sábado, 28 de fevereiro de 2015

"O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido." (Gramsci)

                                
                                      


O prazer de ler Gramsci:
O LUGAR DOS PROFESSORES DE PORTUGUÊS

Numa sociedade estratificada, como a nossa, a conquista do consentimento e da hegemonia decorre de um trabalho discursivo cuidadosamente pensado e elaborado por instituições que sustentam uma estrutura ideológica da sociedade. No Brasil, constituem exemplos dessas instituições a imprensa, a Igreja e a escola. É por meio do DISCURSO que se constrói o consentimento. Por isso, o conceito de hegemonia, desenvolvido por Gramsci, é especialmente importante para os analistas do discurso.
Pelo discurso, muitas mulheres incorporam a ideologia patriarcal e sexista contrária aos seus interesses, e muitos trabalhadores assumem a ideologia burguesa também desfavorável às suas aspirações.
Naturalmente, o consentimento tem de ser conquistado sem que pareça ser uma dominação: ele precisa aparecer como algo espontâneo. Gramsci entendia que o consentimento e a perpetuação da relação de dominação são conquistados por meio do discurso, o qual se estrutura por dispositivos que recriam e põem em circulação continuamente pressuposições ideológicas, que são tomadas como naturais e pertencentes ao senso comum.
A hegemonia - a saber, o poder de uma classe economicamente dominante sobre a sociedade como um todo, nunca é estável. É por ser um fenômeno instável que ela pode ser questionada e transformada. Sua instabilidade atrai o interesse dos analistas do discurso, cujos trabalhos se produzem com vistas a contribuir para a transformação das estruturas de poder.
Ler Gramsci é aprender que o sistema educacional não deve apenas formar trabalhadores em busca de emprego ou intelectuais pequeno-burgueses que sejam subservientes à administração do Estado. Gramsci nos leva a pensar uma escola que articule o ensino técnico-científico com o saber humanístico.
Que nossos professores e estudantes se beneficiem de uma formação que ultrapasse a formação técnica é o que devemos pretender. Os professores, uma vez experimentados nos estudos do discurso, poderão e deverão dedicar-se a desenvolver em seus alunos o senso crítico, e não mais limitar-se - como tem sido hábito - a prepará-los para o vestibular ou para o ENEM. Gramsci advogava que o ensino deve promover a superação do senso comum, que, para Dijk, é uma forma de ideologia. Somente superando o senso comum, estarão eles prevenidos contra a naturalização dos discursos. O senso crítico é indispensável para que os indivíduos façam escolhas conscientes e, assim, possam adotar concepções de mundo que não lhes sejam ideologicamente desfavoráveis.

(BAR)