
O antijudaísmo
cristão
Discurso,
verdade e poder
Do latim historia, que, remontando ao grego, significava “pesquisa”,
“informação”, História será tomado, neste texto, na acepção de sucessão de acontecimentos. Trata-se da história-acontecimentos, os quais são
produzidos por forças humanas encarnadas em disputas e em contradições. Essas
disputas e contradições, que constituem elas mesmas os acontecimentos históricos,
devem ser contempladas em sua relação necessária com o poder.
O termo poder é extremamente importante na
discussão que empreenderei neste texto. Por isso, urge defini-lo.
1. Poder
Para Max Weber, poder é a capacidade de exercer controle
sobre indivíduos, eventos ou recursos, isto é, é agir de modo tal a produzir
aquilo que se quer que aconteça, não obstante obstáculos, resistência e
oposição.
Há muitas divergências
sobre como se deve conceituar o poder. As dificuldades de conceituação se
devem, em parte, às formas diferentes que ele assume. Acrescente-se que a
maneira como é definido tem efeito significativo no modo como se pensa em sistemas sociais e no seu funcionamento.
A forma de poder que me
interessa, para a elaboração deste texto, é a denominada power-over (poder-sobre). O poder chamado de poder-sobre deve ser entendido como um recurso que os indivíduos
possuem, tendo em vista um sistema social organizado hierarquicamente. Assim, o
poder é algo que pode ser retido, retirado, capturado, perdido, cobiçado ou
roubado e que é usado em relações basicamente marcadas por antagonismo. O poder-sobre assenta num conflito entre
os que o têm e os que não o têm.
Destarte, as disputas
históricas assumem a forma de lutas em torno do poder-sobre em sistemas sociais, compreendidos como totalidades
cujos subsistemas são interdependentes e permeados de interesses que podem
corresponder aos interesses do todo social ou colidir com eles. É verdadeiro
para a modernidade, ao menos, que o poder
produz o real, produz os domínios de objetos do saber e os rituais de verdade.
A noção de sistema social também precisa ser
elucidada, a fim de que se perceba sua utilidade para a compreensão do fenômeno
histórico de que este texto se ocupa.
2. Sistema social
O conceito de sistema social tem analogia com a noção
de sistema nas ciências naturais, notadamente na física (sistemas mecânicos) e
na biologia (sistemas orgânicos). As analogias com esses dois tipos de sistemas
permitiram a construção de dois principais modelos sociológicos de sistemas
sociais, embora sempre houvesse a preocupação de salientar os traços que os
tornam distintos dos sistemas das ciências naturais.
Um sistema social é, portanto, a totalidade social no interior da qual
coexistem inúmeros campos de ação superpostos, cada qual com sua própria
dinâmica de desenvolvimento. As instituições sociais são constituídas de
subsistemas do sistema social geral. Assim, devem-se distinguir os subsistemas econômico, político ou religioso, cada
qual comportando uma função específica, contribuindo, desse modo, para
assegurar a coesão geral do sistema social mediante o intercâmbio de energia e
informação.
Todo sistema social
depende do equilíbrio para manter um bom funcionamento, e o equilíbrio só se
obtém quando há reciprocidade nas relações entre os diversos subsistemas. Uma
dimensão importante que assegura o equilíbrio da totalidade do sistema são as
interações linguísticas mediadas pelos indivíduos.
Os sistemas sociais são
moldados por processos de integração e adaptação (Parsons). Assim, eles são suscetíveis
de influências ambientais, as quais se expressam na forma de um fluxo constante
de energia e informação (visão biológica), o que não impede que, em certas
condições ambientais, um sistema possa ser estudado em estado de equilíbrio,
isolado do ambiente, como se fosse um sistema estanque.
Outro conceito que ocupa
um lugar importante nas reflexões que se seguirão é o de verdade. A verdade é uma moeda cara; todos nós queremos possuí-la.
Seu valor é inegável tanto aos homens da ciência quanto ao homem comum. Foucault
nos chamou a atenção para o fato de que a busca da verdade e o discurso da
verdade se realizam através de um exercício de poder. A busca pela verdade é
sempre interessada. Na modernidade, verdade, conhecimento e ciência estão,
portanto, intimamente articulados ao poder.
As religiões organizadas
também namoram a verdade (quando não a depravam) . Desde as origens, a fé
cristã se impôs como a única fé verdadeira.
Os cristãos alegavam que o seu Deus era o único deus verdadeiro. Mesmo a fé
cristã que, de tempo em tempo, precisou ora articular-se à razão, ora reivindicar,
em face dela, a sua superioridade, não desistiu de cobiçar a verdade. A
teologia cristã se apoia em verdades
reveladas. Os cristãos creem que sua Bíblia é o próprio registro dessas
verdades. Decerto, desconfio demais dessas verdades, o que me impede de
atribuir-lhes qualquer sentido de utilidade que não seja abusivamente
ideológico. A teologia está repleta de abusos semânticos desse tipo. O uso que
a doutrina cristã faz da palavra Revelação, por exemplo, para se referir a um
projeto do Deus “vivo” que se fez conhecido do homem, está entre os abusos
semânticos a que me refiro.
Veremos que nossa
concepção de verdade provém de três ramos linguísticos: o grego, o latim e o
hebreu. Isso equivale a dizer que o conceito de verdade, no pensamento
ocidental ,foi legado pelas culturas matrizes da cultura ocidental: a
greco-romana e a judaico-cristã.
Começarei apresentando e
definindo as três concepções de verdade de que somos herdeiros; posteriormente,
vou-me debruçar sobre a exposição que Adam Schaff faz do tema em seu livro História e Verdade (1983), com o
objetivo de sublinhar a relação entre verdade, conhecimento e história.
3. As três concepções de Verdade
3.1. A verdade como alétheia
Em grego, verdade se diz alétheia, palavra que se constitui da
combinação do prefixo “-a”, que expressa negação (cf. amoral), com a forma léthe, que significa ‘esquecimento’. Alétheia significa, portanto, o
‘não-esquecido’. Platão falava da verdade como o que é lembrado ou o que não é
esquecido. Por extensão semântica, alétheia
passou a significar também o ‘não-escondido’, ‘não-dissimulado’.
A verdade é, assim, o que
se manifesta aos olhos do corpo e do espírito. Os antigos gregos concebem-na
como a manifestação do que é realmente. Portanto, a verdade se opõe à
falsidade, a qual é o encoberto, o ocultado, o escondido. A verdade é aquilo
que se mostra plenamente para a razão. A verdade é o que é evidente. A palavra evidência quer dizer justamente o desocultamento
total de algo para a visão que, portanto, o apreende completamente.
A concepção grega de
verdade supõe que a realidade se manifeste, se desvele (‘remova o véu que a
encobria’) à visão intelectual dos seres humanos. A verdade, assim, é uma
propriedade das próprias coisas, na medida em que elas manifestam o seu próprio
ser. Para os antigos gregos, conhecer é ver e dizer a verdade que se acha na
realidade e que, por isso, depende de que a realidade se manifeste. Por isso,
entre os gregos, o ser é o verdadeiro (estar de posse da verdade é contemplar a
manifestação do ser (o que é realmente)). O falso é o parecer, ou seja, algo
que apresenta ser mas que não é.
3.2. A verdade como veritas
Em latim, verdade se diz veritas e diz respeito à precisão, à exatidão
de um relato. Nesse caso, diz-se que se atingiu a verdade, se o relato é fiel
ao que realmente aconteceu. A verdade se acha, agora, na linguagem,
compreendida como narrativa adequada aos fatos. Logo se vê que a verdade é
dependente da acuidade com que os fatos são relatados. Prende-se à memória, já
que resulta da fidelidade dos fatos rememorados na forma de relato ao que de
fato aconteceu.
Não há mais aparência
(como na acepção grega), mas mentira e falsificação. Os fatos são reais ou
imaginários; e os relatos sobre eles é que são verdadeiros ou falsos.
3.3. A verdade como emunah
Em hebraico, a verdade se
diz emunah, que quer dizer
‘confiança’. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem
o que prometem; são fiéis à palavra dada e, por isso, dignos de nossa
confiança. A concepção de verdade hebraica está na origem de enunciados como
“Um amigo verdadeiro não trai”, “Um verdadeiro pai cuida de sua família”,
etc. Emunah é uma verdade fundada na
esperança e na confiança na promessa feita; portanto, ela se reporta ao futuro.
Sua forma mais elevada é a Revelação divina e a perfeição de sua expressão está
na profecia.
Passando em revista as
três concepções de verdade em que se baseia a compreensão ocidental de verdade,
vale notar o que se segue:
Alétheia é a verdade que se encontra na realidade; é a verdade cujo acesso depende
de uma automanifestação da realidade à visão racional e intelectual
(evidência). O conhecimento verdadeiro é a apreensão racional dessa verdade.
Dessa concepção de verdade, deriva uma teoria da verdade como evidência e
correspondência, segundo a qual o critério da verdade é a adequação de nosso intelecto à realidade. Nesse caso, nossas ideias
correspondem efetivamente à realidade por elas representadas. Inversamente, a
verdade pode resultar da adequação da realidade ao nosso intelecto, caso em que
as coisas correspondem, de fato, às ideias que a representam.
Veritas é a verdade cujo critério é o rigor e a precisão no uso da linguagem, na
forma como se elabora o raciocínio, como encadeamos as ideias. Nossas ideias,
nesse caso, relatam em nossa mente os acontecimentos exteriores a nós e são
verdadeiras quando organizadas segundo regras e princípios lógico-semânticos e
gramaticais previstos pela linguagem. Os relatos são verdadeiros quando
correspondem a uma realidade externa. O critério da verdade é a coerência
interna entre as ideias e as cadeias de ideias de que se compõem o raciocínio.
O que marca o verdadeiro é a validade lógica dos argumentos.
Emunah é, em sua forma secular, a verdade que depende de um acordo, um pacto de
confiança entre pesquisadores, que definem um conjunto de convenções universais
sobre o conhecimento verdadeiro. Todos devem respeitar essas convenções. A
marca da verdade é o consenso e a confiança recíproca entre os membros de uma
comunidade de pensadores e cientistas.
O consenso é estabelecido
com base em três princípios:
1) somos seres racionais
e nosso pensamento é governado por princípios da razão;
2) somos seres dotados da
faculdade da linguagem, e a linguagem funciona segundo regras lógicas e
gramaticais convencionais;
3) os resultados
auferidos numa investigação devem ser submetidos à discussão e ao exame pelos
membros de comunidade de estudiosos, os quais lhes atribuirão ou não valor de
verdade.
3.4. Verdade, conhecimento e história
Em seu História e Verdade (1983), Adam Schaff
considera a verdade como juízo verdadeiro, cuja definição supõe a noção de
reflexo. Assim, escreve Schaff “é verdadeiro um juízo do qual se pode dizer que
o que ele enuncia é na realidade tal como o enuncia” (p. 92).
Schaff reconhece que a
definição clássica de verdade está entre as inúmeras definições já formuladas.
Além da dificuldade de conceituar a realidade, não menos embaraçoso é elucidar
a relação entre o conteúdo do juízo e a realidade. Nesse tocante, propõem-se
termos como adequação, correspondência,
reflexo, conformidade, analogia, cópia, etc. Com vistas a descrever as
condições de verdade, vários foram os esforços mobilizados para definir a
verdade: alguns a viram como consentimento universal, economia de pensamento;
outros a consideraram como coerência entre proposições, crenças no interior de
um sistema de crenças, utilidade prática. Observa Schaff que “nenhum dos
critérios mencionados (consentimento universal, coerência, etc.) garante a
verdade do conhecimento (p. 93)”, o que significa dizer que não nos assegura a
certeza de que o que nós enunciamos se conforme com o que é de fato.
Do ponto de vista
científico, observa Schaff, um juízo é verdadeiro sempre que os pesquisadores
estão convencidos (porque dispõem de provas científicas que dão
sustentabilidade à sua convicção) de que o juízo está em conformidade com o
objeto real. É preciso considerar uma questão que facilmente nos induz a
equivocar-nos: a relação entre verdade e objetividade.
As concepções grega e
romana de verdade se esteiam sobre o pressuposto da existência da realidade
objetiva, de modo que toda verdade é objetiva. A objetividade do conhecimento –
deve-se frisar – é seu valor universal, o qual não é afetado por alguma
coloração emotiva. Trata-se, certamente, de um ideal de objetividade, já que o
componente subjetivo (quem conhece é um sujeito social) não pode ser separado
do componente objetivo. O oposto de uma verdade objetiva não é, portanto, uma
“verdade subjetiva”, porque a verdade subjetiva não seria outra coisa senão uma
falsidade (Schaff, p. 93). Em todo caso, a oposição comum entre verdade
objetiva e verdade subjetiva conduz-nos a encarar outro problema relevante a
toda discussão desenvolvida sobre o conceito de verdade. Trata-se do litígio
entre relativistas e absolutistas. Afinal, a verdade é absoluta ou relativa?
Longe de resolver a questão, procurarei aqui posicionar-me como um partidário
da verdade absoluta. Dois são os problemas que se devem distinguir na questão
que consiste em determinar se a verdade é absoluta ou relativa.
1º) Saber se um juízo
dado é verdadeiro ou falso independentemente (visão absolutista) ou
dependentemente (visão relativista) das circunstâncias, as quais recobrem os
sujeitos sociais e o contexto sócio-histórico a partir do qual eles enunciam;
2º) As verdades são
totais (visão absolutista) ou parciais (visão relativista).
Tendo em conta o primeiro
problema, contra a posição relativista da verdade, a qual se afina com a
concepção de verdade subjetiva, argumentam os partidários da visão absolutista
que o problema se encontra na forma dos enunciados. Atos de fala constatativos,
ou seja, que exprimem constatação pelo enunciador de um estado-de-coisas do mundo
podem dispensar regularmente as marcas dêiticas de pessoa, tempo e lugar.
Dizemos, por exemplo, “Está chovendo”, numa situação em que constatamos o
fenômeno da chuva. Desprovido das marcas de enunciação, esse enunciado
pareceria aos relativistas descrever uma verdade (consideradas as condições do
mundo) relativa a quem o enuncia, ao lugar e ao tempo em que se enuncia. Na
verdade, argumentam os absolutistas, especificadas as marcas dêiticas, o
enunciado passa a ser verdadeiro (ou falso, consideradas as condições do mundo)
independentemente da pessoa que o enuncia. Por exemplo, se o enunciado
assumisse a forma “Eu percebo que está chovendo na cidade em que estou hoje”, a
proposição “está chovendo na cidade em que estou hoje” é verdadeira tanto para
mim quanto para o resto do mundo.
Evidentemente, a relação
mundo-verdade-linguagem não é, de forma alguma, simples. Em primeiro lugar, a
linguagem (o discurso) não é transparente. A linguagem não espelha o mundo.
Nossos enunciados não são fotografias do mundo. Em segundo lugar, o acesso ao
mundo não é direto, já que é permeado por uma complexa relação entre linguagem,
cognição-percepção e cultura. Considerados a não-transparência da linguagem e o
acesso mediato do mundo, a verdade parece ser efeito daquela relação e
dependente de certa negociação entre os sujeitos do discurso. Ora, se nos
parece simples determinar a verdade numa situação em que vejo meu cachorro
correr atrás do gato e digo “o meu cachorro está correndo atrás do gato”, menos
simples nos parece determinar a verdade numa situação em que alguém diz “Esse
tênis é caro”. Esses dois exemplos mostram que nem todos os enunciados são passíveis
de medição em termos de valor de verdade. A verdade, muito frequentemente,
quando consideramos nossos discursos, está ligada ao poder de convencimento de nossos argumentos. Dizemos “é verdade”,
com frequência, para enunciar nosso assentimento à crença de um enunciador,
numa situação em que ouvíssemos algo como “A vida é difícil”. Essa proposição
não descreve um fato do mundo; trata-se de um juízo de valor sobre a vida. Na
opinião do enunciador, há muitas dificuldades na vida. E, se eu enuncio “é
verdade”, estou tão somente concordando com ele.
A verdade é absoluta, na
medida em que ela é o próprio desvelar do real aos olhos do espírito e do corpo;
ela é absoluta e eterna, porque evidente para todos e em todas as épocas.
Consideremos o segundo
problema. No que toca à divergência entre os que pensam que só há verdade total
e os que admitem verdades parciais, a questão consiste em saber se é verdadeiro
apenas o conhecimento total, completo, eterno e imutável, ou se a parcialidade
da verdade pode ser obtida a cada etapa do conhecimento concebido como processo
em desenvolvimento.
A visão relativista,
nessa controvérsia, pensa que o conhecimento humano é cumulativo, que se
desenvolve no tempo e que esse desenvolvimento revela, em seu curso histórico,
mudança das verdades obtidas como resultado desse conhecimento. Pensemos no que
se sabia, no tempo de Ptolomeu, sobre o universo e o que se sabe hoje, desde
Copérnico. No tempo de Ptolomeu, acreditava-se que a Terra estava no centro do
universo (crença tida como conhecimento à época). O conhecimento cosmológico,
em seu desenvolvimento, atingiu o estágio em que um Copérnico trouxe à luz a
verdade: “O sol está no centro do universo”.
O conhecimento de um
objeto não se reduz a um único juízo verdadeiro, é claro; mas é reflexo da
complexidade, das fases de desenvolvimento do próprio objeto do conhecimento.
Esse conhecimento se estrutura com uma sequência de juízos. O conhecimento é um
processo. Destarte, o juízo também pode sofrer mudanças, tornando-se mais
completo, mais complexo, em função do desenvolvimento do conhecimento.
Evidentemente, as mudanças que incidem sobre o juízo influenciam na forma do
conhecimento.
No entanto, se um juízo
nem sempre é visto como um processo (ele pode não sê-lo), o conhecimento é
sempre um processo, em virtude da inesgotabilidade da realidade estudada. Em
outras palavras, a realidade é sempre mais complexa, mais extensa e inesgotável
do que o conhecimento que podemos ter dela. Por outro lado, é um processo
também porque a realidade se apresenta em desenvolvimento, em fluxo sem fim.
Se não é possível um
conhecimento totalizante da complexidade do real, sempre em desenvolvimento, em
curso contínuo, é possível um conhecimento exaustivo de uma região delimitada
do real. Sabe-se que as teorias científicas operam com base em “recortes” da
complexidade do real; elas setorizam a realidade. Cada recorte teórico do real
estabelece um objeto a ser estudado, descrito, explicado pela teoria. Toda
teoria delimita uma “região” da realidade e a toma como objeto de estudo. As
entidades de que se ocupam uma teoria são entidades teóricas, e não entidades
do mundo.
Convém lembrar que a
exaustividade do conhecimento não é a totalização da realidade, visto que
“(...) o objeto do conhecimento é infinito, quer se
trate do objeto considerado como totalidade do real ou do objeto percebido como
qualquer um dos seus aspectos e fragmentos. Com efeito, tanto o real na sua
totalidade como cada um dos seus fragmentos são infinitos na medida em que é
infinita a quantidade de suas correlações e das suas mutações no tempo”.
(p. 97)
É forçoso concluir do
exposto que o conhecimento de um objeto cuja complexidade é infinita deve ser
também infinito. Constitui ele um processo infinito: “o processo de acumulação
de verdades parciais” (p. 97). Como processo infinito, o conhecimento cumula as
verdades parciais que a humanidade estabelece nas diversas fases do seu
desenvolvimento histórico. À medida que se vão alargando, limitando, superando
essas verdades parciais, o conhecimento vai-se expandindo.
4. O lugar do discurso no social
Começo anunciando uma
tese com base na qual edificarei as cadeias de pensamentos seguintes.
O discurso existe na exterioridade do
linguístico; existe no social e é marcado sócio-histórica e ideologicamente.
Situado no social, o
discurso deixa ver posições divergentes porque, nesse domínio, coexistem muitos
discursos. A interdiscursividade implica diferenças no que toca à inscrição
ideológica dos sujeitos e grupos sociais em uma dada sociedade; por
conseguinte, são inevitáveis os conflitos, as contradições, porquanto o
sujeito, ao revelar-se, inscreve-se num espaço socioideológico e não em outros.
O sujeito enuncia a partir do lugar dessa inscrição. De sua voz originam-se
outros discursos, cuja existência situa-se na exterioridade da materialidade
linguística dos enunciados produzidos.
Em Discurso e mudança social (2001), Norman Fairclough propõe
que se considere o discurso, ao mesmo tempo, como um texto, um exemplo de
prática social e um exemplo de prática discursiva. Vou definir essas três
dimensões do discurso.
Como texto, o discurso é concebido como um fragmento de linguagem de
extensão variável dotado de estrutura e significado, que cumpre uma função
relevante num dado contexto sociocomunicativo.
Como prática discursiva, o discurso é uma atividade interacional entre,
pelo menos, dois enunciadores e especifica processos de produção e
interpretação textual.
Como prática social, o discurso é indissociável das circunstâncias
institucionais e organizacionais do evento discurso. Essas circunstâncias
moldam a natureza da prática discursiva, os modos como se dão as relações sociais
e posicionam os diferentes sujeitos sociais.
Os discursos não apenas
refletem as entidades e as relações sociais, mas, principalmente, as constroem.
Essa ideia de construção das relações sociais pelo discurso é de suma
importância para a compreensão do modo como o discurso se conecta com o social.
Vou-me deter na noção de discurso como prática
social, já que é como prática social que o discurso se caracteriza como o
modo de ação, uma forma pela qual e na qual os indivíduos agem sobre o mundo e sobre os outros.
O discurso como prática
social é, portanto, uma atividade interacional de produção de significados. É
também um modo de representação da realidade. Como prática social, o discurso
precisa ser visto em sua relação dialética
com a estrutura social. A estrutura social é condição e efeito da prática
social (Fairclough, p. 91).
O discurso é moldado e
limitado pela estrutura social, ou seja, pelas classes sociais, pelas relações
sociais diversas, gerais ou específicas em instituições particulares, como no
direito, na educação, na religião; mas também por normas e convenções, quer de
natureza discursiva, quer de natureza não-discursiva.
Se, do exposto, se
depreende que as práticas discursivas variam estruturalmente segundo as
condições sociais ou o quadro institucional em que são produzidos, é preciso
reter a ideia de que o discurso é socialmente constitutivo. Ele contribui,
portanto, para a constituição de todas as dimensões da estrutura social, a qual
o molda direta ou indiretamente e o restringe. O discurso é uma prática; como
tal, não se limita a representar o mundo. O discurso constrói a significação do
mundo, ou melhor, constitui o mundo como significado. O mundo discursivizado é
mundo significado.
Convém assinalar três
aspectos básicos na compreensão de discurso como prática social:
1) o discurso contribui
para a construção de identidades sociais e posições de sujeito para sujeitos
sociais e tipos de “eu”;
2) O discurso constrói as
relações sociais;
3) O discurso contribui
para a construção de sistemas de conhecimento e de crenças.
Consoante Fairclough (p.
92), é indispensável que a relação entre discurso e estrutura social seja
considerada dialeticamente, a fim de evitar que se faça recair indevidamente a
ênfase em um dos domínios apenas. Se a ênfase recai sobre o discurso,
tender-se-á a vê-lo apenas como reflexo de uma realidade social mais profunda;
se, por outro lado, ela incide sobre a estrutura social, ver-se-á o discurso,
de modo idealizado, como fonte do social.
O cerne da visão
dialética sobre a relação entre discurso e estrutura social consiste em ver que
a constituição discursiva da sociedade não resulta de um jogo livre de ideias
que habitam a cabeça das pessoas, mas de uma prática social que se enraíza
profundamente em estruturas sociais materiais concretas.
Fairclough ilustra essa
compreensão com a relação entre pais e filhos. Essa relação se dá na família e
a determinação das posições de “mãe”, “pai” e “filho”, que são socialmente
disponíveis, a inserção dos indivíduos reais nessas posições, a constituição da
família e do lar são construídos parcialmente no discurso. Essa construção é o
resultado de processos complexos cumulativos de conversa e escrita.
Não se trata de pensar
que a família seja uma entidade ideal, que brota da cabeça das pessoas (p. 93);
isso porque, em primeiro lugar, as pessoas se confrontam com a família como
instituição real, que se lhes afigura como ‘dada’. Essa instituição se compõe
de práticas concretas, relações e identidades preexistentes, as quais foram
constituídas no discurso, mas reificadas em instituições e outras práticas. Em
segundo lugar, os efeitos constitutivos do discurso se articulam com outras
práticas, como a distribuição das tarefas domésticas, o vestuário, os aspectos
afetivos do comportamento dos membros da família. Em terceiro lugar, a
constituição operada pelo discurso encontra restrições na determinação
dialética do discurso realizada pelas estruturas sociais, bem como nas relações
de lutas de poder particulares.
4.1. As dimensões da prática social e sua relação com o
discurso
A prática social se
organiza nas dimensões econômica, política, cultural e ideológica. O discurso,
naturalmente, pode estar envolvido em todas elas, sem que se possa reduzi-las a
ele.
O discurso como prática política estabelece, conserva e
transforma as relações de poder e as comunidades entre as quais se estabelecem
relações de poder (p. 94). O discurso como prática
ideológica constitui, apaga, mantém e transforma os significados do mundo,
apoiando-se em posições diversas nas relações de poder. A prática política e a
prática ideológica estão articuladas necessariamente, já que “a ideologia são os significados gerados
em relações de poder como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder”
(p.94).
É preciso acrescentar
primeiramente que a prática política é superior, enquanto dimensão de lutas
pelo poder. Em segundo lugar, o discurso não é tão-só o lugar da luta de poder;
é também um lugar de delimitação da luta de poder. Assim, a prática discursiva
se serve de convenções que mascaram as relações de poder e ideologias
particulares e as próprias convenções. As formas como as relações de poder, as
ideologias particulares e as convenções se articulam são alvo de luta.
Finalmente, vale dizer
que a prática social, política, ideológica, etc. é uma dimensão do evento
discursivo, tal como o é o texto.
4.2. Discurso e poder: um ponto de encontro
No seu Discurso e poder, o linguista
holandês Teun A. van Dijk define o poder social como “controle de um grupo
sobre outros grupos e seus membros” (p. 17). Quando esse controle se exerce
sobre as ações comunicativas dos outros (sobre seus discursos, portanto),
pode-se falar em controle sobre o discurso dos outros. Esse controle é uma das
formas óbvias pelas quais o poder e o discurso se relacionam.
“(...) as pessoas não
são livres para falar ou escrever quando, onde, para quem, sobre o que ou
como elas querem, mas são parcial ou totalmente controladas pelos outros
poderosos, tais como o Estado, a policia, a mídia ou uma empresa interessada na
supressão da liberdade de escrita e da fala (tipicamente crítica)”.
(p. 18)
Pode suceder também que
as pessoas tenham de falar ou escrever segundo os modos que lhe são prescritos.
O controle é extensivo não só ao discurso como prática social, mas também às
mentes daqueles que são submetidos ao controle, ou seja, aos seus
conhecimentos, opiniões, atitudes, crenças, ideologias, bem como às outras
formas de representações pessoais e sociais. Geralmente, esse controle da mente
é indireto, embora possa ser intencional, mas apenas provável consequência do
discurso.
Na medida em que as ações
das pessoas são influenciadas por suas atitudes, conhecimento, ideologias,
crenças, valores, normas, segue-se daí que o controle da mente redunda em
controle indireto da ação. Quando a ação submetida ao controle é ação
discursiva, o discurso poderoso pode, indiretamente, influenciar outros
discursos que sejam compatíveis com o interesse daqueles que detêm o poder.
Como observa Dijk, muito perspicazmente, “não há necessidade de coerção se se
pode persuadir, seduzir, doutrinar ou manipular as pessoas” (p. 23).
5. Uma contextualização da história cristã
O tema deste texto é o
antijudaísmo cristão, que teve origem na época de Costantino e que perdurou
pelos séculos culminando no terror antissemita dos nazistas no século XX – o
que não é o mesmo que assumir haver uma continuidade entre as duas formas de
antissemitismo. Meu objetivo é patentear de que modo a prática discursiva
cristã, nos quatro primeiros séculos da era cristã, contribuiu
significativamente para transformar as relações entre judeus e cristãos e para
posicionar os sujeitos sociais envolvidos na peleja. Para a realização desse
intento, precisarei passar em revista o desenvolvimento do cristianismo nesses quatro
primeiros séculos (I ao IV d.C.).
Desde já, a importância
de Costantino deve ser sublinhada. O cristianismo, no seu incessante esforço
por consolidar-se como religião hegemônica, deveu muito ao poder político de
Constantino, convertido sinceramente ao cristianismo em 312 d.C. Sua pretensão
sempre foi, desde sua vitória sobre o perseguidor Licínio, unificar todos os
seus povos fazendo-os aderir à mesma concepção de Deus e livrá-los das
perseguições. Constantino era declaradamente um “servidor de Deus”. Coube a ele
dar forma ao cristianismo do mundo. Seus sucessores reproduziram o tom
profético que dava à sua linguagem um poder de fé-verdadeira e sincera. A
cristianização do mundo antigo foi uma revolução cujo impulso inicial devemos a
um indivíduo, chamado Constantino, cujos objetivos foram exclusivamente
religiosos (Veyne, 2011, p. 196). Dois fatores, segundo Veyne, foram
fundamentais para que o cristianismo começasse a se impor ao mundo todo: o
convertido Constantino, que favoreceu e sustentou o desenvolvimento da religião
cristã; e o fato de essa religião estruturar-se numa Igreja forte.
Nos primeiros séculos do
cristianismo, as instituições cristãs foram responsáveis por transmitir a
tradição cristã estruturada com base em certos arranjos mentais presentes na
época. A forma e o controle dessas estruturas mentais provinham não apenas da
tradição cristã oral, mas também de filosofias e crenças religiosas de diversos
povos, os quais contribuíram para sistematizar e oficializar um corpo de
crenças cristãs.
Durante algum tempo, o
que se sabia sobre a figura de Jesus de Nazaré e seus seguidores foi
transmitido pela tradição oral. Posteriormente, escribas codificaram-na de modo
a compor um conjunto de crenças consideradas oficiais por uma elite eclesial de
pensadores masculinos que detinha o poder para tanto. Por isso, é impossível
dizer, certamente, quem foi Jesus de Nazaré, bem como é difícil determinar a
experiência pessoal e coletiva dos que se identificaram como cristãos após sua
morte.
Restaram interpretações e
interpretações de dados pretensamente históricos que não são senão
interpretações. Há, evidentemente, nessas interpretações, algumas informações
históricas de monta, como, por exemplo o surgimento de movimentos sociais e
religiosos que se rebelaram contra a política e a religião do dominador romano
(paganismo), por volta do século I d.C.
No século I d.C., era
grande a opressão dos pobres, nas cidades e no campo, o que tornou mais
acentuados os conflitos com o poder dominante. Tais condições deram origem a
uma grande diversidade de movimentos de reivindicação.
O cristianismo, então
chamado Movimento do Caminho e Movimento de Jesus, estava entre os movimentos
de origem judaica que buscavam reanimar a esperança do povo. Os cristãos
afirmavam que os famintos não tardariam em ser saciados e que os injustiçados
encontrariam a justiça no Reino de Deus. Eles insistiam, ademais, na
importância dos marginalizados deste mundo e procuravam assisti-los: os cegos e
os leprosos eram curados; os famintos, saciados; os estrangeiros, acolhidos.
As críticas cristãs ao
judaísmo do Templo e das sinagogas da época provocaram insatisfação e revolta
nos romanos e nos judeus ortodoxos. Os cristãos eram considerados hereges, e o
cristianismo, uma espécie de heresia no interior do judaísmo. À medida que
avançava o tempo, a coexistência entre cristãos e judeus no judaísmo se tornava
intolerável.
Jesus foi acusado pelas
autoridades judaicas de agir de modo que só Deus poderia agir, como, por
exemplo, perdoando os pecados. Jesus teria infringido as leis judaicas do
sábado, foi culpado de se reunir aos impuros e de comer com os ladrões. Por
isso, foi crucificado e morreu.
Alguns séculos se
passaram, e a Igreja cristã, cuja diversidade, então, era enorme, enfatizou
menos o nascimento histórico do cristianismo e as assistências dispensadas aos
oprimidos e aos injustiçados. Enfatizou menos a crucificação e a morte injusta
do líder Jesus de Nazaré por decorrência de uma conspiração político-religiosa
e insistiu com vigor na obediência à vontade de Deus ou ao desígnio divino, que
é eterno.
Assim, sobre a memória
histórica revolucionária do movimento de Jesus foi lançado um véu que permitiu,
ao longo dos séculos, o desenvolvimento da crença de que o cristianismo foi de
fato, a própria intervenção espiritual de Deus na história humana. Essa
intervenção estava ligada à tradição judaica codificada no Antigo Testamento,
conforme veremos, segundo a qual Deus enviaria um Messias que salvaria seu povo
então disperso e subjugado.
Essa mesma tradição sustentava
que o Deus de Israel havia se revelado de muitas maneiras a seu povo através de
acontecimentos especiais, pelas figuras de patriarcas, de profetas e profetisas
e de reis cuja função era orientar e conduzir o povo ao longo da história. Essa
traição afirmava também que a revelação de Deus era a expressão de seu amor
pela humanidade, a qual, em virtude do pecado, havia se desviado dos justos
caminhos e rompido a Aliança com ele.
Entre os primeiros
cristãos, era tenaz a crença na iminência do fim dos tempos. Eles acreditavam
que Deus expressou-se por meio de seu Filho, Jesus Cristo, enviando-o ao mundo
para redimir o homem de seus pecados e, assim, restaurar a Aliança.
Com a vinda à Terra do
Filho Jesus, nascido da Virgem Maria, Deus Pai encerrou o que tinha a dizer à
humanidade. Para os cristãos, havia se completado a suprema revelação de Deus
para salvar a humanidade de seus crimes e pecados. Por isso, a Igreja dos
primeiros séculos estabeleceu como dogma a crença de que Jesus era o único e
verdadeiro messias, quem revelou sua íntima relação com Deus Pai, criador de
todas as coisas.
O Concílio de Nicéia, em
325 d.C., seguido do de Constantinopla, em 381 d.C., proclamou que o Filho
Único de Deus é consubstancial ao Pai, isto é, tem a mesma substância do Pai,
retomando a expressão “O Verbo se fez carne”, que figura no Evangelho atribuído
a João. A Igreja primitiva denominou “Encarnação” o “fato” de o Filho de Deus
ter assumido a natureza humana para habitar entre os homens e os salvar.
Consagrou-se um traço
distintivo da fé cristã no momento em que a Igreja afirmou que Jesus era, ao
mesmo tempo, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. O cristianismo
nasceu, pois, como uma religião, ao mesmo tempo, de base humana e divina. Essa
religião era entendida e explicada como a revelação definitiva de Deus ao
mundo, cuja finalidade foi a salvação e a integração de todas as criaturas na
unidade trina de Deus (um único Deus mas três pessoas). Donde a afirmação
segundo a qual tudo provém da Trindade e retorna a ela. Essa elaboração
teológica extravagante permitiu que uma teologia racional se desenvolvesse para
explicar a figura de Jesus, a missão da Igreja e a finalidade da vida humana e
do mundo.
Não custa lembrar que,
embora muitas das afirmações feitas, com entonações diversas, tenham sido
acolhidas pelo conjunto das igrejas cristãs, não deixaram de ser objeto de
incessantes disputas e contestações ao longo dos séculos – contestações
oriundas, nos primeiros séculos da Igreja, das próprias comunidades cristãs (arianos,
nestorianos, monofisistas). Direi, com brevidade, apenas para destacar um ponto
divergente dessas comunidades em relação ao cristianismo proto-ortodoxo, que os
arianos negavam que o Filho fosse completamente divino; para eles, havia sido
criado por Deus Pai, o que o tornaria inferior a Deus. Os nestorianos, além de
afirmarem que Jesus reunia em si duas pessoas – o Verbo e o homem -, de tal
modo, no entanto, que elas não se distinguiam, negavam que Maria fosse a mãe de
Deus. Finalmente, os monofisistas acreditavam que Jesus encerra apenas uma
natureza: a divina. Escusa dizer que essas divergências eram motivos de
acirradas contendas e impasses, embora pareçam, de fundo, desgraçadamente
ridículas. Essas divergências também tinham outra origem: na relutância
daqueles que não aceitavam a superioridade alegada pelo cristianismo, que se
apresentava como a palavra mais elevada e derradeira de Deus destinada à
humanidade. Essa superioridade levou o cristianismo a ser cúmplice dos poderes
imperiais e instrumento para a dominação política e religiosa.
5.1. A historicidade do Cristianismo
O cristianismo nasceu
como uma seita herética no seio do judaísmo nos tempos da dominação romana.
Tornou-se uma religião autônoma depois de alguns conflitos. Foi perseguido sob
as ordens dos imperadores romanos, e seus mártires foram lançados como comida
aos leões.
A igreja primitiva não
gozava de direitos na cidade do Império, o que levava os cristãos a se reunir à
surdina para celebrar a memória de Jesus em cemitérios subterrâneos, chamados
de catacumbas.
A população
marginalizada, especialmente, sentia-se, cada vez mais, atraída pela memória de
Jesus; o número de discípulos não cessava de crescer (entre os discípulos,
havia também mulheres). Os adeptos – eis um fato importante – se organizaram em
comunidades, para seguir os ensinamentos daquele que era chamado o Filho Único
do Deus Único.
A formação das
comunidades cristãs deveu-se, em parte, ao descontentamento geral dos pobres
que, não bastasse fossem explorados, tinham de prestar culto ao Império Romano.
O culto a Jesus, que era um dos seus, chamá-lo Deus significava rejeitar o
culto a César. Além disso, a reunião do culto a Jesus Cristo tornava possível
fomentar uma esperança diferente para o presente, porquanto se acreditava que
Jesus representava uma nova era destinada à satisfação e à assistência aos
excluídos e aos famintos.
Foi, no entanto, apenas
no século IV, quando reconhecido pelo poder do Império Romano, que o
cristianismo pôde manifestar-se publicamente. Essa liberdade, no entanto, tinha
um preço: teve de ajustar-se aos códigos jurídicos e precisou assumir uma
atitude contrária às aspirações do movimento em sua forma original: passou a
pregar a submissão aos poderes oficiais. O cristianismo tornou-se, assim, uma religião
comprometida com a ordem institucionalizada e subserviente aos poderes
constituídos. Por outro lado, tornara-se também uma religião mais poderosa,
constituída de lógica própria, afirmando-se na forma de uma dogmática
combatente e perseverante na missão de eliminar as heresias, que se
multiplicavam nos primeiros séculos. Lembro que o herege é aquele que diverge da visão dogmática oficial. O termo
latino haeresis significa “escolha”
ou “opção”. Uma interpretação secular não vê o herege senão como alguém que tem
crenças simplesmente diferentes das do sistema doutrinário instituído.
Necessário é assinalar
alguns fatos. O primeiro diz respeito à aliança subserviente do cristianismo
com o poder de Roma. Deve-se notar que desse acontecimento dependia o próprio
estabelecimento do cristianismo como uma religião poderosa. A lógica, aqui, é
clara: sirva ao poder instituído e se beneficie das concessões do poder. O
segundo toca ao esforço mobilizado pelo cristianismo para se defender contra as
heresias. Desse esforço resultou a elaboração dos dogmas cristãos pelas igrejas
do Oriente e do Ocidente. Em outras palavras, a dogmática cristã se institui
num longo esforço por silenciar outros credos concorrentes. Dogmas são uma
explicação elaborada e decretada pela Igreja como verdade que deve ser aceita pelos fiéis.
A função dos dogmas era
também construir uma identidade doutrinária de que todos os cristãos
partilhassem, ainda que tenha reproduzido um sistema de policiamento que
culminaria, mais tarde, na Inquisição. A despeito disso – o que é
surpreendentemente paradoxal nessa religião -, o cristianismo se tornou uma
religião para o povo.
O povo passara a
organizar sua vida social por meio das festividades cristãs e desencadeou
revoluções de cunho social inspiradas em ideais de liberdade enraizados na
tradição fundadora. Esses movimentos sociais insurgentes ocorreram em
diferentes épocas e lugares do mundo.
A esta altura, não se
poderia deixar ao abrigo da duvida o fato de que a historicidade do
cristianismo só se constrói por uma via única: a das instituições religiosas do
poder. Somente a tradição do cristianismo oficial teve condições de ser
assimilada, documentada e difundida. Tudo o que o cristianismo foi fora dessa
tradição institucional é quase desconhecido, já que os registros históricos são
escassos.
O cristianismo – vale
dizer – pode ser compreendido como um movimento cujo desenvolvimento resultou
de acontecimentos sobre a vida de Jesus de Nazaré, cujo valor de verdade é
dependente de interpretações calcadas sobre a fé de seus seguidores. Por isso,
é difícil saber, com segurança, o que é verdade a respeito da vida de Jesus.
Não há dúvidas, por outro lado, de que a partir do homem Jesus, proclamado
divino, muitas mulheres e homens construíram um significado para as suas vidas,
conseguiram expressar seus desejos mais profundos e combater a opressão e a
injustiça. E, certamente, malgrado as inumeráveis contradições, conseguiram
afirmar sua identidade única em face de muitas outras.
5.2. Um poder avesso à diversidade
É certo que Jesus não
pretendia fundar uma nova religião. Ele era judeu, vivia como um típico judeu
de seu tempo, ainda que discordasse de certos preceitos e práticas de uma elite
espiritual no interior do judaísmo. Foram, portanto, os seguidores do Nazareno
que criaram o cristianismo. Em virtude disso, a vitalidade do movimento cristão
e sua força em muitos grupos culturais levavam à elaboração de muitas
reinterpretações da vida de Jesus, todas em consonância com modos de
compreender e pensar o mundo moldados em seu próprio contexto. Isso significava
uma ameaça à unidade institucional da Igreja.
O discurso, novamente,
estava a serviço da construção da hegemonia, cuja instabilidade ou perda jamais
deixara de preocupar a Igreja. Esta afirmou que suas elaborações dogmáticas
contavam com a assistência do Espírito Santo. Pretendia, assim, preservar a verdade revelada pelas interpretações
oficiais.
A presença do Espírito
Santo entre nós assegurava, na visão da Igreja, o valor de verdade de seus
ensinamentos, que eram eles mesmos portadores da verdade sobre o ser humano e
sobre Jesus Cristo. Graças à proclamação dessa verdade, a Igreja podia
doutrinar os fiéis e provocar-lhes a adesão incondicional.
Jesus morreu judeu. Fora
perseguido pelo judaísmo oficial. Depois de sua morte, seus ensinamentos se
disseminaram numa tradição oral até os anos 70 d.C, quando surgiram os
primeiros escritos cristãos.
As comunidades cristãs,
ao longo do tempo, se multiplicaram em diferentes regiões do Império. Com o
avanço do tempo, também diversas interpretações da vida e da morte de Jesus e
de sua identidade foram surgindo. Essas interpretações alteraram a imagem de
Jesus, que passou de um revoltado e crítico profeta apocalíptico judeu, para o
Cristo (o Messias), Filho Único de Deus, a segunda pessoa da Trindade, que
nasceu da Virgem Maria, Mãe de Deus.
Sua prática de cura de
enfermos, a partilha do pão, seu comportamento crítico da lei, sua amizade com
pessoas de má reputação, tudo isso foi sendo relegado a segundo plano. Pouco a
pouco, se ia delineando uma personalidade dotada de um poder supranatural, a
ela se lhe atribuía uma natureza divina. Jesus era, pois, considerado um ser
pré-existente, de consubstancia com Deus, que se assenta no trono celeste para
de lá julgar os vivos e os mortos.
A filosofia grega, nesse
momento, exerceu uma influência decisiva na formação e consolidação da teologia
cristã. Essa filosofia lhe enxertou uma estrutura lógica por meio da qual foi
possível situar a realidade de Deus num mundo à parte – o mundo das essências
eternas sobre o qual escreveu Platão, mundo que se opunha ao mundo material,
precário e efêmero.
Essa versão do
cristianismo – a versão do neoplatonismo cristão – tornou-se oficial na Igreja,
ainda que, ao longo da história, tenham ocorrido tentativas de voltar à
simplicidade dos primeiros tempos da vida de Jesus.
Os dois mil anos de
cristianismo conheceram sempre movimentos que tendiam para uma ou outra posição
sobre qual deveria ser a versão definitiva do cristianismo. Mas as igrejas
cristãs mantiveram a versão platônica como a verdade absoluta revelada por
Deus, que deveria ser mantida longe do abrigo de dúvidas.
A versão teológica cristã
calcada sobre a filosofia platônica, de que Santo Agostinho foi o eminente
sistematizador, permanece ainda hoje como um pilar que dá sustentação ao
complexo edifício doutrinário ao abrigo do qual se anima a alma e a paixão dos
fiéis defensores. Desse edifício, se serviu o cristianismo para impor suas
doutrinas como verdades, seus princípios de controle – pelo discurso – sobre a
vida pessoal e social dos fiéis. Pelos discursos gerados nas esferas de poder
eclesiástico, esses princípios são representados como diretamente emanados de
Deus (embora não sejam mais do que ficções produzidas pelos próprios bispos). O
cristianismo crê possuir uma espécie de procuração especial para tudo atinente
às relações humanas e à fé cristã.
O rótulo cristianismo
recobre a doutrina oficial cuja história foi fartamente documentada e que, por
isso, conhecemos bem. Esse modo singular de se referir ao movimento cristão
acabou por apagar a grande diversidade de cristianismos primitivos que sabemos
terem existido. Ainda hoje, se percebe um pouco dessa diversidade, na qual cada
cristianismo acentua um aspecto do que considera mais importante nas fontes
bíblicas cristãs. Hoje, como outrora, a história cristã abriga muitos
conflitos. Novas interpretações surgem ainda hoje, o que mostra o vigor desse
fenômeno religioso, cultural, político e social, misturado às mais diferentes
histórias e acontecimentos. Mas é bom ter em conta que essas “novas
interpretações” não devem ser pensadas como avanços, já que o conservadorismo,
em matéria de fé, é condição de possibilidade de subsistência.
5.3. O poder de um imperador
Com a conversão do então
imperador Constantino, em 312 d.C., ao cristianismo, os cristãos, pelo menos
até a sua morte, puderam prosperar em condições políticas bastante favoráveis.
O antissemitismo surge no
período em que governava Constantino. Os judeus, tanto quanto os pagãos, eram
estigmatizados. Um sucessor de Constantino perpetuará o estigma. Mas
Constantino não reagiu aos judeus com vigor; manteve a legislação pagã que
garantia legitimidade à religião judaica. O castigo, severo, só se aplicava nos
casos em que um judeu maltratasse um irmão convertido ao cristianismo. A lei,
todavia, não se aplicava aos casos em que um judeu se convertesse a uma
terceira religião.
Uma triste, mas não menos
surpreendente ironia, se depreende da observação de que, mesmo os judeus crendo
no Deus exclusivo que não era senão o Deus dos cristãos, e mesmo sendo o livro
judaico santo também para os cristãos, e mesmo o líder dos cristãos ter sido um
judeu praticante do judaísmo em sua passagem pela Terra, os judeus eram
considerados verdadeiros inimigos, porque não reconheciam Jesus como o Cristo
(o Ungido).
Se os discursos cristãos
posicionavam os pagãos como os “outros”, reservavam aos judeus um lugar mais
desprezível. Os judeus eram considerados falsos irmãos.
A cristianização que se
estendia por todo o Império Romano levou os judeus a se isolarem. Sua religião
ia se tornando cada vez mais solipista (reclusa, solitária). À medida que o
cristianismo tornava-se religião do Estado, o judaísmo ia voltando a ser uma
religião nacional do povo judeu, permanecendo assim até os nossos dias. Prova a
dificuldade de um não-judeu converter-se ao judaísmo.
5.6. O antijudaísmo cristão
Ainda hoje, persiste
entre os cristãos conservadores um estorvado entendimento sobre o porquê de os
judeus não aceitarem a alegação de que Jesus é o Messias (Ehrman, 2013, p.
147). Esses cristãos se apoiam em passagens do Antigo Testamento que, segundo
creem, dão testemunho profético da vinda
de um messias. Para os cristãos, Jesus fez e experienciou tudo que fora
registrado. Por exemplo, em Isaías 7, 14, se diz que o messias nasceria de uma
virgem:
14. Portanto, o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a
virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Em Miquéias 5, 2, diz-se
que ele nasceria em Belém:
2. E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de
Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os
tempos antigos, desde os dias da eternidade.
Os registros poderiam ser
multiplicados. Basta-me, no entanto, fazer ver que os cristãos pensavam que as
passagens bíblicas referiam-se ao messias que eles chamaram Jesus. Contra os
cristãos, os judeus alegavam que as passagens das Escrituras hebraicas não se
referiam a um futuro messias e nem expressavam qualquer previsão. Nas passagens
em que, supostamente, haveria uma previsão sobre a morte e a ressurreição de
Jesus, a palavra “messias”, por exemplo, nunca aparece, o que não deixa de
causar perplexidade nos cristãos. Basta, contudo, consultar Isaías 53 para
atestar-lhe a ausência
Por que razão, então, a
maioria dos judeus rejeitava o messianismo de Jesus? A razão era que Jesus não
representava, de forma alguma, as expectativas acalentadas pelos judeus acerca
da identidade de um messias. Muitos judeus do mundo antigo não aguardavam ansiosamente
a chegada de um salvador, embora houvesse judeus extremamente religiosos, na
época de Jesus, que nutriam a crença de que Deus enviaria um messias para
livrá-los de graves problemas. Todos esses grupos assentaram suas expectativas
na Bíblia hebraica, o que não impedia que eles construíssem uma imagem do
salvador.
Em hebraico, “messias” se
diz “o Ungido”. Em suas origens, a Bíblia hebraica abrigava essa palavra para
referir-se ao rei de Israel, tal como o rei Saulo, Davi ou Salomão. O rei era,
de fato, ungido com óleo em sua cabeça durante a cerimônia de posse. Esse ato
sinalizava que o benefício especial de Deus recaía sobre ele (Salomão 2).
Algum tempo depois, não
havia mais rei em Israel, de modo que alguns judeus acreditavam que Deus
enviaria um futuro rei, que seria um ungido como o grande rei Davi, que liderou
os Exércitos de Israel contra os seus inimigos e erigiu Israel novamente em um
Estado soberano. Esse futuro rei, por conseguinte, foi o messias, ou seja, um
ser humano dotado de grande poder, um guerreiro e governante grandioso do povo
de Deus.
Por outro lado, havia
judeus que acreditavam que essa figura messiânica seria dotada de grande poder
sobrenatural. Eles a criam um ser celestial, enviado à Terra para julgar a
humanidade e enfrentar o inimigo com uma força descomunal, antes de estabelecer
um reino de Deus, cujo governante seria eleito pelo próprio Deus.
Sem perder de vista a
diversidade de opiniões, cabe lembrar que havia também judeus que estavam
especialmente preocupados com a “religião” de Israel. Nesse caso, o domínio de
suas aspirações políticas ficava embaçado pela crença em que o futuro
governante do povo seria um sacerdote poderoso, que teria em mira fortalecer o
povo de Israel, ensinado a ele a correta interpretação da lei judaica. O seu
governo exigiria do povo de Deus a observância da lei de Deus codificado nas
Escrituras.
Tendo em vista os
objetivos perseguidos por esta exposição, chamo a atenção para o seguinte fato.
Essas diferentes visões judaicas sobre como seria esse messias e sobre quais
seriam as suas atribuições devem ser pensadas como vozes ou posições inscritas
no discurso que acenam para diferentes posições ideológicas. Essa diversidade
de vozes é apagada por uma visão hegemônica – a do cristianismo oficial –
discursivamente estruturada. Vê-se claramente a dimensão ideológica do
discurso: o discurso cristão ortodoxo, apagando as vozes judaicas, cujas
interpretações eram divergentes, estabelece uma “verdade”, a qual tem efeito
sobre as práticas sociais entre os cristãos uns com os outros e entre estes com
os judeus.
Tratemos de elucidar de
que modo o discurso religioso, como prática social, contribui para constituir
relações conflituosas, posicionando os sujeitos sociais em lugares
socioideológicos antagônicos. O que fizeram os seguidores de Jesus? Eles
alegaram – pela produção, naturalmente, de discursos – que Jesus era o messias.
E o fizeram com base em pressupostos afinados com o interesse, em última
instância, de tornar o cristianismo a única religião que expressa a revelação
definitiva de Deus. Suas interpretações colidiam com as interpretações feitas
pelos Judeus, isto é, os sentidos cristãos não eram os sentidos produzidos
pelos Judeus para suas próprias Escrituras. De imediato, trata-se de uma luta
pelo controle do sentido “verdadeiro”, “correto”. Vimos que a forma mais
evidente pela qual o discurso e o poder se relaciona é pelo controle sobre o
discurso dos outros (nesse caso, pelo sentido passível de ser produzido). Ora,
a Palavra de Deus é unívoca e inequívoca, de modo que somente um sentido é
possível descobrir.
Mas pensemos em quem era
Jesus. Tratava-se de um pregador pouco conhecido na atrasada Galileia, que
insurgiu-se contra as autoridades judaicas, o que atraiu sobre si humilhação
pública e tortura. Seu fim é bem conhecido: foi preso à cruz como criminoso
onde morreu. Esse retrato breve de Jesus explica por que a maioria dos judeus
não poderia admitir que tal homem fosse o messias aguardado. Ao contrário dos
cristãos, os judeus alegaram que sua Bíblia nunca afirmou que o messias viria
duas vezes. Eles estavam certos de que Jesus não era o glorioso ungido por
Deus.
5.6.1. Intermináveis conflitos
Nos primeiros quatro
séculos da era cristã, os conflitos entre cristãos e judeus se tornaram mais
intensos e árduos. Inicialmente, os judeus eram muito mais numerosos e podiam,
sem esforço, superar os cristãos. Todavia, estes primavam pela perserverança
com que discutiam e combatiam.
Eis o rosto da contenda:
muitos judeus cristãos não entendiam como judeus não-cristãos não compreendiam
o “fato” de que Jesus era o messias. As provas saltavam aos olhos!
A oposição foi-se
acirrando, e os cristãos começaram a dizer que os judeus que rejeitavam Jesus
como o messias eram tão responsáveis pela sua morte quanto as autoridades
judaicas que delataram Jesus e pediram sua morte. Para os cristãos, rejeitar
Jesus equivalia a matá-lo.
Ponderemos sobre o
seguinte, a fim de que compreendamos o modo como o discurso se liga às relações
sociais conflituosas.
O discurso cristão
posicionava os judeus não-cristãos como inimigos de Jesus, ou mais
assombrosamente, como assassinos de Jesus. Os judeus eram, para os primeiros
cristãos, verdadeiros cristicidas.
As relações entre
cristãos e judeus se modificaram sensivelmente, muito graças, embora não só,
aos modos como elas se constituíam, ao longo do tempo, pelos inumeráveis
discursos produzidos com o objetivo de estabelecer e garantir a hegemonia da
nova fé.
No século II, Justiniano
produziu um escrito para debater com um rabino judeu, apontando-lhe os erros
que a interpretação dele das próprias Escrituras revelava. No afã de
estabelecer a verdade, nessa interminável polêmica teológico-política com os
judeus, os cristãos não hesitavam em falsificar os próprios escritos
produzidos. Neles, insistiam em que Jesus era um ser divino, e não um mero
mortal, como pensavam as autoridades romanas.
Nesses escritos, tanto os
romanos quanto o povo judeu, com seus líderes mais resistentes, eram
posicionados como responsáveis pela morte de Jesus. Lembro que os cristãos não
só insistiam em que os judeus tinham rejeitado o próprio messias Jesus e,
consequentemente, repudiado o próprio Deus, mas também eram tenazes em observar
que os judeus também interpretavam mal suas próprias escrituras.
Uma carta supostamente escrita
por Barnabé, companheiro do apóstolo Paulo, afirma que os judeus sempre se
equivocaram na interpretação da lei de Moisés. Eles eram acusados de
interpretá-la literalmente, quando, na verdade, tinham de interpretá-la
alegoricamente, o que permitiu aos cristãos reivindicar a autoridade sobre o
Antigo Testamento.
5.6.2 O Evangelho de Nicodemos
Para encerrar, considero
um exemplo de escrito cristão manifestamente antijudaico, que cristãos antigos
incluíram no cânone do Novo Testamento.
Surgido nos fins do
século IV d.C., o evangelho supostamente escrito por Nicodemos (sobre sua
verdadeira autoria direi algumas palavras adiante) é um longo relato do
julgamento, morte e ressurreição de Jesus.
Nicodemos fora um
seguidor “secreto” de Jesus (João 3, 1-15). Seu livro se tornou bastante
popular e exerceu grande influência por toda a Idade Média, sendo conhecido do
Ocidente latino e, enfim, traduzido para quase todas as línguas da Europa
Ocidental, por onde se disseminou.
Entanto, é provável que o
relato tenha sido redigido em algum momento do século IV – portanto trezentos
anos depois da morte de Nicodemos (considerando-se a hipótese de se tratar de
um indivíduo real). Estudiosos há que creem ter sido esse livro calcado sobre
histórias reunidas numa tradição oral transmitida dois séculos antes de assumir
a forma escrita.
O evangelho inicia com a
indicação de que Nicodemos era o verdadeiro autor da narrativa em hebraico,
muito embora a narrativa pareça ter sido escrita em grego originalmente
(Ehrman, 2013, p. 152). A alusão à forma original hebraica do manuscrito dava
autenticidade ao documento. Isso significa que se tratava, segundo quem quer
que tenha sido o autor, de um escrito muito antigo e, portanto, pretensamente
baseado em um testemunho ocular.
Ehrman nota que “não há
dúvida de que o relato não tem nada de histórico, já que se baseia em lendas
posteriores sobre as últimas horas de Jesus, sua ressurreição e morte” (p.
152). A narrativa foi produzida com um objetivo básico: inocentar Pilatos da
execução de Jesus; certamente também com o objetivo determinar os culpados: os
líderes judeus e o povo judeu, os quais, porque rejeitaram Jesus, acabariam por
rejeitar o próprio Deus.
Já no início da
narrativa, a dimensão divina de Jesus é apresentada “em uma de suas cenas mais
interessantes e divertidas” (ib.id.). Na cena do julgamento, antes, porém, de
ele ser realizado, as autoridades judaicas conversam com Pilatos, tentando
convencê-lo da culpa de Jesus por seus crimes. Eles queriam sua condenação.
Pilatos ordenou que seu
mensageiro conduzisse Jesus até o tribunal. Dentro da sala, estavam dois
escravos portando “estandartes” com a imagem de César “divino”. Assim que Jesus
entrou no salão, os porta-estandartes se curvaram diante dele, de sorte que era
a imagem de César que parecia lhe prestar deferência.
Qual não foi a fúria das
autoridades judaicas, que trataram de lançar injúrias contra os
porta-estandartes. Estes se defendiam dizendo que não fizeram aquilo: foram as
imagens de César que se curvaram por livre vontade para reverenciar Jesus.
Pilatos, então, tomou uma
resolução. Solicitou aos líderes judeus que escolhessem alguns dos seus, que
ostentassem grande força física para segurar os estandartes. Ordenou Pilatos
que retirassem Jesus da sala e que entrassem com ele outra vez. Assim fizeram
os líderes judeus, escolhendo doze judeus com notável protuberância muscular,
que se dividiram na execução da tarefa. Jesus retorna ao salão e, novamente, os
estandartes se curvaram perante ele.
A moral da história é
clara. Pilatos tentou, inutilmente, salvar Jesus, mas as autoridades judaicas,
irredutíveis, declaram-no um malfeitor que merecia a morte.
Muitas foram as vezes em
que as autoridades judaicas pleiteavam com Pilatos a condenação de Jesus; e
outras tantas foram as vezes em que Pilatos buscava inocentá-lo.
Está claro que o discurso
do evangelho atribuído a Nicodemos posiciona os judeus como responsáveis pela
condenação e morte de Jesus, ao mesmo tempo em que confere a Pilatos o lugar de
inocente. Nesse jogo discursivo, em que os sujeitos sociais assumem lugares
diferentes, opostos, em que se estabelece um antagonismo entre culpados e
inocentes, em que as responsabilidades pelos acontecimentos trocam de agentes,
em que os agentes sociais passam a ter outra participação no curso da história,
pelo menos à luz de uma interpretação interessada, vai-se construindo o mosaico
da história, repleto de contradições ou, - para usar uma metáfora mais
condizente com o devir histórico-, vai-se construindo o movimento histórico,
que torna a busca por determinar a verdade uma pesquisa acurada de decifração,
de identificação das estratégias com que ela foi mascarada, encoberta,
transformada, negociada.
O antijudaísmo já estava
presente, alguns séculos anteriores, no evangelho atribuído a Mateus.
A narrativa termina
mostrando ser Jesus divino. Ele ressurge dentre os mortos e os próprios líderes
judeus se veem em face de uma prova inconteste da ressurreição pelo testemunho
de pessoas confiáveis.
Uma vez considerado o
discurso como prática discursiva, entre outras e, como tal, responsável também
pela constituição da história, é forçoso concluir que, estando claro que a
literatura cristã se produziu com inúmeros escritos falsificados, vários dos
quais entraram a fazer parte do cânone do Novo Testamento, segue-se que a
própria história cristã é uma arena onde as lutas pelo poder, condição de
apropriação da verdade, encobrem ou dificultam a contemplação da verdade por
cujo valor seus protagonistas permaneceram lutando.
O evangelho atribuído a
Nicodemos é um relato falsificado, escrito há cerca de trezentos anos depois
dos acontecimentos que narra. Em meados do século IV, os cristãos aliaram-se
aos romanos. É de esperar que os romanos fossem inocentados: o benefício do
poder produz sua própria verdade.
Na Europa Ocidental da
Idade Média, esse evangelho gozava de grande prestigio – nessa época, o ódio aos
judeus era permanente, tornando paradoxal e perturbador o significado de ser
cristão.