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segunda-feira, 11 de março de 2013

"Todo Eu supõe um Outro reciprocamente" (BAR)


                                    


                                    Reencontrando-me
“No cuidado de si, o conhecimento de si torna-se prática, arte de vida.”
(novas vitaminas filosóficas)

Não sei ainda o que farei com estes livros que empilhei sobre esta escrivaninha diante da qual me sento. Eu os apanhei em meu armário, os livrei da clausura e do esquecimento para reanimar suas palavras em minha alma, porque ela esteve por um longo período de tempo de minha vida concentrada em suas páginas. Deverei eu citá-los aqui? São muitos. Saiba o leitor que este texto não está sendo produzido segundo um plano espiritual claro e metódico. Os caminhos que percorrerei com minhas palavras se entrecruzarão e, neste momento, me parecem difusos. Há mais descaminhos com depressões do que estradas aplanadas e bem demarcadas no itinerário de meus pensamentos. Só uma garantia há: serei meticuloso nas escolhas verbais que farei; cuidarei para que a linguagem não me traia as disposições favoráveis do espírito. Ponho-me nua a alma. Vou revasculhar-me. Esse neologismo é provisório; mantenho-o por falta de uma expressão melhor; tão-logo, contudo, se me afigure ao espírito uma palavra mais adequada à expressão do meu intento dela me servirei. Eu deixei marcas gráficas nestes livros que dispus diante de mim. É a elas que me aterei. Vou citá-los então, para satisfazer a curiosidade do leitor. Sonetos de Florbela Espanca, As Flores na janela sem ninguém..., Ecce Homo, Esse ofício do verso, Melhores Poemas de Paulo Leminski, Poemas de Fagundes Varela, Eu e Outras Poesias de Augusto dos Anjos, Melhores Poemas de Fernando Pessoa, A rosa do povo, de Drummond, Poesias de Olavo Bilac, Poesia Erótica, Sonetos de Luís de Camões, As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, Nova Antologia Poética, de Vinícius de Moraes, O silêncio dos amantes, de Lya Luft e Palomar, de Ítalo Calvino. A lista não está completa... Sinto que falta um que me foi e ainda me é caro...mas a memória costuma trair-me.
É difícil perscrutar-se. Tenho medo. Já me vi, num passado não tão longínquo para a alma, embaraçado em tramas verbais aterrorizantes e depressivas. A filosofia me salvou; e o ateu que jazia em mim sufocado libertou-me da escravidão de uma fé que não cessava de confrontar-se com os questionamentos. E fé não lida bem com questionamentos. Fé e questionamentos não se avizinham. Ou ela fica e eles saem, ou eles nos ocupam e a expulsam. Eles a expulsaram!
Nas páginas de Espanca, encontro esta estrofe, ao lado da qual escrevi “verdade!”.

Mas não te vejo, Amor, essa indiferença
Que viver neste mundo sem amor
É pior que ser cego de nascença.

Este terceto faz parte do poema intitulado de “Frieza”. Fui apaixonado por Espanca durante um bom tempo, um tempo tão afeiçoado às ilusões primaveris, que dele me recordo como quem se recorda de um sonho erótico, do qual acorda com ereção, não raro, extasiado com uma ejaculação!

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa
A pedra do caminho, rude e forte!

Onde há desejo há falta. Aprendi com Freud, com Sócrates, com Platão... Só desejamos aquilo que nos falta. O desejo existe na falta, na carência, na ausência. E eu desejava e pensava demais. Pensar demais dói. Doía mais do que agora. Por isso o desejar ser como uma pedra, que nada pensa, que nada sente, que nada deseja. Ser um em-si e bastar-se.
Abro o livro de Lia Luft. Encontro estes versos precedendo a Apresentação.

Sem palavras

A vida inteira busquei
explicações e deciframentos:
encontrei silêncio e segredo,
às vezes conforto de um ombro
outras vezes
dor.

No último lapso
de um tempo sem limites
- embora a gente o queira compor
em fragmentos -,
abriram-se as águas
e entrei onde sempre estivera.
Tudo compreendido
e absolvido,
absorta eu me tornei
luz sem sombra:
assombro.

Quanto mais nos aproximamos do mundo para auscultá-lo com o pensamento mais silencioso ele fica. E naquele tempo buscava, como agora, compreender o mundo sem, contudo, viver amalgamado com ele. Confundir-me, jamais! Distinguir-me sempre!


Estes versos te dou e se a celebridade
O meu nome levar aos mais longínquos anos,
Pondo à noite a sonhar os cérebros humanos
Como nau favorecida pela tempestade.

Este quarteto é de Baudelaire. Ao lado do qual, escrevi “Sou esta nau, poeta”. Lembrei-me de outro livro de Lia Luft. Mas me custa encontrá-lo agora. Tempos fervilhantes de cismas de um ensimesmado desejoso de amar! E eis que se me deparam estes poemas-pílula de Leminski.

            I

vida e morte
amor e dúvida
dor e sorte

quem for louco
que volte

         II

esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem


III

vazio agudo
   ando meio
cheio de tudo

IV
escurece
cresce tudo
que carece

No livro Esse ofício dos versos, encontro sublinhados por mim os seguintes trechos. Se os refiro abaixo, é porque, evidentemente, eles me significam, me capturam de um modo tão fidedigno e sucinto que eu mesmo não conseguiria fazê-lo aqui. O meu sentimento em relação à linguagem está muito bem derramado nestas linhas verbais.

“Eu pensava que a linguagem fosse um modo de dizer as coisas, de exteriorizar queixas de dizer que se estava feliz ou triste, etc. Mas quando escutei aqueles versos (...) soube que a linguagem podia também ser música e paixão. E assim me foi revelado a poesia”.

“Divertiu-me uma ideia – a ideia de que, embora a vida de uma pessoa seja composta de milhares de momentos e dias, esses muitos instantes e esses muitos dias podem ser reduzidos a um único: o momento em que a pessoa sabe quem é, quando se vê diante de si”.

Então, vou-me permitir estar diante de mim. Mas, antes de me despedir, momentaneamente, dos livros, trago à cena estas palavras de Nietzsche. Poderemos nelas:

“(...) eu tenho necessidade de solidão, isto é, de curar-me, de tornar a ser o que eu fui, de ser o que eu fui, de respirar uma atmosfera livre, leve e forte...”
(Ecce Homo, p. 47)

Devo a Rubem Alves o aprender a conviver com a solidão. Este trecho de seu texto “A solidão amiga” foi determinante dessa aprendizagem, ou libertação da ideia de que a solidão é necessariamente nociva à vida.

“A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.”


Solidão é uma palavra tão mal reputada hoje em dia. Os solitários costumam ser mal vistos. Tornam-se pessoas indesejáveis, desinteressantes. Se você diz ser solitário, as pessoas, em geral, não o/a compreendem bem. Fica um silêncio a reivindicar explicações (ou não). Por vezes, o silêncio pode sinalizar um interesse em que se mude o assunto da conversa. Alguém me disse que desconfia das pessoas que têm poucos amigos, após eu ter lhe revelado não contar com muitos amigos a minha volta. Longe de negar a importância da amizade, das relações de afeto entre pessoas sem interesse sexual uma pela outra, mas a razão por que alguém não tenha tantos amigos não necessariamente tem a ver com a possibilidade de não ser uma pessoa confiável. Tem a ver, muita vez, com tipo de personalidade, com interesses ou inclinações. Por falar em solidão, amizades ou carência delas e relacionamentos, certa feita, escrevi o seguinte:

Existir é condição necessária para a solidão. E muitos se espantam com a ideia de que uma pessoa pode sentir-se sozinha no meio de muitas pessoas: é que a mente tem esconderijos, espaços impenetráveis, caminhos obscuros, salões imensos, onde ressoam os gritos de um “eu” encarcerado, que, em algum momento de sua vida, deu-se conta do absurdo da existência”.

Este é um trecho destacado de um texto, de cujo título me olvidei (poderia ter escrito “me esqueci”) e que fora escrito numa fase profundamente deprimente de minha vida. As pessoas, em geral, também tendem a rejeitar os depressivos. Mas eles têm muito a nos dizer e a nos ensinar. Geralmente, as pessoas bem-resolvidas, bem arranjadas sob sua própria pele são as que mais se armam contra os tipos depressivos. Não sou mais um depressivo. A terapia me curou; mas não deixei de ser um inconformado, um desencontrado, um deslocado, um desmedido, um desassossegado, um desterrado, um desiludido reincidente; não deixei de estar em desacordo com a existência e com o mundo. Houve, decerto, uma conciliação entre mim e a vida corpórea e mundana em detrimento da aspiração a uma vida etérea e espiritual (além-mundo), que antes conduzia meu espírito a trafegar pelos caminhos da metafísica espiritualista. Sou um materialista desconfiado dos dogmatismos, inclusive dos materialismo dogmático. Aceito as explicações sobre a vida, a matéria, o Universo, a natureza dadas pelos filósofos materialistas, pelos biólogos e pelos demais cientistas da ciência “dura”, mas ainda aceito de bom grado o Mistério, que nos abarca. Eu diria que o humano em mim se reconciliou com o meu Eu, que são muitos e ao mesmo tempo o mesmo. Este eu que sei imagético (porque assume muitas feições, muitas máscaras, sem deixar desaparecer um núcleo duro em que está assentado). Há um “eu” submerso de que não nos ocupamos no dia-a-dia; daí a importância de, pela interiorização, incomodá-lo, perquiri-lo, redescobri-lo, ainda que nos vejamos novamente envolto numa bruma imagética, à iminência de dissipar-se.
Tenho procurado, após um término de um namoro que se prolongou por um ano, ocupar-me nas reflexões sobre relacionamentos. Durante os anos em que a solidão era minha única companheira, os relacionamentos, contemplados a distância pelo espírito, eram avaliados criticamente. Da inquietude nasciam trechos como estes, que dou a saber ao leitor, abaixo:

“Por que me incomodam as relações descartáveis entre homens e mulheres em nossa sociedade “pós-moderna”? Claro está que, sabendo-se eu um ultra-romântico “anacronicamente lançado em época pós-moderna”, sabendo-se, pois, um homem que conta vinte e seis primaveras e que se vê às voltas com uma solidão anímica e escusa àqueles que estampam uma alegria gratuita, em meio a uma profusão de vozes, vivo recolhido numa sinfonia de silêncios que revelam dimensões incompreensíveis a quem acredita ser o corpo o limite da realidade humana. A solidão que me acompanha é uma solidão vital: a solidão decorrente da consciência de estar consciente de que existo. Existir é condição necessária para a solidão. (...)”

“Os embaraços de bocas, os duelos de ancas, brindados com alguns copos de cerveja, são sinais de que a satisfação e o prazer não parecem residir na inter-relação de complexos orgânicos e emocionais; ao contrário, habitam a materialidade de meros produtos de uma sociedade que aplaude a superficialidade, o utilitarismo e o consumismo. “Quem namora comportado está fora do mercado”, disse, certa vez, um Mc. E quem negará que se trata de um mercado? De um mercado das emoções, cujas mercadorias são as próprias pessoas que preferem provar das delícias do banquete, ainda que outros tantos já o tenham feito. E as emoções se diluem a cada nova bocada...”.

E ficam os restos... dos corpos consumidos num prazer imediato, urgente, extasiante e fugaz...

O silêncio é a voz mais significativa do Amor, sempre que, face a face, dois amantes leem emocionalmente um a alma do outro. Gosto de entabular longas conversas com pessoas intelectualmente mais elevadas, especialmente se entre mim e elas há um liame de emoções harmônicas, porque, durante a conversa, leio com a alma a alma delas. Essa leitura anímica é privilégio apenas dos que vivem pela alma e para a alma e não pelo corpo e para o corpo”.


“Nasci conhecendo a solidão. Ela foi a primeira presença que se achegou a mim. A vida é tão débil, que não sei que haja esforço que a justifique. Chegará o tempo em que nossa vitalidade se sustentará com remédios. Não escapamos disso. O fato é que nascemos projetados para o futuro inapreensível; pois hoje é futuro em relação a ontem. O futuro é um mistério que, desejado, nos escapa.
O futuro justifica nossa travessia. Somos transeuntes que se ignoram na azáfama do cotidiano. O centro da cidade está cheio deles – transeuntes sem rostos, sem identidade definível; uma massa homogênea num ir e vir condicionado, irrefletido. Cada um com seus pensamentos atados aos seus encargos, à urgência dos compromissos, ao tempo que se esvai cada vez mais rápido. Levamos conosco o imperativo de dever, mas ignoramos o sofrimento dos inúmeros mendigos que por lá vagam ou dormitam. Por que não nos sensibilizamos com tamanho infortúnio? Porque não há beleza naquele miserável sofrimento. Só nos comove o sofrimento em que há beleza, em que há encanto e que nos ensina. Compadecemo-nos do sofrimento alheio, quando dele podemos colher uma lição; se nada nos ensina, conservamos a indiferença; simplesmente passamos e, enquanto passamos, somos apenas transeuntes indiferentes lutando para sobreviver.
A condição de transeunte nos é estabelecida pela sociedade. Desde que nascemos, nossos pais nos educam para que nos tornemos transeuntes (os bebês costumam maravilhar os pais quando começam a dar seus primeiros passos); afinal, devemos participar da travessia da vida, que se estende da casa para o trabalho e na volta do trabalho para a casa, com algumas paradas para o lazer. Aprendemos ser a vida passageira e o tempo da modernidade líquida cada vez mais escasso; o Amor, um ideal inatingível, um delírio incurável de inveterados inconformados. E assim seguimos nas imensas avenidas dos sonhos, transitando por alguns becos de ilusões; atolando a alma em algumas calçadas de lágrimas. Não nos é possível deixar a vida ilesos.
Seguimos indiferentes uns aos outros, cumprindo encargos quase nunca questionados. E nesse mar de indiferenças recíprocas e insistentes, desejamos repousar nosso coração numa alma acolhedora; desejamos encontrar apenas uma que por instante deixou de nos ignorar, para nos admirar. O absurdo não nos incomoda, porque raramente dele suspeitamos. Existimos para sobreviver. Isso basta. Alguns de nós são transeuntes de calçadas/ outros, de sua própria alma. Alguns estão de passagem, sem tempo para conversas elevadas; outros gostam de dar passeios e admirar a insignificância de nossa pressa e travessia.”


Este último excerto, caro leitor(a), me causa, ainda hoje, espanto, dada a acuidade com que apreende este viver banal, urgente e despropositado em que muitos dentre nós estamos imersos. O cotidiano dos transeuntes é vazio de imersões de alma, é empobrecido de diálogos, de reflexões, de pensamentos, de amor.
Eu ainda não estou satisfeito com o que escrevi até aqui. Acho que não cheguei sequer à termosfera de minha alma. Mas sinto que ainda tenho algumas palavras mais a acrescentar a este discurso revisional-introspectivo. Abro um parêntese para referir um trecho do livro Passeio pela Antiguidade (2012). Este trecho ensina-nos uma lição a que meu espírito aderiu como um piche: pensar diferente modifica a vida. Com a descoberta da filosofia, meus pensamentos se robusteceram e se tornaram conflituosos com os que antes habitavam minha alma; não todos, é claro, mas o meu inverso tornou-se reverso deixando permanecer essa insistência em desapegar-me. Você não me compreendeu aqui, nem mesmo eu me compreendi, mas gostei deste trecho. Não se preocupe em aprofundar-se em mim, sob pena de afogar-se e não conseguir mais assomar à superfície da vida. Sempre necessitamos das superfícies... uns patinam sobre elas durante a vida toda... mas, mesmo os que se aventuram em imersões demoradas na existência, precisam voltar a caminhar sobre elas... Namorar o absurdo por muito tempo pode nos enlouquecer. Afinal, é preciso existir sendo um pouco transeunte:

“A chave da existência reside, pois, no pensamento. Portanto, convém regrar as próprias ideias a fim de regrar o próprio modo de vida. Com efeito, uma ação não cessa de remeter a outra. Modificar a própria vida é modificar o próprio pensamento. Pensar de modo diferente é viver de modo diferente. Resta saber como pensar (...)”.

(p. 68)


A filosofia operou uma cirurgia em meu espírito. Lendo Nietzsche, descubro o poder de sua crítica ao romantismo que impregnava o seu tempo de negação à vida. Nietzsche me ensinou a afirmá-la, em que pese as suas intempéries. E como não lembrar aqui Epicuro e sua escola que lhe ostenta o nome. São quatro os pilares que sustentam sua doutrina: 1) não temer os deuses; 2) não temer a morte; 3) buscar prazeres moderados; 4) evitar a dor. O Deus, eu o rejeitei, porquanto absurdo; a morte, já há muito acolhi em meus pensamentos e contra ela se debate a força de meu espírito, especialmente nas noites em que a lua não me visita antes do sono; os prazeres estiveram limitados ao ventre da alma (a poesia, a leitura, a escrita, o amor). Só muito tardiamente conheci o prazer do enlace dos corpos, ao qual veio presa uma cadeia de frustrações. Nada mais natural para um idealista. A par deste espírito estóico que me sabe à existência, trago comigo o pendor estóico para a indiferença ao sofrimento. A vida é uma luta. Disso soube desde que nasci. Nascer é resistir à morte prematura, à inclinação de toda vida, que é frágil, para o abandono à morte (descanso desejado pelos falidos).
Que nos ensina, por exemplo, um estoico como Epicteto? Que só temos domínio sobre nossa vontade, sobre nossas opiniões. E nos oferece um exercício básico: voltemos para nós mesmos e nos perguntemos se podemos exercer alguma influência sobre a ordem de um dado estado-de-coisas ou situação. Se não podemos, não nos perturbemos. A esse estado de ausência de perturbações, os antigos gregos chamavam “ataraxia”. A quietude absoluta e plena me é impossível. Por isso, nesse sentido, não me sinto um estóico. Fico, entretanto, com a coragem para o enfrentamento dos infortúnios do acaso. Negá-lo é mentir para si mesmo. E não deixei de ter medo. Epicuristas e estoicos unidos a um mesmo ideal: a permanência na serenidade. Ideal sempre me foi uma palavra entranhada na alma. Sua semântica costura o tecido de meu espírito desde que comecei a namorar os ultra-românticos. É verdade que minhas disposições ultra-românticas de outrora, sempre mal compreendidas,  estavam muito embaraçadas com meu temperamento de fé, de modo que, exorcizando este, eliminei daquelas o exagero sugerido no prefixo “ultra-“. Ainda me reconheço como um idealista, mas no sentido muito bem desenvolvido por Ingenieros, em seu O Homem medíocre. Os trechos se dispõem abaixo:


“Os idealistas românticos são exagerados porque são insaciáveis. Sonham o máximo para realizar o mínimo, compreendem que todos os ideias contêm uma partícula de utopia e perdem algo ao se realizar: em raças ou em indivíduos, nunca se integram como pensam. Em poucas coisas, o homem consegue chegar ao ideal que a imaginação assinala: sua glória consiste em avançar em sua direção, sempre inatingível.”

“[os idealistas românticos] são dionisíacos. Suas aspirações se traduzem por esforços ativos sobre o meio social ou por uma hostilidade contra tudo o que se opõe a seus palpites e sonhos. Constroem seus ideais sem conceder nada à realidade, recusando-se a ser tolhidos pela experiência, agredindo-a se ela os contrariar. São ingênuos e sensíveis, fáceis de se comoverem, acessíveis ao entusiasmo e à ternura; com essa ingenuidade sem falsidade que os homens práticos ignoram. Basta um minuto para se decidirem para toda a vida. Seu ideal cristaliza em firmeza inequívoca quando a realidade os fere duramente”.

(p. 26)

Uma característica intrigante do amor romântico é que, uma vez consumado sexualmente, ele perde o seu encanto ou arrefece seu desejo antes inflamado. O amor romântico é amor da impossibilidade de completar a sua falta. Não há páginas felizes na história do amor romântico, disso nos lembrou muito perspicazmente Hegel.  Daí que a morte, a loucura e o suicídio sejam males constitutivos desse gênero de amor. Não obstante, há uma característica do amor romântico que me atrai, a despeito de sua natureza irremediavelmente trágica: o amor romântico alimenta-se da alma e não do corpo. Insisto que a experiência sexual diminui o ardor do amor romântico.
Não me agrada referir trechos sem a partir deles produzir um sentido. Também não gosto de fraturá-los, para me concentrar em apenas um pedaço deles. Mas preciso fazê-lo. Toca-me a alma este enunciado, colhido do último exemplo citado: “Seu ideal cristaliza em firmeza inequívoca quando a realidade os fere duramente”. A realidade já me feriu, mas o ideal ainda permanece cristalizado em minha alma. Acho que os docentes precisam ser idealistas, em alguma medida. Sem ideais, não é possível fazer educação.
Epicuro é silenciado no cenário capitalista da modernidade líquida, em que os indivíduos são, em geral, ávidos de prazeres imediatos, extasiantes e constantemente renováveis. O que dura entedia; é bom que nada dure, ou dure o tempo suficiente para que se possa buscar novas formas de prazeres (o que significa dizer que dure muito pouco). Só há prazer em movimento; eles se entendiam com o prazer em repouso. Aliás, não há prazer no repouso, a menos quando estão dormindo ou se sentem demasiado cansados após um longo curso frenético de experiências de prazer, sempre fugazes.
A despeito dos bons momentos em que vivemos juntos, não seria feliz ao lado dela, porquanto ela se demonstrava incapaz de aprofundar-se nos oceanos de minha alma. Limitava-se a denunciar as flutuações superficiais de minha alma. Todavia, meu nascimento legou-me uma profundidade de espírito com a qual terei de me haver até o fim dos meus dias. E é provável que nunca chegue a compreendê-la cabalmente.
Sigo, então, a caminhar com o espírito vagaroso... E nesse reencontro comigo mesmo, sinto que muito de mim se perdeu... Não tenho saudade dos tempos em que vivia inteiramente absorvido em mim, mergulhado neste eu que vivia namorando a ideia de compreender a totalidade do Ser. E acreditava estar ela circunscrita no domínio da fé cristã. Eu, provavelmente, estive entre os melhores cristãos leigos contemporâneos, um cristão para quem a fé e Deus eram um problema para o pensamento. E o afirmo satisfeito e convencido de que a verdadeira salvação eu encontrei na/ pela filosofia. A salvação não pressupôs meu abandono, mas a restituição do meu lugar no devir inerente ao mundo. A escrita, as palavras que lancei sobre os papéis sempre me permitiram estar no controle sobre quem fui e quem sou.
Certamente, eu não escrevi tudo; não confessei tudo, nem poderia. Certos aposentos da alma devem permanecer trancados. Toda palavra que penetra nesses imensos esconderijos onde o ‘Eu’ se refugia comete uma violação, ou mesmo uma violência. Não é fácil lidar com as palavras; é preciso saber domá-las, manejá-las, arranjá-las, de modo que os significados não entrem em conflito, não se desmintam, não se contradigam. Palavras são artefatos belicosos, embora também, se bem empregados, possam produzir estados temporários de paz e harmonia.
E o silêncio convida-me ao retorno à leitura.