O animal enjaulado
Se, como escreve
Rosa Dias, com razão, ao ler Nietzsche, “a vida é atividade criadora”, e se o
animal humano vive, é parte do ecossistema da vida, é um organismo vital, é o
homem também criador. No entanto - Pasmem-se!-, historicamente, o homem se
alienou de sua natureza; criou instituições, toda uma ordem
simbólico-institucional que o nega enquanto tal. Alienado, o homem concebe-se
ainda hoje como criatura de um Criador, vive como escravo de uma ordem
institucional em cuja origem ele não se reconhece. A vida civilizada, produto
da atividade laboral deste animal excêntrico e periclitante que é o homem, é a
causa de seu adoecimento, de seu apequenamento, de sua demência.
Civilizando-se, o homem construiu para si mesmo seus cárceres, dentro dos quais
ele vive como um estranho que não se reconhece na sua criação, e luta pelo
direito de permanecer encarcerado, pelo direito de ser quem acredita
imaginariamente ser: o herdeiro primogênito de um Pai celestial, sem suspeitar
que esse Pai é criação sua, que toda a ordem que cria tem a marca de um criador
ausente, de um criador que se renegou.

O ALÉM-DO-HOMEM COMO CATEGORIA
TRANS-HISTÓRICA
A partir de dois pequenos textos que publiquei
em minha página do Facebook e estimulado pelas leituras sobre Nietzsche (estou
agora lendo um ensaio de Giacoia que se acha no livro “Labirintos da Alma:
Nietzsche e a autossuperação da moral”), fiz a mim a questão: quem é o
além-do-homem hoje? Como pensá-lo em nosso tempo? A quais tipos culturais se
contrapõe? É interessante pensar que Nietzsche nos legou uma categoria, um tipo
conceitual trans-histórico, uma categoria que nos permite pensar a necessidade
de autossuperação contínua do homem no devir histórico. (Diferentemente do que
julgava eu há algum tempo, não acho que o além-do-homem é um conceito superado,
inoperante para nos auxiliar a pensar a condição do animal humano como ser no
mundo). Acho que se trata de uma categoria filosófica sumamente valiosa, que
descerra o horizonte teórico à luz do qual o homem é um experimentador de si
mesmo, um criador de mundos históricos, um criador de si mesmo. Ocorre que
Nietzche soube bem denunciar o tipo humano que vicejou na cultura ocidental com
a mudanização do cristianismo. Nestes pouco mais de 2.000 anos de subsistência
do sistema cristão de interpretação moral-religiosa, ainda predomina entre nós
o tipo humano asceta, infestado pela vontade de nada, habitado pelas forças
reativas do ressentimento, submisso aos poderes constitutivos da moral de
rebanho. Se como escreve Giacoia, “ pode-se legitimamente caracterizar a
filosofia de Nietzsche, em linhas gerais, como um ousado esforço teórico para
levar a cabo uma crítica radical das formas superiores da cultura no Ocidente,
que são por ele interpretadas como produto e superfície da reflexão do tipo
histórico-cultural constitutivo do homem moderno”, como, então, pensar o tipo
humano hegemônico em nossas sociedades hipermodernas (Lipovetsky),
pós-modernas... em relação ao qual o além-do-homem, que Deleuze pensa
caracterizar-se por uma “nova maneira de sentir e de pensar”, e poderíamos
dizer “de viver, de afirmar”, se constitui agonisticamente? Nietzsche não
assistiu ao terror dos totalitarismos, não viveu para assistir às duas Grandes
Guerras Mundiais, não acompanhou o predomínio e expansão do homem-massa no
pós-guerra, homem-massa hoje transfigurado no escravo digital... Nietzsche não
assistiu ao avanço do fascismo histórico, como também não pôde pensar seu
além-do-homem contra o que Reich chama de “peste fascista” “uma certa concepção
de vida e uma atitude perante o homem, o amor e o trabalho”. O fascismo como estrutura
do caráter, da personalidade do animal humano que continua entre nós, que
continua a ameaçar não só nosso modo de vida democrático liberal, mas a própria vida em
geral. Reich disse que “o fascismo é a atitude emocional básica do homem
oprimido da civilização autoritária da máquina, com sua maneira mística e
mecanicista de encarar a vida”. Como pensar o além-do-homem como horizonte de
autossuperação do homem autoritário, do tipo humano fascista, que persiste
entre nós? Enfim, o além-do-homem é um dos mais significativos legados
filosóficos de Nietzsche, uma categoria trans-histórica, atemporal que nos
permite pensar a necessidade de autossuperação das formas-homem historicamente
constituídas como formas infestadas da negatividade, do ódio contra a vida, contra
a diferença, contra a diversidade. Mas que fique bem claro: o além-do-homem é
sempre pensado no registro do individual, não no da coletividade. Não
caracteriza o homem em geral (abstrato), mas cada indivíduo humano. Pensar o
além-do-homem é pensá-lo no campo de forças que é o mundo, onde ele se afirma
em combate com outros tipos humanos hegemônicos. Entre nós hoje, o campo
agonístico tem cada vez mais sido disputado e ocupado pelos tipos humanos da
política ressentida, que reanimam e querem impor os valores decadentes forjados
no imaginário-simbólico cristão e ultraconservador. Esses tipos e grupos
humanos querem reativar a absolutidade dos sentidos e valores dessa tradição,
querem nos fazer funcionários da servidão moral contra a qual há mais de um século
se insurgiu Nietzsche. Aqui como em outras partes do mundo, a libertação
niilista ainda não encontrou terreno para prosperar e dar frutos. O Brasil é
hoje como o tem sido em sua relativamente curta história tão espiritual quanto
social, política, economicamente atrasado.

A Lucidez niilista: é possível ser niilista sem ser
decadente?
Não obstante ter Nietzsche entendido o niilismo
como a lógica da decadência, o niilismo, em Nietzsche, não se reduz ao anúncio
da morte de Deus. A teorização nietzscheana do niilismo se desenvolve por
muitos trajetos, abre-nos diversos caminhos semânticos. O fenômeno do niilismo
em Nietzsche é polimórfico (há diversas variantes do niilismo) e polissêmico (
há vários temas a ele associados). No registro do anúncio da morte de Deus, o
niilismo se revela como uma experiência do Nada como abismo sem fundo dos
valores superiores que até então davam sentido e sustentação à existência do
homem ocidental. O niilismo é, nesse contexto de problematização, a lógica do
movimento agonizante dos nossos valores superiores. Mas Nietzsche não para por
aí: é preciso levar o niilismo até suas últimas consequências lógicas. É
necessário completar a travessia do niilismo. Enquanto o homem se ressente da
derrocada dos valores superiores que o Deus cristão representava, ele ainda
vive mortificado, enfraquecido por um niilismo incompleto. É preciso superar
este estágio do niilismo do cansaço, da fraqueza, da vontade de nada, para
transfigurá-lo na forma de “pensamento divino”, portanto, na condição
necessária para a criação de novos valores afirmativos, de um novo
imaginário-simbólico à luz do qual a vida se posiciona como valor supremo e o
homem se reconhece como verdadeiro criador. Vattimo tanto quanto Giacoia nos
lembram que o niilismo, em Nietzsche, tem caráter ambíguo. Ele tanto pode
significar uma síndrome de declínio, a experiência do cansaço da vida, quanto
pode ser uma potência ascendente do espírito. Meu esforço teórico consiste em
inscrever o niilismo como parte do projeto nietzscheano de desmitificação do
homem e de transvaloração dos valores que o tornaram um animal doente, esgotado
e habituado ao autoengano. Não é o niilismo que deve ser superado, mas suas
formas decadentes. Porque, se tudo que há são vontades de potência em relações
agonísticas, também o niilismo é um campo agonístico de vontades de potência. A
forma assumida pelo niilismo dependerá do predomínio da qualidade das forças em
combate em seu interior. No Ocidente, por força da hegemonia do sistema de
interpretação moral-religioso que é o Cristianismo, predominaram no niilismo
entre nós as vontades de poder decadentes, negadoras. Nós vivenciamos o Nada
como déficit de ser, como vazio de sentido, como aniquilação, como perda de
esteios valorativos, como ausência de sentido, experiência muito diferente que
têm os orientais do Nada e do Vazio. Se o niilismo é a lógica de um movimento
histórico-cultural de desmoronamento, de derrocada dos valores superiores, de
todo um imaginário-simbólico que dotava de sentido a vida humana, então o
niilismo, entre nós, é o mais radical processo de desmitificação do homem. É
esta a tarefa do niilismo ativo em Nietzsche: desmitificar, desilusionar. Mas
este trabalho não se faz senão como uma guerra não apenas contra os valores e
sentidos postos a serviço da negação da vida, mas também contra as forças
reativas da vontade de nada que ainda persistem no interior do niilismo. Como
ensina Vattimo:
“ Se (...) o niilismo tem a coragem de aceitar que
Deus está morto, ou seja, que não existem estruturas objetivas dadas, torna-se
ativo em pelo menos dois sentidos: antes de tudo, não se limita a desmascarar o
nada que está na base de significados, estruturas, valores; produz e cria,
também, novos valores e novas estruturas de sentido, novas interpretações. É só
o niilismo passivo que diz que não há nenhuma necessidade de fins e
significados”.
Longe de ser o deserto do pensamento, o seu veneno
e impedimento, o niilismo é a condição sine qua non do pensamento, porque
pensar é desmascarar as supostas certezas, é corroer as empedernidas crenças e
convicções insuspeitas, é derribar os alicerces do que julgamos saber, daquilo
que tomamos por verdades inabaláveis. Por isso, todo pensamento, se se pretende
radical, é pensamento niilizante.
A VONTADE ASCETA E A DÉCADENCE
Vista à luz do conceito de DÉCADENCE, a aproximação
que Nietzsche faz entre Sócrates-Platão e o Cristianismo, permite-nos inferir
dentre os dois termos dessa aproximação, o traço que lhes é comum: a vontade
ascética, a qual se expressa de modo paradigmático na figura do sacerdote
asceta, como nos patenteia Nietzsche em GENEALOGIA DA MORAL. O sacerdote asceta
é a formação típica da vontade de potência infestada pelo negativo. Ela se
configura paradoxalmente na medida em que transforma a negatividade que a
constitui em condição de triunfo e conservação da existência. Como fenômeno da
DÉCADENCE, a vontade ascética só pode afirmar-se e dominar aniquilando aquilo a
que se contrapõe, a saber, a natureza, a vida. Por isso, Nietzsche via o
ascetismo como a expressão histórica de antinatureza. Para ele, na
interpretação ascética de mundo e da vida, domina a vontade de poder do
sacerdote ascético e sua perspectiva valorativa em face da vida e de tudo
quanto integra a vida dos homens, a natureza, o mundo, o devir.
“A esfera inteira do vir-a-ser e da transitoriedade é posta em
referência a uma existência outra, com a qual ela está em relação de oposição e
exclusão, a não ser que eventualmente se volte contra si própria, negue a si
mesma: neste caso, no caso de uma vida ascética, a vida vale como uma ponte
para aquela outra existência... Uma tal monstruosa maneira de valorar não está
inscrita como um caso de exceção e curiosidade na história do homem: É UM DOS
MAIS AMPLOS E LONGOS FATOS QUE HÁ. Lida a partir de um astro longíquo, essa
escrita em maiúscula de nossa existência terrestre induziria talvez à conclusão
de que A TERRA É PROPRIAMENTE A ESTRELA ASCÉTICA, UM RINCÃO DE CRIATURAS
DESCONTENTES, PRESUNÇOSAS E REPUGNANTES, QUE DE UM PROFUNDO FASTIO POR SI, PELA
TERRA, POR TODA VIDA, NÃO SE DESVENCILHARIAM NUNCA E A SI PRÓPRIAS FARIAM TANTO
MAL QUANTO POSSÍVEL, PELO CONTENTAMENTO DE FAZER MAL: PROVAVELMENTE SEU ÚNICO
CONTENTAMENTO. (...)”
(Genealogia da Moral, III, § 11)
Como muito perspicaz e apropriadamente nos
lembra Byung-Chul Han, “quanto mais poderoso for o poder, mais SILENCIOSAMENTE
ele atua. Onde precise dar mostras de si, é porque já está enfraquecido”.
Decerto, os poderes nos constituem, nos atravessam, moldam nossos hábitos,
nossos gostos, constituem nossos discursos, nosso modo de ser social, e o fazem
de modo a que não percebamos sua ação sobre nós. Surpreender os poderes lá onde
eles operam silenciosamente, com disfarces e máscaras, é a condição para a
formação de homens e mulheres deveras emancipados e livres.
Do lamento à resistência
É lamentável, é revoltante que nós, professores,
amarguemos salários tão baixos que, associados à precarização das condições de
trabalho da categoria, nos desestimulam ao mesmo tempo que nos coagem a aceitar
qualquer coisa por necessidades de subsistência. Enquanto padecemos as agruras
da falta de um projeto político-desenvolvimentista-educacional no Brasil,
carência que é um problema crônico de nossa história social e política, vigora
ainda no imaginário social o cinismo da romantização do magistério, o cinismo
das ideias, das representações coletivas da Educação e do professor como a
atividade mais nobre e como o agente social e político mais admirável de uma
“Pátria amada” que o maltrata, que os põe à margem das preocupações de um
sistema político que atende aos interesses mercadológicos do capital
financeiro. Chegamos ao ponto de sermos perseguidos por defendermos política e
pedagogicamente os interesses dos oprimidos, por lembrarmos a obra de Paulo
Freire, de Darcy Ribeiro, por nos posicionarmos firmemente contra uma
racionalidade neoliberal que estende a lógica do mercado para muito além das
fronteiras do mercado, produzindo subjetividades contábeis por meio do estímulo
da concorrência contínua entre os indivíduos. Se nos posicionamos
contrariamente a essa racionalidade neoliberal cuja característica principal é
a generalização da concorrência como norma de conduta e da empresa como modelo
de subjetivação, se nos recusamos a aceitar passivamente as condições
socioeconômicas impostas por um sistema econômico (o capitalismo) que a tudo
transforma em mercadoria de consumo, que estende a lógica do capital a todas as
esferas da vida social, somos tachados pelas vozes da estultícia e do
autoritarismo estrutural de “esquerdistas”, “comunistas”, “esquerdopatas”, embora
seja o “páthos” da paranoia, do delírio que alimente os discursos beligerantes
dos militantes da irracionalidade, da desrazão, da política como máquina de
produção de guerra e de morte. Se não nos curvamos a essas vozes da
intolerância, a essas vozes reacionárias que reduzem a complexidade do real aos
limites estreitos de sua insanidade perversa, enquanto não cedemos aos seus
gritos, ao seu ódio que em tudo inocula veneno, aos tentáculos de sua burrice,
à violência de seu obscurantismo, é que compreendemos o que significa
verdadeiramente a Educação: uma prática de resistência! Educadores são,
portanto, agentes da resistência contra os poderes instituídos que oprimem, que
coagem, que escravizam, que querem fazer calar as vozes daqueles que são
forçados a viver às sombras, à margem.