sábado, 27 de julho de 2013

"O desejo não produz verdades" (BAR)

                                                    
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    Impressões de uma noite clara
      Quando o sentimento asfixia a razão



“[Algumas pessoas pensam que] você decididamente deveria deixar seu discernimento prático ser afetado por seus desejos. Infelizmente, a tendência humana a esse raciocínio estende-se até a metafísica. Já ouvi inúmeras vezes pessoas dizerem que seria intolerável se a existência do universo fosse um acidente sem sentido e a vida não tivesse nenhum objetivo nem importância maior; portanto, tem de haver algum significado para isso tudo. No mínimo com a mesma frequência, ouvi pessoas defenderem a crença em Deus com base na fato de que essa crença proporciona consolo. Também nesse caso, se eu lhes disser: “Mas pode ser que não haja mesmo nenhuma importância em nada; afinal de contas, sabemos que existem muitas coisas que não nos agradam, às vezes coisas que consideramos apavorantes como a tortura e a morte”, alguém estará propenso a responder, geralmente com raiva: “Você quer então que a vida não tenha sentido?”.

(ênfase no original, p. 36)


O excerto acima se topa no livro Confissões de um filósofo (2001), de Bryan Magee, que nos adverte de que a verdade independe do que desejamos que seja verdadeiro. Logo, a seguir, confessa-nos Magee:


“O estudo da história ajudou muito a desenvolver em mim um respeito pela verdade intragável. Ela me fez compreender com clareza a percepção de que a verdade nada tem a ver com minhas preferências ou com aquilo que eu considero que deveria ocorrer. Dizer que um determinado grupo de indivíduos não pode ter aterrorizado e trucidado milhões de outras pessoas, porque isso seria terrível demais de se imaginar, é simplesmente um erro cabal se na realidade eles o fizeram. E dizer que foi uma atrocidade não altera o fato em si. Uma realidade aterradora e horrenda não deixa de ser realidade por esse motivo; e mais, não há nada que possa fazer dela uma não-realidade. O pensamento desiderativo é incompatível com o pensamento sério, e qualquer um que se envolva com ele, está se recusando a participar da busca da verdade”.

(ib.id. grifo meu)


O que o autor entende por pensamento sério é o pensamento que, se desenvolvendo com argumentos rigorosamente articulados, segundo as exigências da lógica, não se deixa perturbar por nossos desejos, sentimentos, emoções. Um pensamento sério é o pensamento que não recua em face da crueza da verdade, em face do receio de que a verdade possa ser aterradora. A palavra “aterradora”, nesse caso, é já expressão do sentimento que nos provoca o enfrentamento de uma verdade. Esse adjetivo – “aterrador” – exprime uma valoração intensamente negativa sobre o referente qualificado.
Aprendi que os seres humanos e as bactérias possuem alguns genes que praticamente não mudaram desde o ancestral comum. O DNA do homem e das bactérias apresenta uma estrutura bastante semelhante. Sabe-se que o ancestral comum a todos os seres vivos provavelmente tenha sido parecido com uma bactéria. Também é bastante semelhante o DNA humano ao do chimpanzé.
Pergunto-me, reconhecendo não ser eu um especialista em biologia evolutiva, nem versado na seara da genética, por que aceito como verdadeiras as proposições acima referidas, quais sejam as de que compartilhamos com as bactérias uma grande parte do material do DNA e a de que os chimpanzés são nosso primos mais próximos, ou ainda por que aceito como razoável a suposição de que o ancestral comum a todos os seres vivos deve ter sido um organismo tão simples quanto uma bactéria, mas rejeito como falsas, como invencionices, embustes, crenças como a de que Jesus realmente ressurgiu dos mortos e ascendeu ao céu como um ser humano de carne e osso. A razão é evidente: posso esperar que as proposições  da biologia sejam passíveis de demonstração, possam ser verificadas, confirmadas; posso esperar que um biólogo me faça ver que elas descrevem verdades sobre o mundo. A palavra “evidência” significa “desvelamento”, “desocultamento”, “tornar visível”, “iluminar”, “dar a ver, a conhecer”, “remover o véu”. Evidências são aquilo que nos permite ver, que se revela. Por ser extremamente absurda, fantástica, ficcional, a crença na ressurreição de Jesus não é o tipo de coisa para a qual esperamos obter evidências; certamente não é um fenômeno previsto pelas leis da física; tal evento é extremamente improvável – para dizer o mínimo - , tendo em conta o que sabemos sobre o modo como o mundo funciona. Se não fosse a fé, o senso comum rejeitaria, sem relutar, essa crença esdrúxula, já que nossas experiências ordinárias nos dão testemunho de que os mortos são enterrados  e se decompõem. O que sobra são ossos que podem ser exumados.
São raras as ocasiões em que me surpreendo participando de debates calorosos sobre religião e fé; quase sempre não sou eu que dou ensejo ao debate, mas são os crentes que o fazem, o que não deixa de me ser agradável. Evidentemente, embora eu procure silenciar por certo período de tempo – talvez por saber, de antemão, a que desfecho levará a discussão (em geral, a discussão se encerra sob o peso sentencial do imperativo “religião não se discute” ou seu aparentado sugestivo “é uma discussão interminável”, que significa, na verdade, “é inútil levá-la adiante”), sinto-me impelido a externar minhas posições. A quarta-feira passada foi um desses dias em que se ensejou uma discussão sobre religião, fé, ciência e bíblia.
De modo geral, com algumas exceções, as evasivas, as fugas, o desencorajamento no modo como se constroem os raciocínios lógicos, o desinteresse no acompanhamento do curso argumentativo proposto pela parte polêmica são notáveis. Juízos de valor, que certamente são indissociáveis do uso da língua (é simplesmente ingênuo pretender “depurar” a linguagem de julgamentos de valor), acabam, não obstante, por preencher as lacunas deixadas durante o desenvolvimento do discurso apologético. Muita vez, por falta de um argumento válido ou sólido, os apologistas/crentes que insistem em conservar a suposta imunidade da religião ao debate racionalmente fundado, recorrem a juízos como “religião é importante”, “a fé faz bem”, “acho importante crer em Deus”. Note-se que tais enunciados, que exprimem atitudes valorativas, pretendem reduzir o debate a questões de preferências subjetivas, inclinações pessoais ou juízos de valor. Eles também servem para desencorajar do debate a parte conflitante. Também a importância da religião é passível de ser discutida, não necessariamente para rejeitá-la, mas justamente para melhor compreendê-la. O que não se pode pretender é que a importância seja colocada como parte de um subjetivismo a-histórico, transcendente, que se toma como um argumento (“eu acho importante, logo...) para garantir a importância reivindicada para a religião. Por outro lado, a insistência na importância da fé ou da religião sugere, ainda que implicitamente, que há um poder benéfico e intrínseco à fé do qual os que a abandonaram estão privados, não lhes restando senão um sentimento de desamparo. Esse pressuposto também é passível de discussão. Como se vê, muitos são os caminhos, as veredas, as bifurcações que se vão construído ao longo do debate; muitas são as direções que podem tomar o debate, a cada nova contribuição das partes envolvidas. Durante essa atividade, necessário se faz que os temas sejam devidamente discriminados e que suas articulações, as bases em que se apoiam, os argumentos com que eles se encarnam na discussão, sejam bem definidos.
Na quarta-feira, um caso particular me chamou a atenção. Quando eu exemplificava fenômenos que sinalizavam para imperfeições do mundo natural, que não se esperariam, caso houvesse um Designer Inteligente, um Ser perfeito e bom na origem do Universo, meu interlocutor lançou mão da seguinte analogia, que cito de memória: “o homem criou o avião, mas ele cai e, ao cair, pode provocar mortes”. Esse argumento pretendia refutar o argumento que lhe propus, segundo o qual, se o mundo foi criado por um Ser perfeito e bom, não deveria haver falhas, como as que se notam na acomodação das placas tectônicas. Essas falhas estão na origem dos terremotos, os quais causam desastres e ceifam vidas inocentes. Meu interlocutor não obteve sucesso e, portanto, seu argumento se demonstrou frágil ou ineficaz, porque se baseava no pressuposto de que o homem e Deus se equiparam como criadores. Acontece, contudo, que não pode ser esse o caso, sob pena de a ideia de Deus, tal como nos foi legada pela tradição judaico-cristã, perder qualquer significado. Podemos esperar que o homem, como ser imperfeito, portanto passível de cometer erros e dotado de capacidades limitadas, crie coisas que comportem falhas ou imperfeições; mas isso não se pode esperar de Deus. Deus, como criador é infinitamente superior ao homem, tanto como agente dotado de capacidades sobre-humanas, quanto como agente portador de conhecimentos necessários à realização de sua obra. A aparelhagem cognitiva e técnica de Deus é, se levamos em conta a crença em sua onipotência e onisciência, qualitativamente imensurável. Se podemos, portanto, esperar que aviões sejam falhos, já que seu criador é passível de cometer falhas, o mesmo não se pode esperar de um mundo supostamente criado por um Deus de que se diz ser perfeito.

(...)
Mas a Revolução Agrícola, que marca o início do período Neolítico, não parece ter representado, segundo alguns estudiosos, o avanço que nós, atualmente, acreditamos que foi. A Revolução Agrícola não levou ao aumento da felicidade humana. Se, por um lado, devemos à agricultura o sustento de populações maiores do que as que se beneficiavam com o modo de vida dos caçadores-coletores; por outro lado, ela não melhorou a saúde, nem potencializou a felicidade humana.
Por razões evolutivas, o aumento de populações é proporcional ao aumento de doenças que seus indivíduos podem desenvolver. Consoante nota Dawkins, em A grande história da evolução (2009), “um parasita fará menos questão de preservar a vida de seu atual hospedeiro se puder encontrar facilmente novas vítimas para infectar” (p. 47).
Não há dúvidas de que nossas mentes estão entre as coisas mais complexas que conhecemos. Eu diria que são as coisas mais complexas que conhecemos. Não admira, por isso, que haja pessoas que acreditem que nós devemos ser obras-primas produzidas por um Design Inteligente. Por falar em acreditar, reconheçamos a validade deste raciocínio: só podemos acreditar no que não sabemos; uma vez que sabemos, então não precisamos mais acreditar. A crença está onde o saber ainda não existe; uma vez que estejamos de posse do saber, não precisamos mais acreditar. A obviedade desse raciocínio pode ser surpreendente – que não haja dúvida disso! E será tanto mais coerente quanto mais adiante eu levar este texto. Mas essa coerência não se dá, sem o gesto interpretativo do leitor.
Um olhar cuidadoso sobre a vida e o modo como ela se tornou possível, por meio da evolução biológica, levar-nos-á a encontrar um grande número de ocorrências extremamente imprevisíveis, quando consideradas as alegações do Criacionismo. Sabe-se que o processo evolutivo é maciçamente extravagante e ineficiente. A seleção natural, que é o processo pelo qual se dá a evolução dos seres vivos – isto é, as diversas mudanças e adaptações graduais que eles foram sofrendo ao longo de gerações – opera segundo a lei de sobrevivência dos mais aptos, de tal modo que os inaptos, os que não se adaptam são descartados.
A evolução produz modificações gradativas em estruturas preexistentes, de sorte que ela lega aos organismos muitas funções inúteis, e até mesmo disfunções. Tome-se, por exemplo, o ser humano. Nos seres humanos, as aberturas da respiração e da deglutição são tão próximas que nós, com certa frequência, nos engasgamos. Mas a disposição de tais aberturas não precisaria ser de tal ordem, e é razoável que esperemos que não fosse, com base na suposição de que há um Ser racional, onipotente e bondoso na origem da Natureza. Veja-se também nosso apêndice. Atualmente, ele é inútil e está sujeito a infecções.
Quando acometido de alguma infecção, ele é removido cirurgicamente, já que não faz falta nenhuma. O canal de parto é muito pequeno, o que favorece o aumento de lesões, ou até mesmo a morte durante o parto. Ainda tendo em conta o fenômeno da evolução, é preciso reconhecer que quase todas as espécies que já viveram na Terra foram extintas. A cadeia alimentar é uma rede naturalmente estruturada de carnificinas. Cada museu de história natural é como um refugo de experiências que fracassaram. Se tivéssemos dado emprego a Deus, deveríamos lhe dar uma notícia desagradável, mas necessária: VOCÊ ESTÁ DEMITIDO! A ineficiência, a extravagância e a imperfeição são flagrantes quando nos dispomos a investigar os eventos da evolução biológica e elas se tornam mais razoáveis na suposição de que existe um mecanismo causal e cego, indiferente, sem mente e inteligência, sem poderes e senso de moralidade, do que na suposição de que há na origem da vida uma Inteligência poderosa e eficiente. Seria surpreendente se tal Inteligência Superior escolhesse criar a vida de tal forma.

Estas reflexões ainda germinais conduzir-nos-iam, sem dificuldades, para considerações atinentes ao problema do sofrimento sem sentido e injustificável no mundo. Por ora, cinjo-me a dizer que uma reflexão detida e séria sobre as ocorrências do mundo leva-nos a compor um corpo de evidências que, consideradas em conjunto, tornam o ateísmo extremamente mais racional e justificável do que o teísmo. Finalmente, peço que consideremos o seguinte: obviamente, não presenciamos o grandioso evento do surgimento do Universo e da vida; o que encontramos são seus efeitos, seus vestígios, suas consequências e nós mesmos somos esses efeitos. Quando consideramos esses efeitos, quando ponderamos sobre eles, sobre sua forma, funções; enfim, quando consideramos seriamente as ocorrências da realidade empírica somos levados a endossar, salvo por desonestidade intelectual, a validade de uma postura ateísta em face da existência. Daí que estou convencido de que o conjunto de evidências em favor do valor de verdade das proposições e alegações do ateísmo é maior do que o conjunto de supostas evidências em favor de uma posição teísta. A realidade do mundo faz a balança pender em favor da descrença. Mas o problema maior não consiste em reconhecer e aceitar esse fato; o problema maior persiste e reside em explicar como ainda é possível, apesar disso, continuar a viver como cegos à procura da “luz no fim do túnel”. Não bastam o mal e a tragédia de cada dia para fazer ver que não há luz alguma e que o túnel é uma miragem num infinito deserto sem alma?