domingo, 10 de março de 2013

"Aprender sem pensar é tempo perdido." (Confúcio)


                                              
                                                   



              

                            Uma mentira crível: Noé e a Arca

                                                                        
                                               
                                 





                  
                                                                                        
Buscarei a concisão e me esforçarei por me fazer inteligível ao escrever este texto; e mesmo receando não conseguir cumprir com o que enuncio aqui desde logo, não posso deixar de considerar a importância do pensamento de Nietzsche para a própria atividade de escrita deste texto. É com Nietzsche que começarei a tratar do tema Noé: realidade ou mito? Em tempo, vou justificar o tratamento que dispenso a este tema que, a princípio, não o demandaria, já que não parece haver muita dúvida sobre o fato de que Noé, a sua arca e o Dilúvio são elementos de uma história mítica da Bíblia. No entanto, há quem pense justamente o contrário. Há quem acredite que Noé existiu e que o relato do Dilúvio na Bíblia é um fato histórico. Sinto decepcionar estas pessoas, que não são poucas - acredito eu. Mas voltemos a Nietzsche.
Por que começar fazendo alusão ao pensamento de Nietzsche num texto cujo tema é a crença na veracidade da história – de que veremos se tratar mítica - do Dilúvio na Bíblia hebraica? Uma resposta possível seria sugerir que Nietzsche engrossaria o coro de vozes que defendem a ideia de que se trata, de fato, de um mito bíblico. No entanto, há, além disso, uma razão mais geral para evocar aqui a figura de Nietzsche e essa razão diz respeito ao fato de ele ter desenvolvido o que chamou de “filosofia do martelo”, isto é, um modo de filosofar que consistia em destruir os ídolos erigidos pelas gerações que o precederam e que sobreviviam em seu tempo. Nietzsche se notabilizou, entre outras coisas, por declarar não só a morte de Deus, mas a morte do sujeito (cuja concepção remonta ao racionalismo cartesiano) e da objetividade. Ademais, coube a Nietzsche rejeitar qualquer pretensão à verdade. É com o espírito nietzschiano, que fomentou uma critica radical não só à filosofia de sua época, denunciada por ter-se afastado da vida, por ter-se envolvido numa atmosfera de abstrações e deduções lógicas, mas também às manifestações de vida e cultura da Grécia clássica, que remontam aos trabalhos de Homero e, no século V a.C., a Sócrates, a quem se imputa o papel de ter introduzido a racionalidade no pensamento grego, que me esforçarei por mostrar como devemos ver as histórias bíblicas. Filósofo dos instintos contra a soberania da razão, da qual somos herdeiros desde a modernidade (sec. XVII), decisivamente influente no  século das Luzes (sec. XVIII), filósofo que conclamava seus leitores (os de sua época e os posteriores) a educar-se contra o mundo, Nietzsche é um filósofo de peso, a quem não podemos deixar de recorrer, quando se trata de denunciar as imposturas da fé. Este foi Nietzsche, cuja contribuição para o trabalho crítico sobre toda forma de ideologia e falsificação da consciência, evoco. Nietzsche atacou as ilusões de seu tempo (que é o nosso tempo também), ilusões, não obstante, que perduram. Nietzsche foi um grande filósofo, não há dúvida, um filósofo para quem a essência da vida era a vontade de potência, conceito que, para ser bem compreendido, deve ser tratado relativamente à oposição que estabeleceu entre forças ativas e forças reativas. Não poderia, contudo, me ocupar dela aqui, sob pena de ir muito longe e não cumprir com aquilo a que me propus inicialmente. Fiquemos, contudo, com este Nietzsche para quem o mundo não é dotado de lógica em si; para quem, aliás, a lógica do mundo está em nós; para quem o mundo é um caos. Fiquemos com o Nietzsche para quem não há verdade, mas tão-só interpretações; para quem a relação de causalidade é uma questão de hábito, uma “impressão do espírito humano”. No prefácio de A Vontade de Potência (2011), aprendemos, a esse respeito, que:

“A relação causal, que para Descartes era uma das “verdades eternas” e que Leibniz colocaria como “princípio, não necessitado de demonstração, da razão suficiente”, simplesmente se baseia numa sucessão de fatos e implica, apenas, uma convicção íntima, o que prova a convicção e não a “verdade”.”
(p. 51)

Nietzsche desenvolveu uma filosofia da suspeita, que precedeu o aparecimento da psicanálise e que denunciou “as elucubrações dessa ínfima parte de nós mesmos, que é o pensamento consciente” (Ferry, 2010, p. 84).
Minha intenção era ocupar-me, nesta manhã, com a crítica ao romantismo desenvolvida por Nietzsche; no entanto, cuidei mais vantajoso adiar esse trabalho em proveito da exposição sobre por que não é razoável acreditar que a história do Dilúvio, narrada no Antigo Testamento da Bíblia cristã seja um fato histórico, ou seja, algo que realmente aconteceu. Uma razão forte para isso é, certamente, a falta de evidências de tão grandioso evento. Seria de esperar que ele deixasse marcas, registros geológicos, ou algum vestígio arqueológico. Mas não há sequer sombra dele no planeta. Mas há outras razões que precisam ser elucidadas e que, uma vez compreendidas, nos ajudarão a evitar considerar como verdadeiras outras histórias bíblicas, claramente lendárias ou míticas, como a de Jonas, que fora engolido por um peixe e permaneceu vivo, por um tempo, na sua barriga. Que o espírito nietzschiano inspire-nos na trajetória do esclarecimento que percorrerão estas palavras, doravante.
Não foi surpresa ter lido sobre a crença de uma pessoa, numa rede social de relacionamentos, em que Noé não era um personagem mítico. E acredito que a credulidade tão manifesta se explique, pelo menos em parte, nestas palavras tomadas a Freud, em O Futuro de uma Ilusão (2001):

“(...) as ideias religiosas são proposições, são enunciados acerca de fatos e circunstâncias da realidade externa (ou interna) que comunicam algo que o indivíduo não encontrou por conta própria, e que reivindicam que se creia nelas. Visto que nos informam sobre aquilo que mais nos importa e mais nos interessa na vida, elas gozam de alta consideração. Quem delas nada sabe é deveras ignorante; quem as incorporou aos seus conhecimentos pode ser considerado muito enriquecido.” (p. 73)


Vou-me deter um pouco neste trecho, a fim de trazer à luz algumas inferências, que iluminarão as razões que parecem explicar tão manifesto exemplo de credulidade. Se Freud estiver correto, as crenças religiosas são tipos de proposições nas quais passamos a acreditar como representativas de fatos, de realidades verdadeiras, por força de processos educacionais marcados pela autoridade (seja por membros de nossa família, de professores ou de nossa igreja). Para falar mais precisa e sucintamente, de acordo com Freud, as crenças religiosas nos foram herdadas por força da influência sobre nós de papéis autoritários representados por membros de nossa cultura. Nós a recebemos sem qualquer preocupação em examiná-las criticamente. Atribuímos a elas valor de verdade, sem fazer acordar em nós o espírito de suspeita nietzschiano. Não nos preocupamos em questionar se há evidências que as sustentem, se há boas razões para que a tratemos como crenças verdadeiras. Elas apenas, segundo Freud, atribuiriam ao seu portador certo prestígio em sua comunidade ou cultura. Ao contrário, quem delas nada sabe será tachado de ignorante. E eu acrescentaria que quem a elas se opõem será considerado um imoral, um herege ou um ímpio.
Com Freud, poderíamos dizer que, em nossa cultura, quem possui crenças religiosas e as declara é proprietário de um poderoso capital simbólico e, por isso mesmo, mobilizará a atenção, o apreço e o prestígio dos demais proprietários ou simpatizantes.  Os despossuídos, os não-proprietários, entre os quais se incluem os agnósticos, os mais céticos (sem religião) e os ateus, tenderão a ser depreciados, marginalizados e sua existência deplorada pelos que se acreditam possuidores de um bem valioso: a “verdade revelada”.
É, então, compreensível que alguém acredite que a narrativa do Dilúvio testemunhe um acontecimento histórico, se considerarmos o fato de que sua crença lhe foi inculcada na cabeça por força de agentes doutrinários, quer estejam oficialmente investidos desta função, quer não. Eu intento aqui proporcionar a essa pessoa (ou a essas pessoas) o contato com a verdade sobre essa história bíblica. Referirei o livro sobre o qual calcarei minhas considerações, qual seja, Como ler a Bíblia – História, profecia ou literatura (2007), de Steven L. McKenzie. Espero, assim, possibilitar aos interessados tomar consciência da importância desta obra para uma compreensão crítica da Bíblia e também despertar-lhes o interesse pela sua leitura.
O excerto que apresentarei, na íntegra, a seguir, foi colhido desta obra, muito embora nos informe Mckenzie que se trate de uma publicação universitária assaz conhecida nos EUA. Consoante escreve o autor, “ela mostra como os estudiosos bíblicos têm sido forçados pelas novas evidências a restringir ou revisar suas posições sobre a ideia de que a Bíblia relata eventos históricos reais” (p. 31). A fim de que se compreenda o texto que será citado, é preciso dizer que o título do capítulo é Não aconteceu exatamente assim – historiografia bíblica. É ao título que o autor do trecho fará referência quando emprega o pronome “disso”, que figura logo no início do texto e que destaco em negrito, para que o leitor não o perca de vista:

“Você não ficaria sabendo disso indo a uma igreja ou a uma sinagoga, ou lendo os artigos de final de ano nas revistas semanais, mas nos últimos ciquenta anos os estudiosos têm se debatido com a questão da credibilidade do Velho Testamento como documento histórico. A grande questão da arqueologia ocidental tem sido saber quantas narrativas bíblicas passaram da categoria de fatos aceitos para o reino misterioso da fábula. A primeira narrativa a seguir esse caminho foi a história da Criação do mundo no Gênesis. Que tipo de evidência poderia ser encontrada para apoiá-la? Ademais, o Dilúvio (e Noé) é um evento catastrófico que deveria ter deixado marcas geológicas claras, mas não existe nenhuma. Abraão, Isaac e Jacó protagonizaram histórias seculares 2000.a.C, mas não deixaram nenhuma evidência de sua presença. Se elas foram figuras históricas, temos de aceitar as palavras dos escribas bíblicos, que escreveram séculos após a morte dos patriarcas. A história da conquista de Canaã pelos israelitas soando trombetas e tudo o mais, tem dado lugar a outra versão, mais mundana, de infiltração pacífica e de revolta social entre os camponeses. Não existia nenhuma cidade murada em Jericó quando Josué supostamente a destruiu”.

(p. 31)


Convém, portanto, esclarecer o seguinte: a visão tradicional segundo a qual a Bíblia relata o que realmente aconteceu no passado está errada. Ela tem sido revisada, com base na ideia de que é preciso compreender de modo adequado o gênero bíblico a Escrita da História. Segundo Mackenzie,

“Um claro entendimento do gênero da historiografia na antiga Israel pode ajudar a resolver a tensão entre o respeito pela Bíblia e as investigações históricas dos estudiosos bíblicos e dos arqueólogos, permitindo que a fé não seja forçada a ser cega ou ignorando as análises eruditas modernas”.
(p. 32)


A concepção de História para os antigos israelitas é muito diferente da nossa. Eles não estavam preocupados tanto com o relato fidedigno de fatos quanto estavam em prestar contas com o passado. Pode-se, segundo Mackenzie, baseando-se na proposta de um estudioso chamado Van Seters, propor cinco critérios para definir e identificar a Escrita da História na antiga Israel. São eles:

1º) A Escrita da História se tratava de uma forma de tradição específica e não resultava de uma acumulação acidental de materiais históricos;
2º) A Escrita da História, porque visava a “prestar contas do passado”, buscava recordar o significado dos eventos passados, sem qualquer preocupação em relatar com acuro o que de fato aconteceu;
3º) A Escrita da História tinha como preocupação o exame das causas (basicamente morais) das condições do presente;
4º) A Escrita da História tinha caráter nacional e coletivo;
5º) A Escrita da História era literária e pertencia a uma parte importante da tradição coletiva.

Sem pretender a exaustão, Mackenzie nos ensina que a Escrita da História é uma espécie de etiologia e nos esclarece a respeito desse termo o seguinte:

“(...) Uma etiologia é uma história que explica a causa ou origem de um determinado fenômeno – uma peça cultural ou um costume social, uma circunstância biológica, até mesmo uma formação geológica. Uma etiologia não é, em sua natureza, uma explicação científica. Ela não é histórica, no sentido moderno de um evento que realmente aconteceu no passado. Ela é, preferencialmente, uma história que “presta contas”, oferecendo alguma explicação das condições e circunstâncias presentes, baseada em causas passadas. A antiga Escritura da História, que tenta “prestar contas” do passado era, na verdade, etiologia.

(p. 37, grifo meu)


Uma compreensão adequada, portanto, do gênero da historiografia bíblica implica, em parte entender o papel que desempenha a personagem Noé, após o evento (mítico) do Dilúvio. Lamec, pai de “Noé”, assim o chamou por acreditar que ele traria “o alívio” às pessoas, após o trabalho penoso. Noé foi a primeira pessoa a plantar uma videira e a fazer vinho, extraindo alívio do solo, consoante a previsão de seu pai. No entanto, Noé se excedeu e se tornou também o primeiro bêbado nu, que adormeceu em uma tenda. Seu filho Cam vê o pai naquele estado vergonhoso e conta a seus dois irmãos Sem e Jafé. Quando Noé desperta e descobre o que havia acontecido, amaldiçoa com a escravidão o filho de Cam, chamado Canaã. Segundo Mackenzie, a história acarreta muitas dificuldades de interpretação. Mas o que parece certo é que seu autor tinha a intenção de justificar a subjugação dos cananeus pelos israelitas. E a intenção se expressa por meio do recurso a eponímia. A eponímia é um recurso de linguagem pelo qual um nome de pessoa real ou imaginário passa a aplicar-se a um grupo, tribo ou nação. Esclarece-nos Mackenzie, nesse tocante, com as palavras seguintes:

“Um eponímico ancestral faz mais que gerar o nome de um grupo de pessoas, na verdade, ele o representa e o chega a encarná-lo. Canaã é a eponímia ancestral dos cananeus, o indivíduo que supostamente emprestou seu nome. Como existem vários grupos de cananeus, é improvável que eles tenham descendido de uma única pessoa. Mas isso é irrelevante porque Canaã representa o povo cananeu e o importante para a história é mostrar a conquista da terra de Canaã e justificar a subjugação de sues habitantes através da maldição que Noé impôs sobre o filho de Cam, Canaã”.
(p. 45)



Há muitos detalhes que não considerarei por razões de tempo e espaço. Mas espero tenha ficado clara a ideia de que a figura de Noé serviu ao autor da história do Dilúvio para explicar como o mundo foi repovoado depois do Dilúvio. Claro que esse repovoamento se deveu à participação dos três filhos de Noé, mas foi ele Noé quem inventa a própria Bíblia, entendida como um compêndio de relatos que buscam prestar contas do passado.
Muitas narrativas mitológicas incluem uma história de Dilúvio.  Por exemplo, Na Austrália, os aborígenes acreditam que a arca de Noé parou ao sul do rio Fitzroy. Alguns mitos de dilúvio indígenas fundiram-se com o mito bíblico, de modo a torná-los inseparáveis. Em um mito da Grécia Antiga, Zeus enviou um dilúvio para punir a arrogância dos primeiros seres humanos. Os huichols, grupo indígena do México central, narram um dilúvio ao qual apenas um homem e uma cadela sobreviveram.
Em 1872, George Smith, a quem coube organizar tábuas antigas da antiga Mesopotâmia e que aprendera a ler a escrita cuneiforme, fazer uma descoberta surpreendente: encontrou um fragmento de uma história do Dilúvio, semelhante à história do mesmo acontecimento na Bíblia. Não há dúvida, hoje, de que a história do Dilúvio na Bíblia foi inspirada no mito da Arca dos mesopotâmicos. Mackenzie é bastante claro, ao nos ensinar sobre este fato:

“Restou pouca dúvida aos historiadores [após a descoberta de Geoge Smith] de que a história bíblica foi emprestada da civilização mesopotâmica. Elas são, na verdade, a mesma história: um homem recebe um aviso divino sobre um dilúvio iminente e também instruções precisas para construir um barco para salvar sua família e preservar a variedade de espécies animais. Sete dias mais tarde vem o Dilúvio, chove, e as águas inundam tudo. Toda a vida que não está a bordo do barco morre. Quando as águas abaixam, o barco vai dar em uma montanha. Eles enviam pássaros para saber se era seguro desembarcar. Os ocupantes do barco saem e oferecem sacrifícios. Os deuses/divindades ficam satisfeitas e prometem não destruir o mundo com outro dilúvio”.

(p. 59)

Ensina-nos Mackenzie ainda que, tal como sucede com trechos da “história primitiva” relatada dos capítulos 1 ao 11 do Gênesis, a história do Dilúvio surgiu da tentativa empreendida pelos escritores bíblicos de relatar as origens do mundo e das civilizações. E acrescenta: “assim como outras partes da história primitiva do Gênesis 1-11, como a história da Torre de Babel, a história bíblica do Dilúvio foi influenciada pela tradição mesopotâmia”. (p. 59)
Em várias oportunidades em que me ocupei com a discussão de questões relativas à religião, à Bíblia e à fé, fiz apelo a que os meus leitores buscassem nos livros esclarecimentos sobre as bases histórico-ideológicas de suas crenças religiosas. Malgrado o fato de eu supor se tratar de um apelo mudo, o faço por acreditar que a verdade vale mais do que qualquer promessa de conforto emocional. Mesmo que, por fraqueza, a busca pela verdade possa levar muitos ao desespero, ela sempre será profícua, na medida em que é ela mesma que nos incita a viver com relativa segurança num mundo absurdo. Estou ciente de que é possível que alguns leitores ignotos não se agradem do que leram aqui, mas isso não me surpreenderia, e Mackenzie descreve bem as dificuldades com que os estudiosos bíblicos precisam lidar:

”As pessoas que ouvem essas discussões no campo de estudo da Bíblia apresentam, tipicamente, uma de duas possíveis reações. A primeira pode ser caracterizada como “fé cega”. Essa postura é ilustrada por uma conversa que tive há alguns anos com um homem que estava realizando um trabalho em minha casa. Ele tinha estudo, era proprietário de um negócio, era honesto e um bom trabalhador. Ele também era um cristão devoto. Quando descobriu que eu ensinava sobre a Bíblia e tinha visitado o Oriente Médio, começou a me perguntar sobre as evidências arqueológicas de certos eventos narrados nela. Ele estava especialmente interessado no Êxodo do Egito, com Moisés e na conquista de Canaã, com Josué. Contei a ele que a ausência de evidências arqueológicas tinha levado muitos estudiosos bíblicos a questionar se aqueles eventos tinham realmente ocorrido, pelo menos da maneira descrita na Bíblia. Ele respondeu que para ele não interessavam as evidências arqueológicas. “Não interessa o que encontrem, sempre acreditarei que aconteceu exatamente do jeito que a Bíblia disse que aconteceu”.
(pp.31-32)


É difícil não ficar tentado a ver nesse caso tão emblemático da fé cega um traço de personalidade neurótica. Um dos mecanismos utilizados por uma pessoa neurótica é o da negação, mediante o qual, a despeito das evidências, ela se nega a aceitar a verdade de uma situação, mantendo-se agarrada à crença contrária. Ela não consegue suportar a ideia de que a realidade possa provar serem falsas suas crenças, especialmente as mais arraigadas. O homem do exemplo referido por Mackenzie se nega a aceitar as evidências contrárias à sua crença na veracidade dos relatos bíblicos e admite permanecer fiel ao que a Bíblia diz ser verdadeiro. No fundo, o que explica essa negação é o medo de encarar o absurdo da existência. Se a Bíblia, que tradicionalmente é vista como um livro inspirado por Deus, portador da promessa da vida eterna, apresenta inverdades, então, segundo a lógica desse cristão devoto, a vida não faz sentido e o desespero é inevitável. A fé, estrangulando a razão, abandona o indivíduo ao colo da dependência emocional que, embora se revele, à luz da crítica racional, bastante frágil e insuficiente para o usufruto de uma vida boa, precisa ser conservada para manter silenciado o medo do absurdo. É melhor a mentira da fé do que o enfrentamento filosófico do absurdo de nossa existência – pensando assim dorme o devoto seu sono cristão.