quinta-feira, 16 de maio de 2013

"Este texto fora escrito por um estudioso ateu, que se aventura na busca pela verdade" (BAR)


                      


                       Um breve retrato do Senhor Deus
                           O segundo relato do Gênesis


Jack Miles, eminente estudioso bíblico, ex-seminarista jesuíta e autor de Deus – uma biografia (2009), adota como premissa primeira desta sua obra a ideia de que Deus é uma personagem de uma extraordinária obra literária chamada Bíblia. Outra premissa consiste na ideia de que nem a personagem nem a obra são inumanos. Nas palavras do autor, “(...) não se encontra na própria Bíblia nada que nos autorize a ver Deus como um assunto a ser evitado em respeitoso silêncio” (p. 23). Acolho a observação do autor e ponho-me, aqui, então, a escrever sobre Deus, a tomá-lo para assunto a ser perquirido neste texto. Não silencio, visto que, tal como Jack Miles, também entendo que Deus é uma personagem – a principal - forjada por homens que viveram no Antigo Oriente Médio e a quem devemos atribuir a autoria dos textos que, muito tempo depois, reunidos, compuseram o que hoje chamamos de Bíblia. É difícil saber quem foram esses homens (certamente pertenciam a pequena elite letrada), mas o fato é que só a Bíblia hebraica (não incluindo aí a Bíblia cristã, cujos textos foram produzidos na metade do tempo) fora fabricada pelas mãos de muitos homens ao longo de mais de mil anos.
Veremos, neste texto, como Miles entende a participação de Deus no livro do Gênesis. Partirei do momento da narrativa em que Deus cria o homem. Ainda estamos no primeiro livro do Gênesis. E nele somos informados de que o homem foi criado à imagem de Deus. Miles levanta a seguinte questão: “Por que dar à humanidade essa versão do domínio divino?” (p. 40). A resposta oferecida pelo autor é que, dessa forma, a humanidade se torna uma imagem mais adequada de Deus, que comanda a criação. Também Miles se pergunta por que Deus ordena aos seres humanos que criou que se reproduzam e se multipliquem. Miles responde que, ao fazê-lo, Deus lhes confere a imagem de criadores também. Assim, Deus cria outro ser que também é criador.
Uma questão importante aventada por Miles, em sua análise da personagem Deus, na trama narrativa do Gênesis é a que diz respeito à razão por que Deus criou o mundo. Acompanhemos o que nos ensina o autor, nesse tocante:


“(...) Deus faz o mundo porque quer a humanidade e quer a humanidade porque quer uma imagem. Outros motivos podem estar igualmente em jogo. Para citar um relacionado ao Oriente Próximo, ele podia querer um servo. Para escolher outro, posterior em sua própria história, ele podia querer uma amante. Podia querer até um adorador (...)”.

(p. 41)


Miles, contudo, pensa que, neste momento, a Bíblia não permite endossar qualquer um dos motivos sugeridos posteriormente. Ele mantém que Deus quer uma imagem e, por isso, cria o homem.  A essa altura, outra pergunta se nos impõe: Por que Deus ia querer uma imagem de si? O autor reconhece que a narrativa não nos permite chegar a uma resposta exata; ela nos deixa à deriva das especulações. Nota o autor que o texto inclui um “nós” que faz referência ao próprio Deus. Esse “nós” incluiria as noções de macho e fêmea? O texto não poderia ser mais claro: Deus é retratado como um ser masculino e no singular. Miles observa também que nada sabemos da vida privada de Deus. O que ele fazia antes da Criação? Teria ele uma vida social com outros deuses? O que está claro é que faltava à vida de Deus um relacionamento com seres humanos. Estamos muito distante aqui da crença famigerada na autossuficiência de Deus. Se Deus criou os seres humanos, criou porque tinha alguma necessidade de fazê-lo. Quem quer que crie o faz segundo suas necessidades.
Miles nos ensina que no ato de Criação não há nenhum esforço despendido por Deus; no entanto, é notável o fato de que Deus, como um ser humano, descansa no sétimo dia. Atento a isso, Miles lança-nos a pergunta: “Será que custou-lhe mais esforço do que percebemos de momento? (p. 42)”. A essa pergunta, segue-se esta outra: “Será mais fraco do que demonstra?”. O autor observa ainda duas coisas que ao leitor comum passam despercebidas: em primeiro lugar, após criar o macho e a fêmea humanos, Deus lhes ordena que se multipliquem. No texto, aparece o enunciado “E assim se fez”. No entanto, naquele momento, eles ainda não tinham procriado. Em segundo lugar, Deus não diz da criação do homem que é boa, ele o diz em relação à criação como um todo (“Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom”).
Não nos deixemos de nos impressionar com o relato segundo o qual Deus teria descansado no sétimo dia após a Criação. Miles é muito perspicaz em notar que “Deus já é, nesse primeiro momento de sua história, uma mistura de força e fraqueza, de determinação e arrependimento” (p. 42). Espero que o leitor que me acompanha atente para o modo como o autor vai-nos revelando a personalidade e a humanidade de Deus. A ambivalência patente que compreende força e fraqueza é um caso característico da humanização da própria natureza de Deus pelo narrador.
Sabe-se que a Bíblia inclui dois livros do Gênesis. O segundo relato da criação, cuja fonte original é independente, inicia-se com a substituição do termo elohim, traduzido como Deus, pelo termo yahweh elohim, que significa “Senhor Deus”. A expressão “o Senhor”, observa Miles, é usada para traduzir yahweh, mas ela traduz melhor a palavra hebraica edonay, que significa “meu Senhor”. Essas distinções linguísticas na forma como os antigos judeus chamavam a Deus serão importantes, porque permitirão a Miles distinguir num mesmo Deus duas personalidades. A primeira personalidade será denominada de “Deus”; a segunda, de “Senhor Deus”.
Consoante observa Miles, o segundo relato de Gênesis, lido, por vezes, em continuidade com o primeiro, deixa ver claramente uma tensão entre o criador e a criatura humana. Nas palavras do autor:


“A humanidade não é mais situada “na terra”, concebida como um gigantesco paraíso natural no qual deve ser fecundada e multiplicar-se, mas sim em “um jardim no Éden, na banda do Oriente”, que Deus plantou e deu ao “homem”, para que plantasse e cuidasse. E o domínio que a humanidade deveria exercer como imagem de Deus é também restringido”.

(p. 43)


Deus impõe limites à liberdade de ação e dominação humana. É nesse momento que Deus estabelece a primeira proibição: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que comeres, certamente morrerás” (Gên., 2: 17). Deveríamos nos pergunta por que Deus plantaria uma árvore cujos frutos estariam proibidos ao homem? Miles ventila a questão em outros termos: “se o homem deve dominar a terra (relembrando o primeiro relato da criação), por que não lhe é permitido o conhecimento do bem e do mal?” (p. 43). Mas ao homem não se lhe oferece qualquer razão. Na verdade, a que é oferecida não faz sentido algum. Para Miles, “o Senhor Deus desta segunda história da criação parece notavelmente mais ansioso no confronto com sua criatura do que parecia o Deus da primeira”.
O Senhor Deus, que é outra personalidade diferente, portanto, da personalidade de Deus no primeiro relato da Criação, não vê bondade no homem. Deus cria a mulher a partir de uma costela do homem. Com o surgimento da mulher na cena narrativa, surge também o papel fundamental da serpente. Miles não vê na serpente um adversário de Deus. Nesse tocante, levanta as questões:


“Será a serpente sua rival? Ou será todo o episódio da tentação, por assim dizer, uma fraude? Será a serpente o agente secreto ou involuntário do Senhor Deus?
(p. 45)


Não se pode negar que a serpente, ao seduzir a mulher a comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, não mente para ela sobre o fato de que, se o fizesse, morreria. A serpente diz a verdade, e a mulher (Eva) e o homem (Adão) não morrem ao desobedecer à ordem do Senhor Deus.
Uma interpretação teológica tradicional, intentando conferir à serpente o papel de enganador, mantém que o casal experimentou uma morte espiritual, conhecida como “A Queda do homem”. Trata-se do famigerado “pecado original”. Miles objeta que “a narrativa que estamos lendo não é muito dada a significados espiritualizados ou puramente simbólicos, sendo-lhe, contudo, extremamente caras as histórias de enganos de todos os tipos” (p. 45). Em outras palavras, a interpretação teológica tradicional que vê na desobediência do homem uma morte espiritual, uma queda no pecado que condena todas as gerações posteriores, não é autorizada pelo texto do Gênesis. Miles propõe, ao contrário, buscar a origem do conflito no próprio Senhor Deus, em cujo caráter conflitam impulsos bons e maus. Para Miles, é o próprio Senhor Deus que causa as dores e as infelicidades da vida de suas criaturas.
O leitor precisa ter em conta, a esta altura, que, neste segundo relato de Gênesis, atua outra personalidade de Deus, chamada “Senhor Deus”. Espero também que não haja qualquer dúvida para o leitor sobre o caráter mítico das narrativas dos Gênesis. Não quero, contudo, sugerir um sentido negativo ao afirmar que o Gênesis é um mito bíblico. É verdade que mitos são histórias constitutivas de todas as religiões. Os mitos versam sobre a criação do mundo, do cosmo, sobre a natureza humana e dos deuses. Mitos contam a verdade sobre nós e, segundo Armstrong (2005: 15), eles servem de um guia, orientando-nos a viver de modo completo. Não obstante sua importância na construção da história e da identidade de um povo, mitos são histórias ficcionais, e não relatos históricos reais. No tocante à narrativa do Dilúvio, que consta do Livro do Gênesis, os especialistas estão de acordo em que a história bíblica é produto de uma releitura ou readaptação do mito babilônico, em que também se relatava uma enchente que destruiu o mundo. Acompanhemos as palavras de Miles, ao nos ensinar que:


“(...) A crítica histórica percebeu há muito a semelhança da história do dilúvio bíblico tanto em sua estrutura geral como numa variedade de detalhes importantes, como o mito equivalente da Babilônia. Naquele mito, como neste, passaram-se dez gerações entre a criação do mundo e sua destruição, a ira divina resulta numa enchente: o herói veda o seu barco com piche; depois a divindade sente o cheiro de uma oferenda, e assim por diante”.
(p. 62)


Ainda notando a influência sofrida pelo texto bíblico, Miles nos ensina que na Antiga Mesopotâmia, a criação era retratada como uma expressão da vitória da divindade sobre o caos. O caos era representado por uma deidade rival (um dragão aquático ou um monstro de enchentes). Miles observa que “existe sem dúvida um eco dessa batalha mítica na punição dada pelo Senhor Deus à serpente por haver tentado a mulher” (p. 46). O autor acrescenta, no entanto, que a versão bíblica tornou a serpente uma espécie de terceira personalidade do Senhor Deus. Para Miles, a serpente não é um oponente de Deus.


“O material mítico antigo foi tão profundamente reescrito que a serpente – a terceira personalidade absorvida na personalidade divina emergente – não é mais um deus rival, mas (remetendo-nos ao primeiro relato da criação) meramente uma criatura de Deus”.
(p. 46)


Caberia perguntar: quem criou a serpente? Ora, o próprio Senhor Deus, logo, com Miles, não é custoso dizer que o Senhor Deus é responsável pelos atos da serpente. É possível ver também na serpente a personificação da razão: a razão que leva ao conhecimento, que induz Eva a provar do fruto do conhecimento do bem e do mal. Aparentemente, não fazia parte do plano de Deus conceder ao homem tal conhecimento e liberdade. O que levanta a questão do livre-arbítrio, conceito desenvolvido por Santo Agostinho muito tempo depois. O Deus criador não estava disposto a dar nenhum livre-arbítrio ao homem, essa questão não se coloca na narrativa. Duas outras questões também ficam irrespondíveis: por que Deus criaria uma árvore de cujos frutos o homem e a mulher não podiam comer? O Senhor Deus do segundo livro do Gênesis não dá sinal de que é onisciente. Se o fosse, ele saberia tanto que a serpente tentaria Eva a comer do fruto proibido quanto que Eva assim o faria. Deus não só repreende a serpente, mas a si mesmo. Consoante nota Miles,


“(...) Aquilo que no politeísmo poderia ser dirigido para o exterior, contra uma divindade rival, no monoteísmo – mesmo um monoteísmo que fala ocasionalmente na primeira pessoa do plural – tem de se transformar num arrependimento voltado para o interior do Senhor Deus”.

(p. 46)


O criador se arrepende e seu arrependimento constitui o aparecimento do criador como uma personagem literária. É interessante ver que o Senhor Deus descobre a desobediência do homem e da mulher. E ainda pergunta ao homem: “Onde estás?”. Se pergunta, é porque não sabia. Miles observa ainda que a forma como Deus se dirige ao homem e a mulher, repreendendo-os, é a forma como qualquer ser humano faria ao se dirigir a outro ser humano. A linguagem do Senhor Deus não tem nada de majestosa, se comparada com a linguagem do Deus do primeiro relato do Gênesis. Todavia, na vingança, a linguagem do Senhor Deus assume uma forma mais poética e majestosa:


“Então o Senhor Deus disse à serpente:
“Visto que isso fizeste,
maldita és entre todos os animais domésticos
e o és entre todos os animais selváticos:
rastejarás sobre o teu ventre
e comerás o pó
todos os dias da tua vida
Porei inimizade entre ti e a mulher,
Entre a tua descendência e o seu descendente
(...)”


Miles reforça a ideia de que a serpente não é um oponente de Deus. No que se segue, ele é bem claro a esse respeito:


“(...) qualquer ideia de conflito cósmico é frustrada pelo fato de a serpente ter falado a verdade a respeito da árvore sobre a qual o Senhor Deus mentiu. A serpente parece ser o bobo de Deus mais do que o seu grande inimigo, e o castigo imposto pelo Senhor Deus ao casal humano parece, consequentemente, quase um ato arbitrário”.

(p. 48)



Até aqui, o perfil da personalidade do Senhor Deus pode ser traçado considerando seu modo de agir vingativo, brutal e arbitrário. O Senhor Deus é quem estabelece uma proibição e que pune pela desobediência ao seu mandamento. O Senhor Deus, ao contrário do Deus da primeira narrativa do Gênesis, não é tão generoso. Não só ele deu às suas criaturas humanas apenas uma porção de terra, mas também as privou dela. Miles nos lança duas perguntas importantes, a essa altura:


“Por que o Senhor Deus, que pacientemente organizou para o homem um cortejo de todos os animais numa tentativa de achar uma companheira para ele, tem de reagir com uma impaciência tão brutal diante da desobediência de uma mulher e do erro aparentemente inocente do homem? Nesses primeiros momentos tão cruciais, que tipo de relacionamento entre o Senhor Deus e a humanidade podemos ver?

(p. 49)


No segundo relato do Gênesis, o Senhor Deus não cria o homem à sua imagem; cria-o do pó. Ademais, a nudez do casal torna-se uma questão de interesse, o que não sucedia no primeiro relato. Mas Miles entende que o segundo relato continua o primeiro relato, de sorte que o pó, o desejo e a vergonha dizem muito sobre o caráter da divindade, o modelo a partir do qual o homem foi criado e do qual é uma imagem. “E na longa e emocional explosão – escreverá Miles – que acabamos de citar o Senhor Deus age de fato como o original de uma criatura humana feita de pó e paixão (p. 49)”.
Comparado ao Deus do primeiro relato, o Senhor Deus é menos poderoso e generoso, e, certamente, é mais vingativo. Sua ira não tem razão de ser. Segundo Miles, “para o Senhor Deus, tudo depende da obediência ao seu enganoso mandamento (p. 50)”. A obediência não é uma questão no primeiro relato. É importante insistir na aproximação do Senhor Deus de suas criaturas humanas. Há uma aproximação física, decerto. Deus as toca e, por isso, torna-se mais assustador para elas. Novamente, as palavras de Miles lançam alguma luz sobre este ponto:


“Como personagem, o Senhor Deus é tão perturbador quanto alguém que detém um imenso poder e parece não saber o que fazer com ele. Até esse ponto, o poder do Senhor Deus parece menor do que o poder de Deus. Mas, da forma como se manifesta, esse poder nos perturba. As motivações para o exercício desse poder estão em conflito, e esse conflito ocorre num relacionamento incomodamente íntimo”.

(p. 50)


Preciso esclarecer um ponto importante. O Deus do primeiro relato criou a humanidade à sua imagem. Ele queria criar um ser que fosse a imagem de si mesmo. Diferentemente, o Senhor Deus do segundo relato cria o homem para que ele o faça companhia.
Não pretendo ser exaustivo na apresentação da compreensão de Miles da natureza e personalidade de Deus no segundo relato do Gênesis. Muito ainda haveria para ser dito. Por limites de tempo e espaço, abreviarei este texto, não sem, antes, dar a saber a perplexidade do autor diante do fato de o temperamento de Deus oscilar rápida e facilmente entre a ira explosiva e a doçura, com que cura a ferida que ele mesmo infligiu. Assim se expressa Miles:


“Note-se que o Senhor Deus não se limita a fornecer as roupas de peles para as suas criaturas envergonhadas, punidas e humilhadas, ele próprio veste seus corpos nus com essas roupas. Súbito e íntimo, esse gesto quase paternal é, como teremos ocasião de ver depois, característico do Senhor Deus”.

(p. 52)


Não obstante, isso não o torna amável e adorado pelas criaturas humanas. Uma última questão é ventilada por Miles: “Se a única motivação de Deus ao fazer a humanidade era que a humanidade fosse imagem de Deus, e se Deus vive para sempre, então por que não permitir que a humanidade viva para sempre? (pp. 52-53)”. Miles sugere que a imortalidade poderia assegurar a obediência do homem e da mulher ao único mandamento explicito por Deus: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a”.
Por fim, gostaria de referir este trecho em que Miles reforça a afinidade entre o Senhor Deus e a serpente:


“A preocupação expressa pelo Senhor Deus nos leva [ a de que, uma vez que comam do fruto da árvore do conhecimento, o homem e a mulher tornar-se-iam conhecedores do bem e do mal] de volta à nossa observação anterior de que seus propósitos ameaçadores compreendem também os propósitos supostamente hostis da serpente. O Senhor Deus, semiconscientemente como é, parece estar jogando um jogo duplo. Ele não formula para os primeiros humanos a explicação, a determinação de que a humanidade não se torne um de nós [Deus]”

(p. 53)


Deixo a cargo do leitor as implicações desencadeadas por este texto.