domingo, 3 de março de 2013

"O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites." (Albert Camus)




                     
                           Humano, demasiado humano

Interroguemo-nos sobre quem é o homem.
Começarei trazendo à cena estes trechos do filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, colhidos de seu livro Contra um mundo melhor. (2010) Consideremos o primeiro deles:

"A maior impostura moderna não é sua utopia racionalista, mas sim sua denegação sistemática da infelicidade. 

(p. 51)

Não se trata – fique bem claro – de negar valor à felicidade, mas de reconhecer que a infelicidade é uma experiência constitutiva da condição humana. Somente os homens têm consciência da infelicidade e somente eles podem disfarçá-la ou mesmo denegá-la, conforme observa Pondé.
Prossigamos com Pondé, que nos lembra muito apropriadamente sobre a importância de se levar em conta o fato da infelicidade, quando pensamos sobre a condição humana:

"A ideia de que nossa natureza humana seja um tormento me parece a mais verdadeira de todas as descrições de nossa vida. Sei que muita gente julga essa visão ultrapassada, mas sinto um prazer todo especial em ser ultrapassado num mundo superficial como o nosso. Por que superficial? Porque parasitado por engenharias para a felicidade. SOMOS ESCRAVOS DA FELICIDADE, MAS É A INFELICIDADE QUE NOS TORNA HUMANOS. Não sou dado a acessos de culpa, mas experimento cotidianamente o tormento de minha humanidade. Sou fraco, submetido ao desejo desorientado, leio e escrevo como forma de combater o mal que me habita. Minha letra me ajuda a saber o que sou: um escravo do gosto".
(p. 65)
(ênfase minha)


O trecho em destaque encapsula a posição de Pondé. A infelicidade nos humaniza. Não se deve daí concluir que na vida humana só haja dor, sofrimento e infelicidade, mas não se pode negar que a dor, o sofrimento e a infelicidade tecem as malhas da existência humana. No tocante à condição humana, as palavras de Ernest Becker, em A Negação da Morte (2012), iluminam-nos a consciência:


“O que significa ser um animal consciente de si mesmo? A ideia é absurda, se não for monstruosa. Significa saber que se é alimento para vermes. Este é o horror: ter surgido do nada, ter um nome, consciência de si mesmo, profundos sentimentos íntimos, uma torturante ânsia pela vida e pela auto-expressão – e, apesar de tudo isso, morrer”.
(pp. 115-116)


Este trecho de Becker afina-se com este outro excerto, de Schiffter, em Filosofia Sentimental – ensaios de lucidez (2012). Também aqui o absurdo da existência é estética e singularmente expresso:


“A vida é uma infecção. Uma contaminação do Nada pelo tempo. Uma vez contraída, salvo se acabar pelo suicídio ou por um acidente, ela persiste até esgotar o corpo e a alma”.

(p. 88)

Combinemos as ideias do primeiro trecho com as do segundo e construamos o seguinte raciocínio. Somos seres autoconscientes, portanto, não só sabemos quem somos, mas também sabemos que estamos destinados ao envelhecimento e à morte. Até que a nossa morte chegue, teremos de lidar com a angústia que decorre do saber que as pessoas que amamos também morrerão. Embora conscientes da morte, que atinge a todos nós, indiscriminadamente, vivemos imersos em construções de significados. Viver para o homem é construir significados. No entanto, todos esses significados que vamos construindo ao longo da vida se extirparão com a nossa morte, ou serão abalados com a morte dos que amamos. E não há como escapar a essa ruína. Daí o amor como uma experiência de alegria que torna suportável a vida. Mas mesmo o amor, tal como a vida, é frágil. Todavia, para muitos dentre nós, vale agarrar-se a essa fragilidade do que abandonar-se à angústia do absurdo.
Se, por um lado, somos cônscios da morte; por outro lado, ignoramos completamente donde proveio o “eu-mesmo” que nos distingue como indivíduos, como subjetividades encarnadas. Na ignorância sobre a origem da existência desse ‘eu singular’ (ficcional, imagético, simbólico, como ensinam os psicanalistas), resta-nos a afirmação de que fomos lançados à existência, ou de que viemos do Nada. Resta-nos, pelo menos para os que entre nós são céticos, apenas o reconhecimento do absurdo de ser um entre outros num planeta entre outros, numa galáxia entre bilhões de outras, num universo cuja origem também ignoramos. Vivemos neste círculo achatado nos polos cujas condições naturais favoreceram a vida, muito embora não deixem de ser elas mesmas ameaçadoras à sobrevivência dos viventes.
A ideia de que contraímos a vida como contraímos uma doença ou uma infecção ilustra duas situações: a primeira diz respeito ao fato de que, como sucede com as infecções, não a contraímos voluntariamente (podemos nos expor ao risco de contraí-las, mas não as contraímos por força da nossa vontade de contraí-las); a segunda diz respeito ao fato de que, uma vez contraída, uma infecção nos causa sérios danos à saúde. Também a vida nos causa dores e sofrimentos.
Se a vida nos infeccionou ou nos contagiou, ela nos permitiu participar do Ser (existência), sem que nos tenha consultado. E nem poderia, evidentemente, porque a vontade só é possível pelo contágio da vida. Antes de a vida nos infectar, nós não éramos. Antes da vida, o não-ser. A negação do não-ser é a vida, é o ser, é a existência. Tomamos parte da existência quando fomos infectados pela vida.
Está aí representado o drama humano: somos seres conscientes de que nos tornaremos “alimento para os vermes”, como nos lembra Becker; seres conscientes de nossa finitude, de nossa transitoriedade, seres imersos no mistério e conscientes dessa situação que, uma vez colocada para o pensamento, torna-se fonte de angústia e desespero para o homem comum. Por isso, este homem comum, o filisteu de Kierkegaard, vive mantendo a verdade de sua condição recalcada; segue ele se ocupando com seus afazeres cotidianos, imerso em suas obrigações rotineiras, para não ter de enfrentar a verdade de sua condição. Sem a filosofia, que lhe oferece meios para suportá-la, este homem sentiria seu eu interior rachar até estilhaçar-se, porque absorvido no sentimento do absurdo de sua própria condição tanto como ser da espécie humana (herdeiro consciente de um destino trágico comum a todos os viventes) quanto como ser individual dotado de seus próprios significados, que o tornam desejoso de transcender o mundo.