
Eu tenho horror à mediocridade. Do
latim mediocritas.atis,
“mediocridade” quer dizer meio, medida e diz-se das pessoas que carecem de
talento ou têm pouco valor. Se restava algum receio de que um dia os idiotas
viriam a dominar o mundo por se sobressaírem aos demais homo sapiens em quantidade, me
parece inegável admitir que os medíocres são suficientemente numerosos para
constituírem verdadeiros impérios. A maior parte da humanidade é medíocre –
isso me parece estar fora de questão! E os 7,7 bilhões de pessoas que ocupam o
globo terrestre são cosmologicamente irrelevantes. Cada novo indivíduo que
nasce para integrar esse quantitativo de irrelevância cosmológica é um mero
acidente. No entanto, tanto os idiotas, que são, de fato, bastante numerosos,
quanto os medíocres, cuja quantidade quiçá seja ainda maior, são ou ineptos
demais ou covardes para atingir tal nível de lucidez.
Meu horror à mediocridade como modo de
vida se deve ao fato de que o medíocre é como um camelo cuja vida é limitada a
carregar carga; no caso dos medíocres, a carga é a da tradição, dos costumes,
dos valores e modos de pensar com os quais se habituaram e os quais se limitam
a reproduzir por força das condições socioculturais em que nasceram. Como
esteja submetida às maneiras comuns como vivem e pensam os indivíduos
pertencentes a um grupo ou sociedade, a vida medíocre é uma vida à qual falta
uma liberdade mais fundamental: a liberdade
do pensamento (e não de pensamento!).
Os medíocres podem até se crer livres e podem até o ser do ponto de vista
político-jurídico, mas não o são num nível mais elementar, porque vivem e se
comportam como membros de rebanhos. Os medíocres são animais de rebanho. Por
isso, não é de admirar que se tornem facilmente aduladores de uma personalidade
carismática, como a de um líder político, e passem docilmente a defender, com
unhas e dentes, essa personalidade, por mais estúpida que ela seja, acreditando
estar assim exercendo seu papel como membro de uma comunidade política. Que a
política seja inevitável para a garantia da coexistência dos homo sapiens não resta dúvida,
mas a política traz em si um grande perigo, qual seja, o de reforçar e animar,
com frequência, nossa tendência instintual e primitiva para sermos animais de
rebanho. O animal politikón é,
naturalmente, um grex animalis.
(...)
Meus estudos sobre a obra de Cioran me
permitiram compreender melhor esse pensador... Posso dizer, seguramente, que,
hoje, compreendo melhor seu pensamento do que há alguns anos. E, mais do que
compreender o pensamento de Cioran, encontro-me em ressonância de sentimento
com o modo como Cioran sente a vida e experiencia o mundo. Esse místico sem
deus recusou qualquer forma de salvação e confessou ter compreendido o
Essencial. Tendo atingido tal grau de Lucidez, Cioran deu adeus à filosofia.
Não porque teria se tornado sábio, mas porque a filosofia, para ele, tendo
procurado dar razão, apresentar justificação, deixou de ter importância. Cioran
reconheceu o Insolúvel. Sinto-me mais aparentado ao pensamento cioraniano.
Também eu chego à conclusão de que compreendi o Essencial. O Essencial beira o
inefável, mas vale o esforço por dar-lhe um investimento verbal. O Essencial
significa reconhecer que o nada é primordial, que, por isso, no fundo, tudo é
nada, ou seja, o ser é nada. Eros ou a vida se faz; a consciência é derivada.
(...)
O poeta que um dia ousei ser está
morto. Mas me crer poeta me parece hoje exagerado... uma petulância. Nunca fui
verdadeiramente um poeta. Meus poemas são sintomas de uma doença, são abortos
de um tempo remoto em que eu cultivava o adoecimento. Estranhamente, porém,
tenho saudade desse tempo cadavérico. Eu cultuava o sofrimento, hábito que
agora me parece pueril e irrelevante. Quiçá o cultuava porque o sofrimento
tinha certo gosto epifânico. O que se me revelava nesse doentio hábito? A
estética da profundidade, abismos psicológicos...
Eu sempre nutri uma aversão às vidas
superficiais, aos modos de viver das superfícies... Outrora, sentia-me
deslocado, descompromissado com minha época, com esta forma histórica da
modernidade que a tudo superficializa, que transforma o trivial em produto de
consumo, que espetaculariza o cotidiano para o deleite de um rebanho
espiritualmente anestesiado (hoje, em face dessa maciça espetacularização da
realidade, característica marcante da modernidade tadia, experimento enfado nauseante...).
Quando à lembrança me vêm como fumaça os escritos que destilavam tão
impertinente lirismo, não consigo esquivar-me de me perguntar o que pretendia
eu, tendo sido muito ingênuo – até mesmo ridículo – com eles? Ser compreendido... Talvez, a única
pessoa que deveras me compreendeu até hoje tenha sido minha terapeuta... Mas,
que importa isso agora? Já não sou mais aquele paciente padecente das misérias
de um lirismo exacerbado e inapropriado, porque démodé.
Embora habituado a frequentar a orla
dos abismos, embora tendo sido absorvido num tormentoso infernal abismo,
consegui assomar à superfície e pôr-me a caminhar na companhia de todos os
riscos...
Meu ingresso formal na vida filosófica
constitui um marco em minha biografia (se é que posso chamar assim uma
existência tão comum e banal que sequer foi narrada)... A filosofia operou uma
transformação radical em meu modo de ser... Isso soa como um clichê, mas não
deixa de expressar uma experiência subjetivamente decisiva... A filosofia me
desvirginou, libertou-me da escravidão da inocência... Tornou-me mais
aborrecido, mais enfastiado... Tendo sepultado o último facho de fé, expôs-me o
fétido sepulcro de Deus.
Ainda não chegou o tempo em que poderei
lograr o privilégio de dar adeus à filosofia, tal como o fez Cioran... Se bem
que a filosofia de gabinete, a filosofia sistemática praticada com fins
puramente acadêmicos não me interessa... A filosofia nasceu da mais íntima e
profunda necessidade humana de fazer ruído no vasto silêncio imperturbável de
um universo indiferente... A institucionalização da filosofia é sua enfermaria.
Pausa:
Escreve Baudelaire:
“Há
momentos da existência onde o tempo e o entendimento soam mais profundos, e o
sentimento da existência ampliada imensamente.”
“Levar
sua lucidez até o êxtase” – pontua Camus. Isso me parece inconveniente,
terminantemente dispensável...
Ao concatenar esses apontamentos
eivados de vivências impressionistas, não pretendo eu fazer-me compreender...
Jamais se totaliza, se esgota o sentido; quanto mais se diz mais se silencia,
mais se fazem aberturas, sulcos cavos para os mal-entendidos, para as
incompreensões, para as inconsistências de toda sorte, para outros tantos
sentidos imprevistos... Dizer é sempre silenciar; é pontuar silenciamentos.
Por que devo temer o fracasso? O
fracasso nos humaniza, nos revela a miserabilidade de nossa condição humana...
Já fracassei tantas vezes... Depois de frequentar tantos filósofos, depois de
visitar e revisitar filósofos com cujo pensamento sinto-me mais aparentado,
tudo me parece, em última instância, insignificante, sem importância. Há uma
solidão visceral, mais íntima: a solidão da Lucidez – é preciso habitá-la; é ao
que nos convida Cioran. “O deserto
interior está sempre fadado à esterilidade”.
Eric Fromm admirou-se do fato de o
número de pessoas loucas não ser maior, já que a existência é um fardo terrível
– mas, se tivesse considerado a diferença entre a loucura de hospício e a
loucura normal, talvez reconhecesse que a maioria esmagadora dos homens é
fisiologicamente protegida contra os perigos da Lucidez e do Desespero total.
Para quem não está empregado, dizer que
se manteve ocupado com os livros soa a outrem afrontoso. As pessoas, em geral,
não veem o estudo como uma forma de ocupação, como uma forma de trabalho...
Acontece que nunca me relacionei com os livros como quem se relaciona com meros
utensílios... Nunca estabeleci com eles uma relação instrumental e esporádica.
Ler não é para mim um passatempo ou uma atividade a cuja realização me obrigo
para atender a certas exigências institucionais... Tampouco ler é um meio para
a obtenção de conhecimentos úteis segundo os padrões de organização de nossas
sociedades técnico-científico-informacionais. A leitura, tendo atingindo certa
maturidade, sempre se impôs como uma necessidade existencial, isto é, uma
necessidade que comporta a mesma pressão com que sobre mim recaem as
necessidades básicas da sede e da fome. Receio não conseguir externar
adequadamente, por meio de imagens, o que significa, para mim, a prática da
leitura. Sei, no entanto, que viver privado dos livros seria, para mim, uma
morte em vida. Encontrar-me-ia amputado de todos os meus membros, caso fosse
privado de frequentar os livros.
Custa-me – devo confessar – compreender
como podem tantas pessoas viver divorciadas dos livros... Não posso evitar de
considerá-las como animais de carga a arrastar uma vida empobrecida e supérflua
(ainda que, quando consideradas de uma perspectiva existencialmente radical,
todas as vidas são supérfluas!). Não obstante, cuido que aqueles que vivem
apartados da experiência da leitura são facilmente cativos das condições
históricas que, nutrindo de sentido as suas vidas, as submetem continuamente a
processos de normatização.
Certa feita escrevi, ainda num tempo em
que a inocência poética se me aninhava no espírito, que há sempre um livro entre mim e o outro...
Presunção de um diletante? Quiçá!
Não obstante, um testemunho de refinado
gosto.