com uma conclusão que contradiz as premissas iniciais. Quando a
conclusão não é consistente com os argumentos que nos permitem chegar a ela,
então há algum problema com o raciocínio. Veja-se o exemplo abaixo:
(9)
Não se pode
ter certeza de nada neste mundo.
Diante de (9), um interlocutor poderia indagar
“você tem certeza disso?”. Tendo respondido afirmativamente “tenho certeza”, o
locutor de (9) comete uma falácia por inconsistência. Como pode ser verdadeiro
que “de nada podemos ter certeza” e também verdadeiro que “estou certo de que o
enunciado é verdadeiro”? Se a conclusão contradiz, pelo menos, uma das
premissas, tem de estar errada. A conclusão, portanto, pode ser falsa em si
mesma, ou pode derivar de falsas premissas. Os argumentos religiosos são exemplos
prototípicos dessa falácia, em que a conclusão nega as premissas. Senão,
vejamos.
(10) Tudo tem de ter uma causa. Cada coisa existente tem
uma causa prévia. Não podemos retroceder indefinidamente na série de causas.
Portanto, tem de haver uma causa incausada que deu início ao processo. Essa
causa incausada é Deus.
Note-se, contudo, que a primeira premissa começa
com “tudo”. Diz-se que “tudo tem de ter uma causa”. Se tudo deve ter uma causa,
não pode haver, logicamente, uma causa não causada, ou seja, uma causa que não
tenha outra causa prévia. Uma variante dessa falácia é o exemplo abaixo:
(11) Nada é
eterno. Tem de haver, portanto, um início para tudo. Logo, tem de haver um Deus
que deu início a tudo.
Um Deus que seja eterno, é claro.
Quanto maior for a distância entre a conclusão que
nega as premissas e seu enunciado, tanto maior será a probabilidade de o
interlocutor não identificar a contradição. Se a conclusão encerra uma
referência a coisas que são comumente assumidas como dotadas de propriedades
excepcionais, a falácia não é reconhecida, na maioria das vezes.
b)
Petição
de princípio
A petição de princípio é também comum no discurso
religioso. Por meio dela, conclui-se com aquilo que se pretende provar.
(12) A Bíblia é a
Palavra de Deus?
Como você sabe?
Porque ela mesma o diz.
Veja-se a circularidade do raciocínio. Busca-se saber por que a Bíblia é
a Palavra de Deus. Como podemos provar que ela é a Palavra de Deus? Deveríamos
buscar fora da Bíblia a prova de que ela é a Palavra de Deus. Não podemos
oferecer como prova ou evidência aquilo que pretendemos provar. A conclusão do
raciocínio é assumida, de antemão, na premissa.
c) Falsa dicotomia
Nesse caso, reduz-se uma situação complexa a duas alternativas extremas
e opostas, ignorando-se opções intermediárias. Veja-se o exemplo abaixo:
(13) Ou você
acredita em Deus ou sua vida não tem sentido nenhum.
A vida de um ateu pode ter sentido de outras
maneiras. Como já mostrei em outro texto publicado neste blog, os
sentidos são construídos em processos de produção social e historicamente
determinados. Todas as significações que organizam a experiência humana, que
dotam de coerência, importância a existência humana, individual ou
coletivamente, são produtos do imaginário-simbólico socialmente instituído. A
descrença em Deus não torna a vida sem sentido. Outras tantas crenças e
atividades ou instituições humanas podem dar sentido a uma vida individual
(família, amizade, o amor, o trabalho, a produção artística, etc).
d) Falácia do Deus das lacunas
Trata-se de uma falácia do tipo “tapa-buraco”. Na
ausência de explicações científicas para um dado fenômeno, postula-se que a
única explicação possível é de ordem sobrenatural.
(14) Como a
Ciência não consegue explicar a origem da consciência, então essa origem é
Deus.
Uma resposta simples e que vale para tudo, como a
que apela a Deus, não só não explica nada, não faz avançar o conhecimento
científico, como também enfraquece a fé, quando uma explicação natural revela a
causa do fenômeno.
e)
Apelo às
consequências
Também chamado de agumentum ad consequentiam,
nossa quinta falácia consiste em julgar verdadeira ou falsa uma afirmação, com
base nos resultados que o seu estado-de-coisas acarretaria, e não com base nas
evidências disponíveis.
(15) Se Deus não existir, a moral carece de fundamento;
logo, Deus existe.
f)
Apelo à
autoridade
Assume-se que uma afirmação é verdadeira porque
alguma autoridade (um texto sagrado, um cientista, um sacerdote, um professor)
o disse.
(16) Cristo
ressuscitou e isso é verdade, porque está na Bíblia.
g)
Falsa
causa (post hoc)
(17) Rezei e
depois consegui o emprego; a oração casou o emprego.
Post hoc ergo propter hoc - Depois
disso, logo, por causa disso.
Se um evento acontece após o outro, o segundo é
assumido como consequência do primeiro. A falácia consiste em concluir que A
casou B, porque A ocorreu antes de B (e não há evidências para provar a verdade
de tal afirmação). Nem sempre é verdade que o primeiro evento produziu o
segundo.
O pensamento supersticioso é farto de falsas
causas. Se passei debaixo da escada e, em seguida, bati com o dedão do pé numa
pedra que estava mais adiante, não foi o fato de passar debaixo da escada que
causou o acidente; apenas estava distraído, dei um passo em falso. Se a
inflação entra em queda após a eleição do novo governo, não se segue que o novo
governo tenha, necessariamente, causado a queda da inflação. Sua queda pode
decorrer da confluência de várias causas. Reitere-se: dados dois eventos
subsequentes, não é necessário que o primeiro tenha causado o segundo. A causalidade
precisa ser demonstrada ou provada empiricamente.
Vejamos, agora, outros tipos de falácia correntes no
uso da língua no dia a dia.
h)
Falácia
da negação do antecedente
Num enunciado em que há relação de implicação com
um antecedente na forma condicional (Se p, então q), negar o antecedente é uma
forma de falácia, porquanto atribui-se somente uma causa a um evento para o
qual pode haver várias causas.
(18) Se ele for
lento, perde a corrida. Ele não é lento, então não perderá a corrida.
Mas ele pode perdê-la por incompetência.
Não se incorre em falácia, se afirmamos o
antecedente. Trata-se do modus ponens, ou modo de afirmar. Se A, então
B. A, Logo B.
(19) Se chover, a
rua ficará molhada. Choveu, logo a rua está molhada.
Pode-se negar o consequente, caso este chamado de modus
tollens (modo de negar). Se A, então B. Não B, logo não A.
(20) Se choveu, a rua está molhada. A rua não está
molhada, logo não choveu.
i) Falácia da afirmação do consequente
Outrossim, se
afirmamos o consequente, produzimos uma falácia. Se A, então B. B, então A.
(21) Se uma
pessoa toma veneno, ela morre. Uma pessoa morreu, logo tomou veneno.
O erro
consiste em ignorar que a morte dessa pessoa pode ter múltiplas outras causas.
j) Apelo à força
O apelo à
força é também chamado argumentum ad baculum ou argumento do porrete.
Tenta-se vencer um debate, ou levar o interlocutor a aceitar uma opinião ou a
adotar um comportamento desejado, recorrendo-se a ameaças, em vez de se lhe
apresentar boas razões. Seguem-se alguns exemplos comuns:
(22) Você deve
aceitar minha condição, se quiser manter o emprego.
(23) Seria uma
pena se sua loja pegasse fogo por acidente. Então, é melhor aceitar o meu
preço.
(24) Quem
discorda dessa pauta, perde apoio de vários partidos. Então, é melhor a
apoiarmos.
Como se vê,
esse tipo de falácia é, na verdade, uma renúncia à argumentação, já que a
ameaça substitui o argumento. Na falta de um bom argumento, busca-se provocar
no outro o comportamento desejado, ameaçando-o ou, como no último exemplo,
sugerindo-lhe a consequência indesejável que sua decisão contrária acarretaria
(se você não apoiar a pauta, perderemos o apoio partidário). A falácia do
porrete mostra com que facilidade podemos recusar o contrato comunicativo
tácito em que se baseia o uso da razão, em favor de nossa posição de poder, de
nossa força física para fazer com que o outro adote o comportamento que
desejamos.
Não é
escusável insistir em que o lógos é filho da pólis, exercita-se e
floresce na ágora, onde se encontram debatedores, e não na arena de gladiadores.
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