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sexta-feira, 22 de março de 2013

Poemas de outrora





Pecador

Sentes como tremes de ardor?
Sentes como sofres, pecador?
Sentes tudo quanto é Dor?
Sentes medo?
Sentes pavor?
Sentes Amor.

Sentes quão daninha é cega obediência!
Sentes quão gélido é o cárcere do Adorador?
Sentes a estupidez furtar-te o prazer?
Sentes a vida em teu esperar esvaecer?
Sentes o abandono, a vã Esperança
Que se hospeda inóspita em teu seio?
Sentes reivindicar a vida teu legítimo receio?
Sentes a univocidade do humano?
Sentes sacramentado o eterno profano?
Sentes o seio rasgar quão Divinal Dor?
Sentes medo?
Sentes pavor?
Sentes Amor.

(BAR)




Virgem do mar

Esta poesia é indecente... Quem o diz é tolo
Esta poesia é uma pálida virgem crente
Que a mão à concha pura leva em gozo
A Dioniso o corpo oferta impenitente

De noite, ao morcego vesgo que a escuridão
                                                          [abraça 
Sorri facínora diabolicamente extasiada...
Á serpente viscosa que sobre o corpo se arrasta
Doa-lhe ternamente os seios que o diabo agrada

Da manhã o véu plácido o acúleo lhe envolve
Numa angélica solidão num beijo abriga a reentrância
Do Mar por onde navegam os sonhos de infância

Esta poesia é uma virgem que no mar descobre
O Amor etéreo que dos Céus torna noiva o Inferno
- É a abelha de Éfeso que Minos enlaça terno.


(BAR)




Versos noturnos

Estes versos, ao meditar ufano
- Sombras que a claridade afaga
São profundos como um anjo
Que ao uivar da noite me guarda.

Salvando-me das penhas altas
Que em teus olhos arredios trazes
Os versos tristonhos como flautas
De Pã, cinge o infinito em teus altares!

À noite, vens como imagem flutuante
Caridosa, te aconchegar-me nos versos
Sinto-te o viço em verve, penetrante

Ouço-te a voz que caminha em regressos
Ao tempo de um amor que o seio arfante
Inundou de sonhos noturnos e re-versos. 

(BAR)