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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Este texto estava entre os que compus há uns quatro anos. Na minha solidão, contemplava o mundo criticamente.


                                    

                                         Inconstância
                          A Liquidez de nosso tempo


Numa perspectiva fenomenológica, todo fato humano é significativo. Uma vez eliminada sua significação, esvaece-se sua natureza de fato humano. A emoção compreende a totalidade do Dasein (“o ser-aí”, “o ser-no-mundo”). Emoção é o todo da consciência. A emoção é a realidade humana assumindo-se a si mesma e projetando-se para o mundo. Ela não existe enquanto fenômeno corporal, pois o corpo é incapaz de conferir sentido. A emoção é significação da consciência.
 A realidade humana é o eu, que assume seu próprio ser, ao compreender a si mesmo. Essa compreensão não se dá, evidentemente, in absentia, mas na relação com o outro. O Dasein é o ser-no-mundo, ou seja, o modo como cada um de nós existe no mundo. O Dasein constrói sua própria significação existindo no mundo. Como realidade humana, o Dasein é “ser com”. Os homens são seres de “relação com”.
É inegável que a emoção desempenha um papel fundamental nas formas de relacionamento humano. Nossas relações com o Outro se estabelecem na base da emoção.  Do latim emovere (‘movimento’ ‘fora’), emoção é o movimento de nossa alma para o exterior. É o que nos move para o mundo, motivando-nos a nos relacionar uns com os outros. Como ensina Cury, a emoção é caracterizada por um conflito inerente: se, por um lado, ela é a grande responsável por nossa força vital, pela vontade de viver, tornando nossas experiências fonte de prazer e satisfação; por outro lado, também traz muitas complicações, acentua nossa suscetibilidade a decepções, a frustrações, etc. A vida humana não seria possível, no entanto, sem emoção.
Doravante, encaminharei meu discurso na direção adequada à satisfação dos objetivos a que viso. Paciente, leitor, pois iniciarei um novo tópico. Não lhe será custoso, entretanto, estabelecer a relação de sentido entre ele e a porção precedente. Como não tardará em notar, as considerações precedentes sobre o conceito de Dasein do existencialismo de Heidegger, bem como sobre a emoção, tal como pensada numa perspectiva fenomenológica, que remonta a Husserl, serão responsáveis por orientar a construção de representações que se assentam no pressuposto de que manter relação é o que define a essência do homem.  Há duas implicações nesse pressuposto:

1º) como ensinou Sartre, no homem “a existência precede a essência”. Primeiramente, o homem existe, para, então, ser;

2º) Como não haja uma essência pré-definida ou dada a priori, existir, que é ‘manter relação com’ (ao existir, levamos em conta o outro, essa é a condição do Dasein), passa a constituir uma propriedade fundamental da definição do humano.

Não tenho medo de morrer. A certeza da morte não me impede de viver com relativa serenidade (já que estamos constantemente vulneráveis a conturbações de espírito, a inconstâncias de humor).  Muita vez, a ideia da morte sorri-me; aguardo-a como quem espera para fazer uma viagem, sem, contudo, ansiar por ela.
Vivo, não apesar da inevitabilidade da morte, mas justamente por causa de seu caráter factual inevitável. Afinal, seria tedioso e inquietante viver eternamente. A ideia de eternidade só é atraente em dois sentidos: se acreditamos na indestrutibilidade da vida (ou seja, na sua perpetuidade na condição espiritual ou incorpórea); ou se nutrimos na alma a esperança de experienciar o Amor pleno, que se deseja sentir, quando duas almas muito afins se encontram. Em suma, a ideia de eternidade só me é atraente e compensadora, caso se confirme a crença na possibilidade da vida além-túmulo ou na perenidade do Amor que transcende, ou seja, que resiste ao desencarne.
Minha angústia – se é que posso chamar, assim, o sentimento que me inunda toda a alma, sempre que tomo consciência de minha impotência em face da fatalidade à qual está destinado meu coração – não decorre da consciência de minha finitude, mas do fato de ter de adiar, mais uma vez, a minha felicidade (a felicidade de amar). É curioso como a felicidade é um sentimento projetado para o futuro. A felicidade é um desejo de prazer inalcançável no presente. E se concordamos com a posição de Freud, deveremos reconhecer que nossa própria constituição psíquica impede-nos de experienciar o prazer permanentemente. A felicidade é o que buscamos, embora se nos escape.
Talvez, se esteja perguntando, leitor, se sou feliz, e eu lhe diria, sem hesitar, que sou feliz, muito feliz. Mas minha felicidade não impede minha tristeza; convive bem com ela. Minha tristeza, tão familiar e, não raro, tão inapreensível, nasceu comigo. Não estou na vida de passagem. Sinto-me convocado a me pronunciar, a me posicionar em face da minha realidade, que é o Dasein – a realidade humana. Sou um indivíduo que vive apreendendo-se a si mesmo; vivo na consciência de mim mesmo.
Definitivamente, sinto-me deslocado; viver em nosso tempo (controversamente, chamado de “pós-moderno”) me é desconfortante, pois que me movo contrariamente a tudo quanto é condicionante: ao imperativo dos padrões, dos modismos, do conformismo generalizado, dos lugares-comuns, das opiniões cristalizadas e inquestionáveis, do anestesiamento da consciência, do consumismo que afasta as pessoas de valores mais humanamente significativos e elevados, etc.; sou permanência numa vida líquida, consoante ensina Bauman: “uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante”. Viver numa sociedade líquido-moderna é viver numa sociedade

“em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, de formas de agir”.
(p. 7)

As pessoas buscam ludibriar a morte, em vão, é claro. Buscam obsessivamente conservar a juventude. Certas mulheres, especialmente, produtos da publicidade, escravas da vaidade fútil, por força da ditadura da beleza (de que nos fala Cury), querem retardar a deterioração do corpo, inevitável, submetendo-se a sessões de lipoaspiração, a cirurgias para colocação de próteses de silicone, tentando, assim, preencher seu vazio existencial pela supressão do que julga ser uma falha da natureza (por exemplo, a carência de seios volumosos ou de glúteos firmes e vistosos).
O culto ao corpo, a supervalorização das aparências, associados ao fenômeno de saturação das imagens, as quais esgotam a totalidade do real, sustentam a crença, entre alguns estudiosos, em que a vida na sociedade pós-moderna, também chamada “sociedade do espetáculo”, é semelhante à vida na Caverna de Platão, ou seja, uma vida imersa em simulacros numa grande caverna pós-moderna.
A supervalorização da beleza, da exterioridade físico-corpórea consubstancia a valorização do efêmero, do descartável. Nessas condições, tudo que dura é cansativo; a permanência não passa de delírio de uma idade primaveril e romântica da existência humana, delírio que deve ser substituído por possibilidades, aparentemente, mais substanciais de integração. Há uma necessidade insaciável e incessante de busca por experimentar prazeres cada vez mais intensos, tão intensos quanto fugazes. Fugacidade parece definir bem o nosso tempo: tempo prometedor de felicidade imediata, de caminhos sempre abertos a novas experiências sem substância, mas sempre passíveis de renovação. Tempo em que a memória é suprimida, em que o esquecimento leva ao conformismo. Tempo em que a violência e a injustiça não entram na conta da revolta; são aceitas e justificadas. Tempo em que a História, como diz Bueno (2002:27), “[é] uma coleção de imagens sem espessura e densidade”.
Atento à liquidez dos relacionamentos na pós-modernidade, Bauman nota a tendência a transformarem-se “relações”, “parcerias”, formas de existir que pressupõem certo engajamento, compromisso, em mera “rede” na qual as pessoas estão conectadas umas com as outras, como nos ciberespaços da internet. Ao contrário das relações reais, certamente mais pesadas e conflituosas, as relações virtuais ou conexões podem ser rompidas antes mesmo que se tornem fonte de insatisfação. Tais formas de relações surgem como resultantes das condições líquidas de existência no cenário da sociedade pós-moderna e atendem às necessidades de uma época caracterizada pela velocidade e pela identificação do presente a tudo que existe.
Diferentemente do que sucede com os relacionamentos convencionais ou “reais”, a facilidade com que entramos e saímos de “relacionamentos virtuais” é surpreendente. Os relacionamentos virtuais podem ser, sem muito custo, cindidos antes que suas raízes mergulhem no terreno denso das emoções.  Bauman (2004) cita uma declaração de um jovem de 28 anos da Universidade de Bath (Reino Unido), que nos dá uma idéia clara da fragilidade dos laços humanos na modernidade líquida. Transcrevo-a conforme se segue:

“Sempre se pode apertar a tecla de deletar.”
(p. 13)

 A opção pelas redes dá-se no momento em que as relações convencionais, as quais requerem dedicação, atenção, confiança e fidelidade, entre outras qualidades que garantam a sua sobrevivência,  tornam-se insustentáveis, por flutuarem na carência de sua solidez.
O que se assiste é a uma extensão do padrão das relações virtuais ou “conexões” às formas convencionais de relacionamentos, consoante nos patenteia Bauman:

“(...) as relações virtuais (rebatizadas de “conexões”) estabelecem o padrão que orienta os outros relacionamentos. Isso não traz felicidade aos homens e mulheres que se rendem a essa pressão; dificilmente se poderia imaginá-los mais felizes agora do que quando se envolviam nas relações pré-virtuais. Ganha-se de um lado, perde-se de outro”.
(p. 13)


Cabe perguntar se há, realmente, ganho na escolha por experienciar relacionamentos descartáveis, esvaziados de envolvimento emocional, meramente casuais. O suposto ganho decorre do equívoco de entender ser mais vantajoso manter-se protegido contra as inevitáveis complicações, porquanto, afinal, relacionamentos assemelham-se a investimentos, cujo sucesso depende da consideração das probabilidades e das flutuações do mercado. Assim,


““Estar num relacionamento” significa muita dor de cabeça, mas sobretudo uma incerteza permanente. Você nunca poderá estar plena e verdadeiramente seguro daquilo que faz – ou de ter feito a coisa certa ou no momento preciso”.
(p. 29)

As relações interpessoais, com o advento da internet e de seus ciberespaços de relacionamentos, ganharam nova dimensão - consequência dos processos de globalização-, caracterizada, especialmente, pela compressão do tempo-espaço.  É pertinente reiterar um pensamento meu que já permeou outros textos que escrevi e que caracteriza bem o efeito da internet sobre o mundo: a internet empacota o mundo. É inegável que se encurtou a grande distância que, antes, mantinham isolados povos, culturas, por um lado; e dificultava o relacionamento entre indivíduos, por outro. Há quem defenda vivermos numa grande “aldeia global” na qual se teria reduzido o planeta. A interpretação é controversa, especialmente se consideramos que o conceito de “aldeia”, que pressupõe um conjunto em que todos os indivíduos se conhecem, atuam cooperativamente e participam das decisões da vida de sua comunidade, não parece recobrir a ideia de sociedade moderna.
É com a mesma velocidade com que  surgem que deixam de existir tais formas de relacionamentos líquidos. A debilidade e a liquidez lhes são características intrínsecas. A impossibilidade de sua permanência inscreve-se na forma como são iniciados, ou seja, surgem tão repentinamente como podem vir a desfazer-se. Não há certeza em sua constância. Mantêm-se na esfera da fluidez, não abrangendo a esfera da solidez. 
A sensação de integração, de maior proximidade, em que os espaços virtuais de relacionamentos nos fazem crer não é senão uma ilusão. É sempre bom lembrar que estes espaços instauram oportunidades de relacionamentos cujos agentes não são indivíduos de carne e osso, mas imagens (fotos) digitais. Acrescente-se ainda que o encurtamento da distância, propiciado pelas novas condições de existência instauradas pela globalização, de que a internet é sua melhor expressão, não se alcança sem o aumento de uma sensação maior de insegurança, quer em termos morais e cívicos, quer em termos subjetivo-afetivos. Diante da possibilidade de mascarar a verdadeira identidade, cria-se uma atmosfera impregnada de medo, de receio, de desconfiança, que torna ainda mais inviável a possibilidade de experienciar relacionamentos mais autênticos, estáveis e seguros. 
Os relacionamentos virtuais têm a (des)vantagem de não enredar o indivíduo no universo de emoções típico dos relacionamentos convencionais, (des)vantagem esta garantida pela manutenção da distância real entre os interlocutores. Ademais, - e nisso me parece residir, certamente, uma desvantagem -, fica a sensação de se viver numa vacuidade experiencial, onde não há constância, estabilidade, segurança e confiança.
A fim de que tenhamos uma clara noção de quão ilusória é a crença numa maior integridade, em termos qualitativos e experienciais, basta ter em conta casos de interlocutores que mantêm em sua página de Orkut cerca de 300 a 900 fotos, ou imagens de “amigos”, dos quais, muita vez, dez ou pouco mais de vinte podem participar efetivamente de suas experiências “reais” de vida.
Chats como “msn” e sites de relacionamentos como “Orkut” patenteiam uma mudança radical das formas de ser das relações humanas e de experienciá-las. Imediatismo e superficialidade parecem ser os princípios que as governam. Há, pelo menos, 20 anos, o rompimento de relacionamentos exigia, no mínimo, uma meia dúzia de palavras, ainda que fossem ofensivas. A ruptura dos relacionamentos virtuais dispensa o esforço despendido na produção de palavras, realizando-se com um simples clique num botão de mouse, caso em que uma foto componente do álbum de imagens de seus amigos é excluída. No entanto, a exclusão da imagem é apenas o fenômeno, ou seja, o que é percebido imediatamente por nossa consciência; a essa exclusão subjaz a castração da fertilidade que poderia ser proporcionada pela experiência com o outro. Castra-se a vitalidade de experiências que poderiam ser frutíferas, mas que foram “deletadas” muito antes de aparecerem os primeiros ramos. Acontece que as experiências de vida do para-si, ou os relacionamentos do eu com o outro, não podem ser, simplesmente, “deletadas”, por mais singelos que tenham sido. “Deletar”, na situação de relacionamentos virtuais, passa a ser uma forma tão artificial de esquecer, de ignorar, que não deixa de representar o atestado de óbito da emoção, cada vez mais ameaçada por qualquer forma de perturbação. Ao deletar, reduzimos a complexidade do outro ao ‘nada’ de dados e informações de computador.
A contradição salta às vistas: por um lado, propomo-nos a negociar as esferas da vida privada e da vida pública, assumimos a responsabilidade pelas conseqüências da exposição maior de nossas vidas que, outrora, pertenciam apenas ao domínio familiar ou social mais restrito; por outro lado, conscientes dos riscos de quase irrestrita exposição, valemo-nos de recursos limitadores (haja vistas à possibilidade, propiciada no Orkut, de manter fotos ou recados de seus membros restritos ao acesso do conjunto de “amigos”).  A contradição a que me refiro decorre da incompatibilidade entre o desejo de liberdade, a cuja satisfação, cada vez mais premente, somos condicionados, e o reconhecimento de insegurança crescente. Na modernidade líquida, o desejo de liberdade, legitimado pela ideologia moderna, caminha junto com o medo decorrente do sentimento de insegurança.
Estou consciente de que, talvez, minhas reflexões sejam motivadas por um ideal incompatível com as condições em que se dão as interações virtuais.  Não pretendo argumentar em favor da necessidade que se instaurem relacionamentos que ganhem em qualidade e se pautem por uma busca por solidez emocional, necessária para nos manter mais confiantes nas relações com o Outro, tão fundamentais ao Dasein.
Não tenho intenção de propor qualquer alternativa; mas tão só de compartilhar com o leitor a compreensão de um aspecto inegável da chamada crise do homem pós-moderno (minha crise também) que, navegante num mundo cada vez mais interconectado, sente-se perdido pela falta de referenciais, de “âncoras”, que o mantenham num estado de segurança constante numa vida que se escorre num vácuo completo.