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sexta-feira, 22 de março de 2013

Memórias 2


                                                


         Ficar e estar: uma decisão da juventude?



O carnaval é o ápice do consumo irrefreável nas relações entre os jovens. Os jovens, neste período, mantém entre si relações fugazes, arrebatadas e superficiais, sob a atmosfera da alegria e do êxtase irreprimível, que envolve a todos numa embriaguez de futilidade.
Um rapaz de vinte e um anos, quando indagado sobre o motivo de manter relação física com uma menina perante a outra com quem saiu no dia anterior, exclamou “é carnaval, ora!”. Disso se conclui que o carnaval justifica, ipso facto, o manter relações meramente casuais e físicas com tantas quantas meninas com que se conseguir enredar. Culturalmente, o carnaval é a festa dos prazeres desrreprimidos, da efusão sexual, da transgressão; portanto, parece certo dizer que o carnaval propicia as relações superficiais entre meninos e meninas.
Alhures, defendi a idéia de que, nas festas, nas boates, nos points da noite, os jovens consomem-se uns aos outros, na medida em que se relacionam de modo promíscuo, procurando satisfazer suas necessidades imediatas e/ ou fabricadas pela sociedade do consumo. Não se pode incorrer no engano de supor que, se um menino de 15 anos passa a viver sexualmente promíscuo ou a manter relações meramente físicas com várias meninas, durante as festas ou boates que freqüenta, é porque ele simplesmente “optou” ou “preferiu” viver assim; o homem é, ao mesmo tempo, produtor e produto da sociedade. Como produto sócio-cultural, os homens adotam padrões de comportamento típico de seu grupo ou meio social; sua personalidade é modelada pelo meio em que vive; eles são, deveras, condicionados a viver de tal ou qual modo; no entanto, tal condicionamento é mascarado sob a forma de estímulos de prazer que direcionam a sua vida. A sociedade, através de mecanismos como as ideologias, encarnadas nas instituições, dita o que se deve pensar, como se deve pensar, o que se deve fazer, como se deve fazer e, inclusive, o que se deve desejar ou querer, e o que não se pode querer.
Que os jovens da geração pós-modernista, escrava do utilitarismo e do consumismo, privada de consciência crítica, alienada das questões mais urgentes da humanidade, condicionada a satisfazer aos interesses dos mentores da “indústria do consumo”, mantêm entre si relações descartáveis é consabido; no entanto, caberia discutir as conseqüências desse comportamento.
A principal delas me parece ser a formação de uma geração emocionalmente esvaziada que não sabe lidar com os sentimentos mais íntimos. Educam-se meninos e meninas que, a certa altura da vida, quando se sentirem solitários, poderão ter dificuldade em relacionar-se afetivamente com o outro. Educam-se meninos e meninas que temem se apaixonar, se envolver emocionalmente e verdadeiramente com o parceiro; educam-se jovens que não sabem falar sobre seus sentimentos, que têm dificuldade de lidar com seus conflitos; que não sabem como experimentar o amor, como amar e ser amados; que não são capazes de introspecção ou auto-conhecimento; jovens que não sabem gerenciar seus sentimentos. Assim é que passarão a vida denegando o amor, alçando-o à condição de sentimento metafísico ou inumano – embora saibam descrever e usufruir (quase) todas as funções do seu celular.
Conheço pessoas que terminaram seus namoros que duravam, então, três anos, com a justificativa de que precisavam ficar sozinhas. Por que uma pessoa leva a termo uma relação estável de três anos, alegando que precisa ficar “sozinha”? Parece-me que a resposta não pode ser outra senão a dificuldade de lidar com os sentimentos próprios e com os sentimentos que se compartilham no relacionamento com o outro. Alguém que toma a resolução de terminar seu namoro porque prefere ficar sozinho ou, como ouvi a alguém certa vez, porque precisa saber se, realmente, nutre apreço, amor pelo parceiro, não é senão uma pessoa que não sabe lidar com seus próprios sentimentos e que não foi educada para manter cumplicidade com o outro, compartilhando com ele suas emoções, sensações, interesses, ideais e sentimentos. Em face dessa dificuldade, melhor parece ser a vida sem enlaces afetivos, sem compromissos emocionais, supondo-se possível passar ao largo dos embaraços afetivos, dos enredamentos emocionais e dos envolvimentos sentimentais, como se os problemas decorrentes das relações com o outro fossem dissipados e enterrados na cova do orgulho, da soberba, da vaidade e do individualismo.
Os embaraços de bocas, os duelos de ancas, brindados com alguns copos de cerveja, são sinais de que a satisfação e o prazer não parecem residir na inter-relação de complexos orgânicos e emocionais; ao contrário, habitam a materialidade de meros produtos de uma sociedade que aplaude a superficialidade, o utilitarismo e o consumismo. “Quem namora comportado, está fora do mercado”, disse, certa vez, um Mc. E quem negará que se trata de um mercado? De um mercado das emoções, cujas mercadorias são as próprias pessoas que preferem provar das delícias do banquete, ainda que outros tantos já o tenham feito. E as emoções se diluem a cada nova bocada...
Um leitor incauto poderia concluir do que foi exposto que meu discurso traz em seu bojo uma preocupação moralista de um blasonador; no entanto, não me interessa aqui advogar os bons costumes: não me oponho àqueles que vivem relações superficiais e descartáveis. Viso, na verdade, a avaliar os efeitos desse tipo de comportamento social na formação psíquico-educacional dos jovens. Um deles, como procurei mostrar, é a formação de indivíduos que não sabem lidar com os próprios sentimentos, com aquilo que é perene.
Doravante, vou meditar sobre alguns fatores que contribuem para que meninos e meninas se relacionem fisicamente sem que haja um envolvimento emocional. Como já adverti, não se pode supor ingenuamente que um indivíduo seja senhor de sua vontade, de seus desejos, de seus comportamentos, como nos ensina certas ideologias. Vou me cingir, agora, ao plano sociológico, para levar a efeito uma reflexão mais cuidadosa da questão.
Do ponto de vista sociológico, convém situar as relações físicas entre meninos e meninas, que são recobertas pela designação ficar ( cf. Marcos ficou com Elisa na festa), no âmbito da sociedade utilitarista.
No mundo utilitarista, as coisas valem pela sua utilidade; a utilidade é que traz felicidade; apenas o que é útil acarreta prazer. As pessoas, assim, valem pela sua utilidade, e não pelo que são realmente. Como qualquer outro objeto que não nos é mais útil em algum momento e que, por isso, é descartado, as pessoas-objeto são consumidas e descartadas quando não mais satisfazem as nossas necessidades. No mundo utilitarista, as coisas não são perenes; são descartáveis; não há permanência, senão fugacidade, transitoriedade. E por que as pessoas, em geral, não se dão conta disso?
Uma das respostas prováveis parece repousar na idéia de que a sociedade promove o individualismo. Assim, as pessoas creem bastar-se a si mesmas: são mais felizes sem um parceiro; bastam que tenham condições econômicas de subsistirem, que gozem de um status social ou profissional, para que sejam mais felizes. Por outro lado, essa sociedade utilitarista que prega o individualismo tem falhado na formação de pessoas preparadas para lidar com os dissabores da vida, com os seus conflitos pessoais, com as dificuldades do dia-a-dia. Ora, basta que acordem no dia seguinte, dispostas a “curtir” uma night para que a vida se torne mais agradável e leve.
Lembro que o problema não repousa na idéia de ir a uma boate ou a uma festa como meio de fuga às decepções ou frustrações da vida real; o problema reside no fato de se acreditar em que a vida é uma grande festa, em que todos os nossos problemas e conflitos se pulverizarão numa noite de bebedeira, de flertes e dança. Problema há quando nos relacionamos com o outro, consumindo-o, como qualquer outro objeto que, tendo sido consumido, será descartado. Problema há quando o modo como nos relacionamos com o outro numa festa ou numa boate, repercute no convívio com nossos pais, irmãos, tios, avós. Refiro-me à dificuldade de manifestarmos carinho e amor por nossos familiares, por nossos amigos mais íntimos, por aqueles que nos constituem enquanto “ser”; pois não há “eu” sem o “outro”.
 Outro aspecto importante que deve ser considerado para efeito de discussão é o conceito de liberdade que se dissemina socialmente. Todo homem, que vive em sociedades complexas e democráticas, como a nossa, aspira à “liberdade” (ainda que não saiba como a definir); vê-se enredado em inúmeros encargos, asfixiado por um sem-número de afazeres, sucumbindo às pressões várias. O homem social almeja ser livre: quer ser livre das coações sociais; quer buscar novas formas de prazer, que, não raro, são infensas ao interesse comum de um segmento social. Todo homem é, ao mesmo tempo, produtor e produto da sociedade. Uns, num átimo, ao se aperceber disso, pensam ser possível abstrair-se da estrutura social a que se vinculam. Muitos homens professam seus ideais de liberdade, de acordo com os interesses de segmentos dominantes, sem, contudo, muita vez, aperceber-se disso.
Alguns pais ensinam a seus filhos que devem aproveitar sua juventude não “se prendendo a um parceiro”. Devem, segundo esses pais, ser livres; não devem assumir compromissos em idade supostamente tenra. Entretanto, o conceito de liberdade que se ensina aos jovens é extremamente vicioso e está contaminado: o que é ser livre numa sociedade capitalista como a nossa? Liberdade é sinônimo de auto-suficiência e egoísmo? Relacionar-se afetivamente, com cumplicidade, com outra pessoa é estar imerso numa condição de aprisionamento? Liberdade é transgredir as normas estabelecidas socialmente? Atentar contra a ordem social, promovendo arrastões? Lançar injúrias contra o superior no trabalho, demonstrando-lhe exacerbação? Ou é não ter de avisar a outrem aonde vamos, com que vamos e a que horas voltamos?
Não se trata de incentivar os jovens a namorar, a manter relações duradouras em tenra idade; trata-se de não ensinar a eles que a “liberdade” é auferida mediante a vivência de relações superficiais e fugazes. Não se pode educar os jovens para que não vivenciem relacionamentos duradouros porque, dessa forma, se tornarão uma espécie de prisioneiros nesses relacionamentos. Dar-se conta do equívoco e do malefício que essa lição pode acarretar aos rebentos é urgente, ou os pais supõem, ingenuamente, que, a despeito dessa lição, os filhos acordarão algum dia dispostos a se casarem, acreditando na perpetuação da família, etc.? Claro é que a formação das famílias mudou; e, atualmente, muitas pessoas não se casam, preferindo viver juntas sob um mesmo teto. Não me deterei nessa questão. O que procuro mostrar é o equívoco que perpetram, quando alguns pais ensinam aos filhos que devem manter relações superficiais e fugazes, que não se devem envolver emocionalmente, que devem viver uma vida afetiva e sexual promíscua.
Foucalt (1977) observa que, diferentemente do que sucedia no início do capitalismo, quando o sexo destinava-se à proliferação da mão-de-obra para o trabalho, de modo que o prazer sexual deveria ser reprimido em favor da necessidade de o trabalhador investir sua energia vital na jornada árdua de trabalho, o sexo, já à época em que escrevia, nunca dantes fora tão estimulado. As práticas sexuais eram estimuladas como forma de aumentar o controle do Estado sobre os indivíduos. O Estado incentivou a teorização do sexo, interessando-se menos pelo sexo intramatrimonial e mais pela sexualidade das crianças, dos loucos, dos obsessivos, etc. Foucalt concluiu que a teorização da sexualidade contribui para incitar as práticas sexuais, de sorte que quanto mais o sexo é uma propriedade do comportamento humano, tanto mais ele é controlado pelas instituições.
A famigerada liberdade sexual decorre dos modos de existência e da reprodução das relações de trabalho numa sociedade capitalista assentada no princípio do (neo)liberalismo. Segundo essa doutrina, o Estado só pode intervir o mínimo possível nas relações econômicas existentes entre indivíduos e nações; pressuposta aqui está a absoluta liberdade de mercado. A liberdade sexual é, portanto, uma resposta sócio-cultural à repressão sexual imposta pela moral vitoriana; todavia, se concordamos em que sobre a sexualidade humana recai, historicamente, muita repressão e em que é válido mobilizar esforços ideológicos e institucionais para derribar tabus e mitos que impingem os seres humanos a acreditar que o ato sexual é pecaminoso, desonroso, etc., não menos válido é o esforço por repensar o conceito de liberdade sexual, redesenhando-lhe as arestas, já que me parece que desbordou de sua esfera de significação original. Liberdade sexual confunde-se, atualmente, com promiscuidade sexual, reificação de pessoas pelo poder masculino no sexo.
Também não suponha o leitor ingênuo que me posiciono em favor da castidade, posto que me apetece a idéia de uma reeducação sexual dos jovens. Tal reeducação não pressupõe apenas a viabilização de métodos contraceptivos ou a discussão sobre a fisiologia sexual humana; na verdade, a reeducação a que me refiro passa pela reflexão sobre o comportamento sexual na esfera social, sobre suas causas e conseqüências.
Apinhar cem jovens numa sala para expor-lhes as causas e os efeitos da libido, as formas de prevenção de doenças venéreas e da gravidez, e, ao cabo da palestra, distribuir-lhes preservativos, é tão-só educá-los para a conservação de uma sociedade utilitarista e individualista. Importa, nesse tocante, levá-los também à reflexão sobre o modo como experenciam a sua sexualidade, como se relacionam afetivamente uns com os outros e sobre as conseqüências de seus comportamentos na sua formação humana. Importa incutir-lhes idéias que os incentivem a auto-conhecer-se e a conhecer o outro; idéias que o façam repensar sua conduta e a adotar novas formas de proceder. Há uma questão de ética a ser discutida, nesse tocante.
Se hoje um menino ou uma menina de quatorze anos ganha um celular sofisticado de sua mãe, que lhe custou muito dinheiro, e, amanhã, esse celular é substituído por outro ainda mais sofisticado, de modo que o primeiro se torna obsoleto, e, assim, sucessivamente, esse indivíduo aprenderá que tudo tem seu prazo de validade e que tudo se torna obsoleto algum dia (ou no dia seguinte) e que, para a conservação do prazer estético e social que o objeto lhe acarreta, basta que detenha poder aquisitivo, para que um novo objeto venha a substituir o que se lhe tornou obsoleto. As relações entre meninos e meninas, assim, têm também seu prazo de validade; reitero que, no mundo utilitarista, nada é perene; nada se retém ou se conserva.
Volvo ao conceito de (neo)liberalismo, com vistas a enfatizar que a relação entre a doutrina econômica e as relações descartáveis entre os jovens não se dá diretamente, a saber, não é porque o Estado deixa de intervir nas relações econômicas que os jovens viverão segundo o modelo liberal vigente. A relação é complexa. Sucede – e assim me parece -, que ao modelo econômico subjazem ideologias, que, a seu turno, povoam a esfera da superestrutura. É nas práticas sociais que as ideologias então produzidas e delas constitutivas procuram justificar os modos de existência social. Elas é que atuam na esfera cultural, ditando padrões de comportamento, mascarando a realidade profunda das relações sociais. Se é possível a um país ou grupo negociar com outro país ou grupo sem a interferência de uma entidade, historicamente, autoritária, também é possível ouvir a um jovem que pode relacionar-se fisicamente com quem quer que deseje, sem que os pais ou pessoas mais velhas o repreendam. A figura paterna, nesse tocante, é a representação do Estado, a quem compete reproduzir os interesses do Estado. Ocorre, porém, que não se trata de relações comerciais entre nações; trata-se de relações inter-pessoais, de relações entre jovens (meninos e meninas), as quais devem ser orientadas pelos pais. A intervenção, ou melhor, orientação deles é, pois, imprescindível. Educar é, pois, um modo de intervir no mundo: os pais devem, sim, orientar a relação dos seus filhos com o mundo e com o outro. A educação familiar é um contraponto aos valores socialmente construídos e veiculados pelos veículos de comunicação de massa e de propaganda/marketing.
Insto em que a relação entre o estrato econômico e a esfera sócio-cultural não se dá diretamente. São as conseqüências da implantação de um tal ou qual modelo econômico, tais como aceleramento da produção, maior poder aquisitivo, e, conseqüentemente, aumento do consumo, etc., além das representações ideológicas das relações sociais quer nas esferas de produção, quer nas de circulação e consumo de mercadorias, que afetarão os modos de relações sociais e que determinarão os valores socialmente disseminados.
Se educamos os jovens para se tornarem meros consumidores, se, tacitamente ou não, ensinamos a eles que o ter é sinônimo de tudo poder, estamos, pois, formando uma geração que não é capaz de transcender ao nível das aparências, dos simulacros. Consomem-se bocas, bundas e seios, rejeitando-se a possibilidade de conhecimento mútuo e intenso.
Parece-me que a formação plena e adequada de um indivíduo depende do contraste entre os valores transmitidos no convívio familiar e dos valores que se disseminam por força da relação com outros grupos ou por força da massificação da mídia e de outras instituições ideológicas. Abandonar a educação dos filhos à própria sociedade é privar-lhes da construção plena de sua identidade, de sua personalidade. Ora, isso é tão verdadeiro que não raro ouvimos dizer os pais a seus filhos que não adotem tal ou qual comportamento ou atitude, que não pense de tal ou qual modo, pois não corresponde à formação educacional que herdaram. Se boa parte da personalidade, das atitudes, da identidade de um adolescente se constrói na vivência em grupo e se os conflitos com os pais advêm justamente do confronto dos valores do grupo com os valores transmitidos pelos pais, outra grande parcela de sua personalidade, de suas visões de mundo, de suas atitudes é devida à atuação dos pais: a estes compete a construção da base dos valores, crenças, opiniões, atitudes, comportamentos que os rebentos adotarão ao longo da vida. A escola, evidentemente, toma parte desse processo; mas não se pode abandonar a ela o papel exclusivo de educar, de formar.
Disso se conclui que os pais não deveriam acolher com tanta permissividade o fato de os jovens relacionarem-se uns com os outros por um impulso meramente físico (já que esse impulso resulta de condicionamento sócio-cultural). É preciso que intervenham nos comportamentos de seus filhos. É necessário que representem um modelo de resistência aos valores e ao condicionamento sócio-cultural e ideológico a que são submetidos, especialmente, os seus filhos.
Pense-se, agora, a questão dos relacionamentos descartáveis entre os jovens sob a perspectiva da ditadura da beleza. Como a supervalorização da beleza, o culto, às vezes, patológico do corpo, a fabricação cirúrgica de mulheres-objeto, que se exibem em meio ao assédio das lentes; de mulheres que são, na sociedade do espetáculo, a encarnação de ideais de sublime beleza, influenciam nas relações descartáveis entre os jovens? Pensemos na jovem de classe média alta que pretende fazer uma cirurgia para avolumar os seios, porque os julga pequenos demais para os padrões de beleza vigentes. Essa jovem deseja fazê-lo não só porque se deu conta de que seus seios são menos fartos; o faz, também e principalmente porque seios com enxerto de silicone são, em geral, prestigiados no mundo ocidental; quem os possui goza de admiração e prestígio na sociedade ou no grupo social a que pertence. As mulheres-objeto que vivem à custa de publicidade, de flashs, de cachês de revistas masculinas, mulheres que desejam ver estampada sua foto na revista Contigo ou Fatos e Fotos, após desfilar numa escola de samba, são ícones mórbidos da ditadura da beleza e exemplos de beleza que quase todas as mulheres almejam. E pergunto o que pretende a jovem ao fazer o enxerto de silicone nos seios. Ser, ao menos em parte, parecidas a essas mulheres fabricadas pela ditadura da beleza. Quer mais ainda: deseja ser também objeto de desejo, de libido dos homens; ser símbolos da vaidade fútil, pois isso lhe traz prestígio e prazer (“prazer” que não emana de si mesma, por obra do natural; mas um prazer condicionado pelo meio sócio-cultural).
A influência, evidentemente, não é de tal ordem, que atinja a todas as mulheres, nem tampouco a todas as jovens mulheres; entretanto, como sejamos todos membros dessa sociedade, somos, em menor ou maior grau, influenciados pelos padrões socialmente instituídos de beleza. Os rapazes freqüentam academias, fazem uso de anabolizantes com vistas a alcançar o corpo perfeito, porque assim poderão gozar de prestígio em seu grupo e poderão despertar o interesse de mulheres. No cerne da ditadura da beleza, repousa a necessidade de despertar a cobiça; fabricam-se, assim, objetos de cobiça.
Cabe aqui uma advertência. Não me oponho às práticas de musculação, às atividades de ginástica, ao cuidado com a aparência, desde que, evidentemente, não sejam práticas doentias, que levem à obsessão pela beleza, pela juventude eterna. Ora, é comuníssimo ver mulheres que se submetem a sessões penosas e dolorosas de injeções apenas para rejuvenescer o rosto, para fazer desaparecer algumas rugas. Vive-se em tempos em que a busca pela eterna juventude é, muita vez, um sinal de patologia, especialmente entre as mulheres. Todavia, o tempo é inexorável; e a potencialidade existencial de um ser humano não repousa na conservação de uma aparência jovial, na busca por uma beleza televisiva ou hollywoodiana, que se constrói com os lábios de Angelina Joily e o nariz de Nicole Kidman.
De tudo que foi exposto, conclui-se que há uma crise de valores em nossa sociedade. Nossos filhos precisam de pais que lhes mostrem o mundo de simulacros em que todos estamos, de algum modo, atrelados. Alguns estão verdadeiramente imersos; outros conseguem assomar à superfície. Eduquemos nossos filhos para que possam imergir, nas relações da juventude, na alma daqueles com quem compartilham seus anseios por liberdade, sem perder de vista que a liberdade não se acha escondida em um espaço físico, senão aflora em nossa psique; portanto, depende de nosso estado de alma, de nossa capacidade de nos situar no mundo, criticando os modelos, os estereótipos, as idéias, as práticas que aí se (re)produzem , não se perdendo num imediatismo nefasto e infértil com o meio que nos cerca e nos condiciona a meros reprodutores de modelos, de coisas com coisa alguma.




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 1. O conceito de ficar recobre a idéia de “relação meramente física e casual entre heterossexuais”, que se distingue do “namoro” por, pelo menos, duas características: 1) supervalorização de atração física, em detrimento de envolvimento emocional-afetivo; 2) ausência de cumplicidade, que se justifica pela casualidade e superficialidade características desse tipo de relação. O namoro, assim, é definido como uma relação intermediária entre o “ficar” e o “noivado”, que se caracteriza por um maior envolvimento afetivo dos parceiros e, sobretudo, pela cumplicidade que mantêm um com o outro. A duração também é um aspecto pertinente da definição desses dois tipos de relação: normalmente, a “ficada” é fugaz: pode durar uma noite ou algumas semanas; o namoro se estende por meses ou anos.

O que se deve ter em conta na distinção entre “ficar” e “namorar” é, basicamente, o seguinte: quando um jovem diz que “ficou com alguém”, diz-se, tacitamente, que não está interessado em manter com esse alguém cumplicidade; assim, evitam-se alguns aborrecimentos típicos dessa fase da vida, no que toca às relações sociais, especialmente quando envolvem meninos e meninas. A necessidade de não dar satisfação sobre o que vai fazer, aonde vai e com que vai faz que alguns meninos e meninas rejeitem a idéia de estabelecer uma relação afetiva e duradoura com uma pessoa do sexo oposto. Para tanto, o “ficar” é a melhor alternativa.