quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"Nós passaremos; só o ser permanecerá sendo" (BAR)

                                        


                                                                           Filósofos em cena

                                            Parmênides
                                        O filósofo do Ser

Este texto inaugura uma série de textos sobre filosofia. Essa série ostentará o título Filósofos em cena; e o primeiro filósofo sobre cujo pensamento eu discorrerei é Parmênides de Eléia, conhecido como o filósofo do ser. A série de textos não se organizará segundo algum critério; os filósofos e suas filosofias me ocuparão segundo minha preferência circunstancial. Hoje, preferi trazer à cena o pensamento de Parmênides. Por um lado, cuidei interessante revisitar a filosofia deste pensador grego; por outro lado, acreditei ser profícuo ao leitor interessado no estudo filosófico, embora não-especialista, conhecer melhor quem foi Parmênides e do que ele se ocupou em suas reflexões filosóficas.

O surgimento da filosofia

Antes de me ocupar com a filosofia de Parmênides, convém situá-lo na história da filosofia. Como ele esteja entre os filósofos que inauguraram a filosofia grega, começarei por expor algumas palavras sobre  alguns acontecimentos que marcaram o surgimento da filosofia.
Em primeiro lugar, a filosofia nasce grega, muito embora dela tenham se apropriado várias comunidades estrangeiras. Ela começa com Tales, em Mileto, uma cidade da costa leste do Egeu. Mileto era uma das primeiras cidades-estado independentes, cuja principal atividade econômica era o comércio externo.
O surgimento da filosofia grega data do século VI a.C; e seu término, do século VI d.C, quando o Imperador cristão do Império Romano do Oriente, Justiniano, determinou o fechamento das escolas filosóficas de Atenas, em 529 d.C. Esses mil anos em que nasceu, floresceu e chegou ao término a filosofia grega pode ser segmentado em três fases: a arcaica, que configura o período cosmológico (séc. VI-V a.C); a clássica, conhecida como período antropológico (séc. V-I a.C); e a helenística, conhecida como período sistemático (séc. I a.C – VI d.C).
No período clássico ou antropológico, surgiram os primeiros grandes sistemas filosóficos do Ocidente. Nesse período, desenvolveram-se os pensamentos de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles. No período helenístico, tempo de grande difusão da cultura grega no Egito e por todo o Oriente Próximo, tempo em que os gregos desenvolveram ideias sobre arte, ciência, filosofia e religião, deu-se o desenvolvimento dos sistemas filosóficos preexistentes. Trata-se de um período marcado por profunda erudição e por sincretismo. A erudição se expressava na forma de comentários sobre as obras dos filósofos fundadores. Tais comentários decorriam da necessidade de atualizá-las, visto que o sentido original delas se ia, gradativamente, esvaindo-se. Ademais, necessário era examiná-las, porque se acreditava que fossem doutrinas que revelavam verdades perenes e indiscutíveis; numa palavra, dogmáticas. Essas verdades resistiam aos argumentos dos adversários, acusados de não tê-las compreendidos adequadamente. Impunha-se, por isso, a tarefa de sistematizá-las.
A filosofia, portanto, surge em Mileto e não em Atenas. Ela surge nas Ilhas da Ásia Menor e numa região do Sul da Itália, conhecida como Magna Grécia. É somente com a ocupação pelos persas das ilhas da Jônia (uma das ilhas que compunham a região chamada Magna Grécia, berço, pois, da filosofia) e com o consequente empobrecimento das cidades que a filosofia passa a ser desenvolvida em Antenas, dada a migração de um grande número de filósofos jônicos para lá.


O período Cosmológico

Consoante referido acima, a primeira fase da filosofia grega ficou conhecida, na tradição historiográfica, como período cosmológico. É já lugar-comum dizer que a filosofia é, em sua aurora, uma cosmologia. Em outras palavras, a filosofia nasce como cosmologia. Essa fase se caracteriza pelo nascimento do pensamento científico ocidental. É o período em que germinam as primeiras sementes do pensamento ocidental, período – vale frisar – em que grandes gênios filosóficos produziram os primeiros conceitos filosóficos praticamente sem contar com qualquer influência prévia. Trata-se do período em que viveram os chamados filósofos pré-socráticos, expressão que, embora consagrada pela historiografia oficial, não é fiel aos fatos. Um dos problemas ligados a essa expressão é que ela faz crer que aqueles pensadores viveram antes de Sócrates; no entanto, alguns deles foram contemporâneos de Sócrates, entre os quais estavam Demócrito e Anaxágoras. Zenão conheceu Sócrates; e Empédocles era mais jovem que o sofista Protágoras (contemporâneo de Sócrates). Convém, portanto, ficar claro que os filósofos pré-socráticos são assim chamados em virtude da natureza dos temas de que se ocuparam, e não porque tenham vivido antes de Sócrates.
Como tenham sido os primeiros cosmólogos, os filósofos pré-socráticos preocuparam-se em estudar a natureza ou phýsis, entendida como estrutura fundamental do cosmo. Por se tratar de um conceito fundamental nas investigações dos filósofos pré-socráticos, destinarei uma seção para definir, com mais clareza, o que é phýsis; a este conceito reunirei também o de arkhé, cosmo e lógos. Phýsis, arkhé,  cosmo e lógos são conceitos de cuja compreensão depende o esclarecimento sobre a problemática de que se ocuparam os pré-socráticos. Por se interessarem em investigar as leis do universo (cosmo) e sua estrutura, esses filósofos eram chamados, acertadamente, de cientistas naturais.
Conquanto estivessem preocupados com questões tais como a origem do universo e sua estrutura fundamental, não foram os pioneiros nessa seara. A genialidade dos pré-socráticos repousava sobre a maneira como abordavam essas questões. É justamente na maneira como eles as abordavam e respondiam a elas que residia a singularidade do pensamento desses filósofos.


Características do pensamento pré-socrático

Os filósofos pré-socráticos eram homens dotados de grande saber teórico e prático, aos quais foram atribuídos feitos notáveis, como prever eclipses, medir a distância dos navios no mar (Tales de Mileto), traçar mapas da Terra, construir relógios de sol (Anaximandro). Esses filósofos trouxeram uma novidade, em face das explicações míticas e das crenças populares a respeito do mundo: o uso da especulação racional na tentativa de compreender a realidade que se manifesta aos homens.
Os filósofos pré-socráticos empreenderam uma busca pelos primeiros princípios. Princípio é o começo, mas também a causa de tudo. Aristóteles, por exemplo, de cuja pena nos chegou o saber sistemático sobre a filosofia pré-socrática, distinguia a ciência, para ele definida como conhecimento pelas causas, da metafísica, cujo escopo são as primeiras causas ou princípios. O princípio é, portanto, o fundamento, quer no campo da física, da ética, quer no da lógica, quer ainda em qualquer outro campo. Princípio ou fundamento é aquilo de que todas as outras coisas derivam, de tal modo que ele mesmo não é derivado nem deduzido de nada.
Com vistas a conferir um caráter didático ao desenvolvimento desta seção, apresentarei as três características básicas do pensamento pré-socrático, destacando-as em parágrafos distintos.
A primeira característica diz respeito à maneira científica ou racional com que eles investigavam o mundo e com que elaboravam as explicações sobre as ocorrências dele. Assim, o mundo era visto como uma totalidade ordenada e inteligível, cuja história apresenta um desenvolvimento que pode ser explicado. Trata-se de um mundo cujas partes se organizavam num sistema compreensível. Não era mais um conjunto aleatório de partes nem uma série arbitrária de eventos. Enquanto totalidade ordenada, podia ser explicado por meio de um sistema estruturado por princípios gerais aplicáveis aos fenômenos. O cosmo ou universo era explicado com base em suas características internas. Assim, um tipo de evento era explicado tendo em conta a relação que mantinha com outro tipo de evento. Não havia, portanto, apelo a causas exteriores, transcendentes (por exemplo, as ações dos deuses), de sorte que os pré-socráticos se distanciaram do pensamento mítico. Essas causas eram imanentes ao mundo.
A segunda característica notável está na forma sistemática com que se apresentavam as explicações. Elas procuravam dar conta da totalidade dos eventos naturais por meio dos mesmos termos e métodos. Os filósofos pré-socráticos elaboravam princípios gerais e comuns, visando a explicar os mais diversos fenômenos físicos.
A terceira característica diz respeito ao fato de as explicações serem econômicas, o que significa dizer que se compunham de poucos termos, exigiam poucas operações e davam margem a poucas lacunas. Destarte, a multiplicidade dos fenômenos se reduzia a uma ordem simples e inteligível, de modo que a maior quantidade de eventos possível poderia ser explicada com o mínimo de termos e operações. Por exemplo, o filósofo Anaxímenes procurou explicar a existência de tudo, postulando o ar como princípio originário.

Sumariando o que se expôs até aqui, a filosofia pré-socrática surgiu como cosmologia ou física. O mundo era seu objeto de investigação. A filosofia do período clássico, da qual se destaca Sócrates, era uma antropologia, isto é, tinha o homem como sua preocupação principal. Embora houvesse um interesse por questões cosmológicas em Platão e Aristóteles, elas não constituíam o cerne de suas filosofias.


Quatro conceitos importantes no pensamento pré-socrático

As escolas pré-socráticas eram, assim, designadas com o objetivo de sublinhar sua preocupação principal, cujo objeto era a phýsis. Considerem-se, em alíneas, os conceitos de arkhé, cosmos, lógos e phýsis.

a) arkhé

Os primeiros filósofos buscavam a arkhé, ou seja, o princípio absoluto (primeiro e último) de tudo que existe. A arkhé precede a tudo, está no começo de tudo e no fim de tudo. É o fundo imortal e imutável, incorruptível de todas as coisas. É o que as faz surgir e as governa. É a origem, mas uma origem que é perene e permanente. Com a arkhé, os primeiros filósofos evitaram uma regressão ao infinito da série explicativa causal.

b) cosmo

Para os pré-socráticos, o cosmo é o mundo natural dotado de ordem, harmonia e beleza. O cosmo recobre também o espaço celeste, enquanto realidade ordenada de acordo com princípios racionais. A ideia básica pressuposta aqui é que o cosmo é uma ordem racional, uma ordem hierárquica, na qual certos elementos são mais básicos. O cosmo se estrutura de forma determinada e tem a causalidade como lei principal.
O cosmo é uma ordem universal considerada boa e justa pelos pré-socráticos. Eles também a consideravam uma ordem normativa.

c) lógos

Lógos é um conceito polissêmico. Mas é correto defini-lo como discurso. O lógos é uma explicação, na qual são apresentadas razões. É nesse sentido que o discurso dos primeiros filósofos, que se debruçavam sobre o real, procurando explicar suas causas naturais, é um lógos. Essas razões são produto do pensamento humano que visa ao entendimento da natureza. O lógos é, portanto, discurso racional, argumentado, ao longo do qual as explicações são justificadas e estão sujeitas à crítica e à discussão.

A esta altura, impõe-se-nos dar a conhecer um pressuposto básico da filosofia pré-socrática:
A correspondência entre a razão humana e a racionalidade do real. É essa correspondência, assumida como pressuposta, que torna possível um discurso racional sobre o real.

d) phýsis

Phýsis é uma palavra que compreende diversos significados. Três dos quais se destacam: a) ação de nascer, formação, produção; b) a natureza íntima e própria de um ser, a maneira de ser de uma coisa; c) a natureza como força criadora e produtora dos seres. A phýsis é o objeto de investigação dos primeiros filósofos. Ela pode ser concebida como o mundo natural. A phýsis designa um substrato inesgotável e perene donde provém o cosmos. Tudo é phýsis, tudo provém da phýsis e a ela retorna. Ela é a primeira e última realidade de todas as coisas.
Traduzida para o latim como natura, a phýsis é a fonte originária de todas as coisas, a força que dá origem, que faz nascer, brotar, desenvolver-se, renovar-se todas as coisas. É a realidade primeira e última subjacente aos fenômenos que se dão à nossa experiência. Em suma, phýsis compreende a totalidade de tudo que é: o céu, a terra, os astros, a aurora, o crepúsculo, as estações do ano, as pedras, os animais, os homens, a moral, a política, as ações e os próprios deuses. Assim, nada vem do nada; tanto a arkhé quanto a phýsis são eternas.


Parmênides: o filósofo do Ser

Parmênides nasceu em Eléia, entre 504 e 500 a.C. Platão diz que Parmênides esteve em Atenas, onde se encontrou com o jovem Sócrates: contava, na ocasião, 65 anos. Como era comum aos pré-socráticos, Parmênides também participou ativamente da política. Ele foi o primeiro filósofo a expressar seu pensamento em versos. Seu famoso poema, cujos poucos fragmentos chegaram a nós, ostenta o título Sobre a natureza. Nele, o filósofo se representa como o Escolhido, aquele que transmite a Verdade e toda a Verdade pela Revelação que dela faz a sua Musa.
No entanto, no poema, a fala da Deusa não se expressa numa linguagem sagrada de mistérios. Ao contrário, é a razão quem fala. O poema apresenta uma estrutura argumentativa inteligível. O poema é filosofia.
Após um preâmbulo, o poema se estrutura em duas partes distinguíveis. A primeira parte ficou conhecida como a Via da Verdade (alétheia); e a segunda como a Via da opinião (dóxa).
Muitos comentadores cuidam que o poema foi escrito em oposição ao pitagorismo, que sustentava a dualidade ‘par-ímpar’ como origem do mundo e a Heráclito, cuja doutrina rezava que tudo estava em fluxo permanente e que havia uma identidade entre o uno e o múltiplo.
A filosofia de Parmênides ficou conhecida como monismo, porque constitui uma doutrina que afirma existir uma única realidade. É possível encontrar também o termo imobilismo para caracterizar a sua filosofia, já que Parmênides sustentou a imobilidade do Ser, que é o real em sentido abstrato e básico. Todo o movimento está excluído do domínio do Ser, conforme veremos. Todavia, não nos apressemos. Continuemos a seguir o roteiro delineado. Ao final do texto, explicitarei os pressupostos envolvidos no monismo parmenidiano.
Retomando a consideração do poema de Parmênides, é preciso notar que, a certa altura, ele nos diz “é necessário pensar e dizer isto: que o ente é; pois é ser; que o nada não é, pois (é) não ser”. Eis, portanto, a premissa única, com base na qual se constrói a argumentação de Parmênides: o ser é; e o não ser não é. Todo o seu ensinamento sobre o Ser repousa sobre essa premissa. Intimamente ligada a essa premissa, está outra afirmação de Parmênides, qual seja, a da identidade entre o ser e o pensar: “é o mesmo pensar e ser”. Esse enunciado deve ser parafraseado como: a racionalidade do real e a razão humana são da mesma natureza.
Ao declarar a identidade entre o ser e o pensar, quer dizer Parmênides: a) que o que pode ser dito e pensado deve ser (existir); b) que o ser é o que pode ser pensado e dito. É necessário, no entanto, tornar patente a radicalidade dessa compreensão parmenidiana. A identidade entre ser e pensar (e dizer) deve ser compreendida da seguinte forma: Parmênides não diz apenas que só podemos pensar e dizer o que existe, mas sim que o que é pensável e dizível existe necessariamente. Por outro lado, ele não diz apenas que o nada (o não-ser) não é pensável e dizível; ele afirma, na verdade, que o que não é pensável nem dizível não existe.
Sumario, abaixo, as ideais de Parmênides, a fim de que o leitor as tenha em conta no que se seguirá:

a) o ser é; o não-ser não é;
b) o ser pode ser pensado e dito;
c) o nada não pode ser pensado nem dito;
d) o pensar e o ser são o mesmo;
e) o nada, portanto, é não-ser e impensável;
f) dizer e ser são o mesmo;
g) portanto, o nada é não-ser e indizível.


Lógica e Ontologia: a inovação de Parmênides

Para alguns estudiosos, Parmênides foi o primeiro pensador a formular dois princípios lógicos fundamentais: o princípio da identidade e o princípio da não-contradição. O primeiro reza que “o ser é o ser”; o segundo, que, se o ser é, e o não-ser não é, então o ser é idêntico a si mesmo e é impossível que ele seja o seu contrário, ou seja, é impossível que ele seja o não-ser. Assim também, sendo o nada o não-ser resulta daí que ele nunca pode ser pensado e dito. A afirmação do ser, portanto, implica ou requer a negação do não-ser.
Em Introdução à história da filosofia – dos pré-socráticos a Aristóteles (2002), Chauí nota:

“Parmênides teria descoberto a lei fundamental do pensamento verdadeiro, pela qual é impossível afirmar ao mesmo tempo uma coisa e seu contrário”.
(pp. 90-91)


A Via da Verdade conduz ao ser, ao uno, ao indivisível, à unidade subjacente à diversidade. A Via da dóxa (opinião) é a via do falso. A dóxa se caracteriza por tornar possível e estimular o confronto de ideias contrárias, abonando a validade de ambas. A Via da opinião não observa, portanto, o princípio da identidade e o da não-contradição. Voltarei a considerar a oposição entre Via da Verdade e Via da dóxa, mais adiante.
Por ora, necessário se faz considerar o aspecto ontológico do pensamento de Parmênides. Com Parmênides, segundo alguns intérpretes, teria surgido o estudo do Ser ou o pensamento do Ser.

O que é o Ser, para Parmênides?

Desde já, não parece difícil supor que o Ser é, para Parmênides, a arkhé. A arkhé é o que é, é o ser, é o ente. Todavia, o Ser de Parmênides não é um indivíduo, como na frase “o cachorro é um ser amável”. O Ser parmediniano é o permanente, o imutável, é o real num sentido abstrato, básico. O Ser é a única realidade verdadeira e fundamental, que subjaz a toda a diversidade que se dá à nossa experiência sensível. Parmênides pensa o Ser como indivisível, uno, idêntico a si mesmo, imutável, fixo, pleno, eterno.
A compreensão do conceito de Ser depende da distinção entre dóxa e verdade, estabelecida pelo filósofo. Parmênides, então, assumirá que a dóxa é o caminho do não-ser. Por quê? Porque a opinião refere-se ao que parece ser. As opiniões são formuladas a partir das aparências das coisas, ou seja, a partir das formas como as coisas aparecem em nossa experiência sensível. Pela opinião, exprimimos nossas preferências, sentimentos e interesses, e eles variam de uma pessoa para outra, ou numa mesma pessoa, em circunstâncias diferentes. As opiniões também variam de acordo com as épocas; portanto, são mutáveis, instáveis, efêmeras. A dóxa é intimamente dependente da variação de estados de nosso corpo e das situações de nossas vidas. Ilumina-se, aqui, a oposição entre ser e parecer. As opiniões pertencem ao domínio das aparências. A aparência de uma coisa revela o modo como essa coisa se dá à nossa experiência imediata por meio dos nossos sentidos. Mas as aparências podem deixar de ser como aparecem. As aparências encobrem o ser, na medida em que podem não ser como parecem ser; elas são, por isso, o não-ser.
Na medida em que o ser é idêntico a si mesmo, é imutável, ele não pode revelar-se na experiência sensível, mas tão-só pelo pensamento. É necessário frisar: o acesso ao ser só é possível pelo pensamento. A aparência se mostra como tal na mudança contínua que sofre as coisas ou no devir, no incessante vir a ser das coisas, nesse domínio em que as coisas estão incessantemente tornando-se outras, estão mudando, se transformando, estão tornando-se o que não são. O devir é movimento (Kínesis – mudança qualitativa, quantitativa e locativa). Logo, é o movimento (o devir) o domínio próprio da dóxa e da aparência. Escreve Chauí: “(...) as coisas parecem mudar e as opiniões mudam com elas” (p. 92). O devir, na medida em que é aparência mutável, é o não-ser.
Estamos, agora, em condições de compreender de que modo opera o pensamento do Ser, em Parmênides. Trata-se de um pensamento puro (porque divorciado da experiência sensorial, do mundo das aparências mutáveis), que constrói uma argumentação cuja tese repousa na afirmação da identidade do ser consigo mesmo, ou da unidade da realidade do ser. Ser e real é o mesmo. Apenas o ser é real. As etapas do desenvolvimento argumentativo com que Parmênides pretende sustentar a natureza una, imutável e eterna do Ser serão discriminadas em subseções numeradas, a fim de que elas sejam mais bem apreendidas:

1) O ser é imóvel, ou seja, imutável. Se ele se movesse, se ele mudasse, se tornaria aquilo que não é. Ora, o que não é o não-ser, e o não-ser não existe; não pode ser pensado e dito, portanto;

2) O ser é eterno e indestrutível; logo não tem origem, não nasce, não perece, nem está no futuro. Se estivesse começado, o que havia antes dele? O não-ser, mas o não-ser não existe. Se o ser tivesse um término, também seria o não-ser que estaria depois dele, mas, novamente o não-ser não existe, nem pode ser pensado e dito;

3) O ser é indivisível ou contínuo, se ele fosse passível de ser dividido, o que seriam as partes? Não poderiam ser outros seres, já que o ser é uno, tampouco poderiam ser não-seres, já que o não-ser não existe; portanto não pode ser pensado e dito;

4) O ser é pleno, isto é, não encerra intervalos ou fendas em seu interior. Se não fosse pleno, o que seriam seus intervalos? O vazio? Mas o vazio é o não-ser; e o não ser não existe e não pode ser pensado e dito.


Considerados os argumentos 2) e 4) que aludem, respectivamente, à eternidade e à plenitude do ser, é possível inferir a ideia de que o ser é presença em excesso ou totalidade presente (dada totalmente) no agora (já que é eterno) e também de que é  completamente fechado em si mesmo ou bastante em si mesmo (já que é pleno e nada lhe falta). Não há carência no ser, não há insuficiências em seu interior. Todavia, é preciso enfatizar que o ser não é uma presença que se dá em nossa experiência sensorial, porque apenas o pensamento pode atingi-lo.
Entre as características com que Parmênides define o Ser, não está a infinitude. O ser não é infinito, mas limitado. Por mais estranho que nos pareça, Parmênides não afirma que o ser é infinito. A razão porque nega ao ser a infinitude é que, se o concebesse como infinito, acabaria por identificá-lo com o apeíron (Anaximandro) que, para os gregos, é o indeterminado, o infinito. O ápeiron é a arkhé de Anaximandro e designa um princípio abstrato que significa ilimitado, indefinido e que subjaz à natureza. Como seja indeterminado, pode crescer, reduzir-se, transformar-se indefinidamente, o que nos impede de pensá-lo, conhecê-lo, dizê-lo. Sendo incognoscível, o ápeiron seria o não-ser, para Parmênides. Mas o problema atinente à definição do Ser não termina por aí; Parmênides precisava ainda conservar a base racional das características que atribuía ao ser, quais sejam, a imobilidade, a eternidade, a indivisibilidade, a continuidade e a plenitude. Para tanto, concebeu o ser como uma esfera, cuja circularidade é perfeita (entenda-se totalmente acabada). O ser não tem começo, nem fim; é indivisível, contínuo e pleno.

Síntese

Tencionando levar a um termo satisfatório este texto, reforcemos e esclarecemos as ideias anteriormente examinadas a respeito do pensamento parmediniano.
Começo, pois, notando que a filosofia de Parmênides ficou conhecida pelo nome de monismo, visto que ela se expressa na forma de uma doutrina que afirma a existência de uma única realidade (a do ser) e, consequentemente, exclui da esfera do ser (o real) o movimento, a mutabilidade. O monismo parmenidiano é, tradicionalmente, entendido como uma doutrina que contrasta com o mobilismo heraclitiano. Esse contraste ajuda-nos a compreender melhor o monismo de Parmênides. O mobilismo, concepção segundo a qual todas as coisas estão em movimento, em fluxo perene, caracteriza a doutrina de Heráclito de Éfeso. Ao contrário de Parmênides, que afirma a imobilidade do ser, Heráclito sustenta que tudo é movimento, tudo está em fluxo, muito embora ele não negue que a realidade possua uma unidade básica. Não deixa de ser curiosa a afirmação heraclitiana de que há unidade na pluralidade. Se Heráclito não deixa de admitir a unidade como uma dimensão do ser; pensa a estrutura do ser, todavia, como atravessada pelo movimento, pela mutabilidade das coisas, pela luta dos contrários. A unidade a que se refere Heráclito é unidade dos opostos. O real ou o ser heraclitiano é profundamente marcado pelo conflito e é do conflito que nasce o mais perfeito equilíbrio. Se, em Parmênides, o devir é o não-ser; em Heráclito, o devir é o próprio movimento do ser. Em Heráclito, o mundo todo, a realidade sensível é caracterizada, fundamentalmente, pela impermanência de todas as coisas. Tudo flui, tudo se move, muda, se transforma. O mundo heraclitiano é um mundo em fluxo incessante, um mundo onde só permanece estável e inalterável o lógos, ao qual cabe reger a inevitável transformação de todas as coisas. Se a arkhé de Parmênides é o ser; a de Heráclito é o fogo, enquanto metáfora, não propriamente como elemento natural. O fogo heraclitiano representa o caráter dinâmico da realidade. É a origem de todas as coisas; é origem eterna, é movimento incessante. A partir do fogo, todas as coisas se formam. O fogo põe todas as coisas em movimento e se identifica com elas.
Convém, no entanto, retornar a Parmênides. Vimos que a dóxa (opinião) identifica-se com a Via da experiência sensorial. A Via da Verdade é a do pensamento puro, do intelecto apartado das sensações. O pensamento identifica ilusões onde sentimos coisas mutáveis e contrárias entre si.
Só há o ser, que é uno, eterno, contínuo, indivisível e imóvel. Só há o pensamento do ser; para o pensamento, o múltiplo e o movimento não são, ou seja, pertencem ao domínio do não-ser (o devir). A mudança e a mutabilidade – vale insistir – estão excluídas do ser. O devir e o múltiplo são o não-ser, portanto o impensável e o indizível.

Em Parmênides, vimos que o ser, o pensar e o dizer é o mesmo; assim também o não-ser, perceber e opinar é o mesmo. Identificando o pensamento com o ser, Parmênides nega ser possível pensar a instabilidade, o imutável, de modo que, do ponto de vista epistemológico, só haveria ciência do ser, ou seja, do imutável, do que é constante, imóvel. O pensamento, assim, exige estabilidade, coerência, permanência e verdade; por isso não há pensamento do devir; só há pensamento do ser. Para o pensamento, perceber, opinar e não-ser é nada.