quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A alma é o recipiente da vida




“A alma é o recipiente da vida. Uma alma rasa contenta-se com pequenos goles da vida, não é capaz de apreendê-la em toda a sua espantosa profundidade, enche-se com os momentos triviais e julga estar satisfeita. Uma alma funda, que exibe largas medidas, quer apreender a vida em toda a sua extensão, que é infinita e absurda, enche-se de suas vísceras, vê a intensidade do amor num lapso de olhar e se julga plena, mas sempre alimentada pelo espanto. Uma alma funda é vazia de convicções sem provas e planta sementes de questionamentos, onde há vastas pastagens de ignorância”

(BAR)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

suspiros noturnos...



A um lindo ideal


Pudera estas palavras encontrar abrigo em seu coração, pois que é a você que elas são escritas; a você que esteve ao meu lado naquela sexta-feira e que me falou ao coração com delicadeza, com entusiasmo, com sabedoria, quando eu ressuscitei os fantasmas que habitaram minha alma durante anos.
Receio, contudo, que você nunca chegue a conhecê-las e nunca sinta a beleza lírica que nelas escondi para estampá-las aqui. Quiçá, ignore a dificuldade que agora experimento de levar adiante este texto. É que impus ao meu coração uma barreira, por precaução, embora eu desconfie que esse impedimento decorra de um sentimento arraigado de insegurança.
Ah! Se soubesse que tenho relutado em atender aos apelos de meu coração e em aceitar que as imagens idealizadas de nossos encontros venham a acumular-se em minha alma. Nós de mãos dadas, num passeio matinal; compartilhando do mesmo saco de pipocas, e nos beijando diante daquela imensa tela, dando às nossas vidas uma só direção.
E não  diria que é impossível, se há entre nós tanta afinidade (gostamos de ver filmes, gostamos das mesmas músicas, compartilhamos os mesmos valores, acreditamos na supremacia do amor e na sua aliança necessária com o sexo, gozamos de prosperidade intelectual, temos objetivos em comum, temos projetos que se vão numa mesma trilha) Ou não?
Disse-me ser eu seu ideal, pois eu quero ser a sua realidade, o seu conforto, o seu amparo, e ser mais e mais o seu amigo...

domingo, 31 de julho de 2011

Uma breve história da sexualidade feminina



A sexualidade como parâmetro de inserção
social feminina – Do período paleolítico à Antiguidade Clássica

Objetivo: Evidenciar e discutir a condição social da mulher desde o Período Paleolítico até a Antiguidade Clássica tendo como parâmetro de inserção a sexualidade.

A sexualidade desempenha um papel fundamental na vida e na sociedade humanas. Seu estudo tem grande importância na medida em que permite compreender a história mundial nas suas diversas dimensões: social, cultural, política, econômica, moral, abrangendo, inclusive, a vida cotidiana do homem comum. A sexualidade imiscui-se nos modos como os seres humanos determinaram/ conduziram sua vida e marcaram distinções relativamente aos gêneros (masculino e feminino). No tocante aos meus interesses aqui, a sexualidade, como veremos, será um parâmetro de poder masculino na determinação dos tipos de inserção da mulher nas sociedades, desde o Período Paleolítico (20.000 a 8000 a. C.), caracterizado pela vida nômade e pelas atividades de caça e coletas, até a Antiguidade Clássica, no ocidente (800 a.C), com o advento das cidades-Estados gregos.
Nesse recorte temporal, vou considerar também a forma como a sexualidade foi experienciada e regulada nas dinastias chinesas; portanto, examinarei a inserção da mulher nas sociedades ocidentais e orientais.
Vou partir das seguintes premissas:
a) A sexualidade sempre esteve associada às esferas de poder; através dela, os homens expressaram, ao longo da História, seu poder hegemônico sobre as mulheres;
b) Em todas as sociedades humanas, a sexualidade sofreu alguma forma de restrição e/ ou controle;
c) A sexualidade era experienciada na tensão entre o desejo de prazer e a necessidade de controlar a natalidade;
d) As formas de inserção social de homens e mulheres nas sociedades passam pelas complexas condições da determinação de seus papéis relativamente à sexualidade.

Em História da sexualidade (2010), Peter N. Stearns, observa, na seção introdutória A sexualidade e o advento da agricultura, o seguinte:

“(...) nas sociedades primitivas havia um embate com a tensão entre o reconhecimento do prazer sexual e o interesse e a necessidade, em nome da ordem social e até mesmo da sobrevivência econômica, da introdução de padrões regulatórios essenciais”.
(p. 21)

Inicialmente, portanto, deve-se ficar claro que a sexualidade humana era encarada não só na sua dimensão erótica (o prazer), mas também na sua função biológica (a reprodução).  Na modernidade, como sabemos, a mudança fundamental ocorrida na sexualidade foi a separação entre prazer sexual e função reprodutiva. Desde a década de 1960, a grande parte das pessoas do Ocidente já fazia sexo sem finalidade procriadora, mas meramente recreativa, muito graças à disponibilidade de dispositivos contraceptivos, tais como a pílula.
Evidentemente, servindo o sexo à produção de bebês e dadas as necessidades de sobrevivência, em condições econômicas ainda muito precárias, o controle da natalidade tornou-se uma exigência para as sociedades pré-agrícolas, mas também sempre foi uma constante nas sociedades posteriores que se formaram na Antiguidade Clássica.
As sociedades de caçadores-coletores (período paleolítico) estavam interessadas no controle da natalidade, muito embora não dispusessem dos meios eficazes para tanto.
Essas sociedades viveram segundo duas tensões, relativamente à sexualidade: a arte deu testemunho da primeira tensão, ao registrar a ênfase que recaía sobre a bravura e as façanhas masculinas. A segunda, relacionada à prática sexual, combinava o deleite proporcionado com as necessidades de controlar a natalidade.
A primeira imagem da mulher é fornecida pelas esculturas, sem rosto, com contornos que marcam, ao que parece, o apreço que se dava à obesidade. Parece que a obesidade era vista como um atributo erótico. O vestuário feminino incluía decotes que salientavam os seios (quando estes não eram totalmente exibidos) e fendas que deixavam-se ver os pêlos pubianos. Indícios arqueológicos, datados de 70 mil anos, encontrados na costa da África do Sul, sugerem que o uso de batom visava a tornar a boca da mulher parecida a uma vagina, o que indicava disponibilidade sexual.
A arte também expressava o universo masculino, salientando seu dote fálico. A representação do potencial sexual masculino indicava a dominância fálica; portanto, dos homens.

“Uma famosa gravura encontrada na França retrata uma leoa lambendo um enorme pênis humano, e outras representações mostram com clareza a dominância do falo. Costumava-se esculpir gravetos fálicos, que provavelmente eram usados em rituais sexuais. Alguns grupos fabricavam jóias para adorar o pênis, e ornamentos desse tipo foram encontrados em cemitérios”
(p. 24)

É interessante notar que a arte servia, pelo menos em parte, a uma forma de construção e reprodução simbólica do domínio masculino.
Os parceiros sexuais eram escolhidos de acordo com sua grande habilidade para a caça: quanto melhor caçador era um homem mais atraente era a uma mulher. Algumas sociedades de caçadores-coletores não pareciam valorizar a virgindade feminina.
Nessas sociedades, a atividade sexual era mais ou menos precoce e admitia-se a pluralidade de parceiros. Alguns grupos mantinham relações monogâmicas ou a monogamia seriada (ou seja, fidelidade a um parceiro durante algum tempo e posterior busca por outro parceiro). Havia uma relativa liberdade na escolha de parceiros para fins sexuais e a escolha era, em geral, determinada por atributos físicos apreciáveis, ou pela habilidade de caça.
Com o advento da agricultura – um marco da historia da humanidade – por volta de 9000-8000 a. C. – instaurou-se um novo sistema econômico na História. Os seres humanos não careciam mais de se deslocar incessantemente de um lugar para outro, podendo estabelecer-se num determinado local, por muito tempo.
Com o estabelecimento de novos padrões econômicos, propiciados pela agricultura, modificou-se a estrutura da sexualidade. Ensina-nos Stearns, nesse tocante, o seguinte:

“Os padrões agrícolas de sexualidade refletiam um novo conjunto de necessidades e oportunidades econômicas, e os efeitos demonstram o quanto a sexualidade humana pode se tornar flexível em face de novas conjunturas.”
(p. 29)
Vale dizer que foi nas condições de vida baseada numa economia agrícola que se originaram as desigualdades: uma minoria de pessoas, entre as quais estavam proprietários de terra, sacerdotes, mercadores, passou a gozar de privilégios que não eram acessíveis a camponeses. Os que detinham maior poder econômico eram mais desejáveis sexualmente; além disso, podiam desfrutar de práticas sexuais diferentes, que eram impossíveis aos menos abastados.
Com a criação de vilarejos que se situavam contíguos, a maior parte das famílias morava muito próximas umas das outras, o que possibilitou mais oportunidade para a supervisão e controle do comportamento sexual, desempenhados, principalmente, por pais e parentes mais velhos.
É nesse período que se estabelecem, propriamente, os regimes patriarcais, já que as sociedades agrícolas passaram a adotar medidas que visavam a assegurar a paternidade, mediante a criação de regras para controlar a sexualidade feminina. Assim, instauravam-se diferentes padrões sexuais para homens e mulheres. Ensina-nos Stearns a esse respeito:

“Todas as sociedades agrícolas tornaram-se, de certo modo, patriarcais – isto é, dominadas por homens (de pai para filho); e uma expressão fundamental do patriarcado foi o impulso de controlar a sexualidade feminina e diferenciar padrões de gênero”.
(p. 31)

A preocupação exacerbada com o controle da sexualidade feminina deu origem ao sentimento de ciúme. Diferentemente do que sucedia nas sociedades caçadoras-coletoras, que não davam tanta importância à possessividade sexual, nas sociedades agrícolas, o ciúme tornou-se uma emoção complicadora nos relacionamentos, complicação que se estende até os dias de hoje.
De passagem, vale notar que a preocupação em conter os excessos sexuais advém da observação da própria atividade sexual entre os animais, propiciada, evidentemente, pela vida agrícola. Os homens procuraram, desde então, estabelecer padrões sexuais diferentes dos padrões sexuais dos animais: aqueles deveriam ser mais respeitosos e dominados. Evitavam-se, assim, comportamentos animalescos nas práticas sexuais humanas.
A arte, nesse período, continuou a privilegiar a sexualidade masculina, muito embora expressasse uma preocupação com a relação entre sexualidade e fertilidade. A fertilidade sexual era associada à fertilidade agrícola e a figura da mãe foi destacada.
São nas condições agrícolas de vida que surge, portanto, o papel da mulher-mãe e protetora do lar. As mulheres passavam mais tempo se ocupando dos preparativos do parto e cuidando dos recém-nascidos, ao contrário do que sucediam com as mulheres das sociedades calcadas na coleta e na caça.
De passagem, novamente, vale notar que a masturbação passou a ser desaprovada, em certas sociedades, em virtude da ênfase no sexo com fins procriativos. O judaísmo, por exemplo, a rotulava de prática pecaminosa; outras sociedades, entretanto, embora a desaprovassem, não lhe atribuíam natureza de pecado.
Tenho insistido em que havia sempre uma necessidade de controlar a sexualidade feminina, com vistas a um controle correlato: o da natalidade. Em partes do nordeste da África, originou-se o costume da circuncisão feminina. A remoção do clitóris se dava no início da puberdade e visava à limitação do prazer sexual feminino. Novamente, aqui, a prática visava ao controle da sexualidade feminina.
Essa incessante preocupação com o controle da sexualidade feminina culminou com a formulação de códigos legais e religiosos que procuravam garantir a fidelidade sexual das mulheres. Na Mesopotâmia, o Código Hamurabi, instituído por volta de 1700 a.C., rezava que aos homens era permitido manter concubinas e amantes, enquanto as esposas não tivessem filhos, mas a esposa gozava de posição superior à concubina. A monogamia coexistia com a poligamia.
Em relação ao estupro, a lei judaica o tratava como crime, mas não sem a observação de que uma mulher que fosse estuprada deveria provar que a relação sexual se deu sem seu consentimento.

“O estupro comprovado de uma mulher casada era passível de punição com pena de morte (assim como o adultério, embora aqui para ambas as partes); mas o estupro de uma mulher solteira era considerado um crime não contra ela, e sim contra o pai, que era “dono” da filha e, portanto, tinha sua propriedade aviltada – o estuprador deve se casar com a mulher (mesmo contra a vontade dela). A Bíblia apresenta diversas histórias de estupro, incluindo algumas em que o estuprador é perdoado por causa de suas ligações com autoridades. No caso da lei judaica, assim como em outras sociedades, a preocupação com o estupro demonstrava que episódios de sexo forçado de fato ocorriam e que violavam normas aceitas; mas também fica claro que quase sempre as mulheres estavam bastante vulneráveis, e que o estupro era tido como uma violação da honra da família do que um ataque propriamente à mulher”
(p. 43)

Também foi neste período que surgiu a prostituição. Em decorrência da crescente especialização da economia, e a introdução do dinheiro, criaram-se condições para que mulheres (às vezes, também homens, em prática homossexuais) pudessem vender favores sexuais. As prostitutas, talvez, fossem as únicas mulheres livres da dominação masculina, muito embora ocupassem um nível baixo na escala social. Em sua origem, a prostituição tinha valor elevado, dada a crença na suas associações com deuses e deusas. No antigo Israel, há evidências de “prostitutas sagradas”.
A prostituição surge num contexto em que a sexualidade estava cerceada à função reprodutiva e submetida, portanto, ao controle permanente. As prostitutas representavam, assim, oportunidades para que homens dessem vazão as suas necessidades sexuais. Claro é que também a prostituição contribuiu para instaurar práticas de escravidão, já que muitas mulheres capturadas na guerra e pertencentes a grupos conquistados eram destinadas a essa forma de vida.
Como nos ensina Stearns, sobre a herança legada pelas sociedades agrícolas, no tocante à sexualidade,

“As primeiras sociedades agrícolas deixaram um legado para a sexualidade humana que, em certa medida, perdura ainda hoje. Novas distinções entre homens e mulheres em termos de sexualidade foram fundamentais. A prioridade dada ao sexo com fins reprodutivos, mas com restrições comunitárias, não eliminou a noção do sexo como prazer, e certamente não evitou uma ampla gama de efeitos e reações, de acordo com regiões particulares e classes sociais particulares, mas, em contrapartida, criou algumas novas tensões e incertezas”

(pp. 44-45)

Situando nossas considerações na Antiguidade Clássica, particularmente na China da dinastia de Zhou, em meados de 1050, e com a introdução do confucionismo cuja doutrina servia de um guia moral na base do qual os homens deveriam viver, buscando a realização de suas virtudes, observaram-se poucas mudanças. A virilidade e as façanhas sexuais masculinas ainda eram valorizadas, embora o desejo sexual da mulher fosse levado em conta. Naquele período, produziram-se muitos manuais de sexo, destinados a homens e mulheres, o que indicava certa equiparação sexual entre eles.
Havia também uma tolerância à masturbação, inclusive feminina. Por outro lado, as mulheres eram proibidas de fazer sexo antes do casamento, para que, assim, se mantivessem interessantes aos seus futuros maridos. Uma mulher que já não fosse virgem tenderia a ser abandonada pelo marido. E o temor ao abandono serviu de uma regra moral para que elas se mantivessem virgens.
Evidentemente, a repressão de sua sexualidade incutia-lhes uma curiosidade e ansiedade pela primeira relação sexual, sempre nos limites do casamento. A virgindade feminina era zelada pelos pais, já que sua perda significaria a possibilidade de desinteresse matrimonial pelo pretendente. As mulheres se casavam muito cedo, pouco depois da puberdade; os homens, ao contrário, porque precisavam alcançar certa estabilidade econômica, casavam 10 ou 15 anos mais tarde. Isso significa também que eles já se casavam com grande experiência sexual (já que continuavam a ter acesso às prostitutas). Tal experiência lhes permitia, evidentemente, maior controle sobre a vida sexual de suas esposas. Deve-se ter em conta que a valorização da virgindade da mulher visava sempre ao controle de sua sexualidade, já que virgindade era condição necessária para arranjos matrimoniais. Uma mulher sexualmente inexperiente era mais facilmente submetida ao poder do marido.
A necessidade de dispensar atenção especial ao comportamento sexual feminino decorria do interesse em que os homens estivessem certos de que teriam gerado os próprios filhos. E era desejável que estes fossem varões.
As regras confuncionistas relativamente à vida conjugal estabeleciam que maridos e esposas não mantivessem relações sexuais fora do leito conjugal. Mas os homens gozavam de liberdade, podendo recorrer a práticas sexuais extraconjugais; as mulheres, oficialmente, não.
Ao final do período clássico, na China, o regime sexual, razoavelmente padronizado, estabeleceu uma distinção entre mulheres respeitáveis e mulheres não-respeitáveis. Estas identificavam-se com as prostitutas, muito embora algumas delas pudessem, eventualmente, ser elevadas à condição de concubinas. As mulheres respeitáveis, por sua vez, sofriam maiores sanções à sua sexualidade.
Entre os antigos gregos, continuou-se a valorizar o controle e a reclusão femininas, bem como a virgindade antes do casamento. Os casamentos, como em todas as sociedades agrícolas, eram assentados em arranjos econômicos, e não pela atração sexual. A cultura mediterrânea valorizava, oficialmente, a monogamia.
Na Grécia Antiga, era evidente que as mulheres ocupavam posição de considerável desrespeito. Eram vistas como criaturas libertinas e imorais naturalmente, o que lhes acarretava o peso de um controle sexual constante. Já as respeitáveis eram cobertas com vestes que não deixassem à mostra partes do corpo que estimulassem o apetite sexual masculino. Os homens, a seu turno, podiam, nas competições atléticas, exibir sua nudez parcial ou total. A atuação das mulheres, na esfera pública, cingia-se à participação em festivais agrícolas e ao auxílio em atividades religiosas, o que servia de meio para conservar sua abstinência sexual.
Houve mulheres que ascenderam socialmente, como a jovem Aspásia, embora ocupasse apenas o papel de concubina. As que ocuparam o papel de cortesãs, como Elpinice, também gozaram de maior prestígio. Elas eram promíscuas e sua conduta contrariava os padrões normais da época.

“Em geral, os gregos parecem ter considerado a atividade sexual como algo normal, mas com estrito controle das mulheres, regulação cujo intuito era concentrar a participação feminina na reprodução e fidelidade. Os homens dispunham de maior liberdade de ação e tinham à disposição os serviços de grupos especiais de mulheres, mas também faziam uso de outros meios aprovados. Contudo, mesmo a sexualidade masculina podia ser influenciada por uma preocupação bastante difundida com o excesso de prazer: os gregos acreditavam na importância da moderação em todas as áreas e, havia a ideia de que os orgasmos podiam entorpecer a capacidade intelectual pelo menos temporariamente”
(pp. 57-58)

É claro que a emancipação da mulher não se reduz à sua emancipação sexual, ou seja, a conquista de direitos sobre o domínio do próprio corpo e a liberdade de expressão de sua sexualidade; sua emancipação contou com reivindicações e lutas nos campos políticos, culturais, ideológicos e econômicos. Decerto, o acesso crescente à educação e ao mercado de trabalho (ocupando funções que, outrora, lhes eram vedadas), não sem a luta incessante por condições igualitárias de direitos (como salário igual ao dos homens, por exemplo), a luta por maior participação política (que culminou com a ascensão ao poder presidencial, no Brasil, por exemplo, de uma mulher) foram determinantes para sua liberação. Educação e trabalho (não-alieanado, dirão os marxistas) sempre estiveram e estarão na dianteira no longo processo de emancipação não só das mulheres, mas do gênero humano. Nesse sentido, a emancipação feminina deve não só representar, mas também criar condições para a emancipação do próprio gênero humano – tese com a qual as feministas, atualmente, parecem estar de acordo.
Todavia, como vimos, a sexualidade sempre foi um campo de tensões entre os gêneros e sempre serviu de meio para conservar certas condições de submissão, exploração e opressão em que vivia a mulher e que contribuiriam mais tarde para estabelecer o sexismo, mais uma dentre as muitas formas de preconceito, as quais as sociedades modernas têm-se encarregado de enfrentar. 

domingo, 24 de julho de 2011

EU EXISTO PLENAMENTE EM MIM MESMO


 
                 
               
                        Reflexões dominicais
                                Do ser ateu

Sete horas da manhã de domingo, e o sono cedeu lugar à ansiedade, mas a uma ansiedade vital, eu diria, comum a todo ser humano que não esteja padecendo de alguma enfermidade, que o mantenha numa cama. Na verdade, acho que dormir demais é uma perda de tempo – tempo que poderia ser preenchido com alguma forma de atividade proveitosa, como escrever, por exemplo.
Os pensamentos são meu despertador. Eles ficam-me a martelar a cabeça e, embora possa resistir a eles durante algum tempo, acabo por ceder à sua insistência.
Ontem, quando, após as minhas leituras diárias, me recolhi ao meu quarto, para compor meu então último texto com inspiração ateísta já divulgado neste blog, sentia-me como um revolucionário, que exprime suas posições infensas a um dado estado-de-coisas, salvaguardando-as e, assim, impedindo que suscitem qualquer suspeita. Trata-se de uma imagem exagerada, evidentemente, porque não nasci num meio familiar religiosamente conservador. Aliás, conservadorismo não foi uma ideologia que me orientou a formação educacional, felizmente. Portanto, não sofro de nenhuma pressão para que eu volte a frequentar missas ou volte a rezar.
É certo que meus familiares desconhecem minhas opiniões ateístas e minha adesão completa ao espírito (sentido) ateu. Mas essa ignorância não é importante, já que, na vida prática, nada mudou. A única mudança é de ordem psicológica: sinto-me aliviado do peso da culpa, do pecado (que remonta às origens dos tempos e a um grandioso feito de uma personagem fictícia) e conciliado com esta vida, que me abrange por completo.
Mantive-me hesitante, durante alguns meses, sobre a decisão de assumir publicamente meu ateísmo; ora postava os textos pelos quais eu me declarava ateu, ora excluía-os. E essa dúvida que me afligia se devia ao receio de que eu fosse alvo de reações adversas, de sentimentos de desaprovação e mesmo de decepção. No entanto, o receio fazia-me ser infiel a mim mesmo e isso é um contra-senso, porque desdiz as minhas ideias sobre mim mesmo, nega quem eu sou. Ora, ser eu mesmo, ser a medida de mim mesmo é não temer posicionar-me contrariamente ao status quo. Eu, que não me furto a criticar os padrões de conduta, de pensamento, que se recusa a viver espiritualmente obtuso, que propala a ideia de que o saber é um dos grandes valores da existência e que deve ser um direito estendido a todos os homens (embora reconheça que, numa sociedade como a nossa, o acesso ao conhecimento é privilégio de poucos), eu, que abraço o magistério com o coração, com a alma e exerço a docência com paixão, que acredita que ensinar e aprender são duas práticas que se dão num processo em que estão envolvidos co-agentes dele responsáveis (e, portanto, o leitor que me lê não é passivo, mas um agente, que contribui com o seu olhar, com suas experiências, que medita, que produz um sentido); eu, que reconheço tudo isso, não poderia fugir à necessidade de assumir que sou ateu.
Minha amiga Gizelda tem, parcialmente, razão, ao escrever, em uma de suas postagens (a última, aliás), que não podemos viver sempre na contramão. Acontece que meu nascimento já se deu na contramão dos próprios processos bioquímicos que participam fundamentalmente da geração da vida. E eu estou longe de pretender assumir ideologias reformadoras ou abraçar causas utópicas; há muito pouco tempo de vida e desfavoráveis são as condições sociopolíticas da (hiper)modernidade para comprometer-se com tal engajamento, se bem que alguns eminentes estudiosos (cientistas, filósofos e jornalistas) estrangeiros propunham um ateísmo militante.
Se, por um lado, possa eu ser dotado de um espírito que tende à subversão e à rejeição de toda ordem que busca conservar alguma forma de ignorância, de injustiça, de intolerância, opressão e exploração; por outro lado, esse espírito acaba confinado no papel, muito embora eu reconheça que, em minha prática docente, possa, às vezes, atuar de modo a libertar intelectualmente.
Sem mais delongas, o caso é que eu acho que nós temos de nos situar no mundo, temos de deixar nossa marca (ainda que anonimamente). Não temos de seguir modelos de conduta, de pensamento, de crenças. Não temos de seguir determinadas tradições que não nos favoreçam por resignação. Decerto, se eu tivesse nascido em séculos anteriores, minha liberdade para escolher rejeitar certos padrões de minha sociedade seria muito limitada. Mas esse, evidentemente, não é o caso.
Estou, contudo, consciente de que vivo num país cujas culturas são marcadas profundamente por religiões e crendices. O Brasil é um país caracterizado por uma pluralidade, uma diversidade de culturas e religiões - herança de todo o nosso processo histórico marcado por uma colonização que nos legou até hoje um sentimento colonial, manifesto, por exemplo, nas opiniões referentes à filiação da língua portuguesa falada aqui com a língua portuguesa falada em Portugal.
Em O que é o Brasil, Roberto DaMatta, ensina-nos, no capítulo Os caminhos para Deus:

“Nós, brasileiros, marcamos certos espaços como referências especiais. A casa, onde moramos, comemos e dormimos, a rua, onde trabalhamos e lutamos pela vida. Mas a esses espaços, onde convivemos com parentes, amigos e colegas de trabalho, devemos somar um outro, não menos referencial e crítico. Quero referir-me ao espaço do “outro mundo”, essa área demarcada por igrejas, capelas, ermidas, terreiros, centros espíritas, sinagogas, santuários, oratórios, templos, cemitérios e tudo aquilo que faz parte e sinaliza as fronteiras entre o mundo em que vivemos e esse “outro mundo” onde, um dia, também iremos habitar”
(p. 57)

Vê-se aí, portanto, descrito o cenário religioso brasileiro, país onde católicos, protestantes, judeus, islâmicos, macumbeiros, budistas, entre outros, podem co-habitar harmonicamente, dadas as condições sociopolíticas favoráveis típicas de um estado laico. Não quero com isso dizer não haja manifestações de intolerância no Brasil, mas que há, institucionalmente, instalada uma consciência da necessidade de combater a intolerância e garantir a liberdade de expressão, também no domínio religioso. Política e religião ocupam esferas distintas, ainda que a Igreja Católica influencie os aspectos social, cultural e político do Brasil. É consabido que, a despeito da grande variedade de religiões existente nesta terra, o catolicismo é a religião predominante. O Brasil é considerado o maior país católico do mundo, com 73, 8% de seus habitantes que se declaram católicos.

Quanto aos ateus, o IBGE registra ser o Rio de Janeiro o primeiro estado brasileiro a abrigar o maior número de pessoas sem religião; à Bahia, reserva-se o lugar de terceiro estado. Só em Salvador são 18% da população, o que lhe confere o primeiro lugar entre as capitais brasileiras com um número grande de pessoas que não professam religião alguma. Em todo território nacional, a ausência de crença e prática religiosas é mais frequente entre homens e entre pessoas com menos de 55 anos. Na verdade, exprime-se aqui a realidade de pessoas que admitem não seguir religião alguma, o que inclui não só ateus, mas também agnósticos e deístas (que embora acreditem que Deus exista, não acreditam que ele está comprometido com a vida do mundo). Parece que o número de ateus no Brasil chega a 3% da população.

Há uma diferença determinante entre ateus e teístas: aqueles não se interessam em doutrinar ninguém, em angariar adeptos; não vão às casas das pessoas para falar-lhes sobre as fortes razões que os levam a sustentar a inexistência de qualquer divindade.
Por isso, eu afirmo que, enquanto a sua religiosidade, caro leitor, estiver satisfazendo o seu bem-estar psíquico e humano, bem como as suas necessidades de amparo e proteção, proceda segundo o seu coração. Não o reprovo por isso. Todavia, não se negue a, ao menos, dar ouvidos à razão.
A prática religiosa me enfadava, me inquietava intelectualmente. Lembro a ocasião em que o padre da igreja que eu frequentava censurava a exibição, numa novela da Rede Globo, de duas personagens que formavam um casal de lésbicas. E, em seu discurso, ao considerar o homossexualismo, ele dizia que Deus não é contrário ao “pecador” (no caso, ao homossexual), mas ao “pecado” (no caso, ao homossexualismo). Podemos criticar essa forma de censura, rejeição, por um apego a um moralismo estreito e conservador, herança de uma cultura profundamente autoritária, de duas maneiras.
A primeira delas com um argumento empírico. O homossexualismo é uma das formas de expressão natural da sexualidade. Portanto, o homossexualismo, enquanto comportamento sexual em homens e em mulheres, está em consonância com a ordem das práticas sexuais na natureza. E eu o provo, citando os casos de relações homossexuais na espécie de golfinhos nariz-de-garrafa, gaivotas, besouros, gansos, bonobos (espécie de macaco), macacos japoneses, peixes-mexerica, etc. É interessante notar que as práticas homossexuais cumprem diversas funções na vida comunitária dessas espécies. Entre os macacos japoneses, por exemplo, a atividade homossexual serve para resolver conflitos, amenizar tensões ou mesmo pedir desculpas

A segunda maneira exigir-nos-á participar, por algum momento, do delírio religioso. Abrindo um parênteses, por delírio, num sentido genérico, consoante se lê em Dicionário básico de filosofia, entende-se “ desordem mental da personalidade (temporária ou crônica) caracterizada por uma forte confusão das ideias, falsas interpretações e desvios de percepção, acarretando uma conduta irracional ou irrazoável”.  O delirante assume um padrão desviante da realidade, aproximando-o de um louco. O louco cria um universo que lhe é próprio e coerente, muito embora incompatível com o padrão da realidade consensualmente aceita pelos outros indivíduos de sua sociedade. Todavia, devo reconhecer que as religiões se fundam num delírio e não propriamente numa loucura. O psiquiatra e filósofo Karl Jaspers foi o primeiro a estabelecer critérios para definir o delírio, que é uma falsa crença. Para ele, todo delírio se caracteriza por: a) certeza (respaldada numa convicção inabalável); b) incorrigibilidade (não suscetível à mudança por meio de contra-argumentação); c) impossibilidade ou falsidade de conteúdo (implausível, ou pateticamente inverídico).

Há, todavia, controvérsia em se assumir que posturas religiosas, como propalar a crença na existência de Deus seja uma evidência de delírio, já que, para alguns, essa crença não pode ser falsificável. Falsificável, não empiricamente, eu diria, mas sim racionalmente. Mas isso é matéria para outro texto. Creio que, de qualquer modo, os critérios estabelecidos por Jaspers se afinam com as atitudes dos religiosos e autoridades religiosas. Muitos estão seguros da veracidade de sua crença; muitos resistem à contra-argumentação e às evidências que tornam essa crença pouco sustentável; e muitos mantém seus argumentos frágeis ou irracionais.
Supondo, então, que Deus exista e que ele foi o responsável pela existência do mundo e de tudo que existe nele, incluindo os seres humanos, por quem Deus tem certa predileção (embora continue deixando que milhares de pessoas inocentes experimentem um sofrimento aterrador, ou morram em catástrofes naturais), raciocinemos: sendo Deus o responsável pela criação do universo, da vida em suma, e sendo ele onisciente, ele então é o único responsável pelas diferentes formas de os homens experimentarem sua sexualidade. Quero dizer, ele criou seres humanos capazes de ter experiências sexuais variadas. Sabe-se que, diferentemente de outras espécies de animais, os seres humanos são os únicos que possuem mais zonas erógenas em seu corpo. Uma dessas zonas é o ânus. Quero dizer mais: o homossexualismo deveria ser um comportamento inscrito por Deus em nosso organismo, pelo menos em potência. E ele não poderia culpar os seres humanos que se desviassem de um comportamento sexual aceitável para ele mesmo (supostamente o heterossexual), sem que antes reconhecesse a sua culpa também. Ora, bastava que ele criasse homens e mulheres com alguma forma de restrição natural, biológica, que proibisse os organismos de manterem entre si relações homossexuais. Isso não se verifica nem entre os animais, nem entre os humanos. Como lemos, a natureza nos fornece fartos exemplos de conduta homossexual.
Vamos um pouco mais adiante. A ignorância eclesiástica extrapola o bom-senso. Práticas como o homossexualismo e a bissexualidade eram comuns entre os nossos ancestrais. Também comum era o travestismo. Em História da Sexualidade, lemos o seguinte:

“ Em algumas tribos do sul da África, caso atual de Moçambique, certos homens eram sistematicamente vestidos e tratados como mulheres. Às vezes essa prática expressava um excesso de indivíduos do sexo masculino e a consequente necessidade de prover pessoas para o trabalho caracteristicamente “feminino”, embora tivessem nascido homens. Mas atrelada a ela havia também significação sexual e espiritual. Em Moçambique, alguns meninos tratados como mulheres enfeitavam-se com seios de madeira para entreter os homens e eram vistos como detentores de poderes mágicos. Mais raramente, as meninas podiam ser incumbidas de vestir-se e agir como homens. A bissexualidade praticada abertamente também eram comuns. (...) Vale dizer que havia grande variedade de regiões para região, o que complica qualquer tipo de generalização, mas, ao que parece, muitos grupos de caçadores-coletores não impunham limites estritos entre o que chamaríamos de características e comportamentos heterossexuais e homossexuais, e demonstravam fascínio pela sexualidade e pelo poder que acompanhava a capacidade de combinar aspectos sexuais de ambos os gêneros. Embora a arte relevante geralmente retratasse atividade heterossexual, em lugares como a Scicília há também gravuras em rochas com cenas homoeróticas”
(pp. 24-25)

O autor, Peter N. Stearns, reportasse ao tempo dos homens que viviam da prática de coleta e caça, portanto, anterior à descoberta da agricultura, surgida entre 9.000 e 5.000 anos a.C.
As transformações socio-políticas, culturais e econômicas geraram efeitos restritivos sobre a sexualidade. E, evidentemente, dependendo da cultura, os povos criaram mecanismos de repressão maior ou menor à sexualidade. Nesse tocante, historicamente, as religiões, particularmente, as grandes religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo) exerceram (e exercem) uma grande influência no sentido de impor proibições/ restrições às práticas sexuais humanas. Historicamente, nas comunidades agrícolas, a sexualidade sofrera restrições, por estar intimamente relacionada à procriação, embora não estivesse totalmente apartada do prazer, visto que era útil controlar a natalidade. Evidentemente, ter muitos filhos implicava, naquelas condições de vida, um fardo pesado demais. Mais da metade de recém-nascidos morriam ao completar dois anos.
O que parece claro é que as comunidades buscavam formas para administrar a tensão entre o instinto de prazer e a razão, necessária às atividades de subsistência. As restrições advinham, em geral, das necessidades de sobrevivência, embora também se verificassem crenças e atitudes, aparentemente, sem fundamento, como as que prescreviam que as mulheres, após a menopausa, deveriam abster-se da atividade sexual.
Em suma, o processo civilizatório por que passou a humanidade – um processo ininterrupto ao longo do qual se inscreve a barbárie – gerou diversas transformações na sexualidade, sempre no sentido de reprimi-la, em épocas marcadas por um conservadorismo maior, e de orientá-la segundo padrões moralmente aceitáveis. É a luta constante pelo controle de um instinto natural que deve amoldar-se às formas de vida civilizada. Daí o espanto para alguns de nós ao saber que, na Holanda, o sexo em praça pública é legalmente autorizado, nos horários estabelecidos para cada parque.

O que faz o nosso padre então. Ora, ele usa como critério uma ideia ou ser criado pela sua imaginação – Deus – para a rejeição de uma prática sexual (o homossexualismo), ignorando duas coisas: uma é a ideia de que, ao fazê-lo, responsabiliza o próprio Deus, tacitamente, culpando-o; a outra ignora as evidências de que a sexualidade humana é diversificada e complexa e de que atividades homossexuais são comuns entre muitas espécies de animais. E não foi Deus que criou a Natureza? Enfim, tudo que é natural no mundo?
Descontando a ignorância de ordem empírica, o nosso padre se trai com a própria doutrina que ele trata de entulhar na cabeça dos seus paroquianos: segundo a doutrina, Deus criou os homens e, portanto, os preparou para a atividade sexual (donde se segue ser um contra-senso dizer que o sexo é pecado) e esse mesmo Deus é onisciente e onipotente, logo ele sabe que os homens tendem a experiências sexuais variadas e tinha o poder de ‘inscrever’ no organismo humano algum tipo de restrição ou mecanismo restritivo de práticas homossexuais. Mas Deus, ao que parece, sequer se importou com isso. E por que deveria ele se importar com o que nós, homens, fazemos na privacidade de nossos quartos?
Esse exemplo constitui apenas um dos muitos casos que provocaram meu desagrado e descontentamento como homem de religião. Outras razões para o meu abandono é de ordem empírica e doutrinária. O dogma da Santíssima Trindade é ilógico, bem como irracional é a crença em que Jesus morrera na cruz para nos salvar (essa relação entre morte e salvação, nos termos cristãos, é racionalmente nefasta). Jesus, aliás, sequer morreu lutando para libertar seu povo da opressão. Então, sua morte não representou salvação de nada. A ideia de um pai que entrega seu único filho “amado” para morrer, por meio da forma mais hedionda de punição, que era a crucificação, naquele tempo, é, para mim, repugnante. Que salvação tivemos? Cristãos foram perseguidos, mortes, genocídios aconteceram nos anos e nos séculos posteriores, conflitos em nome da fé foram deflagrados; duas Grandes Guerras Mundiais ocorreram no início do século XX e ainda hoje continuamos a guerrear, e muitas de nossas guerras têm motivação religiosa. Na base de tudo isso, está a ignorância, que não foi extinta pelos mártires que professaram suas crenças no sobrenatural, e que continuará sendo um desafio para toda a humanidade. Devo lembrar que a igreja católica, ao longo da história, ou concentrou em suas mãos o poder explorando o povo ou esteve aliada ao poder tirânico?
O Cristianismo é a religião da culpa e da proibição. É o sentimento de culpa que mantém os seus fiéis vinculados à sua religião. Essa relação entre culpa e devoção é perniciosa, porque avilta e provoca a submissão.
Outra ideia absurda é a que somos pecadores porque um personagem fictício atentou contra a vontade de Deus. Toda uma geração de inocentes paga pelo “erro” cometido por um personagem imaginário. O pecado é o alicerce das religiões monoteístas, entre as quais o cristianismo. Daí vem todo o rebaixamento do ser humano, seu aviltamento, sua desvalorização, sua depravação e sua necessidade de ascensão, nunca completa e satisfatória, a Deus.
E podemos diagnosticar outras neuroses, como a obsessão pela aniquilação, comum a certas pessoas de fé que crêem na iminência do fim dos tempos. Há, entre muitos religiosos, um sentimento tácito de satisfação ao crer que um dia o mundo acabará (embora isso seja cientificamente uma possibilidade para daqui a alguns milhões de anos) e que esse fim é iminente. Há também a supervalorização de uma realidade transcendente (o Céu, o paraíso) em detrimento do mundo, lugar de pecado, tentação e sofrimento, e morada do mal.
Outra neurose é o apego ao ideal de perfeição. Isso leva alguns a dizerem copiosa e enfadonhamente que os homens são imperfeitos. Isso os leva a rejeitar o humano em si mesmos, a aceitar sua própria condição de seres humanos. Ora, o que é ser perfeito? É não ter ciúmes? Inveja? Raiva ou ódio? É não ser egoísta? Narcisista? Guloso? Avaro? É nunca poder errar? Então, realmente não somos perfeitos e nunca chegaremos a essa perfeição, simplesmente porque perfeição é a negação da própria condição humana; em suma, perfeição é impensável em padrões intelectuais humanos. Perfeição, portanto, em sendo um valor ideal, é inatingível e simplesmente não existe. É fruto de uma neurose, uma obsessão. A dignidade humana está em lidar com aqueles sentimentos e comportamentos que todos nós, em maior ou menor medida, temos e em aprendermos a conviver uns com os outros, a despeito deles. Podemos ser egoístas, mas somos fiéis e honestos; podemos ser teimosos, mas somos generosos; podemos sentir raiva, mas somos capazes de perdoar; podemos perder a paciência, mas demonstramos zelo.  Aceitar o humano é aceitar tudo isso; aceitar nossa próprias contradições, nossos próprios conflitos.
Você só aceitará o humano em si mesmo quando reconhecer que pode errar, que não tem de agradar sempre e que não mais se culpa por não conseguir ser “perfeito”, como uma obra de arte irretocável produzida por um gênio artístico reconhecido.
Ser ateu foi, para mim, aceitar que eu sou a medida do que eu sou, e ninguém nem uma autoridade sobrenatural imaginária determinará o que fui, o que sou e o que serei. EU EXISTO PLENAMENTE EM MIM MESMO. Quero dizer: meu espírito e coração não estão além de mim, estão aqui, onde devem estar: em mim mesmo.





sexta-feira, 22 de julho de 2011

Somos o que lemos...


                                                                                                              Somos o que lemos
     E quanto nos reconhecemos


De chofre, um pensamento deteve-se em minha alma: o que lemos revela muito o que somos. E creio não enfadar o leitor, se eu lhe disser, mais uma vez, que este texto resulta da confluência de alguns pensamentos ao meu coração, no momento em que, como de costume, detinha-me na leitura de alguns livros.
Custa-me, neste momento, domar os pensamentos e o entusiasmo; aqueles, indisciplinados, parecem digladiar-se por um lugar no papel; este comove-me a alma a não protelar mais as palavras que, agora, vão tomando forma. Manterei, contudo, a serenidade para que os pensamentos não me saiam atropelados, atabalhoados ou embaraçados. Uma parada ou outra no dicionário é necessária para me certificar da exatidão de minha expressão.
Retomo a tese, em itálico, anunciada acima. Intento escrever sobre minha relação com os livros, ou, mais propriamente, minha relação com a leitura; e me esforçarei por entender como o que leio toca-me intimamente, ou, se o preferirem, toca a minha personalidade.
Começarei externando uma crença – talvez, possa parecer falsa, ou um disparate, ou um preconceito (no sentido positivo – ou seja, um prejulgamento que pode não corresponder aos fatos). Todavia, escusar-me-ei de excessivo cuidado, já que mentes mais brilhantes já produziram despautérios. A crença se expressa nesses termos: é possível que as pessoas que buscam auxílio psiquiátrico sejam pessoas dotadas de maior profundidade psicológica. Que entendo eu por “profundidade psicológica”? Entendo a qualidade daqueles que são emocionalmente mais densos, intensos e intelectualmente mais inquietos. Inquieto me parece uma palavra adequada, porque nos permite inferir a negação do conformismo, o sentimento de revolta que, como tal, busca estender a justiça a todos. Revoltado não se confunde com ressentido; este quer que o mal que sobre si recaiu recaia também sobre o outro; o revoltado, ao contrário, ao negar o status quo busca converter as condições de injustiça em condições mais justas, portanto, favoráveis a toda uma comunidade.
É possível que me repliquem, argumentando-se que as pessoas psicologicamente mais ‘profundas’ são as mais frágeis e que, portanto, a fragilidade psicológica é que leva essas pessoas às sessões de análise. Decerto, a fragilidade é consequência dessa profundidade, visto que essas pessoas absorvem mais a vida, não vivem à sua superfície. No entanto, minha crença, ainda que não atestada, por isso mesmo, chamo-a de hipótese, é respaldada em observações corriqueiras. Por exemplo, há pessoas que, por serem tolas, sequer cogitam da ideia de que precisam de análise (embora precisem) e passarão a vida toda supondo que ir a um/uma psiquiatra é uma necessidade dos fracos, fragilizados e sensíveis. Mas, convém inverter essa relação: ir a um/uma psiquiatra, uma vez reconhecida a necessidade, é próprio dos fortes e corajosos, pois estes não evitam o confronto consigo mesmos. Esse confronto é o confronto com o seu próprio absurdo, com o seu próprio escuro, obscuro, desconhecido. Na análise, o paciente se revela a si mesmo, se reconhece; faz aparecer à consciência alguém que ficara esquecido, como num quarto escuro pequeno e úmido.
De qualquer modo, a ajuda de uma psicóloga ou psiquiatra é, decerto, muito proveitosa e indispensável no momento em que nossa inquietude intelectual nos põe diante de um abismo: a consciência de que existimos, de que fomos arremessados à existência, ao nascer; enfim, a consciência do seu absurdo. E absurdo aqui, devo insistir – porque é palavra muito repisada nos discursos vulgares – é, no sentido existencialista, a impossibilidade de a existência dos homens e do mundo ser justificada racionalmente, bem como a impossibilidade de que tenha um sentido. O absurdo nos afirma: você existe. E, de repente, reconhecemos este fato. O assombro acompanha-se de uma questão “O que fazer?”. Assumir a completa liberdade, diria Sartre, porque “estamos condenados a ser livres”. O absurdo faz o mundo cair sobre nós. E, a menos que façamos algo a respeito, continuaremos a levá-lo sobre as costas durante toda a nossa breve vida.
É claro que as experiências em que nos envolvemos modificam-nos de algum modo; seus efeitos podem ser negativos ou positivos; entretanto, o que nos importa mesmo é o modo como reagimos a esses efeitos. Todas a experiências confluem para que alcancemos um amadurecimento maior, mesmo aquelas que, durante um breve período de tempo, tenham nos alegrado, mas que, passado esse tempo, já não possamos delas desfrutar. É o movimento da vida incessante; e nesse ir e vir de pessoas, instantes, situações, circunstâncias, emoções, desejos, paixões, amores, o desafio que nos impõe a vida é a de permanecermos intactos. Em outras palavras, o que somos deve permanecer, a despeito do devir, a que Heráclito sustentou com seus pensamentos.
Percorri até aqui um caminho, aparentemente, desviante da questão principal, sobre a qual decidi me debruçar, a saber, a minha relação com a leitura. Nossa relação com a leitura também passa por um amadurecimento, que, na realidade, depende do nosso amadurecimento. Mas é preciso reconhecer a leitura como uma experiência dentre as outras. Essa experiência, ou melhor, a forma dessa experiência, a sua complexidade, variará à medida que crescemos, que aprendemos, que lemos mais, que tornamos nossa socialização mais enriquecedora culturalmente. Por exemplo, a criança que toma gosto pela leitura, desde cedo, cultiva a sua imaginação, experiencia um "mundo" fantástico, desenvolve sua criatividade, reconhece no livro o seu universo infantil. Na (pré-)adolescência, é o mistério, a aventura, a descoberta, as inseguranças típicas dessa fase que podem atrair o jovem à leitura.
A escola e a universidade desempenharão, evidentemente, um papel fundamental na orientação de nossas leituras. É quando tomamos contato com os clássicos da literatura, com textos mais complexos e variados. Entretanto, muito do que lemos nesses espaços são exigências curriculares. Não estou interessado aqui em pensar na leitura feita por alguma espécie de exigência.
Já insisti, em outras ocasiões, que ler deve ser encarado como uma necessidade. A leitura preenche uma carência, a saber, a carência de conhecimento. Se pudermos escolher o que queremos ler, essa carência torna-se a satisfação de um prazer.
Eu tenho prazer enquanto leio. O que leio me acalenta, me atrai irresistivelmente; há paixão quando leio; há desejo inelutável de me apropriar do conhecimento que outras mentes estão a me proporcionar. Não se conclua daí que eu seja um leitor passivo, porque, ao ler, questiono, faço observações junto ao parágrafo ou no rodapé da página; grafo um sinal de interrogação, ou mesmo fico especulando (falando comigo mesmo), como se eu estivesse debatendo o tema diante de um auditório. Portanto, eu interajo com o autor. Trata-se do que se costuma chamar de agente-leitor.
O que os livros revelam sobre nós? Devo reconhecer que, toda vez que entro numa livraria, ou compro livros pela internet, eu já tenho em conta quais os livros que quero comprar. Alguns títulos me aparecem em livros que estou lendo; às vezes, não dispondo dos títulos, recorro aos livros pelo tema com que me deparo. E os temas, em geral, me inquietam.
Junto a mim tenho, agora, os seguintes livros, alguns dos quais comprados recentemente:

Ateísmo e Revolta – Os manuscritos do padre Jean Meslier (autor: Paulo Jonas de L. Paiva)

Evangelhos Perdidos – As Batalhas pela Escritura e os Cristianismos que não chegamos a conhecer (autor: Bart. D. Ehrman)

Histórias Íntimas – Sexualidade e erotismo na história do Brasil (autora: Mary Del Priore)

História da sexualidade –  (autor: Peter N. Stearns)

História da sexualidade (vol.2) -  (autor: Michael Foucault)

Eros e Civilização – uma interpretação filosófica do pensamento de Freud – (autor: Herbert Marcuse)

Não custará ao leitor reconhecer que as obras elencadas aqui versam sobre dois temas que me são caros: religião  ou a sua negação (ateísmo) e a sexualidade. Dois fenômenos que tocam a mim de modo muito peculiar; aliás, temas que são recorrentes nas sessões de análise, que o digam os psiquiatras. E devemos reconhecer-lhes o peso: a busca por uma justificação sobrenatural de nossa vida e o desejo de experienciar uma sexualidade plena, sem o peso da repressão, ou seja, o desejo de proteção transcendente e o desejo sexual devem ser legitimados, muito embora, infelizmente, este último sucumba às tolices doutrinárias na base das quais aquele se sustenta.
Acrescidos a estes livros, estão outros que versam sobre o feminismo. Meu interesse era entender as reivindicações e conquistas da mulher. E um deles, intitulado de A volta da Deusa – Feminismo e religião, merece ser citado pela sua relevância. Trata-se de um livro que inclui temas como misogenia e suas variedades, a homossexualidade e a religião, bem como a polaridade dos sexos; as fronteiras da pornografia; a história do beijo, entre outros.
Sinto-me, às vezes, distante do universo masculino, pelo menos naquilo que ele tem de mais grosseiro e instintivo. Eu já escrevi ter uma alma feminina, se é que isso signifique alguma coisa. Veja-se, a propósito, o que nos ensinam sociobiólogos a respeito da natureza da sexualidade humana. Em A História da sexualidade (2010), lemos na Introdução o seguinte:

“Os sociobiólogos acrescentariam alguns outros elementos básicos à sexualidade humana. Eles apontam que, como outros animais, existem significativas diferenças de gênero. Alguns afirmam que os machos, constantemente produzindo novas quantidades de esperma durante seus anos férteis, são “naturalmente” propensos a ter mais relações sexuais, com o maior número possível de parceiras diferentes, para espalhar sua herança genética; já as mulheres, por outro lado, com um estoque limitado de óvulos e o fardo de ter de carregar o filho antes do nascimento, acham importante limitar seus parceiros e se empenhar para assegurar a estabilidade de sua prole. De acordo com esse argumento, existe uma distinção inata, que também terá implicações sociais: homens mais ávidos, mulheres mais reticentes.”
(p. 12)

Pensemos na questão sem o peso de nossa herança de valores, preceitos morais e preconceitos (embora isso seja quase impossível). É claro que a sexualidade é atravessada pela dimensão biológica e socio-cultural. O longo processo civilizatório do homem, como, aliás, já o havia notado Freud, trouxe complicações para a sexualidade humana. Sabe-se que a cultura se torna possível senão pelo sacrifício do instinto ou impulso de prazer no homem. Para Freud, a cultura coage tanto sua história social como biológica. Assim, a história do homem é entendida, pelo pai da psicanálise, como a história de sua repressão.
Mas essa explicação sociobiológica dá conta de toda a dimensão da sexualidade humana – uma dimensão complexa, já que envolve não só apetite, mas afetividade, desejos mais íntimos, como o de proteção, cuidado, cumplicidade, companheirismo, além, é claro, das formas sociais, antinaturais e irracionais de interdição/ repressão? É certo que muitos homens, talvez, sejam protótipos do comportamento sexual masculino, segundo a explicação que dele dão os sociobiólogos, e não há por que fazer qualquer avaliação negativa nesse tocante. Desde que o sexo seja consentido, não me oponho a relações sexuais determinadas pelo imperativo da libido. Se apenas os corpos estão de acordo e os corações cientes desse acordo, que celebramos o prazer sexual! E aqui calemos as histerias religiosas com a lição do padre ateu Meslier. Quem desejar conhecê-la leia o livro. O que nos lembram os estudiosos é a importância de reconhecer o domínio do sexo: no corpo, na libido; as complicações surgem quando a alma se intromete, quer por estar imersa em ideias exorbitantes, quer por estar coagida, confusa e conflituada pelo peso de preceitos morais conservadores.
O que esses livros revelam sobre mim? Um desejo de liberdade, de libertação, de calar a infelicidade que me legou meu coração, de ser mais de mim mesmo, de ser eu mesmo meu próprio destino, sem subterfúgios nem ilusões da perpetuação de nossa infantilização.