
"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo enquanto velho, porque ninguém é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz"
(Epicuro - Carta a Meneceu)
1. O prazer (hedoné)
O epicursismo[4] é
a doutrina filosófica, cujo fundador foi o filósofo grego atomista Epicuro
(341-270 a .C.),
nascido em Samos, e que preconiza, no âmbito da moral, ser o bem o prazer, isto
é, a satisfação de nossos desejos e impulsos de forma moderada. Foi justamente
por fundar sua moral no prazer que Epicuro foi acusado por seus contemporâneos
e pela posteridade de defensor da volúpia. No entanto, o próprio Epicuro não
descurou de advertir que se deve buscar os prazeres moderados, afastando
aqueles que não são nem naturais nem necessários.
Segundo Epicuro, o prazer é o
soberano bem; e a dor, o soberano
mal. A busca do prazer deve levar à ataraxia[5],
isto é, ao estado de impertubabilidade da alma, pela supressão da dor. O prazer
é o começo e o fim da vida feliz; e o prazer e a dor ensinam-nos o que devemos
procurar e o que é necessário que evitemos. O bem viver, na visão de Epicuro,
consiste em saber gerir bem os prazeres.
O prazer é o princípio da
vida feliz, porquanto é o primeiro bem conforme à natureza e, por isso, é com
base nele que usufruímos ou rejeitamos as coisas, em consonância com a
sensação. O prazer é o fim, porque é desejado por si mesmo; é o prazer o bem
que dá sentido a todos os bens.
A ética epicurista funda-se
sobre a regra que consiste na busca do prazer e na necessidade de escapar a
toda dor do corpo e a toda perturbação da alma. O caminho pelo qual alcançamos
a eudaimonia, a vida feliz, envolve
duas exigências: a ausência de dor e a ausência de perturbação na alma.
O prazer é o sumo bem, pois
que a ele todos os seres vivos tendem, desde o nascimento. Todos os seres vivos
buscam o prazer e se esforçam para escapar à dor por meio de uma inclinação
natural. O prazer é um estado que envolve a carne[6] e
é reclamado por ela. É necessário libertar a carne do sofrimento, a fim de que
o prazer seja alcançado. Ao prazer se subordinam todos os valores e todos os
bens espirituais. O prazer não é um estado passageiro ou fugaz, mas um estado
permanente que supõe o equilíbrio das partes do corpo; é o estado que
experimenta um corpo com saúde.
Uma vez que o prazer deve
estar em conformidade com a Natureza (phýsis)
e que sua busca é conforme à nossa natureza, todo prazer é rigorosamente
físico, de sorte que os prazeres espirituais também o são, sobretudo porque, no
epicurismo, a alma é dotada de corporeidade, conforme atesta o seguinte
fragmento de Epicuro:
A alma é corpórea,
composta de partículas sutis, difusa por toda estrutura corporal, muito
semelhante a um sopro que contenha uma mistura de calor, semelhante um pouco a
um e um pouco a outro, e também muito diferente deles pela sutileza das
partículas, e também por este lado capaz de sentir-se mais em harmonia com o
resto do organismo.[7]
Do trecho supracitado, não é
custoso depreender que a física epicurista não admite a separação entre alma e
corpo. Não só a alma é corpórea, como também há uma integralidade da alma com o
corpo. A alma permeia toda a estrutura corporal. A alma traz em si a causa
principal das sensações, mas estas não seriam possíveis se não estivessem
integradas ao resto do organismo. Dessa integração resulta que, deteriorando o
corpo, a alma também se dissolve.
Que as considerações
precedentes não nos induzam a um erro que, de todo modo, parece ter-se
consagrado na posteridade, qual seja, o que decorre da crença de que Epicuro
pense ser todo e qualquer prazer um bem. O excerto a seguir, conquanto encerre
o postulado básico da ética epicurista, suscitando-nos a crença verdadeira de
que a vida feliz depende da busca do prazer, nem por isso deixa de nos advertir
de que essa busca envolve um critério.
Chamamos ao prazer
princípio e fim da vida feliz. Com efeito, sabemos que é o primeiro bem, o bem
inato, e que dele derivamos toda a escolha ou recusa e chegamos a ele
valorizando todo bem com critério do efeito que nos produz.[8]
Epicuro proíbe-nos de
escolher todo e qualquer prazer, porque há prazeres pelos quais sofremos
“maiores pesares”[9]. É
necessário distinguir entre o prazer estável ou em repouso e o prazer em
movimento. Os prazeres em movimento podem ser bons, como os que se experimentam
na saciedade da sede e da fome, na proteção contra o frio, etc. Sucede,
todavia, que esses prazeres precisam ser renovados, porque eles são movidos por
carências que não cessamos de sofrer. Como, continuamente, sentimos fome, sede
e frio, continuamente necessitamos do prazer sobrevindo à supressão dessas
sensações.
Por outro lado, o prazer em
repouso, porquanto não decorre de carências, é sempre experimentado sem a
afecção prévia da dor, do sofrimento ou da perda. Por conseguinte, o verdadeiro
prazer reside na serenidade ou tranquilidade da alma e do corpo.
No fragmento seguinte,
colhido de Carta a Meneceu (2002, p.
39), Epicuro não só rejeita a possibilidade de escolher qualquer prazer, mas
também nos lembra que, não raro, preferimos certos sofrimentos aos prazeres,
sempre que àqueles sobrevêm prazeres maiores.
Embora o prazer seja
nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há
ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advém efeitos os
mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos
preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas
dores por muito tempo. Portanto, todo
prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos
são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem sempre
ser evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de
acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos
um bem como se fosse um mal, ao contrário, um mal como se fosse um bem. (grifo
nosso).
Esse trecho reclama alguns
comentários, os quais, elucidando-o, assentam o terreno em que se situará o
objeto de nossas próximas considerações. Urge notar, em primeiro lugar, que a
natureza é sempre a medida para a determinação do que é bom e do que é mau. Os
prazeres são um bem, porque todos os seres vivos tendem naturalmente a ele; a
dor, por seu turno, é um mal, porque todos os seres vivos tendem naturalmente a
esquivar-se dela. Não obstante, a qualidade dos prazeres pode variar segundo as
circunstâncias, o que nos demanda a capacidade de avaliação que nos orienta na
escolha daqueles prazeres que não carreiam dor futura. Analogamente, ainda que
dores e sofrimentos sejam, naturalmente, um mal, ocasiões há em que devemos
escolher suportá-los, se, após ponderação, ficarmos convencidos de que isso nos
acarretará maiores prazeres.
Acresce-se, em segundo lugar,
que, muitas vezes, deixamo-nos seduzir por coisas que se apresentam como um
bem, perdendo de vista o mal maior que dele se seguirá. Isso se dá por nos
deixarmos ceder à credulidade, à superstição e à ignorância. Cumpre-nos, na próxima
seção, mostrar como a alma avalia os prazeres.
Segundo Epicuro, a alma
avalia os prazeres distinguindo, entre os desejos, aqueles que são naturais daqueles que, não sendo
naturais, estão calcados sobre vãs opiniões. Acresça-se que, entre os desejos
naturais, há os que são necessários à
felicidade; outros, à própria vida; e os que, embora naturais, não são
necessários para atingir as duas finalidades.
Constituem desejos naturais e necessários uma
alimentação sóbria, uma habitação, uma veste que nos proteja contra o frio ou o
calor, etc. Por outro lado, são desejos
naturais não necessários os que variam os prazeres mediante a variedade da
alimentação, da bebida, do vestuário, etc. Segundo Epicuro, tais desejos podem
tornar-se imoderados muito facilmente, donde se segue a necessidade de
disciplina constante para moderá-los. Por isso, a felicidade e a
bem-aventurança dependem da ausência de dor e da moderação nos afetos. Epicuro
é explícito ao rejeitar estar na posse das riquezas e na abundância das coisas,
ou mesmo na obtenção de cargos e do poder, a felicidade; e igualmente claro é
ao advertir os “incautos”, que insistiam em distorcer sua doutrina, de que eles
estavam equivocados. Pode-se ler sobre as referidas rejeição e advertência no
que se segue:
Quando dizemos, então,
que o prazer é fim, não queremos referir-se aos prazeres dos intemperantes ou
aos produzidos pela sensualidade, como crêem certos ignorantes, que se
encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos
acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturbações da alma.[10]
Há que considerar,
finalmente, os desejos não naturais e não necessários, que surgem de nossas vãs
opiniões. Assim, acreditamos que o prazer se acha na riqueza ostensiva, na
fama, na glória, na posse de poder. Para Epicuro, essa crença errônea se
acompanha do medo e da perturbação: aquele que ostenta sua riqueza teme
perdê-la; aquele que não a possui teme não conseguir obtê-la. No primeiro caso,
o indivíduo se perturba com a possibilidade de se ver privado do prazer que
acredita estar na posse da riqueza; no segundo caso, perturba-se por não
conseguir usufruir o prazer que acredita haver nessa posse.
Consoante mantém Epicuro, a
frugalidade dos desejos naturais necessários garante nossa independência, nossa
autarcía (autossuficiência); por
outro lado, a intemperança dos prazeres que decorrem da vã opinião não só nos
impede a autossuficiência, como também nos torna prisioneiros da perturbação.
Os desejos naturais e necessários nos livram da dor; os desejos naturais e não
necessários, embora nos livrem da dor, podem acarretar danos. Finalmente, os
desejos inaturais e não necessários são aqueles que não nos livram da dor e
podem ainda nos causar prejuízos. Não há desejos inaturais e necessários,
porquanto “inatural” e “necessário” são atributos mutuamente excludentes.
Para Epicuro, devemos ceder a
um desejo que nos conduz à tranquilidade, estado sobre o qual repousa a
felicidade, e devemos renunciar a um desejo que não nos permite fruir esse
estado de tranquilidade. Ainda no que diz respeito aos desejos, é notável o
fato de a doutrina epicurista antecipar aquilo que se tornaria um postulado da
psicanálise freudiana: a insaciabilidade
do desejo.
A experiência comum basta
para nos assegurar de que o prazer obtido diminui gradualmente à proporção que
nos acostumamos a ele. O termo científico para caracterizar essa experiência é adaptação hedônica. É no momento exato
em que nos acostumamos a algo prazeroso que ele deixa de ser prazeroso. Ao
estado de insatisfação em que nos encontramos, porque acostumados ao que é
agradável, segue-se um novo desejo que demanda satisfação. Mas não tarda para
que este estado de satisfação obtido ceda lugar à nova insatisfação, a que se
segue outro desejo que reclama satisfação, e o processo se dá ad infinitum. Schopenhauer via aí uma
trama que torna impossível a experiência de uma felicidade positiva e
duradoura, porque nos vemos sempre suscetível à alternância entre o desejo, ao
qual precede uma carência, a satisfação – no entanto, sempre temporária – e o
tédio, no qual o prazer está destinado a se converter. O movimento
desejo-satisfação (prazer)-tédio é cíclico, de modo que jamais atingimos a
satisfação plena de nossos desejos, visto que, continuamente, somos lançados ao
estágio inicial do ciclo: estamos permanentemente desejando e continuamente
insatisfeitos.
Em O mal-estar na cultura
(2010), Freud soube bem reconhecer que, a despeito de o funcionamento psíquico
ser comandado pelo que chama de programa
do princípio de prazer, por força do qual somos impulsionados a buscar o
prazer e desejamos permanecer nesse estado indefinidamente, toda permanência
anelada não é mais que “uma sensação tépida de bem-estar” (p. 63). Após considerar
só ser possível experienciar a felicidade como fenômeno episódico, escreve
Freud, patenteando que seu pensamento se alinha com o ensinamento epicurista[11]:
Toda permanência de uma
situação anelada pelo princípio de prazer fornece apenas uma sensação tépida de
bem-estar; somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o
contraste e somente muito pouco o estado.[12]
Parece claro que Freud está
de acordo com o fato de que só nos é possível experienciar uma felicidade do
tipo negativo, a saber, o estado em que não experimentamos dor (ou desprazer),
em que não nos encontramos infelizes.
Retomemos, por algum
instante, a contribuição de Schopenhauer, com vistas a assinalar que, a par da
influência inconteste da mística hinduísta e budista em seu pensamento,
influência de que os trechos que citaremos não deixam de dar testemunho, claros
nos parecem também os traços da concepção epicurista sobre a felicidade. Pelo
menos ao se ocupar dela, em sua obra A
arte de ser feliz (2001), Schopenhauer demonstra sua afinidade com o
pensamento epicurista no tratamento das condições para a vida feliz[13].
Senão, vejamos:
O meio mais seguro de não se tornar muito infeliz consiste em não desejar ser muito feliz, portanto em reduzir as próprias pretensões a um nível bastante moderado no que diz respeito a prazeres, posses, categorias, honra, etc., pois a aspiração à felicidade e a luta para conquistá-la por si só já atraem grandes desventuras. A moderação, por sua vez, é sábia e aconselhável, porque é facílimo ser muito infeliz, enquanto ser muito feliz não apenas é difícil, como também é totalmente impossível.[14]
Malgrado o pessimismo
característico que atravessa profundamente o pensamento schopenhaueriano e que
nos acautela do inconveniente na pretensão de ler Schopenhauer à luz do
horizonte hermenêutico epicurista, sem matizar aqui e ali a medida da
influência epicurista sobre seu pensamento, é clara sua anuência à regra da
moderação dos desejos e dos prazeres. Essa anuência o aproxima do pensamento
não só epicurista, mas dos gregos de um modo geral. Seu pessimismo exacerbado
explica por que Schopenhauer realça muito mais as possibilidades de dor e
sofrimento do que as de felicidade, no que ele se demonstra herdeiro da
sabedoria oriental, sem, contudo, silenciar o pessimismo do pensamento grego.
A tese schopenhaueriana em A arte de ser feliz constitui um sinal
evidente da influência epicurista: toda
felicidade positiva é quimérica, enquanto a dor é real.[15]
Por isso, embora acredite que a verdadeira satisfação é impossível e que, por
extensão, a felicidade positiva seja irrealizável para o homem, a ele é
possível uma felicidade negativa, que consiste em evitar a dor. Cumpre,
aconselha Schopenhauer, “não desejar ser muito feliz, a fim de não se tornar
muito infeliz”[16].
A efetividade da dor é o
postulado central de toda metafísica schopenhaueriana e reaparece como elemento
orientador de seu exame sobre a felicidade. No trecho abaixo, Schopenhauer
assume a posição epicurista e a radicaliza, pelo menos sob o segundo dois aspectos
seguintes: 1) para ele, o prazer é negativo – caso em que anui a um genuíno
epicurismo, posto que não use a expressão “prazer verdadeiro” para referir-se
ao prazer negativo; 2) embora ele não pareça admitir a possibilidade de
discriminar a qualidade dos prazeres de acordo com as circunstâncias,
aconselha-nos a abstenção dos prazeres como meio de assegurar a ausência maior
de dor. Nesse último caso, Schopenhauer parece sugerir que uma vida que se
obstine na busca de prazeres e alegrias poderá arrastar-se para um turbilhão de
dores e sofrimentos que só se poderiam evitar abstendo-se daquela busca. É
lícito supor que, para Schopenhauer, nessa abstenção de prazeres e alegrias,
que leva a uma ausência maior de dor, reside o verdadeiro prazer e a única
felicidade possível.
Justamente porque na vida a dor é predominante, enquanto
os prazeres são negativos, quem faz da razão o fio condutor da própria ação e,
portanto, reflete sobre as consequências e o futuro de tudo aquilo que se
propõe fazer, muitas vezes deverá aplicar o sustine
et abstine e sacrificar os prazeres e as alegrias para assegurar a maior
ausência possível de dor em toda a vida.[17]
Schopenhauer não poderia ser
mais grego, ao apelar para a necessidade de empregar a razão na condução da
ação. Nesse apelo, ele deixa entrever um coro de vozes que, fazendo eco à
tradição socrática, encontra herdeiros ao longo da história do pensamento
filosófico.[18] No
entanto, para Schopenhauer, uma ausência de dor que seja tanto mais confortante
quanto verdadeira só se obtém à custa da abstenção dos prazeres, posição esta a
que um epicurista muito provavelmente não anuiria.[19]
Ademais, em consonância com o seu pessimismo e a despeito de aceitar o
postulado da razão como meio de conduzir a ação, Schopenhauer nos adverte de
que a razão não nos promete em troca uma existência “não marcada por muitas
dores”[20]
Como não seja da alçada desse
trabalho o ocupar-se com a discussão sobre a medida da consonância do
pensamento schopenhaueriano com o pensamento epicurista, cingir-nos-emos a dizer
(esperamos sem grande equívoco) que, sustentando articuladas entre si as teses:
1) todo projeto de vida deve pautar-se pela intenção de evitar a dor; 2) a
única forma possível de felicidade é a de uma felicidade negativa -, o
tratamento schopenhaueriano da questão da vida feliz se filia à tradição
epicurista, ainda que se possa esperar, muito em virtude do teor de seu
pessimismo, uma divergência em um ou outro momento. Conjugando ainda as duas
teses referidas com o postulado segundo o qual “viver é sofrer”, que constitui
a primeira das quatro Nobres Verdades budistas, Schopenhauer constrói uma
doutrina que só nos promete a experiência de um estado relativamente menos
doloroso. Uma vez atinjamos a compreensão dessa verdade schopenhauriana,
poderemos desfrutar o bem-estar que a vida nos concede.
Não obstante Epicuro aderir à
experiência de um prazer positivo, que se alcança pelos sentidos, que envolve a
corporeidade do vivido[21],
um epicurismo, em sua forma radical, sem jamais desprezar os prazeres do corpo,
aspira à experiência de prazeres negativos, razão por que leva uma vida
ascética. A ética epicurista se pauta por uma lógica severa, nesse sentido: somos felizes quando experienciamos a
tranquilidade; só estamos tranqüilos quando livres da dor; e só ficamos livres
da dor quando todos os nossos desejos estão realizados; e nossos desejos só
podem ser satisfeitos caso sejam moderados.
Do exposto, segue-se que o
epicurismo nunca é uma permissão para o excesso de indulgência; mas, ao
contrário, é sempre um compromisso com a austeridade. Seus princípios éticos
prescrevem disciplina e discernimento. O maior prazer ou o prazer verdadeiro se
acha na ausência duradoura de dor.
Distanciando-se dos estóicos,
para os quais prazer e virtude deviam ser mantidos em esferas separadas, em
função do fato de acreditarem que os homens maus e infelizes também gozam de
prazeres, os epicuristas advogavam que a virtude é um meio para o prazer. No
epicurismo, o prazer é o único motivo para a ação, visto que é o único padrão
pelo qual se pode julgar a equidade da conduta. Destarte, uma ação é moral se
ela produzir mais prazer do que dor; e imoral, se produzir mais dor que prazer.
Disso resulta que nossos julgamentos éticos não devem apoiar-se nas ações em si
(está certo fazer X?), tampouco nas suas consequências para os outros. Nossos
julgamentos devem levar em conta apenas as emoções que uma ação produzirá em
nós (se fizermos X, nos sentiremos bem?). Evidentemente, o padrão ético é sempre
relativo, quer às pessoas que executam uma ação, quer às circunstâncias em que
o fazem.
No sistema ético epicurista,
à luz do qual a virtude está intimamente ligada ao prazer, ela jamais é
considerada em si mesma. Assim, dirão os epicuristas, somos virtuosos não
porque, necessariamente, apreciamos a virtude, ou porque a virtude em si mesma
é algo admirável, mas porque desejamos o prazer que ela proporciona. Para um
epicurista, portanto, toda virtude, necessariamente, acarreta prazer. Onde há
virtude há prazer e também felicidade.
Podemos compreender por que o
epicurista pensa ser o prazer o único motivo para a ação virtuosa, considerando
os dois casos seguintes. No primeiro caso, diz-se que ser corajoso é virtuoso,
mas, dirá o epicurista, aquele que é corajoso, que exibe coragem, não o faz por
estimar a coragem, mas em vista de viver sem ansiedade. No segundo caso, e de
modo semelhante, quem é moderado não o é porque valoriza a moderação, mas
porque lhe é cara a paz de espírito que a moderação lhe acarreta.
Cumpre também lembrar que
tanto para os antigos gregos quanto para os antigos romanos, a moderação era um
traço de caráter de amplo alcance: a força para agir moderadamente era
extensiva a todos os tipos de situação; logo, moderação, para eles, era semanticamente
muito mais extenso do que nosso uso moderno do termo, deveras estrito.
Em suma, Epicuro sustenta a
superioridade dos prazeres negativos, que são estáticos (implicam inatividade)
e se caracterizam pela ausência de perturbação da alma e do corpo. Esses
prazeres são considerados completos. A felicidade não se alcança na busca do
prazer cinético ilimitado[22],
que consiste em satisfazer continuamente determinados desejos, mas na busca do prazer estático limitado, a saber, a
ausência de dor. Essa forma de prazer se caracteriza pela ausência de desejos
que demandam satisfação. Assim, desde que todo desejo está satisfeito, não
resta dor alguma, e o limiar de todo prazer possível se nos desvela sem
obstáculos. De tudo que dissemos, pode-se, seguramente, concluir que a ética
epicurista é uma terapêutica: a) estando o corpo em bom estado, mas a alma
perturbada, o epicurista prescreve a correção das falsas opiniões acompanhada
da supressão dos temores desencadeados por elas; b) estando o corpo em mau
estado, mas a alma sadia, o epicurista prescreve a supressão da dor física pela
formação de imagens mentais prazerosas relativamente ao passado, ou pela
projeção positiva dessas imagens relativamente ao futuro.
[4] De um lado, o epicurista situa a
felicidade no prazer; de outro lado, para o estóico, a felicidade consiste na
exigência do bem segundo a razão. Essa exigência do bem ultrapassa o interesse
individual. Comum aos epicuristas e aos estóicos é a pretensão de atingir a ataraxia (estado de tranquilidade ou
impertubabilidade da alma). A ética estóica combina serenidade autossuficiente
e benevolente, estado este que leva o sábio a uma indiferença em relação à
pobreza, à dor, à morte, com a promoção de uma ordem política e civil que
espelhe a ordem do cosmo. O estóico celebra a apatia, que se caracteriza por ser um estado de ausência de
sentimentos baseados em crenças erradas, ou seja, de sentimentos que nos levem
a não conferir à virtude o seu devido papel. A rigor, apatia é ausência de
paixões; é não ter ou experimentar sofrimento. Daí ser ela um estado em que
somos indiferentes aos reveses da vida.
[5] Os epicuristas advogavam que a ataraxia pode ser alcançada pela busca
dos prazeres “tranquilos” e pela satisfação dos desejos naturais. É necessário
renunciar aos desejos supérfluos (ser rico, poderoso, etc.), cuja satisfação
acarreta mais perturbação do que prazer. O sábio feliz se contenta com o
estritamente necessário.
[6]
“Carne” é o termo usado por Epicuro
(ele escreve “a voz da carne diz”) para designar o sujeito da dor e do prazer,
isto é, o indivíduo. Nesse sentido, a carne não é uma parte anatômica do corpo,
nem é separada da alma. Não há prazer e sofrimento sem que se tenha consciência
e sem que esse estado de consciência se reproduza na “carne” (Hadot, 2010, p.
170-171).
[7] EPICURO. Física. Coleção Os Pensadores. Trad. Agostinho da Silva et. al. São
Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 16.
[8]
Ibidem, p. 17.
[9]
Idem.
[10]
Idem.
[11] Não menos notável é a influência que
sobre seu pensamento exerceu a filosofia de Schopenhauer. O pessimismo à moda
schopenhaueriana instila-se nas páginas freudianas. Prova-o sua crença na
impossibilidade de podermos experienciar uma felicidade positiva.
[12]
Idem.
[13] Essa afinidade com o pensamento
epicurista não deve obnubilar a presença de traços do modo de vida (sabedoria)
estóico em seu pensamento. Dão testemunho da influência estóica sobre o
pensamento de Schopenhauer, os fragmentos seguintes tomados, respectivamente,
da Máxima 18 e da 19. Na máxima 18, lemos: “as coisas que dizem respeito ao
nosso bem-estar devem ser enfrentadas somente com a capacidade de julgar que
opera com conceitos e in abstracto,
ou seja, a partir de uma reflexão fria e austera (...)” (p. 55). Na máxima 19,
topa-se o seguinte: “Não permitir a manifestação de grande júbilo ou grande
lamento com relação a algum acontecimnto, uma vez que a mutabilidade de todas
as coisas pode transformá-lo de um instante para outro; em vez disso, usufruir
sempre o presente da maneira mais serena possível: isso é sabedoria de vida”
(p. 55 et.seq.)
[14]
Máxima 36, p. 83.
[15]
Ibidem, p. 84.
[16] Ibidem, p. 82.
[17]
Ibidem, p. 85.
[18]
Dessa miríade de vozes, entre as
quais estão as dos cínicos, dos epicuristas, dos estóicos, Aristóteles é, sem
dúvida, uma figura notável, cuja contribuição é evocada, várias vezes, por
Schopenhauer no texto da Arte de Ser
Feliz.
[19] Um epicurista não nos pede a abstenção
dos prazeres, mas orienta-nos a fruir deles de modo moderado. Ademais,
Schopenhauer não faz distinção entre os prazeres, tal como o exige a ética
epicurista. A ataraxia não é um estado de abstenção de prazeres, mas a
realização da forma de prazer mais pleno, qual seja, a da ausência de dor e
perturbação.
[21] Apesar de anacrônico, no contexto de
nossa discussão, o conceito de corporeidade,
tal como concebido por Merleau-Ponty (1999), parece servir bem para descrever o
corpo no epicurismo, isto é, corpo como uma estrutura experiencial vivida, ou o
corpo como constituído de estruturas físicas e experienciais vividas. “A
corporeidade do vivido” indica que nossa relação com o mundo é primeira e
fundamentalmente relação que se estabelece com o corpo, que, à luz dessa
perspectiva, é um agregado de aspectos físicos, psicológicos e espirituais. O
prazer e o sofrimento são, essencialmente, afecções que compreendem a estrutura
experiencial do corpo.
[22] O problema com os prazeres cinéticos ou
em movimento é que eles jamais se perfazem e sua busca depende da satisfação
temporária de desejos que são, por natureza, insaciáveis. Por isso, embora
possam ser bons em si mesmos, tais prazeres não garantem a ataraxia, estado
permanente e feliz ao qual a ética epicurista pretende conduzir o homem.