O sentido como constructo social
A
questão do sentido da vida à luz da sociologia do conhecimento
Introdução
O presente ensaio se constitui de
duas partes. A primeira dificuldade que se me apresenta, desde o início, é
determinar como articulá-las de tal modo, que uma das partes seja consistente
com a outra, e não venha a constituir por si mesma outro texto completamente
diferente. Em que pese à possibilidade de os temas discutidos nas duas partes
parecerem um tanto díspares, duas questões basilares que norteiam todas as
reflexões deste ensaio são suficientes para lhes garantir consistência, para
lhes pavimentar um terreno sólido comum. As duas questões são as
seguintes: faz sentido deveras falar em sentido metafísico?
A vida tem sentido em si e por si mesma? Antes de me debruçar sobre o
tema que será discutido na primeira parte deste ensaio, será necessário
esclarecer as condições de produção desses dois enunciados que se tornaram
questões filosóficas para mim. A primeira questão interessa-me especialmente
por ocasião da releitura que vinha fazendo do livro Para que serve tudo
isso (2008), do filósofo Julian Baggini. Esse livro foi escrito para
“responder” à questão “qual é o sentido da vida”. O livro é interessante
não tanto pela resposta a que chega para uma questão fundamental e,
aparentemente, complexa, mas pelas muitas outras questões que suscita. Após a
releitura de um dos capítulos desse livro, se me impôs o seguinte problema: faz
sentido falar em sentido metafísico? A expressão “sentido
metafísico” foi cunhada por mim em outra ocasião. Empreguei-a durante a escrita
de meu livro, ainda não publicado, sobre o suicídio. Com essa expressão me
referia ao “sentido” que está pressuposto sempre que as pessoas se perguntam a
si mesmas: qual é o sentido da vida? Nas sociedades ocidentais, em geral,
perguntar sobre o sentido da vida é perguntar se a vida tem um sentido que é
dado e garantido por uma instância metafísica, que compreende um Deus
transcendente (o Deus da tradição cristã) e uma vida pós-morte. Portanto, o
sentido desta vida aqui deve ser buscado em outro lugar além: em Deus e na vida
pós-morte que ele nos promete.
A segunda questão importa menos pela
resposta que dou a ela – resposta que assumo como um pressuposto compartilhado
com Baggini – do que pela problemática teórica que ela descerra. Com Baggini,
assumo também que a vida, tomada em si e por si mesma, não tem sentido algum.
E, se pensarmos bem, até mesmo os religiosos devem concordar com esse
pressuposto, já que eles acreditam que o sentido da vida não se encontra na
vida em si, mas é dado por Deus, como fonte irradiadora de sentido, como
instância metafísica à luz da qual o mundo e a vida de cada indivíduo que nele
crê das profundezas terrificantes do absurdo assomariam à luminosidade de um
sentido verdadeiro e superior. Mas, se o sentido da vida provém de Deus,
significa dizer que a vida do ateu não tem sentido algum? Discutir esta e
outras questões atinentes à suposição de que o sentido da vida depende da
existência do Deus metafísico representado/imaginado pelas três religiões do
Livro será o objetivo central da primeira parte deste ensaio.
A segunda parte deste texto deve ser
encarada como um desdobramento das reflexões sobre a questão do sentido da vida
ou da existência humana, desenvolvidas na primeira parte, mas consideradas à
luz das contribuições de uma sociologia compreensiva. Essa segunda parte lança luz
sobre alguns problemas que restarão ao cabo da primeira parte. Se, na primeira
parte, o problema do sentido da vida pressupõe a existência de
Deus, na segunda parte, esse problema não a pressupõe, mas a explica como
efeito de um imaginário socialmente constituído. Mas não será a questão sobre a
existência ou não de Deus que estará em primeiro plano. Certamente, - reitero -
não será esta a questão de que me ocuparei. A questão precípua e comum às duas
partes é a do “sentido” da vida. Na segunda parte deste
ensaio, vou-me alongar sobre a referida questão abordando-a de um ponto de
vista filosófico-sociológico, na expectativa de que ficará claro que todas as
sociedades estão envolvidas em processos de produção de sentido. Veremos, pois,
que, ao contrário do que supõe o senso comum, o “sentido” do mundo e o sentido
de cada vida individual são um constructo social, é uma ficção (invenção)
histórico-social, é produto da atividade humana.
PARTE
I
Deveras, uma das razões por que me
tornei ateu foi o ter meditado seria e cuidadosamente sobre as alegações da
religião. No entanto, não escrevo para fazer uma defesa do ateísmo, mas para
investigar se da crença num Deus criador e sumamente bom como o Deus cristão
segue-se, necessariamente, que a vida tem algum sentido. Se feita a alguém que
acredita na existência do Deus teísta a pergunta “qual é o sentido da vida?”, é
muito provável que a resposta encerre alguma referência a Deus. De uma forma ou
de outra, “o sentido da vida” tem em Deus uma instância metafísica à qual a
questão remete e da qual ela obtém sua validade. Para uma grande maioria
de homo sapiens, é simplesmente intolerável a ideia de que a vida
seja apenas uma característica que tem certos fenômenos de se produzirem e se
regularem por si mesmos, que a vida não envolva mais do que metabolismo,
plasticidade, reatividade e reprodução; e, no caso da vida humana, que seja
apenas trabalhar esforçando-se para ganhar dinheiro, comer, beber, fazer sexo e
dormir, talvez com alguns períodos de descanso. Todas essas atividades não
servem a propósito algum senão nos manter vivos. Para uma maioria de pessoas, é
preciso que tenha algum sentido maior. E aqui, por ora, uso a palavra “sentido”
na acepção de ‘propósito, finalidade’. Lembro que a questão do “sentido” será
uma questão fundamental e permanente ao longo de todo este ensaio. Na segunda
parte, o conceito de “sentido” será mais bem definido segundo pressupostos
teóricos fundamentados filosófica e sociologicamente.
A maioria das pessoas se acostumou a
concluir, apressadamente, que, se Deus não existir, então a vida não tem
sentido algum ou não tem razão de ser. No entanto, muitas dessas pessoas não
sabem bem dizer qual é o sentido pretendido por Deus. Em outras palavras, elas
não sabem dizer, com certeza, qual é o propósito de Deus para o mundo e para a
vida delas. Muitas assumem que é necessário um salto de fé, ou seja, admitem
que é preciso crer que Deus não teria criado o mundo e cada um de nós se não
tivesse um propósito em mente. Mas isso parece ser, na verdade, uma
consequência da crença de que o universo foi criado (ou seja, que ele não
surgiu do nada) por uma Inteligência Superior que, ao criá-lo, tinha um
propósito. Recorrer à fé em Deus em face da questão “Qual é o propósito que
Deus tem para o mundo e para a vida de cada um de nós?”, é admitir que
desconhecemos esse propósito, é admitir que apenas esperamos que, na hora certa
(possivelmente, depois da morte?), Deus no-lo revelará. Mas, nesse caso, os religiosos
sabem tão pouco sobre o propósito de suas vidas quanto um ateu que rejeita a
crença de que o sentido da vida provenha de Deus. Portanto, o salto de fé
precisa ser explicado. O salto de fé parece significar confiança num Deus cuja
existência nos é inacessível, num Deus que tem um propósito que não podemos
saber e que nos promete uma vida após a morte não sabemos se acontecerá.
Ademais, devemos ter fé em que esse propósito nos agradará. Se, por exemplo, o
propósito divino revelado for o de combater hordas de demônios durante toda a
eternidade ou se o propósito foi ter nos criado para a perseverança em face de
muitas tribulações, talvez não fiquemos muito contentes com o fato de Deus ter
um propósito para nós.
Há, entre os religiosos, aqueles que supõem que o
sentido da vida tem a ver com uma missão dada a cada um de nós por Deus, muito
embora essa “explicação” não seja satisfatória na tentativa de responder qual é
o sentido da vida. As religiões, aliás, não nos esclarecem sobre qual missão
seria essa. Alguns falam em “servir a Deus”, mas “servir a Deus” é subtrair à
vida humana sua dignidade; ademais, tornaria Deus uma espécie de senhor tirano
que necessitaria de servos (embora o próprio imaginário judaico-cristão
represente a relação assimétrica entre Deus e seus fiéis em termos de Senhor e
“servos”). O fato é que, se assumimos que devemos confiar em Deus, estamos
dizendo que não sabemos por que estamos no mundo e que devemos deixar tudo “nas
mãos do desconhecido”. Por conseguinte, acreditar que nossas origens estejam
ligadas a um ser sobrenatural, a uma instância metafísica significa abrir mão
de uma explicação razoável sobre o sentido e a razão de ser de nossa vida.
Vamo-nos deter um pouco mais na questão da “fé”.
Toda fé legítima, já nos advertia Kierkegaard,
envolve um risco. A fé, por definição, é não racional (o que é diferente de
dizer que a fé seja sempre “irracional”, embora ela possa, algumas vezes, o
ser). Quero apenas dizer que a fé, de alguma forma, nos desobriga da
responsabilidade de fornecer provas ou evidências. A fé não só contraria, com
frequência, as normas da razão, como também nos escusa da necessidade de
fornecer provas ou evidências que a própria racionalidade exige. A fé é uma
atitude, ou um compromisso com a desnecessidade de fornecer uma justificação
racional. Assim, lemos, no Evangelho de João, que Tomé é censurado por seu
ceticismo. A interpretação cristã canônica autoriza a conclusão de que Tomé
estava errado não só por duvidar de que Jesus ressuscitou dos mortos, mas sobretudo
por pedir provas disso. Por isso, Jesus adverte aos demais que, como Tomé,
teimam em duvidar: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (João 20:29).
Ora, Tomé foi censurado pelos simples motivo de solicitar o que qualquer crença
racional demandaria: boas razões, uma argumentação racional, evidências. A
racionalidade pressupõe e exige a dúvida; afinal, sabemos, por experiência, que
pessoas não ressuscitam. Assim, ao receber a prova de que precisava, Tomé
fracassou em sua prova de fé. A fé deixa de ser necessária, quando dispomos de
uma base racional.
No início do parágrafo precedente,
referi-me ao fato de a fé envolver sempre um risco. Para evidenciar o risco da
fé, tomemos a prova de fé de Abraão, em Gênesis 22. Kierkegaard se debruçou
sobre essa passagem bíblica a fim de desvelar a nós que a fé não nos exime da
angústia de ter de fazer escolhas. Deus pede a Abraão que sacrifique seu único
filho, Isaac. Abraão não vê Deus, mas escuta o que teria sido a sua voz.
Portanto, Abraão teve de decidir se foi mesmo Deus quem lhe pedira o sacrifício
de Isaac, ou se fora um demônio, ou se estava ficando louco. Em segundo lugar,
ele teve de decidir se obedecia ou não à ordem que lhe foi dada. A razão
protesta, advertindo-o de que o pedido pode não estar certo; afinal, que Deus
bom é este que exigiria o assassinato de uma criança inocente? Não obstante,
Abraão ia agir em conformidade com o que lhe foi ordenado por Deus como prova
de sua fé. Isso mostra como a fé nos leva a agir em desconformidade com a
razão. Por isso, concordo com Baggini, quando escreve: “a fé é o que preenche a
lacuna entre a crença racional e a certeza; ter fé é esquivar-se totalmente da
racionalidade” (Baggini, 2008, p. 52). O risco da fé é, pois, abandonar a
racionalidade como método mais confiável que temos para determinar o que é
verdadeiro ou proveitoso. Em matéria de religião, é consabido que as convicções
pessoais levam muitas pessoas a aderir às mais diferentes concepções de Deus ou
do mundo sobrenatural. A fé pode-se tornar deveras nociva quando, através dela,
as pessoas passam a acreditar cegamente que sabem qual é a vontade de Deus. Por
isso, para quem, como Kierkegaard, pensa seriamente sobre a questão de Deus, a
fé deve ser vivida com “temor e tremor”. Ao se debruçar sobre a narrativa de
Abraão, que estava disposto a sacrificar seu filho por obediência à vontade de
Deus, Kierkegaard descreve a agonia dessa personagem bíblica. Abraão não pode
esquivar-se de fazer uma série de perguntas: será que é mesmo Deus quem está me
pedindo isso ou será que é o diabo que me está enganando? Será que estou louco?
E mesmo que seja Deus, será certo que eu cumpra o que ele ordena? Será que Deus
é tão bom quanto eu pensava? A história de Abraão ensina-nos sobre o que
significa ter fé. Significa delegar a responsabilidade pela busca de sentido da
vida a Deus. Mas, se delegamos responsabilidade, então somos corresponsáveis
pelo que a pessoa a quem a delegamos faz. Vê-se, portanto, que não é claro como
Deus pode ser a instância metafísica doadora e mantenedora do sentido da vida,
pois acreditar na existência de Deus nos desobriga de nos ocupar com o
propósito ou sentido da vida. Afinal, não sabemos qual é esse sentido do qual
Deus é uma fonte e garantia; ignoramos os propósitos de Deus; e precisamos
evadir-se da questão do sentido da vida pelo recurso ao salto da fé, acolhendo,
assim, o que nos pede o autor de Mateus (10: 28-31):
E não temais os que matam o corpo e não
podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma
e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por um
ceitil? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai.
E até mesmo os cabelos da vossa cabeça
estão todos contados.
Não temais, pois; mais valeis vós do
que muitos passarinhos.
A fé não se sustenta na razão, mas em
convicções pessoais ou no testemunho dos outros. Ter fé é renunciar
a produzir sentidos para a nossa vida e simplesmente confiar na divindade. Não
obstante, como não sabemos qual é o sentido de que Deus dota a existência do
mundo e de nossa vida em particular, mesmo a fé não deveria nos eximir da
responsabilidade por dar sentido às nossas vivências ou da responsabilidade
pelas ações que se seguem dos sentidos que conferimos à nossa vida. Assim,
invertendo a aposta pascaliana, poderíamos dizer que é o fiel que se encontra
numa situação arriscada. Quem acredita nas alegações do cristianismo e arrisca
tudo na esperança de uma existência pós-morte não terá uma segunda chance, caso
esteja errado, isto é, caso não haja nada para além do túmulo e do retorno ao
inorgânico. O ateu, no entanto, pode, pelo menos contar com uma segunda chance
– presumindo-se que Deus não seja vingativo e vil como o descreve, sobretudo, o
Antigo Testamento, mas bom e misericordioso como dele nos fala Cristo.
Gostaria de me deter um pouco mais na
questão da transcendência como fonte de sentido para a existência humana, antes
de pôr termo a esta primeira parte de minha exposição. É possível que o Deus
teísta exista sem que haja vida após a morte? Ou é possível que exista vida após
a morte, mas não exista Deus como ente transcendente? Na tradição religiosa que
é a nossa, isto é, na tradição judaico-cristã, parece-me que a resposta é não.
Parece que a existência de Deus e a promessa de vida após a morte estão
necessariamente implicadas. Mas gostaria, doravante, de considerar apenas a
possibilidade de haver vida pós-morte e de como essa outra vida conferiria
sentido a esta vida aqui e agora. Partindo-se da premissa de que a vida tem de
ter um sentido metafísico ou transcendente, a maioria das pessoas pensa que, se
não houver vida após a morte, então a vida física, material mesma não tem
sentido algum. Mas, cabe questionar como uma vida pós-morte daria sentido a
esta vida aqui? Em outros termos, como a minha existência só ganharia sentido
se eu puder continuar existindo sob alguma outra forma e sob outras condições
além da morte? Não só não temos nenhuma razão para acreditar na existência de
almas imateriais, que sobreviveriam à morte do corpo, como também é
possível supor que essa forma de vida de almas imateriais seria muito diferente
desta vida material e corpórea que conhecemos. É claro que o cristianismo nos
promete uma vida eterna deste composto de corpo e alma que presumivelmente
constituiria nossa identidade pessoal, de modo que não é a nossa alma apenas
que habitaria um outro mundo, mas a nossa pessoa mesma. Isso, no entanto, pouco
nos ajuda na tentativa de explicar como essa vida pós-morte conferiria sentido
a esta vida aqui e agora. Basicamente, não está claro como esta outra vida
poderia ser uma continuidade da vida que temos agora. É absurdo falar em
existência corporal fora do tempo. E se continuamos a existir como almas
corporificadas, se continuamos a existir como união de corpo e alma, como
pensar que esta outra vida estaria livre dos processos de envelhecimento,
sofrimento e mortalidade que esta vida terrena pressupõe? E quem dissesse que
isso é um mistério de Deus dá razão ao meu argumento central segundo o qual a
fé em Deus não resolve o problema do sentido da vida. Mas a questão que me
importa desenvolver consiste na seguinte: como a duração da vida pode aumentar
o valor da vida? Em outras palavras, como uma vida pós-morte, uma vida eterna
garantiria o sentido desta vida mortal que é a nossa? Se a vida que conhecemos
não tem valor, como desejar sua eternidade a tornaria mais valiosa? Ora, a vida
eterna pode ser uma vida bastante sem sentido, talvez a que menos faça sentido.
Se, quando morrêssemos, acordássemos noutro mundo, como estaria resolvido o
sentido da vida? Pense um pouco, caro leitor. Se o sentido da vida é que essa
vida pós-morte é a continuação da anterior, restar-nos-íamos a questão de saber
qual é o sentido dessa segunda vida pós-morte. Além disso, imagine-se quão
entediante e sem sentido poderia ser uma existência eterna.
É certo que, quando pensamos seriamente
sobre a nossa condição como animais humanos, como seres corpóreos e mortais,
temos muita dificuldade de imaginar como deveríamos ter uma vida diferente
desta vida material. E se consideramos essa dificuldade conjuntamente com a
montanha de evidências de que dispomos a favor de nossa condição finita e
mortal, sobreviver à morte é mais uma ilusão, uma crença baseada no desejo
(como diria Freud), do que uma possibilidade a ser concretizada. A partir de
tudo que foi exposto, a conclusão mais razoável não pode ser outra senão a que
nos dá Baggini: “tentar encontrar o sentido da vida em uma vida por vir parece,
então, inútil”. (ibid., p. 58). Vemos, pois, que a racionalidade quer que
reconheçamos aquilo que a fé nos impede de admitir, a saber, “a única coisa que
permanece incerta é a duração da vida, e considerando tudo o que sabemos seria
ilógico apostar que ela se estenderia além da morte do corpo”. (ibid., p. 60).
Estou de acordo com a conclusão de
Baggini quanto à vanidade da busca pelo sentido da vida com base na crença numa
vida pós-morte. O tal “sentido metafísico” a que me referi, se examinado à luz
da filosofia, parece obscurecer a questão do sentido da vida. Mas discordo de
Baggini quando diz que “o sentido da vida deve estar nela própria” e quando diz
que “a expectativa da morte é necessária para fazer com que nossas ações valham
a pena”. São estes dois pontos de desacordo com o autor que me levaram a estender
as minhas meditações sobre a questão do sentido da vida, reorientando-as à luz
de uma abordagem mais propriamente sociológica da constituição humana do
sentido. Em primeiro lugar, o sentido da existência humana e do mundo não deve
ser compreendido por apelo a uma instância metafísica produtora de sentido, no
que estou de acordo com Baggini; mas esse sentido não está na vida em si mesma,
como algo que os seres humanos podem “des-cobrir”. A ordem social é produto da
atividade humana e também os significados das ações humanas, o sentido da
existência humana e do mundo são componentes fundamentais da constituição
humana da realidade social. Cuido também ingênua a suposição de Baggini de que
a perspectiva da morte é necessária para assegurar o valor da existência humana
e das ações humanas; é justamente o contrário que parece ser o caso. A
perspectiva da morte inevitável provoca no homem o sentimento de vanidade, de
nanidade de todas as suas ações, de seus esforços por dotar sua existência e o
mundo de significado e sentido. A perspectiva do fim pela morte inevitável
esvazia, esgota a pretensa solidez do sentido de que investem os seres humanos
as suas vidas. O que pretenderei mostrar na segunda parte deste ensaio é que o
que confere uma espessura de significado, de sentido às ações humanas, à
existência humana é a criação humana de um mundo institucional responsável por
prover de significação o mundo como um todo e a existência humana. A
perspectiva de nossa destinação como seres mortais é corrosiva, é nadificante,
razão por que as coletividades humanas dispõem de “universos simbólicos” que,
entre as suas funções, está a de proteger os indivíduos do terror diante da
certeza da morte. Todas as sociedades humanas fornecem um conjunto de
legitimações da morte que atendem à necessidade de capacitar o indivíduo a
continuar vivendo depois da morte dos outros que ama ou estima e de lhe
permitir a antecipação da própria morte com o mínimo de terror, na quantidade
suficiente para que não seja tomado de um desespero paralisante que o impeça de
viver segundo as rotinas da vida cotidiana. Afinal, como ensina Schopenhauer,
“a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a
miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros homens. Em toda parte
encontra-se um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as
armas na mão” (Schopenhauer, 2014, p. 26). Como pretender extrair algum sentido
de tal condição vã e trágica?
PARTE
II
O problema do sentido e, especificamente, do
sentido da vida e dos significados de nossas experiências como indivíduos que
coexistem com outros no mundo é um problema que só pode ser elucidado em toda a
sua complexidade e profundidade se investigarmos como se dá o processo de
autoprodução do homem como ser social, como construtor de uma ordem social à
qual ele deve a possibilidade de sua subsistência como animal desnaturado e no
interior do qual a sua própria existência se dota de significado. Para o bom encaminhamento
de minhas reflexões sobre a questão do sentido da vida, será necessário
dilucidar o significado de três termos que são semanticamente relevantes para
as reflexões desenvolvidas ao longo desta segunda parte de meu ensaio. O
primeiro termo, cujo significado deve ser definido, é o de vida. Falarei
de vida como o conjunto das vivências de um indivíduo. A vida
reside na autoafeção. Vida é viver-se, mas é também os diferentes modos de
experienciar e de me compor com o caráter dinâmico das afecções que constituem
a nervura da minha existência. Por vivência, entendo, no
sentido de Hurssel, o fluxo não passível de apreensão em sua unidade
plena. Vivência é fluxo de experiências. Por fim, por experiência,
que constitui uma forma de conhecimento direto, que implica as sensações,
percepção, cognição, memória, imaginação, introspecção, e que tem como conteúdo
as representações, entendo um pôr-se e dispor-se na abertura para relações com o
mundo; experiência é compor-se com os fluxos devenientes da vida, é ser tomado fisiológico
e afetivamente pela fruição compreensiva dos objetos, das pessoas, dos fenômenos, dos
acontecimentos do mundo. Ademais, outro termo importante que, usado
correntemente no senso comum, precisa ter seu significado definido com maior
rigor é consciência. Segundo Damásio (2000, p. 46),
“(...) a consciência começa com o sentimento do que
acontece quando vemos, ouvimos e tocamos. Em termos um tanto mais precisos, é
um sentimento que acompanha a produção de qualquer tipo de imagem – visual,
auditiva, tátil, visceral – dentro de nosso organismo”.
A consciência tem sua ancoragem no
corpo ou no cérebro, embora não se reduza à mente. Ainda acompanhando o autor,
“a consciência começa quando os cérebros adquirem o poder (...) de contar uma
história sem palavras, a história de que existe vida pulsando incessantemente
em um organismo”. (ibid., p. 51). Acresça-se que a consciência é o poder que o
cérebro tem de reconhecer que os estados do organismo vivo, nos limites do
corpo, estão sendo continuamente alterados por encontros com objetos ou eventos
ou por pensamentos e ajustes internos ao processo de vida. Mas é de um ponto de
vista fenomenológico, na esteira de Hurssel, que o conceito de consciência terá
mais importância nesta exposição. Hurssel entende a consciência como uma
corrente de vivências. A consciência, de um ponto de vista fenomenológico, é
uma relação com um objeto. O que a define é a intencionalidade, ou
seja, o referir-se a outra coisa: a consciência é sempre consciência de algo.
Tanto a definição proposta por Damásio
quanto a que se inspira na fenomenologia de Hurssel, na qual tanto Schütz
quanto Berger & Luckmann vão se basear para desenvolver suas teorias da
construção significativa do mundo social, não fazem qualquer referência ao
papel que as formas simbólicas e as práticas sócio-interacionais por meio da
linguagem desempenham na constituição da consciência humana. É preciso, pois,
preencher essa lacuna mantendo que a consciência, no homem, é povoada de
signos, de modo que o encontro entre o organismo humano e o mundo exterior se
dá no signo. Embora eu aceite o postulado de Schütz e de Berger & Luckmann
de que o locus do sentido deve ser identificado com a
consciência e entenda que a percepção, definida como processo de
organização e interpretação das informações sensoriais que torna possível
reconhecer objetos e eventos significativos, já nos permita produzir
algumas articulações pré-verbais de sentido, o sentido socialmente relevante e
decisivo na constituição da experiência humana é aquele que se produz com o
concurso da linguagem simbólica. Assumo, pois, os seguintes postulados
bakhtianos e vygostkyanos:
1. A linguagem e a percepção estão
ligadas. A linguagem, juntamente com a percepção, constitui as experiências
humanas;
2. O encontro do organismo (humano) com
o mundo exterior se dá no signo;
3. A consciência é povoada de signos;
ela se constitui em processos sociais nos quais as práticas discursivas
desempenham um papel fundamental;
4. A linguagem é o ponto que articula a
vida mental e a vida sociocultural;
5. O simbólico refere-se à construção
de representações e a operação sobre elas, transformando a experiência com o
real em “conceitos”, capazes de classificá-lo, categorizá-lo;
6. A transformação simbólica dos
elementos da realidade ou da experiência em conceitos é o processo pelo qual se
cumpre o poder de raciocínio do espírito;
7. O pensamento não é um simples
reflexo do mundo, mas uma atividade que classifica a realidade, organiza-a; e a
essa função organizadora está estreitamente associada a linguagem;
8. Resulta de 7 que a significação é a
unidade do pensamento e da linguagem; é o que une entre si comunicação e
representação;
9. A linguagem é a própria
possibilidade de inserção do homem no mundo como “animal semiótico”;
10. A cognição humana tem natureza
simbólica. Os processos cognitivos têm uma gênese sociocultural, não
simplesmente biológica, pré-fixada;
11. Os processos cognitivos são objetos
de consciência;
12. Os processos cognitivos são
mediados por instrumentos culturais e simbólicos.
A linguagem é um processo criador, por
meio do qual organizamos e dotamos de sentido nossas experiências. Mesmo que o
mundo experienciado pelo homem não seja produto original da linguagem, esta
desempenha um papel inestimável na construção desse mundo, conforme veremos
mais adiante. A linguagem não é um mero instrumento que intermedeia a relação
entre o pensamento e o mundo. Esta relação é mobilizada por uma série de
condições: as propriedades biológicas das quais somos dotados, a qualidade
intersubjetiva das interações humanas, as contingências culturais e ideológicas
da vida em sociedade, as normas pragmáticas que presidem o uso da língua, os
diferentes contextos linguístico-cognitivos nos quais as significações são
produzidas, etc. Assim, mesmo na solução de problemas não verbais, a linguagem
desempenha um papel no resultado. O mundo que é percebido pelo homem não é
experienciado simplesmente em formas e cor, mas como um mundo dotado de sentido
e significado.
A despeito do fato de Berger & Luckmann
assumirem que “deve-se procurar na constituição subjetiva do sentido a origem
de todo o acervo social do conhecimento, do reservatório histórico do sentido”
(2012, p. 18), nesse nível primário de sua constituição, o sentido ainda não
alcançou o poder estruturante suficientemente necessário para que a vida
individual seja vivenciada como “currículos de vida” integrados à estrutura de
significados da sociedade. Ademais, como mantêm os autores, o sentido de uma
experiência ou ação pode até ter surgido “no trato consciente e “solucionador
de problemas” do indivíduo com o meio natural e social”. (ibid.), mas, a menos
que se esteja supondo aqui que esse “trato consciente” tenha acontecido num
período da história humana anterior ao desenvolvimento da faculdade da
linguagem, parece-me pouco sustentável que condições pragmáticas sejam fatores
exclusivos na doação de sentido. A partir do momento em que a linguagem faz sua
emergência na cena histórica, ela acarreta o grande salto cognitivo da espécie
humana, de modo que, desde então, linguagem, percepção-cognição e práticas
culturais se inter-relacionam intimamente na constituição significativa da
experiência humana, liberando o animal humano das relações imediatas por
motivos meramente pragmáticos com o mundo natural. Assim, com o desenvolvimento
da faculdade da linguagem, o trato do animal humano com o mundo muda
radicalmente, e o sentido de uma experiência ou ação individual se produz na
atuação, no engajamento linguístico-perceptual-cognitivo do indivíduo no mundo
biofísico-social em práticas sociointeracionais, ou seja, conjuntamente com os
outros.
1. O subjetivo e o social na constituição do
sentido
Longe de supor que seja simples dizer o que é o
“sentido”, é inevitável começar considerando a questão, se o que se
pretende é mostrar como a existência humana em sociedade vai-se dotando de
sentido. Schütz, em seu A construção significativa do mundo social (2018),
dá-nos a saber a seguinte definição de “sentido”:
“Sentido é antes (...) a designação de
determinado direcionamento do olhar a uma vivência própria, que nós, imersos no
simples viver no curso da duração, somente em um ato reflexivo podemos
“destacar” ante todas as outras vivências na forma de uma vivência
bem-circunscrita. Sentido designa, portanto, uma atitude
específica do eu ante o curso de sua duração. (2018, p. 71, grifos meus).
Num primeiro momento, Schütz
sugere que o “sentido” é um fenômeno da consciência subjetiva. Ademais, o
sentido só pode ser apreendido em retrospectiva, ou seja, no momento em que o
“eu” retoma na reflexão uma vivência passada destacando-a das vivências no
curso da duração. Outro aspecto importante do sentido, segundo Schütz, é a sua
relação com o tempo. Segundo o autor, “o problema do sentido é um problema
referente ao tempo”. (ibid., p. 32). Mas não se trata do tempo divisível e
mensurável, tampouco do tempo histórico. O sentido refere-se “à
consciência interna do tempo, à consciência da duração própria ao ego, na qual
para o vivenciante, constitui-se o sentido de suas vivências”. Ainda que, até
aqui, o sentido esteja sendo definido da perspectiva estritamente subjetiva ou
individual, está claro que o sentido tem relação com as vivências do indivíduo
humano no mundo, e nada tem a ver com uma instância metafísica “doadora” de
sentido (embora essa “instância metafísica”, enquanto constructo social, ficção
sócio-histórica, seja parte integrante de sistemas de valores superiores que
preenchem a vida e a conduta humanas de sentido).
Ainda segundo Shütz, quando estamos
imersos no simples viver e em atitude natural com relação ao mundo, vivemos sob
a vigência de nossos atos doadores de sentido. Assumo habitualmente a
objetualidade “sentido objetivo” constituída neles.
“Somente quando me distancio – como diz Bergson,
“em árduo esforço” – do mundo dos objetos e me volto à minha corrente interna
da consciência, apenas quando (na terminologia de Hurssel, ponho o mundo
natural “entre parênteses” e, em redução fenomenológica, tomo em perspectiva
somente as minhas vivências mesmas de consciência, apercebo-me desse processo
de constituição”. (ibid., p. 64).
A despeito do fato de cada indivíduo
atribuir sentido ao seu agir e de apreender seus atos individuais como dotados
de sentido, uma vez que o mundo social se constitui e se constrói, em sua vida
diária, pelo concurso da atividade dos outros indivíduos, cada indivíduo se
depara com um sentido objetivado, já dado. Ao mundo social pertencem nossos
atos de compreensão e posição de sentido, bem como nossas representações
atinentes ao sentido do nosso comportamento e ao do comportamento alheio;
ademais, a esse mundo social pertence também o sentido das objetivações
culturais. Schütz não ignora a dimensão intersubjetiva do fenômeno do sentido, conforme
se observa no trecho abaixo:
“A construção do mundo social tem caráter
significativo para aqueles que o habitam; mas, por outro lado, também para as
ciências sociais, que interpretam o mundo social que lhes é pré-dado. Vivendo
no mundo social, vivemos com e para outros indivíduos, pelos quais orientamos
nossa atividade diária. Ao vivenciá-los como “os outros”, como consociados ou
contemporâneos, predecessores ou sucessores, ao nos vincularmos a eles em comum
operar e efetivar, ao instigá-los a tomadas de posição, compreendemos o
comportamento desses outros indivíduos e pressupomos que compreendem o nosso.
Nesses atos de interpretação e de posição de sentido, se constrói, para nós, em
distintos graus de anonimato, em maior ou menos proximidade vivencial, em
variadas perspectivas de apreensão que se cruzam, a estrutura de
sentido do mundo social, o qual é tanto nosso mundo (a rigor, antes de
tudo, meu mundo) como também o dos outros indivíduos”. (ibid., p. 28, grifo
meu).
Portanto, a construção da estrutura
de sentido do mundo social é trabalho conjunto e cooperativo das ações
individuais. O mundo social é vivenciado como significativo pelos atores
sociais. Os fenômenos do mundo social não têm sentido apenas para mim, ou para
um indivíduo B ou C, senão para todos os indivíduos que, juntos, vivem neste
mundo, e os quais encontram, ao nascer, como pré-constituído, previamente dado,
esse mundo externo. Por isso, segundo Shütz, “toda doação de sentido desse
mundo por mim realizada toma como referência original a doação de sentido feita
pelo tu em seu vivenciar, e assim se constitui sentido enquanto fenômeno
intersubjetivo”. (ibid., p. 59).
É preciso aprofundar estas reflexões
sobre a questão da constituição do sentido em seu nível elementar. Segundo
Berger & Luckmann (2012), o sentido se constitui na consciência humana, mas
essa consciência é constituída em processos sociais. Para os autores, “sentido é
a consciência de que existe uma relação entre as experiências”. (ibid., p. 15).
As vivências constituem, portanto, o solo sobre o qual se constituirá o
sentido; mas elas mesmas ainda não são significativas. As vivências (lembre-se
que elas são apenas fluxos) só se tornam experiências quando sobre elas recai a
atenção do eu. Mas somente quando as experiência assim delineadas se separam da
base da vivência, e a consciência estabelece a relação dessa experiência
destacada com outras experiências, o sentido se torna possível e apreensível.
Consoante os autores, “a experiência atual em dado momento pode ser relacionada
com uma experiência já acontecida há pouco ou num passado remoto” (ibid.). Mas,
geralmente, a experiência atual é relacionada com um tipo de
experiência, com um esquema de experiência, uma máxima
comportamental, uma legitimação moral, etc, todos derivados de muitas
experiências armazenadas no conhecimento subjetivo ou no acervo social do
conhecimento.
Nesse nível elementar da constituição
de sentido, também Berger & Luckmann não fazem qualquer alusão ao papel
desempenhado pela linguagem na constituição do sentido do mundo social. Eles
atribuem à consciência do indivíduo a capacidade de doar sentido às suas
experiências. Veremos que os autores não deixam de considerar o
papel fundamental da linguagem na fabricação social da realidade; mas penso que
não deveria ser negligenciada a influência da linguagem simbólica na
constituição da própria consciência à qual se atribui o papel de doar sentido
às experiência humanas. O agir é, por si mesmo, investido de sentido para cada
ator social. A todo agir é atribuído um sentido pelo indivíduo. Mas essa
atribuição de sentido não é feita por uma consciência desamparada de qualquer
simbolismo. Berger e Luckmann mantém que o sentido do agir é prospectivo, pois
que é orientado por um objetivo a ser alcançado; mas reconhecem que a ação
realizada é retrospectivamente significativa. O sentido do agir que está para
ser realizado se constitui na relação de cada etapa da ação com o objetivo
pretendido. A ação já concluída, bem-sucedida ou fracassada, segundo os
autores, “pode ser comparada com outras, pode ser entendida como o cumprimento
de máximas comportamentais, ser explicada e justificada como execução de leis,
ser desculpada como violação de normas, ser negada a outros e – em
caso extremo – também a si mesma” (ibid., p. 17). Não se vê, pois, como é
possível que todas as articulações de sentido possam ser possíveis sem a
intervenção da função de simbolização da linguagem. Ora, a própria
possibilidade de explicar e justificar uma ação como execução de leis pressupõe
o uso de signos como meios de expressão. Num nível elementar de sua ocorrência,
o agir pode derivar seu sentido de sua relação com o fim a que visa, mas, à
medida que o agir vai assumindo uma espessura social, vai tomando parte de uma
rede de relações e ações sociais; quando o agir se torna, enfim, agir social, o
seu sentido se estrutura e se sustenta numa rede simbólica (instituição).
Somente postulando o investimento simbólico do agir é possível falar, como
pretendem os autores, num agir social “direcionado a pessoas presentes ou
ausentes, a mortos e não nascidos”.
“O agir social pode ser direcionado a pessoas
presentes ou ausentes, a mortos e não nascidos; pode querer abordá-los em sua
individualidade, ou como tipos sociais de diferentes graus de anonimidade, ou
mesmo como simples membros de grupos sociais. Pode visar a uma resposta ou não.
Pode ser intencionado como único, ou visando à repetição regular ou prolongação
no tempo. Nessas diferentes dimensões de sentido é que se constrói a
significância complexa do agir e das relações sociais”. (ibid., p. 17).
Segundo os autores, é no agir social
que se constitui a identidade pessoal do indivíduo. Além disso, “vivências
puramente subjetivas são o fundamento da constituição do sentido: estratos mais
simples de sentido podem surgir na experiência subjetiva de uma pessoa” (ibid.,
p. 17-18). Berger & Luckmann também aqui acompanham Schütz ao assinalar o
caráter fundamental das vivências subjetivas na constituição do sentido, mas
lembram que as vivências subjetivas só fornecem “estratos mais simples de
sentido”. Ao contrário, estratos superiores de sentido, com base nos quais o
indivíduo pode fazer “conexões lógicas complicadas, dar início e controlar
sequências diferenciadas de ação e recorrer ao tesouro disponível de
experiências em seu ambiente” (ibid.), já pressupõem a existência de
objetivações de sentidos subjetivos no agir social. O subjetivo e o social
estão numa relação dialética na constituição do sentido, porque mesmo os
estratos inferiores de sentido abrigam também elementos de sentido
historicamente produzidos como herança de antigas formas do agir social, a que
se pode chamar de tradições. Assim, tipificações,
classificações, padrões de experiência e esquemas de ação são componentes do
acervo subjetivo do conhecimento, os quais são tomados, por sua vez, de um
acervo social do conhecimento. Aqui cabe precisar o que significa
conhecer. Conhecer é organizar, estruturar e explicar a
realidade a partir daquilo que se vivencia nas experiências com os objetos, com
as coisas. O conhecimento socialmente relevante é já textualmente fundado;
portanto, constituído, organizado e comunicado pela linguagem simbólica.
Para que possamos examinar com mais vagar e acuro
de que modo o sentido da existência humana é uma dimensão essencial do trabalho
de edificação do mundo social, é preciso enfatizar que a ordem social
existe unicamente como produto da atividade humana. Não é razoável lhe
atribuir qualquer outro estatuto ontológico sem mascarar as evidências Como
ensinam Berger & Luckmann, “tanto em sua gênese (ordem social resultante da
atividade humana passada) quanto em sua existência em qualquer instante do
tempo (a ordem social só existe na medida em que a atividade humana
continua a produzi-la) ela é um produto humano”. (2007, p. 76). A autoprodução
do homem é sempre e necessariamente um trabalho social. São os homens que,
conjuntamente uns com os outros, produzem um mundo histórico-social – portanto,
humano - com a totalidade de suas formações socioculturais e psicológicas.
Nenhuma dessas formações pode ser considerada produto da constituição biológica
do homem, a qual apenas fixa os limites externos da atividade produtora humana.
Segue-se daí que a) a sociedade é um produto humano; b) a
sociedade é uma realidade objetiva; c) o homem é um produto
social. São estes os três momentos dialéticos da constituição da
realidade social. Cada um deles corresponde a uma caracterização essencial do
mundo social. No viver cotidiano, cada indivíduo experiencia o mundo institucional
como uma realidade objetiva. Esse mundo de instituições tem uma história que
antecede o nascimento do indivíduo e não é acessível à sua lembrança
biográfica. Já existia antes de ele ter nascido e continuará a existir depois
que morrer. Essa própria história, tal como a tradição das instituições
existentes, tem caráter de objetividade. A biografia do indivíduo é apreendida
como um episódio efêmero localizado na história objetiva da sociedade. As
instituições são facticidades históricas e objetivas, com as quais se defronta
o indivíduo, que as assume como fatos inegáveis. As instituições estão aí,
exteriores a ele, persistentes em sua realidade, queira ele ou não. Elas
resistem às tentativas de alterá-las ou de evadir-se delas. Elas exercem um
poder coercitivo sobre ele, tanto pela força de sua facticidade, quanto pelos
mecanismos de controle geralmente ligados às mais importantes delas. A
realidade objetiva das instituições sociais não se enfraquece ou perde
espessura se o indivíduo não compreende sua funcionalidade ou seu modo de
funcionamento. Nas seções subsequentes, estará sob escopo de minhas
considerações o que são as instituições, como elas se originam e de que modo
elas são responsáveis por processos sócio-históricos e individuais de produção
de sentido. Os autores não deixam de reconhecer, no entanto, que os problemas a
serem solucionados surgem no “agir social interativo”, de sorte que “as
soluções sejam encontradas em comum”. (ibid.). Ademais, os problemas que se
colocam para um indivíduo são relevantes intersubjetivamente, já que são
problemas comuns à vida de outras pessoas.
2. As instituições: as origens de sua constituição
Pode-se definir as instituições como
hábitos de grupos, que se desenvolvem de modo independente da vontade e
consciência dos indivíduos e sem planejamento. Esses hábitos vão sendo
generalizados, à proporção que certas formas de agir, pensar e sentir são largamente
adotadas e reiteradas ao longo do tempo, até que se tornam comportamentos
rotineiros e axiomáticos. Constituem exemplos de instituições a
propriedade privada, a família, o contrato, a lei, a democracia, a cidadania, a
religião, a escola, a polícia, a Constituição, etc. As instituições também podem ser concebidas como
aglomerados de normas ou expectativas sociais que se generalizam como
obrigatórias e que se sustentam por rigorosas sanções, as quais asseguram a
conformidade dos indivíduos a essas normas. As normas de que se constituem as
instituições definem os papeis sociais e as relações entre eles. A concepção do
que são instituições que merecerá minha atenção, mais adiante, é a que nos dá a
saber Castoriadis, em A instituição imaginária da sociedade (1982).
Por ora, interessa-me dispensar atenção sobre o modo como as instituições se
originam, se tornam realidades objetivas, como operam na
constituição do amálgama de significados que formam a ordem social. Outrossim,
interessa-me examinar como elas estocam, controlam e transmitem os sentidos que
integram o reservatório histórico de sentidos.
Consoante ensinam Berger & Luckmann,
“ toda atividade humana está sujeita ao hábito” (2007, p. 77, grifo
meu). Portanto, o hábito é um elemento indispensável na formação das
instituições. Toda ação humana frequentemente repetida torna-se moldada em um
padrão, o qual pode, em seguida, ser reproduzido com economia de esforço. Este
é um dos papéis importantes desempenhados pela instituição: elas foram criadas
com vistas a aliviar o indivíduo do peso de ter de reinventar o mundo a cada
dia e de ter de se orientar dentro dele. O hábito também pressupõe que a ação
individual pode ser novamente executada no futuro da mesma maneira e com a
mesma economia de esforço. As ações que se tornam habituais conservam seu
caráter significativo para o indivíduo, mas o significado delas é estocado como
parte de um acervo geral de conhecimentos na forma de rotinas.
Quando consideramos os significados atribuídos pelo homem à sua atividade, é
importante frisar que o hábito “torna desnecessário que cada situação seja
definida de novo, etapa por etapa” (ibid., p. 78). Destarte, uma grande
quantidade variada de situações pode estruturar-se sob suas pré-definições.
Como assinalam Beger & Luckmann, “estes processos de formação de hábitos
precedem toda institucionalização”. (ibid.).
A instituição começa, quando se dá
uma tipificação recíproca de ações habituais por tipos de
atores sociais. Na verdade, qualquer uma das tipificações é uma instituição. O
que é decisivo na institucionalização é a reciprocidade das tipificações
institucionais e o caráter típico não somente das ações, mas também dos atores
sociais nas instituições. As tipificações das ações habituais que constituem as
instituições são sempre partilhadas. São acessíveis a todos os membros de um
grupo social, e a própria instituição tipifica os atores individuais, assim
como as ações individuais. Portanto, a instituição pressupõe que ações do tipo
X serão executadas por atores do tipo X. Por exemplo, a instituição da Lei
postula que certo tipo de crime receberá certo tipo de sanção, a qual deverá
ser aplicada por certos tipos de atores cujos papéis são definidos
institucionalmente. As instituições, portanto, implicam historicidade e controle.
As tipificações recíprocas das ações são constituídas no curso de uma história
compartilhada. As instituições têm sempre uma história da qual são produtos.
Quando se diz que a realidade social
ou institucional é objetivada ou é dotada de objetividade,
quer-se dizer que as instituições são experimentadas como existindo por cima e
além dos indivíduos que passam a internalizá-las. Em outras palavras, as
instituições são experienciadas como se possuíssem realidade própria, realidade
com a qual os indivíduos se defrontam na condição de fato exterior e
coercitivo. No processo de transmissão às novas gerações, a objetividade do
mundo institucional se torna espessa e endurece, e entra a fazer parte das
estruturas da consciência em toda a sua firmeza. A objetivação é,
portanto, o processo através do qual os produtos exteriores da atividade humana
adquirem o caráter de objetividade. Assim, o mundo institucional é atividade
humana objetivada. A relação entre o homem, que é o verdadeiro produtor, e o
mundo social, o seu produto, é e permanece sendo uma relação dialética, isto é,
o homem em coletividade e o seu mundo social agem reciprocamente um sobre o
outro, de sorte que o produto (a sociedade) reage sobre o seu produtor (o
homem). O que me causa espanto não é só o fato de que as instituições humanas,
enquanto criações da atividade humana, ajam sobre os homens, seus criadores;
mas também a “servidão voluntária” habitual do homem comum que o torna dócil ao
fato de que são os próprios membros de sua espécie animal que cria realidades
que os oprimem e que os controlam. Mas a explicação para o conformismo do homem
comum deve ser buscada no fenômeno da reificação (coisificação) da
realidade.
A questão que se impõe, portanto, no
processo de objetivação, é a seguinte: até que ponto uma ordem institucional ou
uma parte dela é apreendida como uma facticidade não humana? A reificação é
a apreensão dos fenômenos sociais humanos como se fossem coisas, isto é,
realidades humanas como se fossem realidades não humanas ou sobre-humanas. A
reificação é a apreensão dos produtos da atividade humana como se fossem algo
diferente de produtos humanos, como se fossem fatos da natureza ou
manifestações da vontade divina. Na reificação, o homem produz e continua a
produzir uma realidade que o nega. Eis o paradoxo da condição humana que o
homem comum, cuja consciência já se estruturou e opera sob o domínio da
reificação, não pode reconhecer e em face do qual sequer é capaz de
“espantar-se” (sentimento eminentemente filosófico!) ! O homem, o produtor de
um mundo que saiu de suas mãos e cabeça, é apreendido como produto deste mundo,
e a atividade humana como um epifenômeno de processos não humanos. Para a
consciência reificada, os significados humanos não são mais compreendidos como
produzindo o mundo, mas como sendo produtos da natureza das coisas. A
reificação é, pois, uma modalidade da objetivação do mundo humano levada a efeito
pelo homem.
Todas as instituições, portanto, dão
“corpo” a um sentido “primário”, “primitivo” da ação que se tornou habitual na
regulamentação definitiva do agir social, numa área funcional determinada. Há
instituições que desempenham a tarefa, especialmente importante, de
reprocessamento social do sentido. As mais importantes delas são as que se
destinam a controlar a produção e a transmissão do sentido. Segundo Berger
& Luckmann, “tais instituições existiram em quase todas as sociedades arcaicas”.
(2012, p. 22). Em sociedades antigas mais avançadas, nas sociedades
do início da modernidade e, por exemplo, em várias sociedades do Oriente
Próximo, atualmente, as instituições religiosas com seus códigos morais
estiveram e estão ligadas intimamente às esferas de poder. Elas podiam aspirar
(em alguns casos, ainda aspiram), com êxito, tanto ao controle da produção
quanto ao controle da distribuição de uma hierarquia relativamente coerente de
sentido estruturante da sociedade global. O que me parece importante sublinhar
aqui é que o sentido desta ou daquela ação ou experiência, ou mesmo o que o
homem comum acostumou-se a denominar de “o sentido da vida” já foi produzido,
reprocessado, administrado e distribuído pelas instituições sociais antes que
ele pudesse ser integrado à sua biografia. O sentido que um indivíduo atribui a
sua vida já foi organizado, reprocessado e é administrado e colocado à sua
disposição pelas instituições. Segue-se daí que é possível falar em uma economia
doméstica do sentido. Esta economia supõe que há condições
histórico-sociais de produção e distribuição social do sentido e um mercado
consumidor aberto. Por conseguinte, segundo Berger & Luckmann, “concorre
então uma grande quantidade de fornecedores de sentido para obter o favor de um
público que se vê confrontado com a dificuldade de escolher entre uma
infinidade de ofertas a mais adequada”. (ibid., p. 23).
2.1. As instituições e seu poder de controle: as comunidades de vida e
de sentido
O modo como as instituições
exercem controle tanto sobre a conduta humana quanto sobre a produção,
administração e comunicação do sentido conservado é o que me ocupará doravante.
O controle das instituições sobre a conduta humana se dá pelo simples fato de
elas existirem, já que elas estabelecem padrões previamente definidos de
conduta. Tais padrões determinam uma direção para a conduta entre tantas outras
direções teoricamente possíveis. Como já vimos, as instituições foram criadas
para aliviar o indivíduo do peso da necessidade de reinventar o mundo a cada
dia. Acresça-se que, para tanto, as instituições criam “programas” que orientam
a realização da interação social e a realização de “currículos de vida”. Elas
fornecem, pois, padrões comprovados segundo os quais um indivíduo pode orientar
seu comportamento. Uma vez que se comportam segundo esses modos de comportamento
estabelecidos institucionalmente, os indivíduos aprendem a cumprir as
expectativas relacionadas a certos papéis como casado, pai, empregado,
contribuinte, transeunte, consumidor, etc. Sempre que as instituições funcionam
normalmente, o indivíduo exerce os papéis a ele atribuídos pela sociedade na
forma de esquemas institucionalizados de ação e conduz sua vida sob a forma de
currículos de vida assegurados institucionalmente e com alto grau de
autoevidência. É da conservação da “autoevidência” que as instituições obtêm
toda a sua força vital. Todavia, uma instituição se vê ameaçada quando os
membros que vivem dentro dela começam a refletir sobre os papéis institucionais
relevantes, as identidades fixadas, os esquemas de interpretação, os valores e
as visões de mundo pelos quais ela é responsável.
As instituições vêm preencher a
carência de instintos no homem, possibilitando um agir para o qual nem sempre é
necessária cuidadosa ponderação sobre alternativas. Por isso, como fazem ver
Beger & Luckmann, “muitas interações sociais importantes do ponto de vista
da sociedade são realizadas de forma quase automática”. Cumpre ainda salientar
que os programas institucionais são internalizados na consciência
do indivíduo, guiando-o no seu agir e tornando-o um experienciador de um
sentido do qual ele passa a acreditar que é autor. Os programas institucionais
são organizados na consciência em processos de camadas múltiplas. Na
socialização primária, fixam a base fundamental da construção da identidade
pessoal; posteriormente, na socialização secundária, fazem o ajustamento do
indivíduo aos papéis que lhes são atribuídos na realidade social e, sobretudo,
o introduzem no mundo do trabalho. Todos esses momentos do controle
institucional vão possibilitar que as estruturas da sociedade se tornem as
estruturas da consciência, para o que a linguagem simbólica desempenhará um
papel fundamental, conforme veremos. Assim é que escravos e senhores,
trabalhadores e capitalistas comportam-se em conformidade com seus papéis, como
também pensam, sentem e se consideram a si mesmos de modo correspondente à
conduta própria do seu papel. Mas é claro também que a subjetividade do
indivíduo não precisa estar conformada plenamente com a realidade objetivamente
definida pela sociedade. No processo da socialização dele, haverá pequenas
fissuras, ou pode haver grandes rupturas.
Passo, doravante, a discutir como as
instituições controlam a produção, a administração e a comunicação do
sentido que integra o reservatório histórico do sentido. Mas,
antes, é necessário compreender como se forma esse “reservatório histórico de
sentido”. Dada a complexidade do tema que venho discutindo, faz-se mister
lembrar que, através do estudo de que este ensaio é um testemunho, tenho
procurado mostrar que o sentido que atribuímos às nossas experiências na vida
diária, bem como as camadas totalizantes de sentido reunidas sob o rótulo “o
sentido da vida” não são achados individuais, ou “criações” de consciências
individualizadas; se o indivíduo diz encontrar sentido em suas ações, em suas
atividades, em sua vida, isso é possível porque antes dele e para além dele
operam processos institucionais geradores de sentido. Portanto, todas as
sociedades estão envolvidas em processos destinados a produzir sentido, mesmo
que não tenham instituições especializadas na produção dele. As instituições,
quer sejam especializadas, quer não, controlam a recepção dos elementos de
sentido por meio de estoques sociais de conhecimento e
organizam as reservas históricas de sentido, tornando possível aos
membros da sociedade o acesso a elas. Uma vez que os indivíduos aproveitam as
reservas históricas de sentido, eles as adaptam às novas necessidades. Por meio
de suas instituições, as sociedades humanas conservam as partes essenciais de
sua reserva de sentido. O momento fundamentalmente importante é este: as
instituições sociais comunicam sentido ao indivíduo e às comunidades de
vida em que esse indivíduo cresce, trabalha e morre. Elas
determinam o sentido subjetivo em amplas esferas de seu agir, enquanto o
sentido objetivo desse agir é organizado e prescrito pelas grandes instituições
de poder e economia. Para Berger & Luckmann, a crise estrutural de sentido
experienciada pelo homem moderno e tão fartamente estudada pelos especialistas
é consequência do pluralismo moderno. Assim, propõem os autores que “o
pluralismo moderno leva a um enorme relativismo dos sistemas de valores e da
interpretação. Em outras palavras: os antigos sistemas de valores e de
interpretação são “descanonizados”. (2012, p. 52). Nas sociedades modernas, há
diferenças no grau de coerência dos sistemas de valores, bem como na
competividade interna e externa na produção, comunicação e imposição de
sentido.
A fim de que se esclareça o modo como
as instituições exercem controle sobre a produção, administração e comunicação
do sentido, preciso definir os conceitos, tomados a Berger & Luckmann,
de comunidade de vida e comunidade de sentido.
Comunidades de vida são agrupamentos sociais
caracterizados por um agir que se repete com regularidade e com reciprocidade
em relações sociais duráveis. Seus integrantes demonstram uma confiança
institucional, uma confiança na durabilidade da comunidade. A forma básica
universal das comunidades de vida são as comunidades em que se nasce. Mas pode
haver também comunidades de vida de que alguém entra a fazer parte por adoção
ou por casamento. Há comunidades de vida que exigem uma iniciação, como as
Ordens religiosas. Há comunidades de vida que se formam em decorrência de uma
modificação da vida, como lares de idosos, prisões, etc. As comunidades de vida
precisam ter o mínimo de sentido, mas o contrário não é necessário.
Vimos que as reservas de sentido
objetivadas e processadas pela sociedade são conservadas em reservatórios
históricos de sentido e são administradas pelas instituições. Assim, ao
controle da produção de sentido se associa a comunicação do sentido. Por meio
da educação ou de processos de doutrinação orientada, os indivíduos habitua-se
a só pensar e fazer o que corresponde às normas da sociedade. Busca-se, por
meio do controle do sentido, censurar tudo o que é publicamente dito, ensinado
e pregado; impede-se a difusão de opiniões divergentes. Assim, o sentido do
agir e o sentido da vida é já determinado como regra óbvia de conduta de vida,
a cuja adoção todos se sentem obrigados. Por exemplo, define-se
inquestionavelmente o relacionamento entre os casados e entre os pais e os
filhos. Os pais e os filhos, geralmente, se conformam; os desvios são
claramente definidos como “desvios de norma” ou “desvios de conduta”. Decerto,
nas sociedades modernas, há diferenças no grau de coerência dos sistemas de
valores, bem como na competitividade interna e externa na produção, comunicação
e imposição do sentido.
O agir social do indivíduo é moldado
pelo sentido objetivo, colocado à disposição pelos acervos sociais de
conhecimento e comunicado pelas instituições, mediante a pressão que elas
exercem para que sejam acolhidos. Considere-se a situação da criança, a fim de
que compreendamos como se constituirá a significação da estrutura
intersubjetiva das relações sociais.
Desde o seu nascimento, a criança
está inserida numa relação social: com seus pais e com outras pessoas
relacionalmente importantes para ela. Essas relações se desenvolvem através de
ações regulares, diretas e recíprocas. A criança pequena, conquanto não seja
ainda capaz de agir propriamente, é um organismo individualizado dotado das
capacidades sensório-motoras e cognitivas inerentes à espécie humana. Ela as
emprega em seu comportamento nas relações com os outros. Por outro lado, o agir
dos outros em relação à criança é determinado, em grande medida, por esquemas
de experiência e ação que se originam do reservatório de sentido de sua
sociedade. A criança, por seu turno, vai aprendendo, progressivamente, a
entender o agir do seu interactante e a compreender o sentido dele. É nesse
momento que ela passa a entender as reações do outro como um campo de
referência para seu próprio comportamento. Ela pode compreender seus modos de
proceder como ações típicas à luz dos padrões historicamente dados de
experiência e ação. A criança mesma se posiciona em relação às reservas sociais
de sentido. São nesses processos formativos que se vai desenvolvendo sua
identidade pessoal. Uma vez que tenha compreendido o sentido do seu agir,
compreende também que lhe cabe assumir responsabilidade por ele.
Se, numa situação ideal, os pais e os
outros significativos de referência para a criança tenham formado suas
identidades pessoais em consonância com os padrões do reservatório histórico de
sentido, o comportamento da criança irá se moldar coerentemente com o agir dos
outros. A maioria das crianças nasce em comunidades de vida que
são também comunidades de sentido, mesmo que em graus bastante
distintos. Disso se segue que, na ausência de uma reserva de sentido
compartilhada universalmente e ajustada a um sistema de valores único e
fechado, concordâncias de sentido podem-se desenvolver no interior de
comunidades de vida ou podem ser “importadas” do reservatório histórico de
sentido. Por fim, essas concordâncias de sentido poderão também ser comunicadas
às crianças de maneira assaz coerente.
Por seu turno, as comunidades
de sentido podem-se tornar, em alguns casos, comunidades de vida, mas
são construídas e mantidas exclusivamente por meio de um agir comunicável e
recíproco. Comunidades de sentido são formadas em diferentes níveis de sentido,
não diretamente baseados na experiência de vida, e podem se referir a
diferentes campos de sentido, como por exemplo, o filosófico, tais como os
círculos humanísticos dos inícios da modernidade, o científico, etc.
É possível que a comunidade de vida e
a comunidade de sentido coincidam tanto quanto são as expectativas da
sociedade. Nesse caso, a vida social e a existência do indivíduo se desenvolvem
de maneira habitual e quase de forma autoevidente. Isso não significa dizer que
o indivíduo não possa experienciar problemas existenciais. É possível mesmo
que, a despeito da coincidência entre a comunidade de vida e a comunidade de
sentido, o indivíduo não se sinta muito satisfeito com o seu destino. Todavia,
nessas condições “normais”, ele “sabe”, ao menos, como o mundo é, como deve ser
seu comportamento nesse mundo, o que pode esperar, etc. O pluralismo que
caracteriza os modos de vida das sociedades modernas suspeita desse
“conhecimento” autoevidente. Mundo, sociedade, vida e identidades são
continuamente problematizados com mais vigor, e podem ser submetidos a várias
interpretações, cada uma das quais está relacionada às suas próprias
expectativas de ação. Nenhuma interpretação, nenhuma perspectiva podem ser
assumidas como únicas em validade ou serem consideradas inquestionavelmente
corretas.
3. O papel da linguagem na institucionalização
Já aludi, alhures, ao papel que a
linguagem simbólica desempenha na constituição das experiências humanas.
Entretanto, é preciso descer a pormenores sobre como a linguagem simbólica e
como o simbolismo contribuem fundamentalmente para a constituição significativa
da ordem social. A linguagem objetiva as experiências partilhadas e as torna
acessíveis a todos os que vivem numa comunidade linguística. A linguagem é a
base da constituição do acervo social do conhecimento. A linguagem fornece os
meios indispensáveis para a objetivação de novas experiências, permite que elas
sejam incorporadas ao estoque já existente de conhecimento. A linguagem é o
meio mais importante mediante o qual as sedimentações objetivadas são
transmitidas na tradição da coletividade.
Tendo em vista a necessidade de
compreender o papel que a linguagem desempenha na construção de uma realidade
social significativa, de um mundo humano comum dotado de significados, é
preciso reiterar o fato de que o animal humano é um animal semiótico que se expressa
no mundo por meio de objetivações, isto é, ele manifesta a si mesmo nos
produtos de sua atividade. Tais produtos estão à disposição tanto dos
produtores quanto dos outros indivíduos como elementos integrantes de um mundo
comum. Essas objetivações servem de índices mais ou menos duradouros dos
processos subjetivos de seus produtores. A produção humana da significação é a
produção de signos ou símbolos. A linguagem não somente permite aos homens
dispor de símbolos bastante abstraídos da experiência diária, como também povoa
a vida cotidiana desses símbolos e os apresenta como elementos objetivamente
reais. A linguagem simbólica e o simbolismo são, pois, componentes essenciais
da realidade da vida cotidiana. Como bem pontuam Berger & Luckmann, “vivo
em um mundo de sinais e símbolos todos os dias”. (2007, p. 61).
A linguagem, portanto, longe de se
reduzir a um meio de comunicação, opera a objetivação da experiência,
ou seja, a sua transformação em objeto de conhecimento acessível a todos.
Assim, permite que essa experiência transformada em conhecimento seja
incorporada ao conjunto amplo de tradições por via de instrução moral, da
alegoria religiosa, dos sermões, etc. Toda a experiência humana e suas
significações mais amplas podem ser ensinadas a todas as gerações, ou mesmo
difundidas para uma coletividade inteira.
A linguagem permite-me a imediata objetivação de
minha experiência atual. Ela também tipifica as experiências, possibilitando-me
agrupá-las em amplas categorias na base das quais elas têm sentido não só para
mim, mas também para os outros. A linguagem também torna anônimas as
experiências; elas podem ser repetidas por qualquer pessoa definida pela
categoria fornecida pela linguagem. Por exemplo, se brigo com minha sogra, esta
experiência subjetivamente única e concreta tipifica-se linguisticamente sob a
categoria [ABORRECIMENTO COM MINHA SOGRA]. Esta tipificação torna a experiência
dotada de sentido para mim e para os outros e, possivelmente, para a minha
sogra. Assim, essa mesma tipificação ganha anonimato. Qualquer pessoa (na
categoria de genro) pode ter aborrecimento com a sogra. Destarte, minhas
experiências biográficas estão sendo continuamente categorizadas em ordens
gerais de significados, objetiva e subjetivamente reais. A linguagem, portanto,
vai constituindo a significação da realidade do mundo na medida em que
constrói esquemas de classificação ou campos
semânticos, que são zonas de significação linguisticamente circunscritos
dos quais fazem parte o léxico e a gramática. Assim, construindo esquemas de
classificação ou campos semânticos, a linguagem permite diferenciar objetos em
gênero e em número; disponibiliza formas para realizar enunciados de ação por
oposição a enunciados de “ser” (estado), modos de marcar grau de intimidade
social, etc. É assim que se vai constituindo um mundo com uma rica coleção de
significados que me serão úteis e indispensáveis para a ordenação de minha
experiência social. Por exemplo, a soma das objetivações linguísticas
referentes à minha ocupação constitui outro campo semântico que ordena de
maneira significativa todos os acontecimentos de rotina que encontro em meu
trabalho diário. Nos campos semânticos assim construídos, a experiência tanto
biográfica quanto histórica pode ser objetivada, conservada e acumulada. A
acumulação é seletiva, pois os campos semânticos determinam aquilo que será
retido e o que será tratado como parte da experiência total do indivíduo e da
sociedade. Por força dessa acumulação de experiências objetivadas, um acervo de
conhecimento social se constitui e é transmitido de uma geração a outra.
Ademais, ele torna-se utilizável pelo indivíduo na vida cotidiana. Assim, se
forma o que chamamos de senso comum de uma sociedade ou cultura:
“Vivo no mundo do senso comum da vida cotidiana
equipado com corpos específicos de conhecimento. Mais ainda, sei que outros
partilham, ao menos em parte, deste conhecimento, e eles sabem que eu sei
disso. Minha interação com os outros na vida cotidiana é por conseguinte
constantemente afetada por nossa participação comum no acervo social disponível
do conhecimento”. (ibid., p. 62).
É extremamente importante sublinhar a propriedade
que tem a linguagem simbólica de estabelecer relações, de edificar pontes entre
diferentes zonas dentro da realidade da vida, integrando-as em uma totalidade
dotada de sentido. A linguagem tem a função de tornar presente uma grande
variedade de objetos que estão espacial, temporal e socialmente ausentes do
“aqui e agora”. Em virtude da função de simbolização da linguagem, uma vasta
acumulação de experiências e significados podem ser objetivados no “aqui e
agora”, ou seja, nos espaços de vivências atuais dos indivíduos. Os signos e os
símbolos fazem o homem habitar num mundo significativamente estruturado
distinto do mundo da experiência diária e de outros mundos nos quais vivem
outras espécies de animais. Assim, segundo Berger & Luckmann,
“A linguagem constrói, então, imensos edifícios de
representação simbólica que parecem elevar-se sobre a realidade da vida. A
religião, a filosofia, a arte e a ciência são os sistemas simbólicos
historicamente mais importantes deste gênero”. (ibid., p. 61).
Processos simbólicos são justamente “processos de
significação que se referem a realidades diferentes das pertencentes à
experiência da vida cotidiana” (ibid., p. 131). A “magia do símbolo” consiste
em criar um mundo outro de signos, símbolos, palavras, significados que se
sobrepõem ao mundo de nossa experiência sensível; um mundo “ficcional”
(inventado), mas nem por isso menos “real”. Ao contrário, esse mundo
estruturado pelos processos simbólicos tem uma concretude, uma materialidade
histórica que se impõe a todos como a única realidade verdadeiramente acessível
e experimentável.
3.1. Linguagem e legitimação
A legitimação não apenas diz ao indivíduo
por que ele deve realizar uma ação e não outra; diz-lhe também por que as
coisas são o que são, são como são. O conhecimento precede, pois, os valores na
legitimação das instituições. A função da legitimação é produzir novos
significados que servirão para integrar e organizar significados já produzidos
e ligados a instituições diferentes. A função da legitimação consiste em tornar
objetivamente acessíveis e subjetivamente aceitas as objetivações que já foram
institucionalizadas. A legitimação só se torna necessária quando as
objetivações da ordem institucional histórica têm de ser transmitidas a uma
geração seguinte. Como o caráter evidente das instituições não pode mais ser
conservado pela memória e pelos hábitos do indivíduo, como a unidade de historia
e biografia foi rompida, faz-se mister restaurá-la, elaborando explicações e
justificações que tornem inteligíveis ambas as dimensões dessa unidade. A
legitimação consiste nesse processo de explicação e justificação da ordem
institucional e de validação cognoscitiva de seus significados. A legitimação
não envolve apenas “valores”, mas sempre “saberes”, “conhecimento”.
Graças à linguagem, é possível
assegurar a superposição da lógica sobre o mundo social. O edifício das
legitimações erige-se sobre a linguagem e dela se utiliza como seu principal
instrumento. Daí se segue que a “lógica” atribuída à ordem institucional
integra o acervo socialmente disponível de conhecimento, o qual é tomado como
natural e certo. Na medida em que o indivíduo bem socializado “sabe” que seu
mundo social é uma totalidade sólida e coerente, ver-se-á obrigado a explicar o
funcionamento dele nos termos desse “conhecimento”. Não surpreende que seja
comum, consequentemente, que quem quer que atente para qualquer sociedade
admita que suas instituições efetivamente funcionam e se articulam de modo tal
como presumivelmente devem ser.
A legitimação se constitui em diferentes níveis. Já
se pode encontrar uma legitimação incipiente, tão logo um sistema de
objetivações linguísticas da experiência humana seja transmitido. Por exemplo,
a aquisição do vocabulário de parentesco legitima a estrutura do parentesco. Em
outras palavras, o vocabulário de parentesco inclui explicações legitimadoras
que tornam possível que uma criança aprenda que outra criança é primo. Essa
informação, por sua vez, imediatamente, legitima a conduta dela com relação aos
“primos”. Como disse, a legitimação se dá em diferentes níveis. Para os fins
desta exposição, será suficiente considerar o quarto nível da legitimação, a saber,
o dos universos simbólicos.
3.1.2. Os universos simbólicos
Os universos simbólicos consistem
em “corpos de tradição teórica que integram diferentes áreas de significação e
abrangem a ordem institucional em uma totalidade simbólica” (ibid., p. 131).
Como se pode depreender dessa passagem, a propriedade essencial dos universos
simbólicos é a de serem uma matriz de significados objetivados totalizantes da
ordem social. O universo simbólico é a matriz de todos os
significados socialmente objetivados e subjetivamente reais. Por força
de seu poder totalizador, todos os setores da ordem institucional acham-se
integrados num quadro de referência global, que constitui, então, um universo
no interior do qual toda a experiência humana – é preciso
frisar – é concebida como se realizando, se efetivando, se manifestando.
Portanto, como observam Berger & Luckmann, “a sociedade histórica inteira e
toda a biografia do indivíduo são vistas como acontecimentos que se passam
dentro desse universo”. (ibid., p. 132).
O universo simbólico é evidentemente construído por
meio de objetivações sociais. Não obstante, sua capacidade de produção de
significações excede em muito o domínio da vida social, de tal sorte que o
indivíduo pode “situar-se”, “posicionar-se, “localizar-se” nele mesmo em suas
mais solitárias experiências. Por isso, o indivíduo que acredita que cumpre
única e exclusivamente a si a tarefa de “dar sentido à sua vida” encontra-se
num estado de habitual autoengano, porquanto os significados de suas
experiências subjetivas mais solitárias já estão disponíveis como componentes
integrantes de universos simbólicos em cujas redes de significação elas já
foram “capturadas”. Essa condição é inescapável a todos nós, incluindo os
religiosos que acreditam que o sentido da vida provém de Deus. O universo
simbólico desempenha funções legitimadoras extremamente importantes, tais como
oferecer uma ordem para a apreensão subjetiva da experiência biográfica,
ordenar as diferentes fases da biografia, ordenar a história e, de especial
interesse para meus propósitos, proteger os indivíduos contra o temor da morte.
Vou-me ocupar do esclarecimento dessas duas funções legitimadoras do universo
simbólico: a de proteger contra o terror da morte e a de ordenar a história.
3.1.2.1. O universo simbólico e o terror da morte
Consoante notam Berger & Luckmann,
“a morte estabelece (...) a mais aterrorizadora ameaça às realidades
asseguradas da vida cotidiana”. (ibid., p. 138). Ora, se a morte ameaça de modo
terrificante o sentimento de segurança infundido em nós pela concretude
significativa da vida cotidiana, como poderia “a perspectiva da morte”, como
sugere Baggini, dar sentido à nossa vida? Quando tomamos a morte como
experiência da morte dos outros, do desaparecimento definitivo e irrevocável
deles da convivência com os demais indivíduos num mundo a cuja chegada é vivida
subjetivamente como “uma queda no inquietante”, como bem descreveu Sloterdjik,
a morte é concebida pelo indivíduo como uma situação limite, por excelência.
Por isso, todas as legitimações da morte – e aqui devemos pensar, sobretudo, nas
narrativas mitológicas, metafísicas, religiosas, mas também nas narrativas
filosóficas, literárias, etc. – cumprem a mesma tarefa essencial de equipar o
indivíduo com as crenças e consolações necessárias para que ele leve adiante
uma vida psicologicamente bem ajustada às demandas da sociedade, mesmo depois
da morte de outros significativos, como um filho, um pai ou amigo querido. Além
disso, as legitimações da morte atendem a necessidade de garantir que o
indivíduo antecipe a inevitabilidade de seu destino mortal, sem que seja tomado
por um desespero profundo e paralisante que venha a perturbar seu desempenho
contínuo nas rotinas da vida cotidiana de sua sociedade.
Do que precede segue-se que o fenômeno da morte é
integrado a um universo simbólico, é assimilado nas malhas de seus
significados, de modo que o universo simbólico possa defender o indivíduo do
lancinante terror da morte. É na legitimação da morte que o universo simbólico
exibe mais claramente o seu poder de transcendência, garantindo o primado das
objetivações sociais sobre o fato biológico e inescapável da morte; primado da
contingência sobre a necessidade. Portanto, por meio de seus significados, a
ordem institucional representa a couraça que protege o indivíduo contra o
terror dilacerante da morte. Essa proteção institucional contra o terror da
morte pode realizar-se pelo recurso a interpretações mitológicas, religiosas ou
metafísicas da realidade, ou no caso de um indivíduo ateu, pode expressar-se na
forma de elaborações políticas sobre o progresso da humanidade, a história
revolucionária, etc. Também muitas formas de expressão artísticas servem bem a
esse propósito de nos proteger contra o assalto do desespero mortificante.
3.1.2.2. O universo simbólico e a história
O universo simbólico também cumpre a
função de ordenar a história, ou seja, de localizar todos os acontecimentos
coletivos em uma unidade de sentido, que inclui o passado, o presente e o
futuro. Em referência ao passado, o universo simbólico constrói uma “memória”
que é compartilhada por todos os indivíduos socializados numa coletividade. Em
relação ao futuro, fornece um quadro de referência comum à luz do qual ações
individuais se projetam. Assim, o universo simbólico “liga os homens com seus
predecessores e seus sucessores numa totalidade dotada de sentido, servindo
para transcender a finitude da existência individual e conferindo significado à
morte individual”. (ibid., p. 140). Todos os membros de uma sociedade,
portanto, por força da função de integração totalizadora do universo simbólico,
consideram-se participantes de um universo que possui um sentido, que existia
antes de terem nascido e que perdurará depois de eles morrerem (o que não
significa que muitos não venham a sofrer um profundo abalo se lhe invadirem a
consciência o sentimento de sua insignificância na vastidão desse universo que
perdurará depois da sua morte). Segundo Berger & Luckmann, “ a legitimação
da ordem institucional enfrenta também a contínua necessidade de manter
encurralado o caos. Toda a realidade social é precária. Todas as sociedades são
construções em face do caos”. (ibid., p. 141, grifo meu). O universo
simbólico integra e unifica todos os processos institucionais separados. A
sociedade inteira, de agora em diante, se dota de sentido. Instituição e papéis
particulares são legitimados em um mundo compreensivamente dotado de sentido.
Considerando-se tudo que se expôs até aqui, convém
assinalar as seguintes conclusões:
1) As origens de um universo simbólico repousam
sobre a capacidade do homem de autoprodução;
2. O homem, em sociedade, é construtor do mundo,
porque é constitucionalmente aberto para o mundo;
3) A abertura do homem para o mundo acarreta um
conflito entre ordem e caos;
4) O homem, exteriorizando-se, constrói o mundo no
qual vive e se exterioriza a si mesmo;
5) No processo de sua exteriorização, o homem
projeta na realidade seus próprios significados;
6) Os universos simbólicos, uma vez que se
apresentam como a totalidade da realidade humanamente dotada de sentido, apelam
para o cosmo inteiro, para dar validade significativa à existência humana.
Assim, os universos simbólicos constituem as extensões máximas da projeção
humana dos significados humanos.
Por fim, gostaria de sublinhar a conclusão central
a que nos conduzem toda essa trama de reflexões que dá corpo a este ensaio: o
sentido da vida é já um momento dos processos de objetivação da ordem social e
um elemento das reservas históricas de sentido. O sentido da vida não é
elemento da jurisdição da vontade de uma divindade. Tanto “o sentido da vida”
quanto Deus e o “sentido metafísico” são ficções (invenções) da engenhosidade
desse animal semiótico e fabulador que é o homo sapiens.
Não posso levar a cabo este texto, sem que antes dê
a conhecer a contribuição, bastante relevante, do filósofo Castoriadis para
elucidação da problematicidade dos temas que me ocuparam até aqui.
4. Castoriadis e a instituição imaginária da
sociedade
Em seu A instituição imaginária
da sociedade (1982, p. 159), Castoriadis define a instituição como
“uma rede simbólica, socialmente sancionada, onde se combinam em
proporções e em relações variáveis um componente funcional e um componente
imaginário”. Ele adverte que as instituições não se reduzem ao simbólico, mas
admite também que elas só podem existir no simbólico, porque “são impossíveis
fora de um simbólico” (ibid., p. 142). Cada instituição constitui sua rede
simbólica.
A instituição da sociedade resulta da
interação entre dois domínios: o simbólico e o imaginário.
O imaginário significa tanto que uma coisa é inventada quanto
que envolve a possibilidade de deslocamento, de deslizamento de sentidos.
Assim, em função do imaginário, símbolos já disponíveis podem receber
significados outros diferentes de seus significados “convencionais”, “usuais”.
Tanto num caso quanto no outro, o imaginário se separa do real. O imaginário
não pode existir sem o simbólico: o imaginário deve se servir do simbólico não
só para exprimir-se, mas também para “existir”. Inversamente, o simbólico
pressupõe a capacidade imaginária, ou seja, a capacidade de ver em uma
coisa aquilo que ela não é, de vê-la diferente do que é. Ora, quando
pensamos no símbolo, pensamos numa relação permanente entre dois termos, numa
relação em que um dos termos (o símbolo) representa (está no lugar de) outra
coisa. O que mantém a fixidez e, ao mesmo tempo, a flexibilidade do vínculo
entre o significante e o significado, no símbolo, o que mantém a rigidez do
vínculo, na maior parte do tempo, entre o símbolo e a coisa, é o imaginário
efetivo. O simbólico não se identifica totalmente com o imaginário, já que
encerra um componente real-racional: o simbólico representa o real – ou é
indispensável para pensar e para agir. Todavia, esse componente é “tecido
inextricavelmente com o componente imaginário efetivo”. (ibid., p. 155).
Portanto, para Castoriadis, as
instituições encontram sua fonte no imaginário social. É no
imaginário que a sociedade “procura o complemento necessário para a sua ordem”
(ibid., p. 156). O recurso ao imaginário atende a necessidade de produzir
significações que invistam de sentidos e fundamentos a ordem social. Esse
imaginário se imiscui com o simbólico, como condição necessária para a
ordenação da sociedade, para a constituição de sua ordem, e com o
econômico-funcional, sem cuja relação não poderia sobreviver. Não custa lembrar
que a economia, a política e a ciência são os grandes campos funcionais da
sociedade. As instituições não são simplesmente redes simbólicas; elas, de
fato, formam uma rede simbólica, mas essa rede, por definição, remete a algo
que não é o símbolo.
Se o homem é o construtor do mundo
social, segue-se, necessariamente, que ele é criador. Portanto, no processo de
constituição da ordem institucional da sociedade, há criação! A
criação “pressupõe (...) a capacidade de dar-se aquilo que não é (o que não
é dado na percepção ou o que não é dado nos encadeamentos simbólicos do
pensamento racional já constituído).” (ibid., p. 161). Por isso, como bem
nos chama a atenção Castoriadis, “o essencial da criação não é “descoberta”,
mas constituição do novo; a arte não descobre, mas constitui (ibid., p. 162). A
história, portanto, não seria possível sem a imaginação criadora, que cria
um imaginário radical, que se manifesta indissoluvelmente no fazer
histórico, e um universo de significações. Por isso, estou de acordo com
Castoriadis, quando diz:
“A instituição da sociedade é toda vez instituição
de um magma de significações imaginárias sociais, que podemos
denominar um mundo de significações. Porque é o mesmo dizer que a
sociedade institui cada vez o mundo ou o seu mundo como mundo e dizer que ela
institui um mundo de significações, que ele se institui instituindo o mundo de
significações que é o seu e correlativamente ao qual somente um mundo existe e
pode existir para ela.” (ibid., p. 404, grifo meu).
4.1. Imaginário efetivo e imaginário radical
O mundo social é cada vez constituído e
articulado em função de um sistema de significações. Essas significações
existem, uma vez constituídas, na forma de um imaginário efetivo (o
imaginado). Essas significações configuram o quadro de referência em relação ao
qual cada sociedade institui o seu simbolismo, sobretudo seu simbolismo
institucional, e em relação ao qual ela determina os fins aos quais subordina a
sua “funcionalidade”.
A funcionalidade obtém seu sentido fora
de si mesma; e o simbolismo refere-se, necessariamente, a alguma coisa que não
é o simbólico, e que também não é somente o real-racional. Assim, é o imaginário que
dá à funcionalidade de cada instituição seu modus operandi específico,
que sobredetermina a escolha e as conexões das redes simbólicas. O imaginário é
um estruturante originário, criação de cada época histórica; é a
singular maneira de viver dessa época, a singular maneira de ver e fazer sua
própria existência, seu mundo e suas relações com ele. O imaginário é o
significado-significante central, fonte de tudo que se dá cada vez como sentido
indiscutível e tacitamente aceito. É também o suporte das articulações e das
distinções do que vale, do que importa e do que não vale, do que não importa. É
a origem da ampliação da existência dos objetos individuais e coletivos de
investimento prático, afetivo e intelectual. Certamente, nenhuma sociedade pode
existir se não organiza a produção de sua vida material e sua reprodução
enquanto sociedade, mas essa organização material não poderia conservar-se e
funcionar sem o suporte do componente imaginário-simbólico. Por isso, vale
salientar:
“Tudo o que se nos apresenta no mundo
social-histórico está indissoluvelmente entrelaçado com o simbólico. Não que se
esgote nele. Os atos reais, individuais ou coletivos, o trabalho, o consumo, a
guerra, o amor, a natalidade, os inumeráveis produtos materiais, sem os quais
nenhuma sociedade poderia viver um só momento, não são (nem sempre, não
diretamente) símbolos. Mas uns e outros são impossíveis fora de uma rede
simbólica”. (ibid., p. 142).
Como nota Castoriadis, todo simbolismo
é “diacrítico”, ou seja, um signo só pode emergir como signo sobre o fundo de
alguma coisa que não é signo ou que é signo de outra coisa. Mas isso não nos
esclarece sobre como determinar corretamente por onde deve passar a fronteira
de cada vez: “nada permite determinar as fronteiras do simbólico”. (ibid., p.
144). É certo, contudo, que um símbolo não se impõe como uma necessidade
natural, tampouco pode deixar de fazer referência ao real. Segundo o autor, “o
histórico só existe cada vez em uma estruturação trazida por significações cuja
gênese nos escapa como processo compreensível, visto que ela pertence ao imaginário
radical” (ibid., p. 184). Se o imaginário efetivo recobre as significações
institucionalmente já existentes, o que é o imaginário radical?
O imaginário radical é
a redução do imaginário à capacidade elementar e irredutível de evocar uma
imagem. Em outras palavras, o imaginário radical é o momento de dominância da
imaginação como matriz criadora e fundadora da ordem social. O imaginário
radical é o imaginário reduzido à faculdade originária de pôr ou dar-se, sob a
forma de representação, uma coisa e uma relação que não são (que não são dadas
na percepção ou nunca o foram). É nesse sentido que podemos falar de Deus como
um imaginário religioso, ou como uma ficção do imaginário radical religioso;
uma “ficção” que integra, no entanto, o imaginário efetivo da ordem social.
Também Castoriadis se refere à
reificação da ordem institucional, mas o faz usando o termo alienação. A
alienação é, para ele, a autonomização da dominância do momento imaginário na
instituição que enseja a autonomização e a dominância da instituição
relativamente à sociedade. A autonomização da instituição encarna-se na
materialidade da vida social, nela se exprime, mas supõe sempre que a sociedade
vive suas relações com as suas instituições ignorando no imaginário das
instituições seu próprio produto. No trecho abaixo, Castoriadis, por meio de um
encadeamento de questionamentos, convida-nos a meditar procurando suscitar-nos
certo ‘admirar-se’ em face do fato de que o mundo ocidental e a vida individual
de cada habitante desse mundo histórico encontram um solo firme de significados
“perenes” que foram produzidos na confluência de duas matrizes de imaginário
cultural. E até hoje sentimos as influências do sonho judaico-cristão e do
sonho greco-romano. Para o bem ou para o mal, os seres humanos são adoradores
de suas “ficções”; e, em nome delas, eles, ao longo da história, vêm lutando
para conservá-las contra a voracidade do tempo, ou contra as intempéries da
ordem natural; em nome das ficções desse imaginário fundante da vida social, dessas
criações de sua imaginação, os homens travaram guerras, cometem homicídios, infanticídios, feminicídios, deicídios.
Loucura da condição humana: adorar suas ficções até o ponto de oprimir,
escravizar e matar em nome delas! E em nome dessas ficções judeus foram
massacrados, cristãos mataram e foram mortos, cabeças ainda são decapitadas,
impérios dizimaram civilizações inteiras, grupos humanos perseguem, torturam e
matam outros grupos divergentes politicamente, ou depredam lugares onde se
cultua uma religião diferente, etc. Todo um mar de sangue e de genocídios
inunda a história humana em nome da necessidade doentia de conservar, da
prática insana de impor significações imaginárias, ficções da imaginação
criadora de um animal desnaturado e excêntrico que arrasta sua existência
embebida num profundo torpor, que vive “aprisionado” no esquecimento de que
vive numa rede de símbolos e significados que ele mesmo teceu.
“Por que, de todas as tribos pastorais que erraram
no segundo milênio antes de nossa era no deserto entre Tebas e Babilônia, somente
uma escolheu expandir ao Céu um Pai inominável, severo e vingativo, fazendo
dele o único criador e o fundamento da Lei e introduzindo assim o monoteísmo na
história? E por que, de todos os povos que fundaram cidades na bacia,
mediterrânea, somente um decidiu que existe uma lei impessoal que se impõe até
aos Deuses, estabeleceu-a como curso coerente e quis fundamentar sobre o Logos
as relações entre os homens, inventando, assim, e em mesmo gesto, filosofia e
democracia? Como explicar que três mil anos depois, sofremos ainda as
consequências do que sonharam os Judeus e os Gregos? Por que e
como este imaginário, uma vez estabelecido, ocasiona consequências próprias,
que vão além de seus “motivos” funcionais e mesmo às vezes os contrariam, que
sobrevivem durante muito tempo após as circunstâncias que os fizeram nascer –
que finalmente mostram no imaginário um fator autonomizado da vida social”.
(ibid., p. 156).
Segundo Castoriadis, como toda religião, a religião
mosaica instituída está baseada num imaginário. Enquanto
instituição, deve munir-se de sanções; enquanto religião, deve instituir ritos.
Mas ela não pode existir nem como religião, nem como instituição, se, em volta
do imaginário central, não começa a expandir um imaginário secundário. Assim,
quando imagina que "Deus criou o mundo em sete dias”, aproveita uma
determinação terrestre (talvez “real”, mas talvez já imaginária), exportada
para o Céu, sob a forma de sagração da semana. O sétimo dia torna-se agora o
dia da adoração de Deus e do repouso obrigatório. Daí seguem inúmeras
consequências. Basta referir uma delas: o apedrejamento do pobre homem que
apanhava lenha no dia do Senhor.
Uma nota final
Ao cabo deste longo trabalho, sinto-me combalido
por um enfado corrosivo, radicalmente diferente do sentimento de efusão e
espanto que me mobilizava, inicialmente, para escrever este texto. As pesquisas
que fiz e que precederam à elaboração deste ensaio fizeram-me imaginar-me como
alguém que, à semelhança de Freud em viagem aos Estados Unidos, poderia dizer
“lhes trago a peste”. Eis então que lhes apresento a peste niilista: ela
corrói, carcome subterraneamente as ficções instituídas pela imaginação humana,
para que, conclamando os homo sapiens ao esclarecimento, à
Lucidez, ao “despertar de seu sono dogmático”, eles se redescubram na história
como os verdadeiros “criadores”, inventores das significações de um mundo
artificial que se edifica “em face do caos” e num ponto insignificante da densa
escuridão da “imensidão dos espaços” que os ignoram.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade.
Trad. Guy Reynaud. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
BERGER, Peter L.; LUCKMANN,
Thomas. A construção social da realidade.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
_______________. Modernidade, Pluralismo e Crise de sentido:
a orientação do homem moderno. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
DAMÁSIO, António. O mistério da consciência. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000.