SAPERE AUDE
Razão, Fé e Sabedoria divina
A presente
exposição está organizada a partir do objetivo basilar de discutir como a
razão foi concebida e situada na produção teológica desenvolvida na chamada
Filosofia Medieval. Mais precisamente, debruçar-me-ei sobre o lugar da
razão (e da filosofia antiga) na Filosofia Medieval e discutirei a relação delas
com a fé nestes quatro teólogos representativos da dogmática cristã, a saber,
Clemente de Alexandria (150-215 d.C), Justino (100 - 165 d.C), Tertuliano (160-220
d.C) e Orígenes (185-254 d.C). Antes, todavia, de me debruçar sobre o status da
razão (e da filosofia) e sua relação com a fé no pensamento de cada um dos
teólogos referidos, descerra-se, nesta primeira parte, um itinerário analítico
que se divide nos seguintes momentos de investigação: primeiramente, assinalo
quais eram as preocupações da ontoteologia (uma união de ontologia com
teologia) produzida no período da chamada Filosofia Medieval e modalizo minha
afirmação, enunciada no texto anterior, de que o esforço levado a efeito pelos
autores cristãos na tentativa de conciliar a razão com a fé nunca se
realizou sem que a razão fosse sacrificada em proveito da fé. Não se deve
subestimar o engenhoso trabalho dos autores cristãos na construção de uma
metafísica cristã por meio da ressignificação e reinterpretação dos conceitos
hauridos da filosofia grega. Essa metafísica cristã, é verdade, está a serviço
da preocupação principal da teologia que consiste em possibilitar a exegese
bíblica e a compreensão da fé cristã e da natureza do Deus cristão. Mesmo as
meditações “filosóficas” desenvolvidas pelos teólogos cristãos estão a serviço,
em última instância, do ensino catequético. Num segundo momento, me detenho na discussão
sobre a ontoteologia cristã, destacando suas características essenciais e
esclarecendo o conceito de seu Deus. Cumpridas essas duas etapas, farei
incursões no pensamento dos autores cristãos supramencionados com o fito de
determinar como eles pensaram a relação da razão filosófica com a fé cristã quando
da elaboração da defesa dessa fé.
1.
A Filosofia Medieval: o
encontro da fé com a razão filosófica
A
finalidade da metafísica cristã (termo cujo emprego me parece mais exato do que
“filosofia cristã”, pelas razões já expostas no texto anterior) é, conforme
observa Gilson (2012), a elucidação da fé. Embora tenda a se ocupar de todo e
qualquer problema filosófico, nem todos os problemas herdados da tradição
filosófica grega interessam aos teólogos cristãos, pela simples razão de não
terem relação com a fé. De modo geral, pode-se dizer que a atenção dos teólogos
cristãos foi atraída por duas ordens de questões. Na primeira ordem, situam-se
problemas básicos da metafísica-teologia, tais como o da existência e da
imortalidade da alma, o da liberdade, o da natureza de Deus, etc. Na segunda ordem,
encontram-se questões de natureza lógica e epistemológica, as que tocam à
divisão e à estrutura das ciências, e problemas gerais que se situam no âmbito
da filosofia da natureza.
Insto em
que Gilson (2012) admite a existência de uma filosofia cristã, posição que não
acompanho, mas ressalta que “há um nexo íntimo entre a especulação filosófica e
as doutrinas teológicas cristãs”. (ibid., p. 11). O próprio Gilson afirma
haver, no entanto, uma diferença essencial entre a filosofia e a teologia
cristãs: a teologia cristã se constituiria de proposições alicerçadas na crença
na Revelação divina; por outro lado, a filosofia cristã se ocuparia das verdades
naturalmente conhecidas, ainda que estas sejam consideradas meios para ascender
às verdades reveladas. Vê-se que a relação entre filosofia cristã e teologia
cristã é sempre tensionada, de modo que a “filosofia” desenvolvida pelos
autores cristãos jamais pode contrariar as verdades de fé formuladas pela
Igreja. Consoante nota Gilson, “admitindo embora a falibilidade da filosofia
cristã (...), nenhuma filosofia cristã tolera a contradição aberta e claramente
consciente à doutrina da igreja”. (ibid..p. 12). Urge acrescer que, segundo o
autor, “uma filosofia cristã deve originar-se sob a influência da fé cristã”.
(ibid.). Do exposto pode-se concluir que, a despeito de encontrarmos aqui e ali
autores cristãos mais bem dispostos para harmonizar as exigências da razão com
os mandamentos da fé, em qualquer caso, a fé é a medida para conhecer a Verdade
(Deus) e fruir a Sabedoria divina, que, aliás, é superior à sabedoria dos
filósofos. Longe de subestimar o notável esforço empreendido pelos Pais da
Igreja no desenvolvimento de doutrinas orientadas pela preocupação de
esclarecer racionalmente a fé cristã, mantenho que, via de regra, os autores
cristãos não podiam seguir o rigor crítico radical exigido pela investigação
racional inaugurada pelos gregos há mais de 2.500 anos a.C, sob pena de sacrificar
a fé. A fé tem sempre um estatuto superior à razão. Não é a razão que ilumina a
fé, mas esta que ilumina a razão.
Às lições
de Gilson trazidas à baila acrescentam-se as de Marcondes (2008)em proveito da
validação de minha opinião acerca do que foi, basicamente, a Filosofia
Medieval: não uma tradição filosófica cristã, mas uma tradição cristã em que se
observa uma tendência sistematizadora no esforço por reunir teologia e
metafísica “numa visão unitária do mundo” (Gilson, ibid., p. 14). A Filosofia
Medieval teve de enfrentar o problema da justificação da relação entre o
cristianismo, uma religião revelada, e a filosofia grega, a qual, desde seu
surgimento, pretendeu romper com o pensamento mítico-religioso. (Marcondes,
2008).
Em
consonância com a tradição que remonta a Orígenes, a filosofia e a cultura
gregas, em geral, constituíram um terreno fértil para fazer vicejar o
cristianismo. Filósofos gregos como Sócrates, Platão e alguns estoicos seriam
os precursores do cristianismo (na visão dos autores cristãos!), porquanto eram
eles homens dotados de virtude e sabedoria. Só não foram cristãos porque
viveram antes de Cristo.
Quando
tomamos a relação entre a filosofia e a religião cristã, ou a relação entre a
razão e a fé, nas discussões que se travavam nos concílios, observamos que era
comum que se recorresse a elementos da filosofia grega para a defesa de
determinados pontos doutrinários, para a fixação dos dogmas ou para a
condenação de heresias. É a partir de então que a filosofia grega será
incorporada definitivamente à tradição cristã, conferindo o alicerce para o
desenvolvimento do pensamento medieval. O desenvolvimento do pensamento cristão
conta também com o auxílio da lógica e da retórica, indispensáveis aos
processos de argumentação e à interpretação da Bíblia. A metafísica platônica e
aristotélica, especialmente, ofereceu os conceitos-chave (como substância,
essência, o Bem, etc.) com base nos quais questões teológicas, tais como a
unidade da Santíssima Trindade e a natureza de Cristo, são discutidas. Como
ensina Marcondes (2008), os teólogos cristãos buscaram nos textos dos filósofos
gregos os elementos que cuidavam fossem consistentes com os preceitos do
cristianismo.
Em
síntese, podemos dizer que a leitura que os primeiros pensadores cristãos fazem
da filosofia grega é sempre altamente seletiva, tomando aquilo que
consideram compatível com o cristianismo enquanto religião revelada. Portanto,
o critério de adoção de doutrinas e conceitos filosóficos é, via de regra,
determinado por sua relação com os ensinamentos da religião (...). (Marcondes, ibid.,
p. 111).
Por
conseguinte, os teólogos cristãos adotaram, preferencialmente, a metafísica
platônica, com seu dualismo entre mundo sensível e mundo suprassensível; se
serviram da lógica aristotélica, que lhes oferecia os recursos demonstrativos e
dialéticos, e aproveitaram a retórica e a ética dos estoicos, cujas lições de
austeridade, resignação e autocontrole se conciliavam perfeitamente com o
espírito cristão.
Não é
escusável insistir em que a Filosofia Medieval traz em seu bojo a fé revelada,
em função da qual os problemas filosóficos são reinterpretados e colocados. Os
escritores medievais jamais desconsideravam os dados da fé revelada. Eles
sempre a situaram como uma instância ontologicamente superior à reflexão
racional e como uma experiência que a condiciona, malgrado o fato de que aqui e
ali encontremos um esforço por conciliar a razão com a fé. Insisto em que é a fé
revelada a característica distintiva da Filosofia Medieval. Ela é o núcleo
para o qual convergem as especulações teológico-metafísicas dos autores
cristãos.
Convém,
doravante, esclarecer o conceito de fé no cristianismo.
1.2. A fé cristã
Se o que
pretendemos é examinar como se deu a relação entre fé e razão na Filosofia
Medieval, precisamos, em primeiro lugar, saber o que queremos dizer quando empregamos a palavra
“fé”. O Catecismo da Igreja Católica (2000) oferece-nos diversas
definições da fé, que se pode encontrar nas Escrituras. Na epístola aos
Hebreus, encontra-se uma passagem em que a fé é definida como “uma posse
antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se
veem”. (Hb, 11, 1). No Novo Testamento, topa-se a concepção de “fé” como um
assentimento inquebrantável à promessa de Deus. Maria não deixou de crer no
cumprimento da Palavra de Deus, por isso a Igreja vê nela a realização mais
pura da fé.
A fé
também pode ser definida como uma “adesão pessoal do homem a Deus”. (§ 150).
Nesse sentido, a fé implica também “assentimento livre a toda a verdade que
Deus revelou”. (ibid.). A fé cristã, portanto, não se confunde com a fé
(crença, confiança) numa pessoa humana. A fé cristã supõe uma entrega total do
crente a Deus e uma confiança absoluta no que Ele diz. Para o cristão, não é
possível crer em Deus sem crer naquele que Ele enviou, a saber, em Jesus
Cristo. O cristão crê em Jesus Cristo, porque ele mesmo é Deus, é o Verbo que
se fez carne. Assim como não se pode crer em Deus sem acreditar na divindade de
Jesus, assim também não se pode crer em Jesus sem participar de seu Espírito. É
o Espírito Santo que dá a conhecer aos homens quem é Jesus. Os cristãos creem
no Espírito Santo, porque Ele é Deus.
O texto
do Catecismo define a fé como uma graça. A fé é um dom de Deus, uma
virtude sobrenatural que ele infunde em nós. Não se chega à fé senão por meio
de Deus e do auxílio do Espírito Santo - “crer só é possível pela graça e pelos
auxílios interiores do Espírito Santo”. (§ 154). Todavia, o Catecismo
não ignora que a fé é um ato humano. A fé é um ato no qual “a inteligência e a
vontade humanas cooperam com a graça divina”. (ibid.). Crer, no sentido de ter
fé, é assentir à verdade divina, sob o comando de uma vontade movida por Deus
através da graça.
Apesar de
a inteligência estar envolvida na fé, o motivo pelo qual o cristão crê não é
que as verdades reveladas sejam inteligíveis à luz da razão natural. Ele deve
crer por causa da autoridade de Deus que se revela e que não nos pode enganar,
nem se enganar. O texto do Catecismo é categórico: a fé é certa,
“mais certa que qualquer conhecimento humano”. (§ 157). Evidentemente, ela é
certa porque se baseia na Palavra de Deus. Deus não pode errar e nem mentir.
Outra característica da fé consiste no fato de ela ser um instrumento de
conhecimento. A fé procura compreender. O crente é ávido por conhecer melhor a
Deus, em quem ele deposita sua confiança. Quanto mais conhece melhor a Deus,
mais penetrante e vigorosa se torna a sua fé. As verdades reveladas se
afiguram, não raro, obscuras à razão e à experiência humanas, mas a luz divina
é mais certa e maior que a luz da razão natural. O Catecismo se vale da
autoridade de Santo Agostinho para sublinhar o estatuto superior da fé em face
da razão: deve-se crer para compreender, e compreender para melhor crer. Ter fé
é a pré-condição para compreender as verdades reveladas. Apesar da fé ser
superior à razão, não pode haver desarmonia entre elas, “porquanto o mesmo Deus
que revela os mistérios e infunde a fé dotou o espírito humano da luz da
razão”, (§ 159). Ora, as verdades profanas e as verdades da fé têm sua origem
em Deus, por conseguinte, toda investigação científica que se oriente pelas
leis morais nunca contradirá a fé: “(...) quem tenta prescrutar com humildade e
perseverança os segredos das coisas, ainda que disso não tome consciência, é
como que conduzido pela mão de Deus, que sustenta todas as coisas, fazendo com
que elas sejam o que são”. (ibid.). Como se depreende desse texto, nada que o
homem faz é alheio ao conhecimento de Deus, que é o esteio de tudo que existe e
a razão de ser de todas as coisas.
Deus,
contudo, não nos obriga a assentir à sua Palavra. A fé é um ato livre. Ninguém
é forçado contra a sua vontade a adotar a fé cristã (salvo os povos colonizados
entre os séculos XV e XX!). A verdade histórica diverge do texto teológico. A
expansão da fé cristã esteve ligada a movimentos de conquista militar,
territorial e comercial. Não é Deus que chama os homens para servi-lo em
verdade e em espírito, mas o poder da espada, a violência em nome de Deus.
A fé é
condição para que se alcance a salvação. Na verdade, é preciso crer em Jesus
Cristo para alcançá-la. Em Hebreus (11, 6), lê-se que “sem fé é impossível
agradar a Deus”. Ninguém consegue a vida eterna sem acreditar na Palavra de
Deus revelada na pessoa de Jesus. A fé é também esperança e promessa. Segundo o
Catecismo, “a fé nos faz degustar como por antecipação a alegria e a luz
da visão beatífica, meta de nossa caminhada na terra”. (§ 163). A fé é o começo
da vida eterna. Mas a fé envolve também perseverança. Só perseveramos na fé, se
a alimentamos com a Palavra de Deus. Por isso, sempre que o crente parece
hesitante em sua fé, exige-se que ele medite sobre a Palavra de Deus. Deve-se
implorar a Deus para que ele a aumente e a fortaleça. Sempre que a fé é
perturbada por uma tentação mundana, o crente deve voltar-se para “as
testemunhas da fé”. (§ 165).
O Catecismo
oferece ao leitor um resumo, no fim do artigo dedicado ao significado da crença
cristã, das definições da fé então apresentadas. Escusa elencá-las aqui. Mas
gostaria de mencionar ainda que, ao considerar o ato de crer, o Catecismo
sublinha a autoridade da Igreja como fonte geradora e sustentadora de nossa fé:
“a Igreja é a mãe de todos os crentes” (§ 181). Crer é um ato eclesial.
1.3.
Características da ontoteologia cristã
Nesta
seção, ponho em tela a relação entre a fé e a razão no mesmo percurso ao longo
do qual se vão esclarecendo as características da ontoteologia cristã (que
Gilson chama de filosofia cristã). Recorde-se aqui que uma filosofia cristã,
conforme ensina Gilson (2012) jamais contrariará as verdades da fé. Ademais,
“uma filosofia cristã deve originar-se sob a influência consciente da fé
cristã”. (Gilson, 2012, p. 12). Como mostrei na seção anterior, a fé é
assentimento à infalibilidade da Palavra de Deus. Estando sob influência
consciente da fé cristã, as meditações teológico-metafísicas levadas a efeito
pelos autores cristãos calcam-se sobre a crença de que é a fé que livra a
filosofia de muitos erros. Como assinala Gilson, “a fé traça à razão certos
limites de caráter inviolável” (ibid.). Não é mais a razão o métron, mas
a fé. Se determinadas proposições filosóficas contradizem a verdade revelada, a
metafísica-teologia cristã as rejeita. Aos olhos dos teólogos cristãos, a fé,
na condição de medida para a razão, não é um meio limitador, mas uma
companheira que a livra dos erros a que ela está, naturalmente, exposta. Na
condição de métron, a fé estabelece ao conhecimento racional certas
metas. O teólogo cristão se submete voluntariamente aos imperativos da fé, mas
não faz dela o objetivo de suas meditações. A fé, como aceitação de uma verdade
por força do poder de uma autoridade, não se sobrepõe ao conhecimento evidente
do objeto em si mesmo. À razão é atribuída a função de analisar e aprofundar as
verdades reveladas, dando-lhes uma forma acessível ao saber natural. O fim
último a que serve a razão aqui é possibilitar que as convicções religiosas se
convertam em evidências racionais. Quando se busca, no mundo, pelo recurso ao
conhecimento empírico, as marcas da Criação divina, os teólogos cristãos buscam
tornar razoáveis suas convicções de fé. Todavia, há verdades que precedem
logicamente a fé. Quando o primeiro Concílio do Vaticano proclamou o dogma da
cognoscibilidade natural de Deus, não fez senão admitir a dignidade e o poder
do pensamento racional. Não se contenta em afirmar “Deus existe”; há que
demonstrar a verdade dessa proposição, ou ao menos mostrar sua plausibilidade.
A fé
também determina a atitude cognoscitiva do pensador cristão. Para os filósofos antigos - e também para grande
parte dos modernos-, a filosofia é a busca da satisfação de suas necessidades
intelectuais; é um exercício espiritual destinado a dar conta das questões
fundamentais da existência. Essa tarefa da filosofia é estranha ao teólogo
cristão, já que sua visão de mundo é determinada pela fé. É a fé que lhe
possibilita uma visão completa e profunda da vida e do mundo. Atente-se para a
seguinte passagem de Gilson, na qual se distinguem os modos como o pensador
cristão e o filósofo autêntico vivenciam a filosofia:
(...)O
filósofo cristão desconhece, em matéria cosmovisual, aquela tensão apaixonada,
aquele tatear e investigar irrequieto, que caracteriza a especulação abandonada
a si mesma. Sua atitude difere radicalmente da do pesquisador cético e
criticista, que não cessa de questionar e de formular e reformular
indefinidamente os mesmos problemas. (ibid., p. 12).
Finalmente,
a fé determina o sentido do trabalho filosófico. Conquanto o teólogo
cristão não tome a filosofia como um sucedâneo da religião, ele a vivencia como
uma tarefa deveras religiosa. A filosofia é, para os escritores cristãos, um
meio para a busca da verdade eterna, que é o próprio Deus. Se os teólogos cristãos
se envolvem com especulações filosóficas, não o fazem movidos pelo ideal
aristotélico do bios theoreticós, cujo fim é a verdade, nem pelo ideal
baconiano do domínio do homem sobre a natureza, por meio do saber; tampouco se
envolvem com elas inspirados pelo ideal goetheano de tecer investigações
infatigáveis. O labor filosófico dos autores cristãos é, ao contrário, uma
verdadeira tarefa religiosa, que se realiza com vistas à edificação, no sentido
paulino do termo.
Alhures,
já salientei que o Cristianismo é uma religião e que permaneceu como tal mesmo
tendo de se confrontar com a tradição filosófica grega. Se toda filosofia
começa a partir do homem, a religião parte de Deus em direção ao homem. Em
especial, a religião cristã, pondo Deus no princípio de tudo, volta-se para o
homem espiritual e moralmente indigente, oprimido e mergulhado na infelicidade
por ser culpado, condição esta que lhe fecha o caminho de retorno a Deus. Claro
é que o Cristianismo não se preocupa apenas em denunciar o homem como ser originariamente marcado pelo pecado;
também não se contenta em ensinar-lhe que é o pecado a fonte de seus
sofrimentos; a religião cristã pretende, sobretudo, oferecer-lhe o remédio da
graça. Ela o adverte da importância decisiva da vida terrena para sua
felicidade eterna. Ensina-o a buscar a redenção em Cristo, sem o qual ele não é
capaz de libertar-se do pecado e fruir uma vida nova. A função redentora do
cristianismo é essencialmente religiosa, de modo que ele não é e nunca
pretendeu ser uma forma de filosofia. Todavia, como enfatiza Gilson, “ele deu
origem a um movimento filosófico de proporções gigantescas”. (ibid., p. 15).
Esse movimento filosófico originado no seio do cristianismo se deu tanto por
força de uma necessidade histórica quanto por força de uma necessidade
psicológica. A necessidade histórica consistiu em que o Cristianismo teve de se
confrontar com uma filosofia dominante (o estoicismo), em face da qual ele
precisava se posicionar, sobretudo porque ela se ocupava de questões de ordem
religiosa. A necessidade psicológica consistiu no fato de o Cristianismo ter-se
formado por ideias que demandavam desenvolvimento e reconhecimento por meio de
um esforço de reflexão sistemática. Defrontando-se com a filosofia grega, os
cristãos acreditavam deter um critério seguro para julgar as proposições dela,
qual seja, a verdade revelada. O trabalho meditativo dos autores
cristãos destinava-se, portanto, a corrigir os erros da filosofia pagã. A fé
cristã, ademais, tinha a pretensão de curar a razão pela fé e pela graça.
Dessarte, sob a orientação da fé, a razão tornar-se-ia capaz de retificar e
aprofundar os conhecimentos racionalmente conquistados, mas deturpados pelos
filósofos pagãos. Orientada pela fé, a razão poderia, enfim, realizar a meta da
qual a filosofia grega só conseguiu traçar pálidos esboços.
Incorreria
numa imperícia intelectual se eu não reconhecesse que o pensamento cristão
possibilitou o aprofundamento racional das verdades da fé. Como salienta
Gilson,
As
verdades religiosas contêm, em germe, e em estado latente, muitas doutrinas
filosóficas que, uma vez trazidas à luz pelo esforço especulativo de gerações
sucessivas de pensadores eminentes, mostram-se passíveis de um desenvolvimento
filosófico extraordinariamente fecundo. (ibid.).
É
justamente porque a teologia cristã está tout à fait estruturada por
conceitos e doutrinas filosóficas, sobretudo neoplatônicas, aristotélicas e
estoicas, que a massa dos cristãos leigos não compreende os dogmas essenciais
de sua religião, não chegam a alcançar uma compreensão do conceito de Deus que
vá além de metáforas como “Deus é amor”, “Deus é Pai”, ou de enunciados
genéricos e teologicamente inconsistentes como “Deus é tudo” (Deus não é tudo,
porque não pode ser um vírus, uma árvore, a maldade ou o próprio universo). É
também em virtude de possuir uma teologia elaborada a partir do legado da razão
filosófica que o Cristianismo não penetrou inicialmente com facilidade nas
massas populares. Na Inglaterra do século XVI, autoridades eclesiásticas se
queixavam da ignorância dos cristãos leigos, que não entendiam nada além do Pai
Nosso. O povo, diziam, era tão ignorante que não sabia o que eram as Sagradas
Escrituras. Mas o catecismo praticado pela Igreja não tinha como objetivo levar
as pessoas comuns a entenderem as doutrinas religiosas; bastava que elas apenas
acreditassem nelas. A Igreja, àquela época, receava que uma compreensão das
doutrinas pelas pessoas comuns pudesse induzi-las à prática de heresias. No
entanto, a ignorância acerca dos dogmas cristãos não era um problema do povo;
também era observado entre os membros do clero. Na Idade Média, párocos não
eram formalmente instruídos para cumprir seus deveres. A Igreja denunciava a
ignorância dos sacerdotes. Lutero lamentava que muitos padres eram incapazes de
pregar a fé por não serem suficientemente versados em matéria doutrinária.
Católicos, em resposta aos queixumes de Lutero, ofereceram seminários a partir
do final do século XVI, para ensinar aos padres o que deveriam transmitir ao
povo; por outro lado, no mundo protestante, pastores luteranos e calvinistas
eram estimulados a ter formação universitária, um privilégio inacessível ao
clero paroquial das igrejas ortodoxas ou cristãs orientais.
No final
do século XV, muitos convertidos ao cristianismo careciam de uma educação
sistemática nas crenças e práticas cristãs. Não sou capaz de estimar qual a
proporção da ignorância dos fiéis comuns relativamente aos dogmas da fé cristã
no mundo atual. Mas minha hipótese é que a maioria das pessoas comuns, ainda
hoje, sustenta sua fé no Deus cristão a partir de saberes fragmentados que lhes
foram transmitidos pela catequese ou pela participação em missas ou cultos na
igreja. A maioria, quase certamente, carece do conhecimento daquelas doutrinas
filosóficas que fundamentam os dogmas da teologia cristã. O que valia para o
clero do século XVI vale hoje para os sacerdotes católicos e pastores
protestantes: eles esperam que o povo apenas acredite nas doutrinas que lhes
são inculcadas. A perseverança na fé depende do desestímulo a uma reflexão
crítica sobre sua matéria.
1.4. O conceito do
Deus cristão
O Deus
cristão é um Deus metafísico, o que significa dizer que é ontologicamente
superior e distinto de todo e qualquer ser existente. É também o Deus Criador:
não só é a causa primeira e última do Universo, como também o mantenedor, o
sustentáculo da existência desse Universo. Se é verdade que Platão e
Aristóteles admitiam a existência de um Ser Supremo, a filosofia grega carecia,
por outro lado, de uma noção clara de Criação. Platão atribui um sentido mais
amplo às palavras ‘divino’ e ‘Deus’; no entanto, é difícil demonstrar que ele
tenha elaborado, com rigor, um conceito de Criação. Platão apresenta a Ideia do
Bem como razão última do ser e da essência; ela é também a causa do saber e da
verdade. No Timeu, ele fala de um demiurgo, arquiteto do mundo que, como
tal, trabalha uma matéria informe e previamente existente. O Deus cristão não é
semelhante a esse demiurgo. Sua criação é ex nihilo, ou seja, Deus cria
o mundo a partir do nada. Nada existia a não ser Deus antes do ato criador. A
revelação cristã inicia-se pela frase: “No princípio criou Deus o céu e a
terra”. Todas as coisas materiais e espirituais foram criadas unicamente por
Deus. Ele as criou do nada por um ato de sua vontade.
Todo
cristão comum aprendeu que seu Deus é o único e verdadeiro Deus e que ele é o
Criador do mundo. Mas a ele escapa toda a problemática teológica que se segue
da admissão do conceito de Criação. Os teólogos cristãos, desde cedo,
sentiram-se obrigados a recorrer ao aparato conceitual platônico-aristotélico
para explicar o ato da Criação a partir do nada. Ademais, se Deus é o Criador
de tudo que existe, então todos os seres existentes são suas criaturas. A noção
de criatura envolve a noção de dependência essencial e existencial; e essa
noção, por sua vez, implica os problemas da contingência (as criaturas, na
medida em que passaram a ser por ato da vontade de Deus, não têm uma existência
necessária: se Deus não quisesse, nada existiria!) e da relação entre a
perfeição limitada da criatura e a perfeição infinita do ser divino. Situada
nesse horizonte de problematização, a questão do tempo e da eternidade precisa
ser repensada. Na filosofia grega, a eternidade era produto da criação, noção
tomada como contraditória por São Boaventura e Ockham.
O Deus
criador do cristianismo-judaísmo não é apenas um Deus que fez existir o mundo;
é também um Deus que conserva o mundo em sua existência. Para poder existir,
cada criatura precisa ser mantida na existência por meio de uma “criação
contínua”. Ora, a noção de “criação contínua” implica a ideia de sucessão.
Contrariamente à concepção aristotélica de um mundo eterno, a revelação cristã
ensina a doutrina do começo temporal do universo. Ao teólogo-filósofo cristão
assiste demonstrar a verdade dessa doutrina. A ideia de temporalidade e
contingência do mundo assenta o terreno para a elaboração do conceito de
Criação como ato livre de Deus.
O
primeiro capítulo do primeiro livro do Gênesis suscitou no pensamento cristão a
necessidade de investigar a ordem hierárquica da criação e de determinar o
lugar do homem nessa ordem. A passagem “Façamos o homem à nossa imagem e
semelhança” suscitaram problemas especificamente cristãos, tais como a
espiritualidade da alma, sua imortalidade, sua dignidade, sua semelhança com
Deus, a relação que suas faculdades mantêm entre si e delas com a própria alma.
Um dos desafios dos pensadores cristãos foi a elaboração de uma psicologia que
explicasse adequadamente a natureza e o funcionamento da alma humana enquanto
imagem de seu arquétipo divino: o Deus trino e uno. Toda a psicologia medieval
inspirada por Santo Agostinho se desenvolveu como comentário àquela passagem
bíblica. (Gilson, 2012).
O Deus
cristão é o Ser por excelência. Como Deus Criador, o Deus cristão é o Princípio
e a origem de todo ser. Todos os seres criados existem na dependência dele e só
existem por vontade Dele. Portanto, a existência das criaturas é condicionada
pela existência de Deus - Ser inteiramente incondicionado, causa sui.
Deus é e nada condiciona seu ser. Deve-se atentar para a incomparabilidade do
conceito de Deus cristão: sua exclusividade, plenitude, perfeição e
transcendência não encontram equivalentes nem em Platão nem em Aristóteles. O
conceito do ser divino cristão foi revelado pelo próprio Deus (sim, os cristãos
acreditam que não foram os seres humanos, historicamente situados, movidos por
necessidades materiais, ideológicas, políticas, teológicas, que cunharam esse
conceito). Depois que Moisés indagou a Deus acerca de seu nome, Deus lhe
respondeu: “Eu sou o que sou”. Deus é o ser, é o ser absoluto e último. Esta
passagem bíblica do Êxodo está no começo de toda reflexão cristã sobre Deus
enquanto Ser absoluto e último. Retoma-se aqui o problema fundamental da
filosofia, desde suas origens: Qual é a realidade última e absoluta? O
Cristianismo presume tê-la solucionado: é o próprio Deus. Ele é o arkhé.
Só ele é o Incondicionado; só Ele é verdadeiramente, nunca foi e nunca será.
“Deus é” significa que não está sujeito à mudança e ao tempo. Significa que,
nele, ser e existir é o mesmo. Deus não é limitado por coisa alguma; ao
contrário, é o limite de todas as coisas. Todos os seres existentes (homens,
animais, pedras, tudo...) provêm dele, devem a ele sua existência e perseveram
no ser por vontade dele. Só Deus é necessário e infinito. Deus possui o ser em
sua plenitude infinita. Na expressão poética de Gregório de Nazianzo, deve-se
dizer que Deus é um pélago (mar profundo, imensidade) do ser.
O Deus
cristão, herdado do imaginário-simbólico judaico, é também um Deus uno. A
unicidade de Deus remete à formação do monoteísmo. Platão e Aristóteles não
chegaram a assentir no monoteísmo puro. Os pensadores cristãos não viam
problema na unicidade de Deus. Essa noção era familiar aos judeus e constitui a
verdade fundamental de sua religião. Já abordei o longo processo de
transformação da religião israelita de uma monolatria para um monoteísmo em
outro texto. Nesse texto, discorri sobre a luta dos profetas contra o costume
dos hebreus de cultuar os deuses dos conquistadores. Importa-me aqui assinalar
o fato de que os pensadores cristãos buscarão discutir racionalmente a noção de
unicidade de Deus e farão dela parte integrante dos argumentos em favor da existência
dele.
Toda a
Nova Aliança anunciada no Novo Testamento baseia-se na crença de que Deus é
amor. Em João (3, 16), lê-se:
A
tal ponto amou Deus o mundo que lhe deu o seu Filho Unigênito, para que todo o
que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.
Conquanto
o Antigo Testamento exalte Deus como Pai e Pastor do seu povo e destaque sua
misericórdia, é só no Novo Testamento, através de Cristo, que a infinita
caridade e grandiosa misericórdia de Deus se manifesta. Por meio do Filho, o
cristão conhece o Pai infinitamente amoroso, compadecido de seus filhos caídos.
Ao assegurar que todo aquele que crê no Filho terá a vida eterna, o Novo
Testamento supera, de longe, o Antigo Testamento e se diferencia singularmente
da filosofia grega.
Detenho-me, agora, na análise de temas para cuja compreensão se supõe que o leitor e os cristãos comuns tenham um repertório de saberes filosóficos específicos.
1.4.1. O Logos é
o Deus vivo
Não é
possível saber, com certeza, se o autor do Evangelho de João tomou o conceito
de Lógos à filosofia grega; certo, porém, é que o conceito de Lógos com que Jesus
é representado, é um conceito empregado na especulação helênica. Gilson
acredita que as reflexões dos gregos sobre o Lógos eram conhecidas do
autor de João, dado que o quarto Evangelho fora redigido em Efeso, onde, a
partir de Heráclito, o conceito de Lógos significava a razão cósmica ou
razão do mundo, princípio fundamental do ser e do conhecimento. Ainda segundo
Gilson, é provável que o autor de João conhecesse o pensamento de Fílon,
filósofo judeu, para quem o Lógos é a ideia divina do mundo ou o meio
através do qual Deus age no mundo. Em João, no entanto, o conceito de Lógos
guarda um significado mais profundo, em contraste com seu uso nas especulações
precedentes.
A
tradição cristã, a partir de João, afirma que o Lógos é Deus e uma Pessoa;
em outras palavras, o Lógos é Deus e é Jesus. O Lógos não está
apenas em Deus, mas é o próprio Deus. O Lógos é o Verbo pelo qual o
mundo foi criado e é o Filho, aquele que foi enviado ao mundo para remi-lo. É,
portanto, o Filho de Deus, que está com o Pai, e a quem nos trouxe a graça e a
verdade. A ideia de um Lógos pessoal e de sua Encarnação não só é um
escândalo para os judeus e uma loucura para os gregos, mas também um desafio
especulativo para o cristianismo. Nos primeiros séculos de seu desenvolvimento,
a especulação teológica cristã foi marcada por abundantes controvérsias
trinitárias e cristológicas. Ainda que não tivessem relação direta com a
filosofia, tais controvérsias a influenciaram de duas maneiras. Em primeiro
lugar, elas formaram, nos teólogos cristãos, a convicção da insuficiência da
filosofia para se aprofundar nos mistérios de Deus. Convictos dessa fraqueza
filosófica, os pensadores cristãos afirmaram que a reverência a Deus é
incompatível com qualquer forma de racionalismo. Em segundo lugar, aquelas
controvérsias lançaram luzes sobre os conceitos de pessoa, de natureza e de
hipóstase, além de estimularem a disciplina da lógica.
A
doutrina cristã do Lógos não se resume na afirmação de que Deus é o Lógos.
Costurada pelas contribuições de Platão, ela afirma também que Deus, o Lógos,
contém em si todas as Ideias. Decerto, não encontramos no prólogo do Evangelho
de João sinais da doutrina platônica das Ideias, mas ele inspirou os pensadores
cristãos a ver em suas entrelinhas a teoria das Formas desse filósofo grego. Foi
com base nos versículos 3-4 do Prólogo do evangelho joanino que os teólogos
cristãos buscaram conciliar a lição platônica com a verdade anunciada pelo
evangelista: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi
feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens”. Daí
concluíram os autores cristãos que, se as coisas vivem no Lógos (Deus),
a vida que está em Deus deve ser, forçosamente, de natureza espiritual e
intelectual, isto é, uma vida de ideias no pensamento (espírito) criador de
Deus. E assim se estabeleceu uma relação que se afigurou óbvia entre a doutrina
platônica das Ideias e a teodiceia cristã. Todavia, foi necessário torcer a
doutrina de Platão, a fim de que ela se prestasse a uma transformação profunda,
uma vez que a autonomia do reino das Ideias defendida por Platão era
inconsistente com a crença num Deus autossuficiente e causa sui. Era
mister situar as Ideias (as Formas Perfeitas de Platão) no pensamento de Deus.
Especulações posteriores se ocuparam da questão que consistia em decidir se o
lugar das Ideias deveria ser o próprio Lógos, que é Deus e está com
Deus, ou se é o intelecto divino, que é idêntico à essência de Deus. Vale aqui
notar que essas minúcias teológico-metafísicas constituem uma matéria ignorada
pela maioria esmagadora dos fiéis (certamente, por todos os fiéis leigos!). Não
estou, com isso, sugerindo que lhes devemos imputar negligência ou culpa em
matéria teológica; a fé do cristão comum dispensa arrazoados
filosófico-teológicos sobre a natureza de Deus; aliás, a solidez dessa fé
depende de que eles ignorem essas especulações, visto que um claro conhecimento
delas poderia incutir-lhes a suspeita de que, talvez, o seu Deus não seja tão
vivo quanto eles acreditam, ou poderia suscitar-lhes a verdadeira natureza
desse Deus, que é a de constructo imaginário-simbólico.
No
versículo 9 do Prólogo, o autor de João nos diz que o Lógos é a luz que
“ilumina a todo homem que vem ao mundo”. Não se deve tomar “luz” no sentido
físico. Trata-se de uma luz espiritual. O Lógos (Deus), como luz
espiritual, é a fonte de todo conhecimento. Por isso, todos os teólogos
cristãos advogam que a fundamentação derradeira do conhecimento humano depende
de uma iluminação divina, a qual se pode buscar nas Escrituras. Autores como
Santo Agostinho, Pseudo-Areopagita, Boaventura, Tomás de Aquino e Duns Escoto,
entre outros, vão se empenhar na discussão aturada do estado dessa iluminação.
Na medida em que o Lógos é tanto o princípio do mundo quanto a luz que o
ilumina, era natural que se visse na luz o próprio princípio do mundo. A luz
invisível do Lógos será explicada pela analogia com a luz visível, e
essa analogia irá assumir um lugar importante na explicação do mundo criado
pelo Lógos. Muitos pensadores cristãos eram simpáticos à metafisica da
luz, de proveniência árabe.
A par do
prólogo do Evangelho de João, as epístolas paulinas também influenciaram,
sobremaneira, o desenvolvimento do pensamento cristão. Veremos, na próxima
subseção, como “à oposição joanina do Logos divino ao Logos cósmico da
especulação judaico-helênica corresponde, em São Paulo, a contraposição entre a
sabedoria cristã e a sabedoria pagã e mundana”. (Gilson, 2012, p. 20).
1.5. A sabedoria divina
é superior à sabedoria filosófica
A
sabedoria cristã como ciência da salvação é um saber despretensioso assentado
na pessoa de Jesus Cristo, o Crucificado. Essa forma de sabedoria nada tem que
ver com uma forma de gnose. A doutrina paulina da sabedoria cristã se
desenvolveu em resposta a um sábio de Alexandria, que se chamava Apolo e que
reunia em torno de si grupos de cristãos coríntios, admirados de sua cultura e
de suas pregações. Esses cristãos ufanavam-se da profundidade de seus
conhecimentos. Preocupado em restabelecer a unidade doutrinária daquela
comunidade, São Paulo ensinou a sabedoria cristã. Esta se opõe à sabedoria
deste mundo, que, por definição, é a forma de uma sabedoria hostil a Deus. A
sabedoria do mundo abriga também a sabedoria dos antigos gregos. Malgrado o
fato de não pretender estabelecer uma oposição entre fé e razão, Paulo sentiu
existir uma oposição entre a filosofia helênica e a doutrina cristã. O cristianismo
censura a soberba e a autossuficiência da razão mundana e exige, acima de tudo,
sujeição humilde à verdade da cruz de Cristo. O Evangelho, não oferecendo
provas evidentes, revela uma série de fatos históricos (segundo creem os
próprios cristãos, o que não se confirma pelos estudos histórico-críticos da
Bíblia, ensina existir um Deus que morreu na cruz pelos nossos pecados). Em vez
de erigir um sólido sistema de ideias e fundamentos racionais, o Evangelho
confronta os gregos com o absurdo de um Deus morto, ressuscitado e elevado à
glória do céu. Paulo se deu conta de que tudo isso constituía um escândalo para
a sabedoria grega.
Porque
os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria;
Mas
nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura
para os gregos.
Mas
para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos
a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. (1 Cor 1, 22-24).
Ao
anunciar essa nova e mais profunda forma de sabedoria, Paulo visava a
substituir a ciência puramente humana pela sabedoria salvífica de Deus. Para
ele, a sabedoria cristã é infinitamente superior à sabedoria produzida pelas
débeis especulações humanas. Ademais, ela se fundamenta na humildade: para
os cristãos, a razão humana é arrogante. Uma vez que a sabedoria é um dom
de Deus, ela não depende de recursos humanos. Ela se revela na fraqueza humana,
segundo a lei universal da graça, enunciada na oração de Cristo em Mateus 11,
25: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste essas
coisas aos sábios e entendidos, e as revelasse aos simples”. A força da
sabedoria de Deus só pode ser acolhida por aqueles que reconhecem em si sua
fraqueza e indigência.
A
sabedoria cristã culmina na teologia da salvação. Tendo estabelecido uma nítida
distinção entre a sabedoria pagã, formalizada na filosofia grega, e a sabedoria
de Deus, manifesta em Cristo, Paulo passa a restringir seu significado à
teologia cristã. Escrevendo aos coríntios, o apóstolo não se referia à
sabedoria de Deus como um saber esotérico, acessível apenas a uma casta
privilegiada, mas a um conhecimento profundo dos mistérios do cristianismo, originado
da iluminação interior do Espírito Santo, mediante a oração e a meditação. Essa
é a origem da teologia cristã, vivida como saber vivo e santo. Somente ela
merece a denominação de sabedoria por excelência. Portanto, a teologia cristã
tem primado sobre a filosofia e sobre a razão filosófica. Tem início aí toda a
controvérsia em torno das relações entre a filosofia e a teologia, a qual
marcará, por completo, a tradição de pensamento cristão, animando fecundos
debates.
Finalmente,
cumpre acrescentar que a sabedoria cristã, não renunciando à razão, a
pressupõe. A razão é um dom de Deus. Quando Paulo opôs a sabedoria cristã à
sabedoria pagã, não pretendeu traçar uma oposição entre fé e razão. A filosofia
pagã abusou da razão, mas não é a razão um mal. Se bem que seja verdade que ela
é imperfeita e ineficiente quando se trata de penetrar os mistérios profundos
de Deus, ela é útil e eficaz quando se concentra em problemas de sua alçada. A
razão pode e deve aplicar-se aos problemas da existência de Deus e dos
mandamentos da lei moral natural.
Paulo
afirma que também os pagãos têm acesso a certos conhecimentos de Deus. A
existência de Deus, porquanto é naturalmente cognoscível, é acessível à
inteligência deles. A inteligência humana pode contemplá-lo através de suas
obras. Assim, os gentios também são capazes de possuir algum conhecimento de
Deus, ainda que não tenham sido portadores de uma revelação especial. Todavia,
Paulo não deixa de imputar-lhes a falta de reverência a esse conhecimento, o
que lhes turvou o entendimento do Deus verdadeiro.
3. 2. Clemente de
Alexandria: a razão é inferior à fé
Tito
Flávio Clemente, filho de pais gentios, nascido provavelmente em Atenas, por
volta de 150 EC, converteu-se ao cristianismo, ensinando o Evangelho na Grécia,
na Ásia Menor e na Palestina. Estudou com diversos professores, mas, em nenhum
deles, encontrou a satisfação de seus interesses. Conhecendo Panteno, em
Alexandria, encontrou o conhecimento que tanto buscava. A ele trabalhou junto
na qualidade de professor assistente. Morto Panteno, então seu mestre, assumiu
a direção da escola. A perseguição de 202 o forçou a deixar o Egito em direção
a Cesareia na Capadócia, onde se juntou ao seu ex-discípulo, o Bispo Alexandre.
Numa carta, datada de 211 ou 212, Alexandre exalçava-lhe os méritos em nome da
Igreja de Deus. Mestre de Orígenes, Clemente de Alexandria foi um dos grandes
apologistas do século III.
Contrariando
o que muitos cristãos, àquela época, pensavam acerca da filosofia, Clemente de
Alexandria não a cuidava supérflua ou inútil. Para ele, a filosofia era boa em
si mesma. Muitos lhe censuraram o interesse excessivo que ele tinha pela
filosofia grega. Para vários outros autores cristãos, é somente na fé que o
cristão deve buscar a salvação. Somente a fé é a doutrina útil e necessária, e
a única filosofia digna desse nome é o cristianismo. São Clemente cuidou
necessário combater essa atitude. Dedicou-se, então, a mostrar que o cultivo da
filosofia satisfazia a vontade de Deus. Ademais, servisse-se dela razoavelmente
era benéfico. A filosofia não poderia ser má (como julgavam outros), porque ela
torna os homens virtuosos. Devemos a Deus a sua origem. Como Deus só pode fazer
o bem, a filosofia, tendo origem em Deus, só pode ser boa. Tudo que provém de
Deus é bom e é destinado ao bem. Somente os homens bons se dedicam à filosofia;
os homens maus não costumam se interessar por ela - pensava Clemente.
Para este Padre da Igreja, a filosofia tinha uma função soteriológica na
era pré-cristã. A filosofia grega não era obra do demônio, como pensavam seus
adversários. Para demonstrar que a filosofia grega é um bem, Clemente começa
por notar que a tarefa pedagógica dela foi encaminhar os gentios para Cristo.
Chamo a atenção do leitor para o fato de que, pela pena de Clemente, o
Cristianismo reinterpreta, à luz de seus preceitos doutrinários ou dos
preconceitos de sua fé, a filosofia grega. Clemente admite que os gregos não possuíam
nem a Lei (mosaica) nem a fé. A verdade lhes era acessível pela razão natural.
Recorrendo à autoridade de São Paulo, Clemente lembra que foi a razão natural
que os preparou para a acolhida do Evangelho, o que, segundo ele, pode ser
constatado pela leitura de Platão e dos antigos poetas. Para Clemente, a razão
natural teve seus profetas, que eram os filósofos.
Clemente está de acordo com Tertuliano quanto à crença de que os antigos
filósofos eram cristãos antes de Cristo. Segundo Clemente, a filosofia grega
preparou a humanidade para receber o Cristianismo. Este, por sua vez, é uma
continuação natural da filosofia antiga. E esta é considerada um caminho para
Cristo, que desembocou no Novo Testamento. Para Clemente, a história do
pensamento é um curso com duas torrentes: uma inicia-se na Lei dada aos judeus
no Antigo Testamento; outra, com a razão. Suas águas confluem para a formação
de uma terceira torrente, a saber, a Revelação Cristã.
No Novo Testamento, a filosofia é compreendida por Clemente como guia
para todos quantos se convertem ao cristianismo. Ela lhes fornece os argumentos
racionais que os auxiliam na adoção da nova fé. Como se vê, Clemente traça um
paralelo entre a filosofia e a Lei para, em seguida, comparar a função da
filosofia no passado com sua função na era cristã. Se a Revelação cristã não
veio abolir a Lei, mas sim cumpri-la,
também a fé não veio para obliterar a filosofia, tão valiosa quanto a Lei era
para os judeus. Clemente entende que os gregos foram educados para Cristo por
meio de sua filosofia. Ela é útil também para os que já professam a fé cristã.
A filosofia fornece as ferramentas necessárias à defesa da fé. Nas palavras
sumárias de Gilson (ibid., p. 37), “o estudo da filosofia é uma vocação
agradável a Deus”.
Clemente se arvora na defesa da utilidade da filosofia para assegurar a
fé. A própria demonstração da inutilidade da filosofia já é valiosa. Aqueles
que censuram os gregos nunca os estudaram, nunca se deram o trabalho de se
aprofundar em suas especulações. Por outro lado, segundo Clemente, todos
aqueles que orientam suas pesquisas pela razão e pela experiência, não só
logram resultados seguros, como também se tornam aptos para convencer os
amantes da verdade. Com base nas Escrituras (Ex 28, 3), Clemente argumenta que
algumas pessoas receberam de Deus uma inteligência profunda. Aqueles que se
devotam aos estudos foram beneficiados por Deus com dons especiais, entre os
quais estão um entendimento adequado para o desvelamento do sentido dos
escritos filosóficos, a energia e a perseverança indispensáveis a tais estudos.
Todos esses dons provêm de Deus; por conseguinte, a filosofia, a cujo exercício
eles se dedicam, não pode ser um mal.
Não obstante, Clemente adverte que a filosofia só pode cumprir,
cabalmente, a função que lhe é fixada no cristianismo, se ela não exceder o
domínio de suas atribuições. Como enfatiza Gilson, “sua função é apenas
auxiliar”. (ibid.). Clemente faz eco a visão bastante comum na Filosofia
Medieval, segundo a qual a filosofia é a serva da fé iluminada. A
filosofia é serva da sabedoria, entendida como ciência das coisas divinas
(entendimento legado pelos estoicos). Já com Clemente, a despeito de seu
reconhecimento do valor da filosofia para o cristianismo, ela é a serva da
teologia.
2.1.
As relações
entre a fé e a filosofia
Ora, se a filosofia é útil aos cristãos, como se define, então, sua
relação com a fé? A filosofia colabora com a fé, porque fé e razão não são de
natureza heterogênea. A fé e a razão levam a resultados que podem ser
conciliados. Para Clemente, as diversas atividades espirituais humanas formam
uma unidade; ou melhor, elas não são senão uma única atividade espiritual com
uma variedade de manifestações. Essa atividade espiritual será chamada de pensamento,
quando busca as causas primeiras; se procura demonstrar o pensamento por meio
de razões, chamar-se-á conhecimento, sabedoria ou ciência.
Quando se concentra em temas religiosos e admite as doutrinas de Deus, sem
deixar-se afetar pelas inferências racionais, chama-se fé. Portanto, fé
e razão não se opõem, porquanto são atividades distintas de uma mesma faculdade
espiritual humana.
Resta esclarecer de que maneiras se dá a colaboração entre fé e razão,
segundo Clemente. Essa colaboração se realiza de três maneiras. Primeiramente,
a fé é o critério da verdade. É por meio dela que se distingue a verdade
do erro nas doutrinas filosóficas. Clemente mantém que os filósofos não
chegaram a conhecer a verdade total. Ademais, eles compreenderam mal certas
doutrinas herdadas dos judeus. Todavia, Clemente pensa que a filosofia grega
não abriga tantos elementos inaceitáveis do ponto de vista cristão, muito
embora não estenda essa condescendência ao ateu Epicuro, que, a seus olhos,
elege o prazer como bem supremo do homem, negando a Providência. Para Clemente,
a designação “sabedoria deste mundo” não se estende a toda a filosofia, mas se
restringe apenas à filosofia epicurista, encarada como dissoluta e egoísta.
Salvo Epicuro, todos os demais filósofos “contêm sementes de verdade, que nos
cabe recolher e aproveitar”. (ibid., p. 39). A verdade total, no entanto, se
manifestou no Lógos (Cristo). É na pessoa do Lógos que os
estilhaços da verdade se reuniram para formar um todo homogêneo. Somente a fé é
capaz de reintegrar todas as verdades parciais numa totalidade sistemática.
Ensaiada no pensamento de Justino, essa ideia toma corpo nas meditações de
Clemente, ocupando um lugar de destaque no pensamento cristão.
A segunda maneira pela qual a fé se relaciona com a razão expressa-se no
entendimento de que a fé é uma antecipação de certas verdades ignoradas pela
razão. É à luz da fé que a razão alcança o saber. O termo “antecipação”,
Clemente foi buscar em Epicuro. Por antecipação, Clemente entende uma
ideia clara, originada dos sentidos, e necessária a todo e qualquer atividade
de pesquisa, de dúvida, de juízo ou raciocínio. Antecipação e fé têm a mesma
função. Note-se que, para esclarecer a ideia de que a fé é uma antecipação, Clemente
faz uso de raciocínios analógicos. Ele observa que não é possível aprender se
não dispusermos de um conceito prévio daquilo que se deseja aprender e
compreender. Dessarte, aprender e compreender é a transformação de antecipações
em outros tantos conceitos e conhecimentos. Nesse sentido é que a fé é também
uma antecipação, mas um pouco distinta, já que só pode ser aceita com
liberdade. Não obstante, não a aceitar significa privar-se do conhecimento
verdadeiro. Como dizia o profeta Isaías (Is 7, 9), “Se não crerdes, não
compreendereis”. Consequentemente, a fé é o fundamento de toda especulação
cristã. Sem a fé, a alma humana não ascende à ordem transcendente. Tal como a
respiração é necessária à sobrevivência física, a fé é necessária a toda
compreensão aprofundada. Em suma, a fé é o fundamento da verdade.
Finalmente, a terceira e última maneira pela qual fé e razão se
relacionam entre si esteia-se na ideia de que a fé atinge sua perfeição na gnose.
Se a fé ultrapassa a razão, a gnose ultrapassa a fé. Gnosis ou
ciência é uma forma de saber que se aprofundou a tal ponto, que se tornou o
acabamento da fé. Clemente insiste em que não devemos duvidar de que a fé é o
ponto de partida; todavia, é necessário ultrapassá-la. À medida que vamos
crescendo na graça, isto é, fortalecendo e aumentando nossa intimidade com
Deus, devemos nos empenhar em atingir um conhecimento cada vez mais perfeito de
dele.
Como se pode depreender de toda a discussão empreendida nesta seção,
Clemente, embora valorize a filosofia em face da fé cristã, não diverge
inteiramente do senso comum dos autores cristãos, para quem a fé tem um
estatuto superior à razão. Esta coopera com aquela, desde que não exorbite de
seus limites.
4. 3. Justino e Tertuliano: a filosofia e o cristianismo
Justino, chamado o Mártir, nasceu em algum momento entre 101 e 125 d.C,
em Nablus, antiga Siquém, na Samaria. Filho de pais gentios, converteu-se ao
Cristianismo só na vida adulta. Sua conversão se deu depois de se dedicar
ardorosamente ao estudo da filosofia. Desde então, lançou-se na pregação da
Palavra de Deus, sem renunciar, contudo, ao legado filosófico. Justino fora
pagão. Viveu sua primeira juventude na Palestina. Quiçá, essa terra incitou-lhe
o pendor religioso; mas, como nota Gilson (ibid., p. 26), “era natural que um
jovem gentio, proveniente do âmbito cultural grego, buscasse na filosofia a
satisfação dos seus anseios espirituais”. Não era ainda o tempo em que Justino
viria a se desiludir com a filosofia grega. Para ele, a filosofia conduz-nos a
Deus e à união com ele. Difícil era, todavia, a escolha entre as muitas escolas
e doutrinas filosóficas que se lhe deparavam.
Conquanto se mantivesse satisfeito com a filosofia platônica, não tardou
em aperceber-se de que a filosofia grega não conseguia dar respostas aos
problemas mais essenciais. Justino frequentou várias escolas filosóficas.
Inicialmente, decepcionou-se com um estoico; depois, com um peripatético e um
pitagórico - por razões diversas. Não se deixando esmorecer, voltou-se para o
platonismo. No platonismo, acreditou ter encontrado aquilo que tanto buscara.
Nas palavras de Gilson (ibid., p. 27), “(...) entusiasmou-se pela elevação e
pelo idealismo da especulação platônica e, em particular, pela doutrina da
existência das realidades incorpóreas: as Ideias.”. Para ele, o objetivo da
filosofia platônica seria a contemplação de Deus. Embebido em alegria, decidiu
isolar-se num lugar ermo à beira mar, quando, certo dia, se lhe deparou um
ancião que o interrogou sobre os seus desígnios. Justino respondeu-lhe que ali
se encontrava para cultivar a filosofia, da qual obteria a felicidade. Não
satisfeito, o ancião indagou-o sobre o que entendia por filosofia e por
felicidade. Ao que retrucou Justino que a filosofia é a ciência do ser e o
conhecimento da verdade; e a felicidade é o bem oferecido por essa sabedoria.
Depois de ser interrogado sobre Deus, Justino respondeu: “Deus é aquilo que
permanece invariavelmente idêntico e é a causa do ser dos demais seres”. Note-se
quanto seu conceito de Deus difere radicalmente do politeísmo pagão. Sendo
cristão, o ancião não tinha nada a objetar contra a definição. O objeto de suas
objeções é, contudo, as pressuposições inerentes a ela. O ancião, então, indaga
como os filósofos poderiam formar um conceito correto de Deus ou elaborar uma
afirmação verdadeira sobre ele, se não possuíam qualquer conhecimento empírico
dele. Referindo Platão, Justino responde que nós dispomos de um olho
espiritual, que nos torna capazes de contemplar em nós mesmos aquele ser que é
a causa de todas as coisas sensíveis. Ademais, há uma relação de parentesco
entre a alma e Deus, se bem que só pode regozijar-se nessa contemplação aquele
que escolha a vida virtuosa. O ancião discorda de que haja uma relação de
parentesco entre a alma humana e Deus; também rejeita a crença de que ela tenha
algo de divino. Prossegue demonstrando que a doutrina da metempsicose é
incoerente e prova que a alma, tanto quanto o mundo e o corpo, começou a
existir, de modo que sua imortalidade não se assemelha à imortalidade de Deus.
Desalentado, Justino viu-se forçado a reconhecer que seus mestres não podiam
conduzi-lo ao objetivo por ele tão almejado. Por fim, pergunta a quem deveria
tomar por mestre e onde buscar a ajuda necessária à realização daquele fim.
Consoante ensina Gilson (ibid., p. 28), “Justino foi principalmente um
apologeta, e como tal, teve de manter-se em constante posição de combate”. Isso
explica por que lhe sobrava pouco tempo para entregar-se a meditações
teoréticas. Sua importância notável consistiu em reservar à filosofia um lugar
no seio do cristianismo. Justino nutria grande reverência pelos filósofos
antigos, de sorte que se recusava a condenar indiscriminadamente a filosofia.
Sua profunda admiração pela filosofia platônica atraiu para si descontentamento
de seus opositores, que o acusavam de ter confundido cristianismo com
platonismo. Muitos o cuidavam mais um filósofo platônico ou um pagão do que
propriamente um cristão. Com o tempo, foi a imagem de um grande apologista
cristão que se consagrou. Para ele, o Cristianismo é, sobretudo, força e vida,
e os antigos filósofos eram irmãos, porque haviam aspirado à vida cristã.
Atitude totalmente diversa é a de Tertuliano. Nascido por volta de 155
d.C, foi declaradamente hostil à filosofia. Sua regula fidei constituía
a norma única a que devemos nos submeter. Ela é suficiente em si mesma e baliza
o âmbito de nossas investigações. A transgressão dos limites que ela fixa é
heresia. Para Tertuliano, é preferível permanecer ignorante a violar os seus devidos
limites. Todo aquele que se atém à norma da fé conhece tudo que lhe é
necessário; pretender ir além daí é vã curiosidade. Tudo o que contradiz a regula
fidei é ignorância. Como se pode ver, Tertuliano nega que a filosofia possa
auxiliar o desenvolvimento da fé.
Tertuliano cuidava serem os filósofos não apenas defensores dos hereges,
eram eles seus próprios patriarcas. Nenhum filósofo antigo, nem mesmo Sócrates,
escapava a essa sentença condenatória. Contrariamente à posição de Justino, a
filosofia não encontrava domicílio no seio do cristianismo. Ele acreditava que
mesmo os iletrados poderiam, através da fé, chegar a muitas verdades
inacessíveis aos filósofos. Ademais, a filosofia não é só supérflua para o
cristão, mas também perigosa. Tertuliano via contradição entre a fé e a
filosofia, mas apenas insinuava haver contradição entre fé e razão. A fórmula credo
quia absurdum jamais foi empregada por Tertuliano. Ensina Gilson que “esta
frase não passa de uma interpretação de certas expressões suas como: “Crucifixus
est Dei Filius, non pudet, quia pudendum est. Et mortuus est Dei Fillius,
prorsus credibile, quia ineptum est. Et sepultus ressurrexit, certum est, quia
impossibile est.” Tradução: “O Filho de Deus foi
crucificado; não há vergonha nisso, porque é vergonhoso. E o Filho de Deus
morreu; é totalmente crível, porque é um absurdo. E, sepultado, ressuscitou; é
certo, porque é impossível”. A fé, porque não é ciência, propõe-nos o
incompreensível”. Não nos deixa de surpreender que Tertuliano, mesmo declarando
sua inimizade para com a filosofia, tenha adotado ideias filosóficas falsas do
ponto de vista cristão. Um exemplo será bastante. Em matéria de psicologia, ele
assume que a alma é um corpo sutil, tênue e aeriforme. Assim, assume um ponto
de vista explicitamente estoico. A alma espalha-se por todas as partes do
corpo, tomando-lhe a forma. Destarte, Tertuliano está convicto de que a alma é
uma substância corpórea. Só uma alma corporal pode agir sobre a matéria, isto
é, sobre o seu corpo. Somente por ser material pode também sofrer seus
influxos. Isso também explica o fato de a alma dever sua existência e permanência
no corpo à nutrição que este recebe da alimentação.
Numa direção
manifestamente oposta ao senso comum da filosofia medieval, Tertuliano afirma
ser Deus uma substância corpórea. Qualquer cristão hoje rejeitaria como heresia
essa visão de Deus. Como poderia ser Deus corpóreo e, ao mesmo tempo,
invisível, incorruptível e imortal? Mas Tertuliano acredita que sua tese da
corporeidade de Deus segue-se necessariamente da proposição de que tudo que é
real é material; e o que não é material, é nada, não existe. Ainda que seja um
ser corpóreo, Deus é invisível, por força de seu esplendor. Aqui Tertuliano se
vale da analogia com o Sol: não vemos a substância do Sol, pois ela nos cega;
só vemos seus raios. Esta é a razão por que Deus só pode ser representado sob a
forma humana.
5. 4. Orígenes: a
verdadeira sabedoria
Tome-se, doravante, para discussão
da relação entre a fé e a filosofia (ou a razão) as lições de Orígenes (185-254
d.C.). Teólogo cristão e filósofo grego, nascido em Alexandria, neoplatônico e
discípulo de um misterioso Amônio Sacas (provavelmente, fundador da escola
neoplatônica), Orígenes foi autor de inúmeros tratados ascéticos, dogmáticos e,
sobretudo, exegéticos. Foi o primeiro autor cristão a elaborar um sistema
completo do cristianismo, constituído pela articulação das teorias
neoplatônicas. Sua doutrina, no entanto, foi condenada pela Igreja.
Orígenes é um dos autores cristãos
mais lidos e estudados depois de Agostinho, entre os primeiros teólogos
cristãos. Seu pensamento teve grande difusão entre esses autores. Orígenes se
notabilizou como autor de um dos mais importantes trabalhos filológicos da
história, a Hexapla, obra que compara seis versões do Antigo Testamento,
submetendo diversos de seus trechos a uma análise histórica e sociológica,
acrescida de notas e correções filológicas. Autor fundamental para a transição
entre o pensamento grego e o cristão, Orígenes foi o catalisador do encontro
entre os dois grandes rios que viriam a dar origem ao Cristianismo: o
pensamento grego helenístico e a lei judaica. Tanto quanto Agostinho, Orígenes
é mais neoplatônico que platônico, de sorte que, por força da obra desses dois
pensadores, o cristianismo é, na verdade, um neoplatonismo para o povo.
Orígenes teria sido colega de classe de Plotino nos cursos de Amônio Sacas. Seu
pensamento tem características muito semelhantes às do pensamento de Plotino.
Orígenes foi o teólogo mais
prolífico da escola catequética de Alexandria. Nas palavras de Gilson,
Seu ascendente sobre a Igreja
universal não encontra paralelo entre os Padres Gregos, e uma avaliação
objetiva não deixará de atribuir-lhe um posto de honra entre os príncipes da
filosofia e da teologia cristã. É indiscutivelmente, a figura mais notável antes
de Agostinho. Pensador de vários dotes especulativos, dotado de uma férrea
energia de trabalho (o que lhe valeu o apelido de “homem duro como aço”, de uma
vontade inquebrantável de ortodoxia (uma heresia culposa se lhe afigura pior do
que uma aberração moral), Orígenes toma vivo interesse em quase todos os
domínios espirituais e científicos. (ibid., p. 48).
Nosso autor foi polemista, pregador,
apologeta, exegeta, dogmático, moralista e místico. Seu mestre, Clemente de
Alexandria, foi decisivo para a sua grandeza e profundida especulativa; mas,
nesse domínio, Orígenes, sem dúvida, supera o mestre. Sobre os alicerces
lançados por Clemente, Orígenes erigiu o primeiro edifício sistemático
doutrinal. Sua obra foi alvo de controvérsias virulentas entre ortodoxos e
heréticos, e ainda hoje é a mais estudada dentre todas as obras dos Padres da
Igreja.
Concluídas essas considerações sobre
a importância filosófica e teológica de Orígenes, desço a ponderações sobre o
lugar da filosofia relativamente à fé cristã, no seu pensamento. A obra de
Orígenes, segundo declara o próprio autor, é destinada aos fiéis que aspiram a
uma compreensão mais profunda das verdades da fé. Secundariamente, ela se volta
contra os hereges, entre os quais ele situa os filósofos, para impugnar seus
ataques. Seu intento é ensinar a fiéis e a infiéis os princípios, isto é, as
verdades básicas da fé, as quais se referem a Deus, ao mundo, ao homem e à
Revelação. Orígenes pretendeu-se teólogo, acima de tudo; por isso se devotou a
perscrutar os recônditos áureos da fé. Malgrado não ter empregado a fórmula fides
quaerens intellectum - fé que busca compreensão -, seu modo de proceder é
condizente com essa máxima.
Orígenes encarava a filosofia como
simples auxiliar ou serva da fé. Orígenes dificilmente poderia ser considerado
um amigo da filosofia. Não nutria pelos filósofos alta estima. Acusou-os de
muitos erros e exprobrou-lhes as fraquezas morais. No tocante aos erros dos
filósofos, Orígenes os expõe em cores vivas na ocasião em que refuta a opinião
de Celso (um filósofo do platonismo eclético), segundo a qual os cristãos
teriam se socorrido de um falso médico, Cristo, rejeitando os verdadeiros
médicos, que são os filósofos. Para Orígenes, ignorantes são esses falsos
médicos a que se refere Celso. Os epicuristas, por exemplo, negam a Providência
e elegem o prazer como sumo bem. Não deveríamos honrar aqueles que livram os
homens da enfermidade provocada por esses supostos médicos? Os peripatéticos
ensinam que o mundo não é governado por Deus, e que este é indiferente à sorte
dos homens. Não deveríamos nós nos dedicarmos a curar aqueles que se deixaram
ferir por tais médicos impostores? Por fim, os estoicos falam de um Deus
corruptível. Eles deveriam ser conduzidos ao verdadeiro Criador. Orígenes
também condena nos platônicos a crença na transmigração das almas. Como
cristão, acredita que elas terão uma justa retribuição na vida eterna.
No tangente às deficiências morais
dos filósofos, Orígenes sublinha a discrepância flagrante entre as suas
doutrinas e a sua conduta. Nem Sócrates nem Platão escapam ao seu veredicto.
Eles possuiriam a verdade na injustiça. Não obstante sua profunda compreensão
da natureza de Deus e do Sumo Bem, Sócrates
não se pejou de rezar a Ártemis no Pireu, “nem de contemplar com agrado as
assembleias solenes de homens ignorantes que para ali afluíam”. (ibid., p. 55).
Em suma, para Orígenes, os filósofos não chegaram a elevar-se à verdadeira
sabedoria, tampouco ao verdadeiro culto de Deus. Todavia, apesar de sua atitude
hostil para com os filósofos, serviu-se copiosamente da filosofia grega.
Orígenes não foi apenas um cristão
convicto, mas também um herói e um mártir. Ele não hesitou em sacrificar sua
vida em defesa de suas convicções. Entre todos os autores cristãos, primou pela
dedicação ao trabalho exegético. Seu sistema foi construído com o objetivo de
possibilitar uma interpretação racional dos textos escriturísticos divergentes.
É bem verdade que cometeu erros em seu trabalho doutrinal. Frequentemente
interpretou literalmente passagens bíblicas que demandavam uma interpretação
simbólica; por outro lado, interpretava alegoricamente passagens que deveriam
ser lidas a partir de sentidos historicamente fixados. Essas deficiências não
lhe mancham a reputação de ter sido o primeiro grande teólogo cristão. Sua
formação helênica influenciou de modo indelével o seu sistema. Convencido da
inteligibilidade de nosso mundo, buscou o auxílio da filosofia grega, mesmo
advertido de suas limitações. É inegável que perfilhou certas ideias helênicas
que não se conciliavam com o cristianismo. Não obstante todas as deficiências
que se possam apontar, “Orígenes determinou de modo decisivo a ulterior
evolução da filosofia patrística grega; seu ascendente estende-se, quer direta,
quer indiretamente, até a Primeira Escolástica, que nos depara ideias de
proveniência indiscutivelmente origenista em Scoto Erígena”. (ibid., p. 75).
APÊNDICE
O conceito de Deus à luz do pensamento de
Clemente e Orígenes
Clemente
não chegou a desenvolver uma Teologia Natural sistemática. Muito
esporadicamente teceu considerações sobre o conhecimento natural de Deus. Não
obstante, é possível rastrear, em sua obra, suas concepções de Deus. Por outro
lado, encontramos em Orígenes um material mais robusto no que toca às suas
considerações sobre Deus. Sem pretender uma abordagem exaustiva, intento apenas
lançar luzes sobre os aspectos do conceito de Deus levados em consideração por
esses dois autores cristãos, cujas contribuições teológicas estão ligadas por
uma dívida do discípulo para com seu mestre.
1.
Clemente de Alexandria: um Deus abscôndito
Clemente assume como evidente a afirmação de
que “a existência de Deus é universalmente conhecida”. Não existe um povo
sequer, segundo ele, que não acredite na existência de um Ser Supremo. Todos os homens chegam a conceber uma ideia
de Deus, pois que, em suas almas, trazem implantada uma “antecipação” deste
saber. Essa “antecipação” consiste numa “influição” divina, que encontramos nos
filósofos especialmente, graças à qual eles receberam uma ideia de um Deus como
princípio e fim do universo. Todos eles foram portadores de uma espécie de
iluminação natural de Deus.
Todavia, para Clemente, a essência de Deus é
oculta aos homens - e assim permanecerá durante toda a sua vida terrena.
Portanto, Clemente adota aqui a perspectiva da teologia negativa. Não sabemos o
que Deus é, em si mesmo; só podemos saber o que Ele não é. É impossível
conhecê-lo mediante argumentos baseados em princípios pretensamente superiores
a Ele. Ora, Deus não tem causa, mas é a razão e a causa de todas as outras
coisas. Paulo reconheceu a incognoscibilidade de Deus, quando, em Atenas,
pregou “o Deus desconhecido”. Da essência de Deus só podemos ter um saber
aproximativo, com o auxílio de algumas analogias. Mas esse saber aproximativo
não é senão um saber negativo, porque não podemos perder de vista que Deus
excede a toda determinação. Por isso, ele não se presta a definir-se por
qualquer de nossas categorias cognitivas. Essa transcendência divina não é
compreensível. O conhecimento de Deus, como todo conhecimento filosófico,
demanda do homem que se desembarace de suas impressões sensíveis que, como ensina
Platão, o mantêm aprisionado numa caverna de sombras.
Se quisermos saber o que não é Deus,
precisaremos recorrer à análise. Em outros termos, precisamos recorrer a um
processo linguístico-cognitivo por meio do qual, partindo dos dados da
experiência sensível, inferimos o princípio espiritual de todas as coisas. O
método analítico compreende um conjunto abstrações que se ordenam
progressivamente. Em primeiro lugar, abstraímos das coisas sensíveis as três
dimensões conhecidas: o comprimento, a altura e a largura. Resulta daí um
simples ponto, cuja simplicidade, no entanto, ainda o torna algo que ocupa uma
posição no espaço. Fazendo, em seguida, abstração desta posição espacial,
obteremos uma unidade puramente espiritual ou uma causa acima de todo lugar, de
todo tempo e de todo conhecimento. O leitor já deve estar deduzindo que esta
causa é Deus. (se os ministros da Igreja, os pastores das congregações
protestantes assumissem seriamente essa lição clementiana, deveriam fechar suas
igrejas. Ninguém mais precisaria falar de Deus, ou presumir que sabe quem Ele
é!). Toda a teologia deveria ser, então, reunida entre os livros de ficção
literária, ou conter apenas páginas em branco!
O método analítico proposto por Clemente deve
ainda conter mais uma etapa. Não bastam aquelas abstrações apenas; podemos
isolar do ser todos os seus aspectos corporais e incorporais, para ascendermos
à grandeza de Cristo, chegando ao conceito de Imensidade, condição esta que nos
possibilita ter certo conhecimento do Todo-Poderoso, ainda que continuemos sem
saber o que Ele é deveras. Somente atingimos um saber sobre o que ele não é. Em
consonância com Fílon, Clemente diz-nos que “Deus está acima da própria Unidade”.
Sem exibir originalidade em suas exposições
acerca de Deus como Criador, Clemente, no entanto, ajuda-nos a reanimar no
espírito o que estamos falando quando nos
referimos ao Deus cristão. Primeiramente, Deus é o Criador de todas as coisas e
o princípio absoluto de tudo. Todavia, não podemos esperar de Clemente que nos
esclareça sobre o que entende por Criação. Ele a atribui ao Lógos que, segundo
as Escrituras, fez surgir o mundo do nada, doutrina que Platão e os estoicos
teriam obtido de Moisés. Sob influência pitagórica, eles conceberam a
existência de um mundo inteligível, o qual associaram à mônade (unidade
fundamental e indivisível); e o sensível, à héxade, porque o número 6,
segundo os pitagóricos, é o número do matrimônio e da geração. A mônade, por
sua vez, é de natureza suprassensível ou celestial. Assim, o mundo sensível foi
feito a partir do modelo do mundo espiritual.
Clemente advoga também que Deus criou o mundo
por um simples ato de sua vontade livre. Esse ato criador é expressão de sua
bondade. Deus não é bom (entenderam cristãos?!) no sentido com que dizemos que
o fogo é quente, ou por necessidade de sua natureza. Para Clemente, a bondade
de Deus é voluntária, de modo que ele poderia escolher ser mau ou perverso. (Se
é o caso, ao menos, se esclareceria a razão por que a criação fez surgir tantas
pragas, patógenos e males incontáveis!). Teologicamente, há que reconhecer um
problema na concepção de uma bondade divina voluntária e livre. Deveras, se
alegássemos que Deus não pode não ser bom, ou seja, se disséssemos que Deus é
bom por necessidade de sua natureza, então algo o limitaria, algo determinaria
a sua vontade: Deus não poderia escolher não ser bom. Em outras palavras, Deus
não seria livre absolutamente. Por outro lado, se Deus é bom por livre vontade,
ou seja, porque decide ser bom, segue-se daí que: 1) Deus poderia ser mau, mas
não o é em razão do quê? Há uma causa que explica a sua bondade? Mas Deus é um
ser incondicionado; 2) Se Deus escolhe ser bom, então o bem e o mal ou são produtos
da criação de Deus, ou já existiam independentemente de Deus. Se Deus escolhe
ser bom, então agir moralmente é uma exigência que se estende também a Deus.
Aqui entrevemos o conhecido dilema de Eutífron: uma ação é moral porque Deus a
ordena ou Deus ordena uma ação porque ela tem a qualidade de ser moral? Se
aceitamos que uma ação só é boa porque Deus determina que ela seja, então o que
é considerado certo e errado variará conforme a vontade de Deus que, sendo
livre, poderia determinar que homicídios são atos bons. Se, por outro lado,
acolhemos a afirmação de que Deus ordena algo porque é bom em si mesmo, então a
moral existe de modo independente e previamente à vontade de Deus. Deus
reconhece o bem, mas ele mesmo é dispensável para definir o que é agir
moralmente. Caro leitor, um estudo aprofundado da literatura teológica cristã o
fará deparar-se com esta e com inúmeras outras aporias. E elas são uma
consequência inevitável de especulações feitas por seres humanos que inventam
imaginariamente um ser no qual projetam qualidades, categorias fornecidas pela
sua experiência de mundo como uma espécie de animal. Essas qualidades
familiares a nós, abstraídas de nossa experiência corporal com o mundo, são, no
entanto, imaginadas como existentes de modo superlativizado, sobre-humano num
ser, cujo conhecimento, de qualquer forma, nos é inacessível, numa clara
admissão de que Deus não passa de uma quimera, de um produto de uma espécie de
animal afeita a fantasias, a fabulações.
Nós só temos experiência de seres e coisas
que existem no espaço e no tempo. Quando um ser vivo morre, ele desaparece de
nosso campo experiencial estruturado pelas noções de espaço e tempo. Mas
Clemente nos fala de um Deus que existe para além do tempo, fora do tempo.
Ademais, fala da intemporalidade do ato da criação. Deus quis que o mundo
existisse e o mundo se fez existente por vontade livre de Deus. O tempo é uma
criação de Deus; aliás, todas as coisas o são. Atendamos, contudo, na ideia de
que a vontade criadora de Deus não é temporal, mas eterna e intemporal. Como um
Deus atemporal, com uma vontade atemporal (imutável, portanto), cria o tempo e
um mundo temporal? Uma vontade eterna e intemporal desconhece a corrupção, a
mutabilidade, as vacilações às quais está suscetível a vontade humana. Mas essa
mesma vontade divina faz um movimento entre o bem e o mal; ela escolhe, muda de
estado (estado que muda de um T1 para T2 (leia-se “T como
tempo). Clemente diz-nos que a vontade criadora de Deus não se fragmentou em
vários atos sucessivos. Tudo se originou de um só ato simples da vontade de
Deus, por força da qual o mundo continua a existir até hoje. Por fim, outro
grande problema para a teologia que pressupõe a existência de um Deus
infinitamente bom é a afirmação de que “tudo que Deus criou é bom”. A Criação é
boa. Deus não poderia ser o criador do mal (mas o mal existe independentemente
de Deus?). Tudo que existe é bom, porque tudo que existe foi criado por Deus, e
a essência divina (que Clemente admite ser incognoscível) é bondade e amor. A
bondade e o amor são a única razão de sua atividade criadora (ou seja, sua
atividade criadora tem um princípio (causa formal)); portanto, não é possível a
Deus criar o mal (logo, há algo que um ser onipotente não pode fazer!).
2.
Orígenes: um Deus
incognoscível
A
teologia de Orígenes é um acabamento, de certo modo, do trabalho dos Padres
Gregos. Coube a ele recolher cuidadosamente as contribuições da tradição, a fim
de aprofundá-las e subsumi-las numa unidade.
Orígenes
cuida desnecessário demonstrar a existência de Deus. Importa-lhe demonstrar a
unicidade dele relativamente aos deuses dos politeístas. Orígenes acredita que
a razão nos leva inevitavelmente ao monoteísmo. Sua argumentação assenta-se na
crença de que o cosmos é ordenado e harmonioso. Essa harmonia maravilhosa que
contemplamos no universo pressupõe a existência de um arquiteto que é seu
autor; além disso, a grandiosidade, o refinamento dessa harmonia leva-nos a
supor que esse arquiteto é um ser transcendente, isto é, diverso radicalmente
do mundo. É impossível, como acreditam os politeístas, que essa unidade e ordem
cósmicas tenham se originado de uma multidão de deuses. Orígenes propugna o
monoteísmo verdadeiro em face dos gentios e dos gnósticos. Mas não descerei a
pormenores sobre essa matéria. Concentro minhas análises na compreensão que
Orígenes tem de Deus.
Orígenes
mantém que Deus é Espírito; portanto que sua natureza é imaterial. Note-se como
a demonstração da imaterialidade de Deus se fará por analogia com a suposta
imaterialidade do espírito humano. Insisto novamente que o conceito de Deus foi
construído com base em modelos cognitivos formados em nossa experiência de
mundo centrada no nosso corpo. Orígenes baseia sua demonstração da
imaterialidade de Deus no pressuposto metafísico da imaterialidade do espírito
humano. Ele começa afirmando que nosso espírito (intelecto, ou o que hoje
chamamos “consciência”) independe totalmente do espaço para poder existir e
realizar suas atividades. A experiência dos navegadores que sentem esvair-se o
vigor e a energia quando seus corpos são agitados de um lado para o outro pelas
correntes marítimas não desencoraja Orígenes. Para ele, o espaço, o ambiente
natural, só influi sobre o espírito de modo indireto, ou seja, através do
corpo. O homem é um animal composto de alma e corpo; Deus, ao contrário, é
absolutamente simples; é destituído de matéria e espírito; sua existência não é
condicionada por lugar algum.
Orígenes
afirma também que o espírito realiza suas atividades independentemente das
dimensões corporais. Se nossos olhos físicos se dilatam ou se contraem,
conforme o tamanho dos objetos que apreendem, o espírito não sofre essa
influência. A qualidade nobre e exclusiva do espírito é a sua imaterialidade.
Outra prova de que o espírito é imaterial é que ele é capaz de julgar coisas
difíceis e sutis. Essa aptidão do espírito seria inexplicável, caso tivesse uma
natureza material. Ainda segundo Orígenes, o espírito é destituído de
propriedades dos corpos, tais como cor e forma. A imaterialidade do espírito se
demonstra também pelo reconhecimento de que ele carece de um objeto que lhe
seja exclusivamente correspondente. Cada sentido corporal tem um objeto
material que lhe é próprio. Assim, o olho tem por objeto a cor e a forma; o
ouvido, som. É, portanto, a partir da demonstração da imaterialidade do
espírito que Orígenes prova a imaterialidade de Deus. Como a natureza de Deus é
simples e inteiramente espiritual, deve-se dela excluir todas as propriedades
corporais que subtraímos da alma humana, já que Deus transcende todo espírito
humano. Na medida em que Deus é um ser absolutamente simples, Deus não é parte
de nenhum todo; tampouco é o todo, porque o que é incorpóreo é destituído de
partes e, consequentemente, não pode ser um todo. Segue-se, necessariamente,
que devemos conceber Deus como Espírito Absoluto, podemos nos referir a ele
como mônada ou Unidade espiritual absoluta.
A
natureza espiritual de Deus é o fundamento de sua transcendência em relação ao
mundo sensível; e sua absoluta simplicidade torna-o infinitamente superior às
qualidades e às atividades de nosso espírito. Também para Orígenes, Deus é, em
essência, incompreensível. E essa incompreensibilidade de Deus tem como causa
principal o nosso corpo. Como (neo)platônico, Orígenes pensa o corpo como um
cárcere onde o espírito, nele preso, sofre a diminuição de suas forças.
Aprisionado nesse cárcere, o espírito, embora não completamente impedido de
transcender às limitações corporais, sente custosa a apreensão das coisas
incorporais. Como não conseguimos perceber a débil luz de nosso espírito, como é
possível exigir que fôssemos capazes de intuir o Deus imaterial? Posto que a
plenitude da luz divina não seja acessível a nós, podemos vislumbrar-lhe alguns
raios tênues. É por meio da analogia entre o Criador e as criaturas que
Orígenes, malgrado reconhecendo haver um grande abismo os separando,
esforçou-se por transpô-lo tanto quanto possível.
Cabe
insistir que o Deus cristão é, para Orígenes e para tantos outros autores
cristãos, o radicalmente Outro. A transcendência de Deus está na raiz de sua
incompreensibilidade essencial. Assim, Deus não é apenas transcendente ao mundo
e às suas criaturas, mas transcende até mesmo os enunciados com os quais buscamos
defini-lo. Deus é Espírito, dizemos; mas é superior ao espírito; Deus é a
Verdade, mas também está além da verdade, é maior que ela; Deus é o Pai da
sabedoria, mas é melhor que a sabedoria; Deus é a vida, mas é superior à vida.
Finalmente, Deus é o Ser, mas está além do ser. Fazendo coro com Clemente e com
Fílon, Orígenes nega ao homem a capacidade de conhecer a essência de Deus.
Por
fim, gostaria de acrescentar algumas breves exposições sobre a defesa
origeniana da perfeição do mundo. A despeito de sua existência ab aeterno,
o mundo criado é finito e limitado em si mesmo. Orígenes vê o mundo como uma
obra de arte de Deus. Deus criou o número de criaturas racionais e a quantidade
de matéria necessários para a beleza e a perfeição do mundo. Desde os gregos,
falar em perfeição e em ordem é falar em medida e determinação. O perfeito não
carece de nada nem tem nada em excesso. Portanto, Deus não criou um número de
criaturas que o impedisse de governá-las. Tampouco se excedeu na criação da
matéria, tornando-a muito maior quantitativamente do que o necessário para o
ordenamento e a conservação do mundo.
Orígenes
está convicto de que todas as criaturas de Deus são belas e boas. Essa é a
ideia fundamental que se espraia por todo o seu sistema. Esse seu otimismo
imperturbável se estende também por sua antropologia. Deus criou o mundo por
pura bondade. Opondo-se aos gnósticos, para quem o mundo era imperfeito e seu
criador um demiurgo inferior e ignorante, Orígenes enfatiza a beleza e a ordem
do mundo. Animado pelo platonismo, ele se arvora na defesa da existência de um
Deus que criou um mundo completamente perfeito, no interior do qual cada
criatura é igualmente perfeita em seu próprio gênero. A razão por que Deus
criou o mundo e os seres humanos reside exclusivamente em sua própria bondade.
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