segunda-feira, 8 de setembro de 2014

"O movimento do amor é este movimento de mãos dadas" (BAR)

                                             
                                                  


                                       Nietzsche e o amor



“As coisas que chamamos de amor – Cobiça e amor: que sentimentos diversos evocam essas duas palavras em nós! – e poderia, no entanto, ser o mesmo impulso que recebe dois nomes; uma vez difamado do ponto de vista dos que já possuem, nos quais ele alcançou alguma calma e que temem por sua “posse”; a outra vez do ponto de vista dos insatisfeitos, sedentos, e por isso glorificado como “bom”. Nosso amor ao próximo – não é ele uma ânsia por nova propriedade? E igualmente o nosso amor ao saber, à verdade, e toda ânsia por novidades? Pouco a pouco nos enfadamos do que é velho, do que possuímos seguramente, e voltamos a estender os braços; ainda a mais bela paisagem não estará certa de nosso amor, após passarmos três meses nela, e algum litoral longínquo despertará nossa cobiça: em geral, as posses são diminuídas pela posse. Nosso prazer conosco procura se manter transformando algo novo em nós mesmos – precisamente a isto chamamos possuir. Enfadar-se de uma posse é enfadar-se de si mesmo (Pode-se também sofrer da demasia – também o desejo de jogar fora, de distribuir, pode ter o honrado nome de “amor”.
(...) Mas é o amor sexual que se revela mais claramente como ânsia de propriedade: o amante quer a posse incondicional e única da pessoa desejada, quer poder incondicional tanto sobre sua alma como sobre seu corpo, quer ser amado unicamente, habitando e dominando a outra alma como algo supremo e absolutamente desejável. Se considerarmos que isso não é outra coisa senão excluir todo o mundo de um precioso bem, de uma felicidade e fruição; se considerarmos que o amante visa o empobrecimento e privação de todos os demais competidores e quer tornar-se o dragão de seu tesouro, sendo o mais implacável e egoísta dos “conquistadores” e exploradores; se considerarmos, por fim, que para o amante todo o resto do mundo parece indiferente, pálido, sem valor, e que ele se acha disposto fazer qualquer sacrifício, a transformar qualquer ordem, a relegar qualquer interesse: então nos admiraremos de que esta selvagem cobiça e injustiça do amor sexual tenha sido glorificada e divinizada a tal ponto, em todas as épocas, que desse amor foi extraída a noção de amor como o oposto do egoísmo, quando é talvez a mais direta expressão do egoísmo (...) Bem que existe no mundo, aqui e ali, uma espécie de continuação do amor, na qual a cobiçosa ânsia que duas pessoas têm uma pela outra deu lugar a um novo desejo e cobiça, a uma elevada sede conjunta de um ideal acima delas: mas quem conhece tal amor? Quem o experimentou? Seu verdadeiro nome é amizade.

(A Gaia Ciência, pp. 63-65)


Comentário:

Para esse fragmento de Nietzsche, pode-se propor o seguinte itinerário de leitura. Estabelecendo um diálogo com toda uma tradição sócio-histórica ocidental que construiu e disseminou representações coletivas do amor como sentimento desinteressado, libertário, divinizado, Nietzsche busca desconstruir o legado dessa tradição revelando o que ela oculta: a natureza cobiçosa do amor. Para Nietzsche, o amor é desejo ou ânsia de cobiça. Se aquela tradição opunha cobiça a amor, se ela considerou o amor como sentimento antagônico da cobiça, Nietzsche mostrará que o amor é, essencialmente, cobiça ou desejo de posse.
Cobiça e amor são nomes para o mesmo impulso. Todas as variações de amor, seja qual for seu objeto, são variações da cobiça. O amor é exercício de poder, é apoderamento.
Na condição de cobiça, o amor é, necessariamente, marcado pela fluidez, pela inconstância, pela instabilidade, pela insaciabilidade, pelo egoísmo. Nenhuma cobiça se satisfaz, por isso nenhum amor é satisfeito. O cobiçoso, ou seja, o amante se enfada do objeto de seu amor em pouco tempo e se apressa por possuir novos objetos, que passam a ser monopolizados por seu amor. O amor condena os amantes a essa busca motivada pelo desejo insaciável de conquistas, de propriedade.
A expressão máxima desse desejo de propriedade é, segundo Nietzsche, o desejo sexual. Por quê? Porque o amante quer possuir incondicional e permanentemente a pessoa amada. Ele quer habitá-la e dominá-la exclusivamente, e o faz na condição de ela ser absolutamente desejável e enquanto desejável.
Dessa habitação monopolizadora da alma e do corpo do outro, está todo o mundo excluído. Todo o mundo está privado da fruição e da felicidade dessa relação de propriedade. Aqui, segundo Nietzsche, reside a dimensão egoísta do amor (e também a raiz do ciúme, quando o amante desconfia de que outros investidores reivindicam o direito à propriedade também).
Para Nietzsche – cumpre notar – o amor, enquanto signo de subversão, também é uma forma de expressão de egoísmo. Quem por amor pretende subverter a ordem social, as normas vigentes o faz em nome de seus próprios interesses como proprietário de um capital amoroso.
Ao cabo, põe em dúvida o filósofo a possibilidade de experienciar uma forma mais elevada de amor, que, não deixando de ser cobiçosa, eleva os envolvidos e os conduz na construção de uma estrutura de relação que não é mais a de possuidor-objeto; mas de sujeitos que se reconhecem como possuidores e cobiçosos não mais um do outro, mas de um novo ideal: o da amizade.

(BAR)



Passeio

Lendo Nietzsche...
Ler é passear...
Passeio do espírito
Corporificado
Passeio palavreado
Movimento entretido

O movimento do amor
É este movimento de mãos dadas
Na banalidade da vida
No cotidiano comum dos enamorados
Devemos desejar alguém que passeie
Conosco
Que também conosco pense
Que contemple abismos
Onde costumeiramente se vê ponte
Estrada, desvio

Que não se ama mais como outrora
É coisa que se repisa
Já bem reconhecida, meditada
Que devemos nos proibir de dizer
Pois é certo que até mesmo o amor entedia
Os que de amor morriam
Pelo veneno da redenção
São páginas viradas
Ou esquecidas

Não obstante
Ainda se busca no amor uma felicidade impossível
Sem que se perceba que toda felicidade possível é a de um passeio
Necessariamente episódica e transitória

Toda felicidade que se quer perene é ilusória
Assim também é fracassado o amor que não se contenta
Num passeio a dois em solitária comunhão
Cegueira dos amantes: pretender que a perenidade caiba no passeio
Pretender que o amor os salve do seu destino intransponível:
O da transitoriedade
Que lê nas entrelinhas de suas almas
A vanidade de seus esforços
E o ridículo de sua teimosia
Em pretender que a felicidade lhes seja um direito.


(BAR)